sexta-feira, 10 de julho de 2026

A linguagem é um vírus

Existem palavras que não querem comunicar: querem possuir. 
Entram pelos ouvidos como fumaça invisível 
E se alojam nos corredores úmidos da consciência. 
A linguagem, às vezes, não nasce para aproximar homens, 
Mas para contaminá-los lentamente com versões da realidade. 

Existem atalhos perigosos entre a boca e o abismo. 
Frases prontas economizam pensamento 
Como remédios vencidos aliviam a dor por alguns minutos. 
E assim seguimos repetindo slogans, dogmas e promessas 
Como doentes beijando a febre que os consome. 

Toda palavra carrega uma febre secreta. 
Algumas abrem janelas; 
Outras fecham o céu sobre nossas cabeças. 
Há discursos que se espalham como epidemias silenciosas, 
Infectando ruas, altares, telas e parlamentos. 

Talvez a linguagem seja o vírus mais antigo da humanidade: 
Muda, adapta-se, atravessa gerações 
E aprende a sobreviver dentro do medo coletivo. 
Nenhum corpo escapa totalmente dela, 
Porque até o silêncio já nasce contaminado. 

Mas ainda existem palavras raras 
Que recusam o contágio da mentira. 
Elas caminham devagar, sem propaganda, sem aplauso, 
Como quem carrega uma vela acesa em meio à tempestade 
E insiste em lembrar que pensar ainda pode ser cura. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário