domingo, 5 de abril de 2026

Te vejo nas brechas da noite vazia

 Nas inquietas noites, onde o silêncio pesa, 
Caminho por dentro de mim como quem se perde, 
E cada lembrança tua é uma chama acesa, 
Ardendo mansa naquilo que já não me serve, 
Mas que ainda insiste em me chamar pelo nome. 
 
A culpa me veste como um frio sem fim, 
Escorre nos ossos, sussurra nos cantos, 
Dizendo que fui eu quem deixou tudo assim, 
Que o amor não se perde, se perde é o encanto, 
E eu fui descuido no instante em que você partiu. 
 
Há um relógio quebrado dentro do peito, 
Marcando a hora exata do adeus não dito, 
Um tempo suspenso, imóvel, imperfeito, 
Onde teu olhar ainda me encontra aflito, 
Como se o fim nunca tivesse sido completo. 
 
Te vejo nas brechas da noite vazia, 
No vento que passa e parece te trazer, 
Na sombra que dança na parede fria, 
No sonho que insiste em não me esquecer, 
Mesmo sabendo que o dia te apaga de mim. 
 
E sigo, entre a culpa e o que ainda resiste, 
Aprendendo que amar também é perder, 
Que há dores que o tempo não cura, apenas persiste, 
Como marcas que escolhem permanecer, 
Lembrando que um dia eu tive você… e deixei ir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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