Ao cair da tarde, quando as telas acendem
Como pequenos altares domésticos,
Caminhamos pelas avenidas do pensamento gasto,
Entre anúncios luminosos e frases recicladas,
Carregando nos bolsos opiniões que não nos pertencem.
Na estação das palavras esquecidas,
Um velho livro repousa sob a poeira.
Ninguém o consulta.
Os oráculos modernos falam mais depressa,
E a velocidade passou a ser confundida com sabedoria.
Vi homens reunidos em cafés e corredores,
Não para perguntar, mas para confirmar.
Repetiam as mesmas sílabas gastas
Como sacerdotes de uma religião sem mistério,
Como ecos procurando outros ecos.
E a noite avançava sobre a cidade,
Não a noite das estrelas e dos antigos navegantes,
Mas a outra, feita de ruídos incessantes,
De certezas fabricadas em série,
De consciências embaladas para consumo imediato.
Entre os edifícios, o vento carregava papéis,
Fragmentos de promessas, estatísticas, slogans.
Nada permanecia.
Tudo parecia urgente,
E por isso mesmo nada era importante.
Quem ainda ousa perguntar?
Quem suporta o peso da dúvida
Quando o mercado vende convicções prontas?
A interrogação tornou-se um objeto antiquado,
Como um relógio herdado de um avô esquecido.
E assim seguimos,
Não com estrondo, nem com tragédia,
Mas com um sorriso satisfeito e distraído,
Atravessando corredores iluminados,
Enquanto as bibliotecas escurecem lentamente.
Talvez a decadência não chegue com tambores.
Talvez ela entre silenciosa pela porta da frente,
Sente-se à mesa, participe da conversa
E nos convença, com delicadeza,
De que pensar é um esforço desnecessário.
Então restará apenas o ruído,
E os homens da vitrine continuarão sorrindo,
Refletidos infinitamente nos vidros da própria imagem,
Sem perceber que a escuridão cresce atrás deles,
Paciente como o tempo.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense





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