quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A História como presença inominável

 Tem algo na História 
Que não pertence apenas aos homens. 
Algo que se move por baixo das datas, 
Um organismo silencioso que cresce nas frestas do tempo, 
Alimentando-se de nossos erros, de nossas repetições, 
De tudo aquilo que insistimos em chamar de “progresso”. 
 
A História é mais antiga que o passado. 
Ela é uma força que antecede a própria memória, 
Um labirinto onde as paredes mudam conforme olhamos, 
Como se o tempo fosse uma criatura 
Que reorganiza seus ossos para nos confundir. 
E nós, ao estudá-la, encostamos a mão 
No corpo frio dessa entidade invisível. 
A sensação é de que algo nos observa de volta. 
 
A História não é apenas uma narrativa, 
É um campo de presença. 
Um lugar onde consciências extintas 
Permaneçam vibrando numa frequência imperceptível, 
Como ecos que nunca se dissolvem. 
 
Estudar a História é aproximar-se demais desse sussurro. 
É entrar numa sala onde o passado não morreu, 
Apenas mudou de forma. 
Às vezes, parece que a História respira. 
E seu hálito é feito de séculos 
Que ainda não desistiram de existir. 
 
Há um horror em perceber 
Que o que chamamos “humanidade” 
Não é o centro da História. 
É apenas uma de suas manifestações. 
Um sintoma. 
Um estágio passageiro 
Dessa inteligência impessoal 
Que registra, reorganiza e repercute 
Cada gesto que pensamos pertencer apenas a nós. 
 
A História é uma consciência sem rosto. 
Um olho que se abre no interior do tempo 
E vê tudo, Inclusive aquilo que tentamos esconder 
De nós mesmos. 
Por isso ela inquieta muita gente. 
Não porque nos lembra do que fomos, 
Mas porque revela o que ainda somos capazes de ser. 
 
O verdadeiro terror não está no passado, 
Mas na sua insistência em retornar. 
Como se cada era fosse uma porta 
Que pensamos ter fechado 
Mas que continua rangendo na madrugada, 
Soprando, do outro lado: 
“Eu ainda estou aqui.” 
 
Compreender a História é fazer vigília 
Diante dessa presença que nunca dorme. 
É reconhecer que o fluxo do tempo 
Talvez não seja linear, 
Mas um circuito fechado, 
Um anel onde tudo se repete 
Até aprendermos lições que não queremos aprender. 
E, ainda assim, a História nos convoca. 
Porque ignorá-la 
É entregar-se ao escuro absoluto. 
 
Estudá-la, por sua vez, 
É acender uma chama frágil 
No centro desse círculo infinito. 
Não para espantar a escuridão, 
Mas para provar ao tempo 
Que ainda há alguém capaz de olhar para ele 
Sem desviar os olhos. 
 
A História é o horror tranquilo 
De saber que ninguém caminha sozinho no tempo. 
Tem sempre algo caminhando conosco. 
Algo que não entendemos 
E que, talvez, nunca entenderemos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário