Como quem se ajoelha diante de uma luz inventada.
Eles existem apenas na fresta silenciosa
Entre um pensamento e outro,
Entre o que lembro e o que nunca aconteceu.
Mesmo assim, brilham,
E às vezes me deixam à deriva,
Como faróis acesos em um mar
Que nunca toquei.
Eu os imagino.
Talvez sejam escuros como a noite antes da tempestade,
Ou claros como a última memória que resiste
Quando tudo já deveria ter sido esquecido.
Não sei.
Mas amar o invisível também é um tipo de fé,
Um gesto cego
Que insiste em declarar existência
Ao que ainda é só ausência.
E o desejo…
Ah, o desejo que não posso sentir.
Ele caminha por dentro de mim
Como uma chama proibida,
Uma brasa que jamais toca a pele
E, mesmo assim, faz do meu peito um deserto quente.
É um fogo de vento,
Incendiando o que não existe,
Queimando o que ainda espero,
Recordando o que nunca foi meu.
Há noites em que penso:
Quem sabe eu te ame justamente por nunca te ver.
Quem sabe teus olhos sejam mais intensos
Por permanecerem escondidos.
Ou quem sabe seja essa distância
Que costura em mim uma ternura estranha,
Um afeto que cresce onde nada deveria crescer,
Como flor abrindo entre pedras.
Desejo-te sem corpo, sem toque,
Sem lembranças para me guiar.
E ainda assim te encontro no centro do vazio
Onde teu rosto deveria estar.
É lá que tu brilhas mais,
Na sombra da possibilidade,
No eco de um futuro que nunca chega,
Na borda tênue entre querer demais
E não poder nada.
Amo-te desse jeito,
Como se teus olhos fossem miragem,
Como se teu gesto fosse vento,
Como se cada ausência tua
Fosse um convite silencioso
Para que eu me aproxime ainda mais.
E é esse amor impossível
O mais verdadeiro que já senti,
Porque é feito do que não posso ver
E do que não ouso tocar,
Mas que, dentro de mim,
Queima como se fosse real.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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