Não aconteceu com trombetas,
Nem com estrelas caindo do céu,
Nem com alguma porcaria de destino
Que os poetas gostam de vender
Para quem ainda acredita em milagres.
Foi numa hora comum.
Uma dessas horas esquecíveis
Em que o café esfria na mesa,
Os vizinhos discutem atrás da parede
E o mundo continua sendo o mesmo velho mundo.
Mas seus braços tinham algo.
Não beleza.
Não perfeição.
Algo mais raro:
A ausência de julgamento.
Então fui me abrindo devagar,
Como um bilhete de amor amassado
Que atravessou anos dentro de um bolso,
Carregando suor, fracassos
E algumas mentiras necessárias.
Você leu tudo.
As palavras tortas.
As manchas.
Os trechos que eu mesmo queria arrancar.
E não tentou corrigir nada.
Acho que foi aí que percebi:
O amor não é encontrar alguém extraordinário.
É encontrar alguém que conhece a bagunça
E, ainda assim,
Fica para ouvir o resto da história.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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