terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Apologia ao conhecimento VII

Eu escrevo porque pensar sozinho 
Às vezes dói demais. 
O conhecimento não me elevou, 
Ele me deixou sem desculpas. 
 
Houve um tempo em que eu acreditava 
Sem perceber que acreditava. 
Hoje, cada ideia exige vigília, 
Cada passo carrega o peso 
De saber que poderia ser outro. 
 
Descobri tarde 
Que compreender não traz paz. 
Traz responsabilidade. 
E nem sempre tenho forças 
Para sustentá-la. 
 
Há noites em que sinto falta 
Da versão de mim 
Que dormia sem perguntar. 
Mas sei que não posso voltar 
Sem me quebrar inteiro. 
 
O saber me isolou 
Não por arrogância, 
Mas porque passei a ouvir 
O que antes eu abafava com ruído. 
 
Às vezes penso 
Que viver seria mais simples 
Se eu não visse tão fundo. 
Mas também sei 
Que fechar os olhos agora 
Seria uma forma de mentira. 
 
O conhecimento não me tornou forte. 
Tornou-me honesto demais 
Com meus próprios limites. 
 
Carrego pensamentos 
Que não cabem em conversa, 
Nem em fé, 
Nem em negação. 
Cabem apenas em mim. 
 
Sei que nada garante 
Que continuar valha a pena. 
Mesmo assim continuo. 
Não por esperança, 
Mas por fidelidade 
Ao que vi e aprendi. 
 
Escrevo isso 
Não para ser compreendido, 
Mas para não me abandonar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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