Que não pertence apenas aos homens.
Algo que se move por baixo das datas,
Um organismo silencioso que cresce nas frestas do tempo,
Alimentando-se de nossos erros, de nossas repetições,
De tudo aquilo que insistimos em chamar de “progresso”.
A História é mais antiga que o passado.
Ela é uma força que antecede a própria memória,
Um labirinto onde as paredes mudam conforme olhamos,
Como se o tempo fosse uma criatura
Que reorganiza seus ossos para nos confundir.
E nós, ao estudá-la, encostamos a mão
No corpo frio dessa entidade invisível.
A sensação é de que algo nos observa de volta.
A História não é apenas uma narrativa,
É um campo de presença.
Um lugar onde consciências extintas
Permaneçam vibrando numa frequência imperceptível,
Como ecos que nunca se dissolvem.
Estudar a História é aproximar-se demais desse sussurro.
É entrar numa sala onde o passado não morreu,
Apenas mudou de forma.
Às vezes, parece que a História respira.
E seu hálito é feito de séculos
Que ainda não desistiram de existir.
Há um horror em perceber
Que o que chamamos “humanidade”
Não é o centro da História.
É apenas uma de suas manifestações.
Um sintoma.
Um estágio passageiro
Dessa inteligência impessoal
Que registra, reorganiza e repercute
Cada gesto que pensamos pertencer apenas a nós.
A História é uma consciência sem rosto.
Um olho que se abre no interior do tempo
E vê tudo,
Inclusive aquilo que tentamos esconder
De nós mesmos.
Por isso ela inquieta muita gente.
Não porque nos lembra do que fomos,
Mas porque revela o que ainda somos capazes de ser.
O verdadeiro terror não está no passado,
Mas na sua insistência em retornar.
Como se cada era fosse uma porta
Que pensamos ter fechado
Mas que continua rangendo na madrugada,
Soprando, do outro lado:
“Eu ainda estou aqui.”
Compreender a História é fazer vigília
Diante dessa presença que nunca dorme.
É reconhecer que o fluxo do tempo
Talvez não seja linear,
Mas um circuito fechado,
Um anel onde tudo se repete
Até aprendermos lições que não queremos aprender.
E, ainda assim, a História nos convoca.
Porque ignorá-la
É entregar-se ao escuro absoluto.
Estudá-la, por sua vez,
É acender uma chama frágil
No centro desse círculo infinito.
Não para espantar a escuridão,
Mas para provar ao tempo
Que ainda há alguém capaz de olhar para ele
Sem desviar os olhos.
A História é o horror tranquilo
De saber que ninguém caminha sozinho no tempo.
Tem sempre algo caminhando conosco.
Algo que não entendemos
E que, talvez, nunca entenderemos.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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