Deram medalhas ao palpite apressado;
O livro virou suspeito, quase um desvio,
E o sábio foi chamado de complicado.
Quem pensa demais, dizem, perdeu o juízo;
Melhor repetir o refrão mais conveniente.
A multidão aplaude o eco e despreza o sentido.
Os mercadores de certezas montam seus palanques,
Vendem respostas antes mesmo das perguntas;
Distribuem sombras embrulhadas como diamantes
E colecionam seguidores, almas e escutas.
A verdade, cansada, espera na esquina,
Enquanto a mentira desfila vestida de rainha,
Recebendo flores daqueles que ajuda a enganar.
E assim segue a festa da santa superficialidade,
Onde a dúvida é pecado e a reflexão, afronta;
Celebra-se a preguiça travestida de sinceridade,
E a ignorância, vaidosa, sobe ao palco e aponta.
Mas o tempo, velho juiz de fala contida,
Cobra caro por cada mentira convertida em vida:
Nenhuma civilização sobrevive muito tempo
Zombando da própria razão.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














