quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A vida é um sonho lírico

 O ser infinito, 
Causa primeira do universo, 
Não empurra o mundo: 
Ele o sonha na imaginação. 
 
E no sonho, 
As estrelas são sílabas antigas 
Escapando da boca do silêncio. 
 
Antes do tempo aprender a andar, 
Já havia um sopro, não de vento, 
Mas de intenção. 
Ali nasceu tudo 
Sem precisar nascer. 
 
A vida, então, 
É um sonho lírico 
Que se esqueceu de acordar. 
Somos versos provisórios 
Escritos na margem do eterno. 
 
Cada dor é metáfora, 
Cada amor, um eco 
Daquilo que não tem nome 
Mas insiste em ser sentido. 
 
O infinito não governa: 
Ele permite. 
E permitir é a forma mais pura 
De criar sem prender. 
 
Viver é recitar o universo 
Com a voz trêmula da carne, 
Sabendo que o poema não termina, 
Apenas muda de leitor. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Todos os dias observo meus sonhos

 Todos os dias observo meus sonhos 
Como quem vigia um fogo fraco 
No fundo da noite. 
Não para queimar o mundo, 
Mas para que o escuro não vença tudo. 
 
Eles respiram em silêncio, 
Frágeis como ideias que ainda não aprenderam 
A pedir abrigo. 
Se não os olho, 
Se não retorno a eles com alguma fidelidade, 
O tempo os cobre de poeira 
E os chama de ilusão. 
 
Aprendi que sonhos não se perdem de uma vez. 
Eles se afastam devagar, 
Quando a vida exige pressa, 
Quando a sobrevivência vira desculpa, 
Quando o cansaço começa a parecer verdade. 
 
Por isso observo. 
Não avanço, não conquisto, não prometo. 
Apenas permaneço. 
Porque existir, às vezes, 
É ficar de pé diante do que ainda não aconteceu 
E não desviar o olhar. 
 
Meus sonhos sabem que posso falhar, 
Sabem que o mundo é maior que minhas forças, 
Mas continuam ali 
Porque reconhecem em mim 
Alguém que não os troca por certezas. 
 
E enquanto eu os observo, 
Mesmo sem entendê-los, 
Eles não se perdem de vista, 
Sou eu 
Quem permanece inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Sua presença

 Sua presença chega antes de você. 
Ela atravessa o ar, desarruma o silêncio 
E faz meu coração esquecer o próprio ritmo. 
 
Quando você está perto, 
O tempo tropeça, 
E cada batida no peito é um aviso: 
Algo vivo acontece aqui. 
 
Não é alarde, é vertigem. 
Um susto doce, 
Como se o coração reconhecesse em você 
Um lugar onde já esteve 
E jamais esqueceu. 
 
Você não toca, 
Mas tudo em mim responde. 
E o coração, traidor da calma, 
Bate mais forte 
Toda vez que sua presença existe. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 28 de dezembro de 2025

Medo de transbordar

 Cresci como quem aprende 
A trancar portas por dentro. 
Guardei palavras no fundo do peito, 
Não por frieza, 
Mas por excesso. 
 
Havia sentimentos demais para o mundo, 
E eu aprendi cedo 
Que nem todo silêncio é ausência, 
Às vezes é cuidado, 
Às vezes é medo de transbordar. 
 
Se pareço não ligar, 
É porque aprendi a amar em voz baixa, 
A sofrer sem plateia, 
A sentir sem pedir socorro. 
 
Carrego tudo comigo: 
O que não disse, 
O que não chorei, 
O que não coube em gestos. 
E isso pesa, 
Mas também me fez inteiro de um jeito estranho. 
 
Então, desculpa… 
Não é indiferença. 
É só alguém que cresceu acreditando 
Que sentir demais 
Era algo que precisava ser escondido. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 27 de dezembro de 2025

Viva hoje

 Não há relógio mais severo do que o adiamento. 
Ele não faz barulho, 
Não ameaça — apenas rouba. 
Rouba dias inteiros 
Enquanto prometemos viver “depois”. 
 
Hoje é um corpo aberto, respirando. 
Não pede heroísmo, nem grandes decisões. 
Pede presença. 
Pede que você esteja inteiro onde pisa. 
 
Nada é mais urgente do que viver a própria vida 
Porque tudo o mais é substituível: 
As tarefas se repetem, 
As opiniões mudam, 
As cidades esquecem nossos nomes. 
Mas o dia de hoje, 
Este, não retorna nem para pedir desculpa. 
 
Viver agora é um gesto silencioso de rebeldia. 
É escolher sentir antes de explicar, 
Errar antes de paralisar, 
Amar antes que vire lembrança. 
 
Há quem passe a vida preparando-se para viver, 
Como se a existência fosse um ensaio interminável. 
Mas o palco já está iluminado. 
O público é o tempo. 
E o tempo não aplaude adiamentos. 
 
Viva hoje. 
Não como quem corre sem saber o caminho, 
Mas como quem finalmente sabe onde pisa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O que parecia amor

 Reinventar em mim o sorriso 
Não é apagar a cicatriz, 
É aprender a chamá-la de lembrança. 
 
Depois que perdi o que parecia amor, 
O riso virou ruína: 
Eco de algo que habitou o peito 
E partiu sem se despedir. 
Sorri por hábito, 
Por defesa, 
Por educação com o mundo 
Que não sabe lidar com o luto dos sentimentos. 
 
Mas o sorriso novo não nasce da pressa. 
Ele germina no silêncio, 
Quando aceito que aquilo não era infinito, 
Apenas intenso. 
Que amar, às vezes, 
É confundir abrigo com tempestade. 
 
Reinventar o sorriso 
É permitir que ele seja menor, 
Mais tímido, 
Menos espetáculo 
E mais verdade. 
É sorrir sem prometer eternidades, 
Sem pedir retorno, 
Sem fingir inteireza. 
 
Hoje, quando sorrio, 
Não é porque esqueci. 
É porque sobrevivi. 
Porque algo em mim, mesmo ferido, 
Decidiu continuar humano, 
Inteiro nas imperfeições, 
Aberto ao dia 
Como quem aprende a andar 
Depois da queda. 
 
E esse sorriso, 
Ainda em construção, 
Não nega a perda. 
Ele a carrega consigo 
Como quem diz em silêncio: 
Do que parecia amor, 
Restou a coragem de recomeçar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Pensar em você não é escolha

 A saudade não chega fazendo barulho. 
Ela entra devagar, como quem conhece a casa, 
Senta no canto da memória 
E começa a acender luzes que eu já tinha apagado. 
 
É ela que me faz pensar em você 
Quando o dia não pede lembranças, 
Quando uma música qualquer atravessa o ar 
E, sem permissão, ganha o seu rosto. 
 
Penso em você nos detalhes que ninguém nota: 
No cheiro da chuva, 
No silêncio entre duas palavras, 
Na pausa longa antes de dormir. 
A saudade tem esse vício cruel 
De transformar o cotidiano em lembrança. 
 
Às vezes, ela dói como ausência; 
Outras, aquece como se você ainda estivesse aqui, 
Morando num lugar indefinido entre o que foi 
E o que jamais deixou de ser. 
 
Pensar em você não é escolha, 
É consequência. 
A saudade decide por mim, 
E eu apenas aceito. 
Porque há amores que não se despedem, 
Apenas aprendem a existir 
Dentro do pensamento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A chave dos desejos

 Você é para mim a chave dos desejos, 
Não a que arromba, 
Mas a que gira devagar na fechadura da alma 
E ensina o silêncio a respirar. 
 
Você é a porta da fantasia, 
Entreaberta no fim da noite, 
Onde o real desaprende seus nomes 
E o impossível aprende a me tocar 
Sem mãos. 
 
Você é o caminho para o ardente prazer, 
Não a linha reta, 
Mas a curva quente do tempo, 
Onde o passo se perde, 
O corpo esquece o medo 
E o querer vira incêndio manso, 
Que não destrói, 
Ilumina. 
 
Em você, o desejo não grita: 
Ele chama. 
E eu sigo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O que o coração está sentindo

 Uma fogueira de pensamentos se acende em mim 
Toda vez que penso em você. 
Não queima para destruir, 
Arde para iluminar 
O que eu nunca soube dizer. 
 
As ideias chegam como faíscas, 
Uma após a outra, 
E cada frase tenta se organizar 
No meio do calor que o coração espalha. 
Nem todas viram palavras ditas, 
Algumas ficam em brasas, 
Silenciosas, esperando coragem. 
 
Penso em você 
E a mente vira lenha seca: 
Qualquer lembrança é suficiente 
Para o fogo crescer. 
Não é desespero, 
É presença desejada, 
Essa chama insistente 
Que não pede permissão para existir. 
 
As frases se constroem sozinhas, 
Como se o coração fosse um artesão antigo, 
Moldando sentimentos em silêncio, 
Gravando seu nome 
No calor de cada pensamento. 
 
E quando a fogueira enfim sossega, 
Restam cinzas quentes: 
Palavras que não foram ditas, 
Mas que ainda aquecem 
Tudo o que sou enquanto penso em você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Ser escravo do amor

 Às vezes me pergunto 
Por que ajoelhar o coração 
Diante de um sentimento 
Que exige correntes, 
Se a solidão me oferece 
O vasto campo onde posso respirar? 
 
O amor, quando não é encontro, 
Vira cela dourada: 
Promessas que vigiam, 
Silêncios que cobram, 
Esperas que nunca dormem. 
Nele, o eu se dissolve 
Até virar eco do outro. 
 
A solidão, ao contrário, 
Não me pede juras. 
Ela senta ao meu lado 
E me deixa inteiro. 
É um espaço vazio 
Que não machuca, 
Apenas me escuta. 
 
Ser escravo do amor 
É viver à mercê de gestos alheios, 
É medir o próprio valor 
Pelo olhar que não vem. 
Ser livre na solidão 
É aprender que o peito 
Também pode ser casa. 
 
Talvez o amor verdadeiro 
Não queira servos, 
Mas companheiros. 
E enquanto ele não chega, 
A solidão não é castigo: 
É território. 
É o lugar onde o coração 
Retira as algemas 
E reaprende a andar sozinho. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Verdades fabricadas

 Há dias em que a notícia chega já ferida, 
Não pelo fato, 
Mas pela mão que a moldou. 
 
A verdade, cansada, 
Aprendeu a vestir fantasias: 
Às vezes grita o que não aconteceu, 
Às vezes silencia o que sangra. 
 
Entre manchetes e telas brilhantes, 
Há sacanagens bem vestidas de urgência, 
Frases torcidas como espelhos rachados, 
Onde cada um vê apenas o que quer ver. 
 
A mentira não vem mais nua, 
Ela traz dados, gráficos, especialistas, 
Um selo de “fonte confiável” 
Colado sobre o vazio. 
 
E o leitor, faminto de sentido, 
Engole versões, 
Divide indignações, 
Repete verdades fabricadas 
Como quem reza sem fé. 
 
No fim, resta o cansaço: 
Não por saber demais, 
Mas por nunca tocar o real. 
 
Talvez a resistência seja simples e dura: 
Desconfiar do grito fácil, 
Ouvir o silêncio entre as palavras, 
E lembrar que a verdade 
Não costuma pedir aplauso, 
Ela apenas permanece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 21 de dezembro de 2025

Casas em ruínas no centro de Cáceres

 Nas ruas antigas da velha Cáceres, 
Onde o sol se deita pesado sobre o rio 
E o tempo anda descalço pelas calçadas rachadas, 
Há um doce inconformismo 
Que respira entre os casarões em ruínas. 
 
As paredes descascadas guardam nomes 
Que ninguém mais chama, 
Cartas nunca enviadas, 
Promessas que envelheceram antes de cumprir-se. 
Cada janela quebrada é um olho que se recusa a fechar, 
Vigiando o presente com a memória do que foi. 
 
O inconformismo ali não grita, 
Ele sussurra. 
Mistura-se ao cheiro de poeira, mofo e rio, 
Ao rangido das portas que insistem em abrir sozinhas, 
Como se a casa ainda esperasse alguém voltar. 
 
Há uma triste beleza na decadência, 
Uma doçura sombria em ver o tempo falhar. 
Os casarões, tortos e cansados, 
Não pedem apenas restauração: 
Pedem escuta. 
 
Cáceres envelhece sem pedir desculpas. 
E quem caminha por suas sombras 
Aprende que resistir não é permanecer inteiro, 
Mas continuar de pé, mesmo em ruínas, 
Com o coração aberto 
Para o que ainda insiste em viver. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 20 de dezembro de 2025

Há no teu olhar

 Há no teu olhar um encanto silencioso, 
Como um amanhecer que não faz barulho, 
Mas muda tudo. 
 
Quando teus olhos me encontram, 
Meu coração esquece o ritmo aprendido 
E suspira, 
Não de cansaço, 
Mas de reconhecimento. 
 
É como se eles soubessem de mim 
Antes mesmo de eu saber de mim mesmo. 
Há neles um abrigo breve, 
Um convite sem palavras, 
Uma promessa que não se faz, 
Mas se sente. 
 
Teu olhar não prende, 
Mas demora. 
E nessa demora 
Meu peito aprende a esperar, 
Porque há encantos que não pedem posse, 
Apenas presença. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O fardo de entender as coisas

 Há uma ironia sutil no avanço: 
Quanto mais evoluímos, 
Mais o passado se torna indecifrável. 
Não por falta de memória, 
Mas porque a mente que recorda 
Já não é a mesma que viveu. 
 
O que chamamos de lembrança 
É apenas o presente tentando compreender 
A linguagem de um eu que não existe mais. 
A degradação do passado não é falha da memória, 
É sinal de que crescemos. 
 
A erosão dos significados antigos 
É o tributo pago por cada passo adiante. 
Somos seres em constante tradução, 
E o passado 
É um idioma que esquecemos aos poucos, 
Não por negligência, mas por evolução. 
 
Talvez o verdadeiro desafio não seja recordar, 
Mas aceitar que não há como retornar 
A algo que já foi desfeito 
Pelo simples fato de termos mudado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Ver é um ato de vontade

 Às vezes, o mundo não se mostra como ele é, 
Mas como estamos prontos para enxergá-lo. 
 
O olhar escolhe antes mesmo da luz chegar: 
Há quem veja ameaça onde só existe silêncio, 
Há quem veja promessa mesmo em ruínas. 
 
O que você vê 
É o desejo disfarçado de paisagem. 
É a fome que pinta o pão, 
O medo que alonga as sombras, 
O amor que transforma o comum em milagre. 
 
Os olhos não são janelas, 
São espelhos 
Cansados de refletir verdades inteiras. 
Eles recortam, filtram, inventam. 
Protegem o coração 
Daquilo que ele ainda não suporta. 
 
Por isso, 
Dois olhares nunca dividem o mesmo mundo. 
Cada um carrega sua própria versão do real, 
Feita de lembranças, ausências 
E daquilo que secretamente espera encontrar. 
 
Ver é um ato de vontade. 
E, muitas vezes, 
O que chamamos de realidade 
É apenas o nome bonito que damos 
Ao que precisamos acreditar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

As delícias do seu amor

 Há em mim um desejo que não grita, 
Ele respira. 
Anda descalço pelo peito, 
Tateando portas antigas, 
Essas que só se abrem por dentro. 
 
Quero abrir meu coração 
Como quem oferece abrigo à chuva mansa, 
Sem promessas grandiosas, 
Apenas a entrega do que é verdadeiro 
E ainda tremula. 
 
As delícias do seu amor 
Não me parecem excessos, 
Mas uma doçura calma, 
Um repouso onde o mundo 
Finalmente silencia. 
 
Desejo provar esse amor 
Como se prova um fruto raro: 
Devagar, com reverência, 
Aceitando que o sabor 
Também transforma quem o sente. 
 
Abrir meu coração não é fraqueza, 
É coragem vestida de ternura. 
É dizer ao tempo: 
“Pode passar, 
Eu não tenho mais medo de sentir.” 
 
E se um dia esse amor me atravessar, 
Que seja assim: 
Sem alarde, 
Sem defesas, 
Como quem permite que a luz 
Entre pela fresta 
E fique o tempo que precisar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Vivos no hoje que não existe

 A imagem do ontem é uma névoa, 
Escorrendo entre os dedos do agora, 
Sempre aqui, nunca aqui, 
Como a brisa que vem e se vai, 
Tocando a pele, mas não o corpo. 
 
O ontem é uma sombra que não é, 
Um reflexo que se desfaz 
Quando tentamos tocá-lo, 
Um quadro pintado no vazio 
Que se apaga assim que a cor se toca. 
 
A criação, então, é um grito 
No vazio da memória, 
Uma tentativa de agarrar o que já foi, 
Uma febre que busca curar 
O que nunca foi doente, 
Tornando visível o invisível, 
Tornando eterno o que já morreu. 
 
Mas a paranoia é o medo disfarçado, 
O medo de que o ontem, 
Embora fugidio, já mora dentro de nós, 
Nos devorando sem que saibamos, 
Como um segredo guardado 
Na dobra do tempo, 
Um eco que grita em silêncio 
Quando calamos nossas vozes. 
 
Criamos para escapar, 
Mas talvez sejamos criados por isso, 
Presas de nossa própria busca 
Por aquilo que nunca podemos ter, 
Presos ao ontem que nunca foi, 
Vivos no hoje que não existe. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Amar em silêncio

Hoje tentei te esquecer. 
Juro. Fiz de tudo. 
Li um livro inteiro 
Sem prestar atenção em uma só linha. 
Andei por ruas que não levam a ti. 
Evitei as músicas que me lembram teu nome, 
Mas até o silêncio tinha teu rosto. 
 
Há algo cruel em amar sem poder tocar. 
É como ver a chuva do outro lado do vidro, 
Sentir o cheiro da terra molhada 
E não poder pôr os pés no chão. 
 
O amor que guardo é uma casa sem portas, 
Mas insisto em varrer o chão, 
Regar as plantas, abrir as janelas. 
Mesmo que ninguém entre. 
Mesmo que tu nunca saibas 
Que essa casa foi construída só para ti. 
 
Às vezes, me pergunto se o universo ri de mim. 
Se os deuses escrevem nossos destinos com ironia. 
Por que te colocaram tão perto? 
Por que fizeram teu riso tão necessário ao meu dia? 
 
Tu não tens culpa. 
Apenas és. 
E é justamente isso que me desarma. 
 
Quando estás feliz, sou feliz por tabela. 
Quando estás triste, carrego tua dor sem convite. 
Não por heroísmo — mas por amor. 
Esse amor que não se grita, 
Não se exige, não se revela. 
Esse amor que apenas… é. 
 
Hoje não chorei. 
Mas houve um momento 
Em que meus olhos 
Se encheram d’água sem motivo aparente. 
Foi quando te vi de longe, mexendo no cabelo. 
E naquele gesto banal, 
Tu me partiste em mil partes. 
E ainda assim, sorri. 
 
Porque amar de verdade, às vezes, é isso: 
Aceitar o próprio desaparecimento 
Em nome da presença do outro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 14 de dezembro de 2025

Liturgia da ausência

 Carrego tua ausência 
Como um caixão invisível, 
Um cortejo que nunca termina 
Dentro da noite que habita meu peito. 
 
Tuas lembranças 
São corvos sobrevoando meu sono, 
Rasgando o silêncio com asas negras, 
Enquanto teu nome, morto, 
Ressoa nas paredes frias da memória. 
 
Sinto teu perfume como incenso profano, 
Ardendo em altares de cinzas, 
Uma missa obscura celebrada 
Com as relíquias de um amor desfeito. 
 
Não é apenas a vida que me falta, 
É o futuro sepultado contigo, 
Os dias que nunca nasceram, 
As promessas soterradas na terra do esquecimento. 
 
Eu caminho entre sombras e velas apagadas, 
Cultuando o vazio como única herança. 
Pois o que chamam de amor eterno 
Não passa de ausência imortal, 
Um túmulo aceso dentro da carne, 
Onde repousa o teu fantasma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 13 de dezembro de 2025

Quando o sol se despede

O sol se despede 
Como quem sabe que será lembrado. 
Derrama ouro no horizonte, 
Incendeia as nuvens com tons de despedida 
E ensina, em silêncio, 
Que até o fim pode ser belo. 
 
O céu, vasto e paciente, 
Aceita o peso das cores, 
Laranjas, vermelhos, violetas, 
Como se cada tom fosse uma palavra não dita 
Entre o dia que parte e a noite que chega. 
 
Há algo de sagrado no pôr do sol: 
Ele não pede aplausos, 
Não exige promessas, 
Apenas acontece, 
E nisso revela a grandeza do instante. 
 
Enquanto a luz se recolhe, 
O mundo parece respirar mais devagar. 
Os ruídos se tornam menores, 
Os pensamentos, mais sinceros. 
É como se o tempo, por um momento, 
Aprendesse a ser contemplação. 
 
O magnífico pôr do sol não marca um fim, 
Mas um intervalo de eternidade, 
Onde tudo o que fomos durante o dia 
Se aquieta, 
E tudo o que ainda seremos 
Espera, em silêncio, 
Do outro lado da luz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense 
Imagens: Odair José.
 
Pôr do sol no Rio Paraguai em Cáceres, MT
 
Pôr do sol no Rio Paraguai em Cáceres, MT
 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Se você me escutasse

 Se eu pudesse ouvir 
A voz do meu próprio coração, 
Ela não viria em palavras, 
Viria em um tremor suave, 
Um sopro quente que sobe do peito 
E se espalha pela garganta, pedindo passagem. 
Mas eu ouço só o silencio. 
E ele continua a pulsar 
Como quem insiste em viver um segredo. 
 
Às vezes imagino como seria libertá-lo. 
Dizer tudo. 
Abrir o peito 
Como se abre uma janela depois de dias de tempestade. 
Deixar que o ar novo, 
Ainda tímido, invadisse o espaço entre nós. 
 
E então penso na sua reação. 
 
Talvez você sorrisse 
Com aquele brilho leve 
Que acende seus olhos quando algo a toca profundamente. 
Talvez ficasse em silêncio, 
Não por falta de palavras, 
Mas porque algumas verdades só se compreendem devagar. 
Talvez sua alma estremecesse só um pouco, 
O suficiente para entender 
Que meu sentimento não nasce de um impulso, 
Mas de uma constância quieta. 
 
Ou talvez você desviaria o olhar, 
Surpreendida demais, 
Sem saber como segurar algo tão frágil 
E tão intenso ao mesmo tempo. 
 
E é por isso 
Que a voz do coração permanece encarcerada. 
Não por medo do que sinto, 
Mas por cuidado com o mundo que existe entre nós. 
Porque amar calado, às vezes, 
É a única forma de não perder quem já é presença, 
Mesmo que não nos pertença mais. 
 
Mas ainda assim… 
Às vezes fecho os olhos e imagino. 
Se eu falasse, 
Se você escutasse, 
Se o destino respirasse fundo… 
Quem sabe a reação que eu tanto temo 
Fosse, no fundo, a que meu coração secretamente espera. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Ontem eu a conheci

 Ontem eu a conheci. 
E desde então 
O mundo parece caminhar 
Com o passo que ela deixou no ar, 
Leve, atento, como se aprendesse a respirar de novo. 
 
Havia na presença dela 
Uma espécie de elegância que não se veste: acontece. 
Era como se cada gesto fosse um sussurro 
Destinado apenas ao olhar que a descobrisse, 
Um silêncio bonito demais para ser interrompido. 
 
Quando a vi, algo em mim se ajeitou, 
Como quem finalmente encontra o horizonte certo. 
A beleza dela não era apenas vista, 
Era sentida, deslizando por dentro, 
Acendendo pequenas luzes 
Em lugares que eu nem lembrava que tinha. 
 
Ontem eu a conheci. 
Mas parece que meu coração, 
Que sempre chega atrasado, 
Resolveu chegar antes do tempo dessa vez. 
E ficou lá, parado diante dela, 
Tentando aprender a não tropeçar 
Na própria admiração. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense