sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Quando o último eco se dissipar

 Entre as horas quebradas da tarde elétrica, 
Quando os relógios mastigam lentamente os minutos, 
E os corredores da mente ecoam passos sem origem, 
Caminhamos entre fragmentos de vozes e anúncios, 
Como sombras procurando uma porta em meio à névoa. 
 
Não é o trovão que nos derrota, 
Nem o mar que apaga os nomes das pedras. 
É o zumbido constante das coisas pequenas, 
A procissão interminável de distrações, 
O pó acumulado sobre os livros não lidos. 
 
Vi homens recolhendo espelhos partidos, 
Tentando construir um rosto com reflexos dispersos. 
Vi mulheres carregando cestos de horas desperdiçadas, 
Como quem transporta água em vasos rachados. 
E ninguém sabia dizer onde terminava o caminho. 
 
Nas salas iluminadas por luz artificial, 
A sabedoria sentava-se silenciosa entre as cadeiras vazias. 
Ninguém a reconhecia. 
Todos aguardavam alguma revelação extraordinária, 
Enquanto ela habitava o intervalo entre duas palavras. 
 
Porque o deserto não está apenas além das cidades. 
Há desertos ocultos sob o excesso de ruído. 
Há secas que atingem a atenção antes da alma. 
E o espírito fragmentado, incapaz de permanecer, 
Torna-se estrangeiro dentro da própria existência. 
 
Pode ser que a redenção esteja no ato de permanecer. 
Ou que a verdade não habite o movimento incessante, 
Mas a pausa que interrompe o mecanismo da dispersão. 
Não o brilho passageiro da centelha, 
Mas a chama discreta que atravessa a noite. 
 
Quando o último eco se dissipar nos corredores do tempo, 
Quando os anúncios forem apenas poeira sobre a poeira, 
E os nomes retornarem ao silêncio que os gerou, 
Restará apenas a pergunta que sempre esteve conosco: 
O que vimos, enquanto olhávamos para todos os lados? 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Diante do silêncio das estrelas

 Eu quase acreditei que o único palhaço era eu, 
Porque todos riam 
Quando eu mostrava minhas feridas, 
E eu sorria para não revelar o abismo, 
Como quem transforma 
A própria angústia em espetáculo. 
Mas descobri 
Que ninguém veio ao mundo com um roteiro, 
Somos atores diante do silêncio das estrelas, 
Tentando inventar sentido 
Para uma existência que não explica nada. 
 
A plateia me julgava pelo que conseguia enxergar, 
Mas ninguém conhecia 
O peso escondido sob minha roupa, 
Nem as noites em que conversei sozinho com o vazio. 
Talvez o absurdo não esteja em sofrer, 
Mas em fingir que não sofremos para sermos aceitos. 
No palco, cada homem veste a máscara que escolheu, 
E chama de verdade 
Aquilo que aprendeu a representar. 
 
Então retirei a maquiagem diante de todos, 
E pela primeira vez 
Não me importei com os aplausos. 
Se a vida não oferece um sentido pronto, 
Resta-me a liberdade de escolher 
O significado dos meus passos. 
Não sou o palhaço porque tropeço, 
Sou apenas um homem tentando existir 
Sem mentir para si mesmo, 
Enquanto o palco permanece vazio, 
Esperando o próximo personagem. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A pequena chama dentro de mim

Acordo com o peso leve da manhã 
Como quem retorna de um lugar desconhecido 
E encontra ainda intacta a respiração do mundo 
Há árvores insistindo em permanecer verdes 
Há vozes distantes atravessando as ruas 
E dentro de mim uma pequena chama 
Que se recusa a abandonar a escuridão. 
 
Sou grato pelos instantes mínimos 
Pela água silenciosa sobre as mãos 
Pela memória de um abraço antigo 
Pela palavra que surge inesperadamente 
E devolve sentido ao vazio. 
 
Às vezes a vida parece um corredor interminável 
Cheio de portas que não se abrem 
E mesmo assim alguma beleza permanece 
Um pássaro atravessando o céu do entardecer 
Um livro esquecido sobre a mesa 
Ou o pensamento que nasce sem aviso 
Como se a alma ainda acreditasse no amanhã. 
 
A inspiração chega sem anunciar seu nome 
Sentando-se ao lado do silêncio 
Como alguém que conhece minhas ruínas 
E ainda assim permanece 
Olhando comigo para o horizonte. 
 
Carrego gratidão por continuar sensível 
Num tempo que endurece tantas pessoas 
Por ainda me emocionar diante do mundo 
E transformar inquietações em palavras 
Como quem acende pequenas lanternas contra a noite. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A razão não é cruel

 Tem pessoas que transformam a ignorância em trono, 
E sentam-se nele como reis de uma noite sem aurora. 
Não buscam a verdade, buscam o conforto 
De nunca precisar olhar para dentro do próprio abismo. 
 
Os profetas dos sonhos fáceis 
Caminham entre multidões cansadas. 
Vendem desejos 
Como quem distribui água salgada aos sedentos. 
Quanto mais se bebe, mais a sede cresce, 
E ainda assim os fiéis agradecem pelo milagre da ilusão. 
 
Existe um mar imenso onde a razão naufraga. 
Nele, as bússolas são quebradas de propósito, 
Pois pensar exige coragem, 
E a coragem raramente é popular. 
 
A ignorância, quando vestida de certeza, 
Fala alto, gesticula muito, 
E condena qualquer silêncio que ouse refletir. 
Ela teme o pensamento como vampiros temem a manhã. 
 
Os falsos sonhadores 
Conhecem bem o coração humano: 
Sabem que muitos preferem promessas impossíveis 
A encarar a áspera arquitetura do real. 
Por isso erguem templos sobre areia 
E chamam desespero de esperança. 
 
Existe uma beleza triste 
Em ver multidões navegando sem rumo, 
Cantando hinos contra as estrelas, 
Como se o universo lhes devesse sentido 
Apenas porque desejam muito. 
Mas a razão não é cruel, 
Cruel é abandonar-se completamente ao delírio 
E chamar isso de liberdade. 
 
A verdadeira lucidez 
Não está em destruir os sonhos, 
Mas em impedir que eles devorem o mundo 
Como incêndios alimentados pela própria cegueira. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Chega de silêncio!

 Políticos, Partidos, Parlamento: 
Fábricas de leis que protegem privilégios, 
Máquinas de corrupção pintadas de democracia. 
 
Padres, Pastores: 
Pregam resignação para manter o rebanho dócil, 
Vendem ilusões 
Em nome de deuses que não descem à terra. 
 
Patrões, Polícia: 
Duas mãos do mesmo corpo, 
Uma explora, a outra vigia, 
E ambas esmagam quem ousa levantar-se. 
 
Pais e Professores: 
Muitas vezes moldam cabeças 
Para repetir a obediência, 
Ensinando a aceitar o mundo como está, 
Quando deveriam ensinar a mudá-lo. 
 
E o Povo? 
O Povo vota, aceita, cala, sofre, 
Mas também o Povo levanta, quebra correntes, 
Porque nenhum dos anteriores existe sem ele. 
 
O sistema é um círculo vicioso: 
Eles mandam, mas só porque deixamos. 
Eles roubam, mas só porque entregamos. 
Eles mentem, mas só porque acreditamos. 
 
Chega de silêncio! 
Não há salvadores, nem santos, nem heróis. 
Se o Povo é parte do problema, 
O Povo é também a única solução. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O beijo do abismo

 Já não temo o teu sorriso. 
Ele me chama 
Como o mar chama os náufragos, 
Com promessas de repouso, 
Com segredos de afogamento. 
 
Deixo que me encontre, 
Que percorra em mim 
Os lugares onde o silêncio dorme. 
 Cada curva tua é um convite, 
Cada olhar, uma vertigem. 
 
Agora compreendo que 
Não se luta contra o destino 
Que vem em forma de boca, 
Nem contra a paz que tem gosto de abismo. 
 
Quando me tocas, 
Não é pele o que se move, 
É memória, 
É tudo o que fui, desfeito, 
Para caber no instante. 
 
E se houver fim, que seja 
Com o coração rendido, 
E o corpo entregue 
Ao feitiço que começou no teu sorriso. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Ainda não acabou

 As luzes da cidade piscavam 
Como olhos cansados depois de uma noite ruim. 
Os anjos caídos da modernidade 
Não tinham asas, tinham anúncios, 
Gravatas, telas acesas e discursos decorados. 
 
Na calçada, os chacinados do tempo 
Esperavam um ônibus, um emprego, um milagre. 
Ninguém os chamava de heróis. 
Ninguém escrevia seus nomes nos jornais. 
Apenas envelheciam sob o neon indiferente. 
 
Eu os vi entrando em bares baratos, 
Pedindo mais uma dose contra o vazio. 
Não para esquecer a vida, 
Mas para suportar o peso 
De acordar nela todas as manhãs. 
 
E então veio o amanhecer, 
Não como uma revelação divina, 
Mas como um trabalhador atrasado, 
Abrindo a porta enferrujada do dia 
E dizendo: "vamos, ainda não acabou." 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Outras dimensões

 Eu olho para o horizonte 
E todo mundo fala sobre o futuro 
Como se tivesse um mapa escondido no bolso. 
Mas a verdade é que estamos todos perdidos, 
Fumando nossos medos na varanda da existência. 
 
Dizem que há dimensões além daquelas que vemos. 
Pode ser. 
Mal consigo entender esta aqui. 
As contas chegam, os cabelos caem, 
E o tempo continua vencendo todas as apostas. 
 
Às vezes um único olhar atravessa décadas. 
Você vê uma criança correndo na rua 
E de repente se lembra de quem foi, 
De quem sonhou ser, 
E de quem acabou se tornando. 
 
Os filósofos procuram respostas, 
Os cientistas procuram evidências, 
Os poetas procuram palavras. 
O horizonte continua lá, indiferente, 
Sem entregar nada a ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Um livro não pode me negar

 Um livro não pode me negar o sonho, 
Nem a viagem que começa quando o abro. 
O que pode é levar meus olhos para longe, 
Mesmo que meus pés permaneçam no chão, 
Pode me apresentar mundos inexistentes, 
Personagens que vivem apenas nas palavras, 
E ainda assim fazer meu coração acreditar. 
 
Um livro não pode me negar perguntas, 
Nem o silêncio que nasce entre suas páginas. 
O que pode é despertar memórias adormecidas, 
Dar voz ao que eu nunca consegui dizer, 
Ser companhia nas horas de solidão, 
Ensinar-me que algumas respostas são caminhos, 
E que algumas perguntas são necessárias. 
 
Um livro não pode me negar a liberdade, 
Porque imaginar também é uma forma de existir. 
Suas palavras terminam, mas o pensamento continua, 
E quando retorno às mesmas páginas, 
Descubro que a história também mudou em mim, 
Pois não é apenas o livro que leio, 
É a pessoa que me torno depois da leitura. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Sopro raro

 A vida é um sopro raro, 
Um clarão breve no vasto silêncio. 
Por isso é preciso tocá-la com as mãos abertas, 
Respirar fundo cada aurora, 
Dançar até que os pés se confundam com a terra. 
 
Ninguém vive por ti, 
Ninguém sente o arrepio em tua pele, 
Ninguém carrega a doçura dos teus sonhos. 
A vida é tua, inteira, 
Um livro que só tu podes escrever. 
 
Viver intensamente é não temer o riso, 
Nem a lágrima que purifica, 
É correr contra o vento 
Sabendo que o coração é chama 
E que o tempo é combustível da eternidade. 
 
Deixa que a vida te atravesse como luz, 
E, ao fim, que teu caminho seja lembrado 
Não pela sombra que evitaste, 
Mas pelo brilho que ousaste espalhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Velha amiga das horas vazias

 A saudade é irmã da tristeza antiga, 
Caminha descalça nos corredores do peito; 
Traz nos olhos a fumaça do passado 
E nas mãos pequenas velas acesas. 
Seu silêncio pesa mais que despedidas, 
Como um funeral erguido dentro da alma 
Para enterrar ilusões que ainda respiram. 
 
À noite, as lembranças retornam devagar, 
Feito sombras atravessando a janela aberta; 
Cada memória possui um nome secreto 
Que o coração insiste em pronunciar. 
Há retratos queimando dentro dos sonhos, 
Há promessas dormindo sob a poeira 
Dos dias que jamais conseguiram voltar. 
 
Eu sigo habitando ruínas invisíveis, 
Onde a esperança deixou seus vestígios; 
A saudade senta-se ao meu lado em silêncio 
Como velha amiga das horas vazias. 
Pois amar também é aprender ausências, 
É carregar velas acesas no escuro 
Para iluminar aquilo que perdemos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Consciência livre

 Nas redes, a mente esquece a própria estrada, 
Seduzida por vozes sem feição; 
Recebe pronta toda conclusão, 
E chama de verdade a encruzilhada. 
 
O algoritmo conduz, de forma calada, 
Os passos da moderna multidão; 
Enquanto morre a antiga reflexão, 
A liberdade torna-se velada. 
 
Mas quem cultiva o raro pensamento, 
Resiste ao vendaval da ilusão, 
E faz do livre exame um fundamento. 
 
Pois não há código, máquina ou razão 
Que vença uma mente em movimento, 
Quando escolhe pensar com o coração. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O seu olhar e o meu amor

 Existe uma distância entre o seu olhar e o meu amor, 
Um espaço invisível que a saudade atravessa, 
Enquanto meus olhos procuram os seus 
E meu coração, inquieto, inventa esperanças. 
Você talvez não perceba o que sinto, 
Mas meu silêncio pronuncia seu nome. 
 
Quando seus olhos encontram os meus, 
O tempo se curva diante do instante, 
E meu peito, tomado por tantos sentimentos, 
Transforma um simples olhar em eternidade. 
Mas você segue sem conhecer meus sonhos, 
E eu permaneço onde começa a saudade. 
 
Quisera que seus olhos lessem minha alma, 
Que enxergassem o amor escondido em meus gestos, 
As palavras que morrem antes de nascer, 
Os desejos que guardo nas noites solitárias. 
Quem sabe, então, essa distância diminuísse, 
E o impossível aprendesse a ser encontro. 
 
Enquanto isso, amo do lado de cá, 
Onde a esperança resiste à indiferença, 
Onde seu olhar é horizonte e mistério, 
E sua ausência, uma presença que não termina. 
Se um dia você atravessar essa distância, 
Me encontrará amando, mas desejando ser amado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Beleza bruta

 Eu ouço a fera em mim, febril, chamando, 
Um sopro antigo à margem do meu ser, 
Caminho em versos, quase me perdendo, 
Sem imaginar até onde vou ceder. 
 
Ela me habita em grito e pensamento, 
Me rasga em símbolos que não controlo, 
E cada imagem é um nascimento 
Que cobra em dor o preço do seu dolo. 
 
Escrevo, ou sou escrito nesse embate? 
Não sei se sou a lâmina ou o corte, 
Se é minha a voz que ecoa nesse combate. 
 
Mas sigo, mesmo à beira da má sorte, 
Pois há, no caos que em mim se debate, 
Uma beleza bruta, estranha e forte. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 11 de outubro de 2026

Eu me tornei a sede

 Chegou uma noite 
Em que não desejei mais ninguém. 
Nem pele, nem voz, nem perfume. 
A fome não se voltou para fora, 
Ela se fechou como um punho dentro do peito. 
E eu entendi. 
Nunca foram os beijos das mulheres. 
Nunca foi o toque ou a ausência. 
O que me matava de sede 
Era o espelho. 
Era o que eu via nos meus próprios olhos: 
Uma boca aberta para sempre, 
Esperando ser preenchida por algo que não existe. 
 
Naquela noite, não acendi as luzes. 
Me deitei no escuro como quem volta para casa. 
E pela primeira vez, 
Não busquei corpo algum, 
Porque o meu já era ruína suficiente. 
Senti a sede me envolver 
Como um lençol morno. 
Ela me beijou na testa, 
Nos olhos, na alma. 
E eu beijei de volta. 
Então fui deixado para trás. 
Ou talvez tenha sido absorvido. 
Não sei dizer. 
 
A verdade é que me tornei silêncio. 
E o silêncio, enfim, me bastou. 
Porque quando deixei de ser homem, 
Quando deixei de ser busca, 
Quando deixei de ser eco, 
Então me tornei a própria sede. 
E a sede... 
A sede não quer ser saciada. 
Ela só quer permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense