segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Folhas esquecidas numa rua vazia

 Carrego de você uma tarde sem relógio, 
Onde a luz já não sabe se termina, 
E o silêncio, sentado junto à janela, 
Recolhe os nomes que o tempo abandonou, 
Como folhas esquecidas numa rua vazia. 
 
Você permanece no intervalo das coisas, 
Entre o café frio e a página não lida, 
No rumor distante de uma cidade cansada, 
Onde cada passo parece procurar 
Aquilo que já não espera ser encontrado. 
 
Há uma estação dentro de mim 
Em que as árvores continuam sem folhas, 
E ainda assim alguma coisa floresce, 
Não sei se é esperança ou apenas memória, 
Mas tem o seu rosto quando anoitece. 
 
O tempo passa, dizem, e leva tudo. 
Mas há relógios que apenas repetem 
A mesma hora perdida no passado; 
E há corações que caminham para diante 
Carregando ruínas de uma antiga primavera. 
 
Penso que amar seja permanecer 
Depois que a presença se tornou ausência, 
Guardar no peito uma luz quase extinta 
E compreender, tarde demais, 
Que algumas despedidas nunca terminam. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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