sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O professor recolhe fragmentos

Entre o ranger das janelas e o pó dos livros esquecidos, 
Ouvimos o vento. Não o vento dos campos, 
Mas aquele que atravessa corredores vazios ao entardecer, 
Onde ecos de vozes antigas permanecem suspensos 
Como retratos amarelados em paredes que ninguém observa. 
 
O professor recolhe fragmentos. 
Fragmentos de filósofos, de crianças, de ruínas. 
"Conhece-te a ti mesmo", murmuram as sombras; 
E a resposta dissolve-se no ruído das folhas secas 
Que giram sobre o pátio de uma estação sem nome. 
 
Que sabemos nós, afinal? 
O relógio continua seu trabalho indiferente, 
As páginas acumulam anotações e esquecimentos, 
E o pensamento sopra através das frestas do hábito, 
Desalojando os móveis da certeza. 
 
Na sala quase vazia, após o término da aula, 
Restam apenas a luz oblíqua e algumas perguntas. 
Talvez toda educação seja isso: 
Uma conversa interrompida pelo tempo, 
Um gesto lançado contra o silêncio. 
 
E o vento continua. 
Passa pelos séculos, pelas bibliotecas, pelos rostos. 
Passa por Atenas, por Jerusalém, por cidades sem memória. 
Passa por nós. 
E entre a pergunta e a resposta, continuamos escutando. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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