quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Mil distrações por minuto

Caminho entre vozes que me chamam por nomes distintos, 
Cada uma prometendo um sentido para a jornada. 
A dispersão espalha placas em todas as estradas, 
E eu, diante delas, descubro a vertigem da escolha: 
Ser livre é também correr o risco de se perder. 
 
O mundo oferece mil distrações por minuto, 
Como se o vazio pudesse ser preenchido pelo movimento. 
Mas quanto mais persigo os brilhos passageiros, 
Mais percebo que a fuga não responde às perguntas 
Que me esperam em silêncio dentro de mim. 
 
A sabedoria não surge como uma revelação celeste; 
Ela nasce da decisão de permanecer. 
É um ato de resistência contra a correnteza do ruído, 
Uma recusa em trocar profundidade por novidade, 
Presença por dispersão, ser por parecer. 
 
Há um deserto escondido sob o excesso de estímulos. 
Nele, as certezas evaporam ao sol da consciência. 
Restam apenas o tempo, a finitude e a escolha. 
E é ali, onde nada nos distrai de nós mesmos, 
Que começamos a construir significado. 
 
Quem sabe a sabedoria seja isto: aceitar o abismo 
Sem a necessidade de cobri-lo com distrações. 
Olhar para a própria existência e não desviar os olhos. 
Compreender que o sentido não é encontrado pronto, 
Mas criado na atenção que dedicamos à vida. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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