sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Política brasileira

Há um cansaço antigo morando nas praças, 
Um eco de promessas que nunca aprenderam a pousar. 
Discursos nascem como fogos de artifício, 
Luminosos, breves, ensurdecedores, 
E morrem antes de tocar o chão da vida comum. 
 
A esperança, essa teimosa, ainda caminha, 
Mesmo ferida, mesmo usada como slogan. 
Carrega nos ombros o peso de urnas e manchetes, 
Enquanto o povo, sempre o povo, 
Coleciona sobrevivências em vez de conquistas. 
 
Em Brasília, as palavras vestem ternos caros, 
Giram em salões polidos, brindam entre si. 
Longe dali, a realidade mastiga o salário mínimo, 
Devora o tempo, corrói a paciência, 
E ri amarga de cada nova reforma salvadora. 
 
A política, que deveria ser ponte, 
Transforma-se tantas vezes em palco. 
E o cidadão, figurante involuntário, 
Assiste ao espetáculo de alianças improváveis 
Como quem vê nuvens prometendo chuva que não vem. 
 
Mas sob o concreto das decepções repetidas, 
Algo ainda pulsa, quase invisível, quase ingênuo. 
Porque desistir seria entregar o futuro 
À mesma engrenagem que nos cansa. 
E até o desencanto, no fundo, 
É uma forma de esperança ferida. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Essa delicada vertigem

O amor não chegou como tempestade. 
Veio manso, quase distraído, 
Quando teu sorriso atravessou o instante 
Como quem abre uma janela 
Em uma casa que já desaprendera a luz. 
 
Não foi escolha, nem coragem. 
Foi acontecimento. 
Algo em mim, silencioso e antigo, 
Reconheceu em ti um abrigo improvável, 
Como se a alma 
Tivesse memória do que nunca viveu. 
 
Teu sorriso, tão simples, tão desarmado, 
Fez ruir defesas que eu chamava de razão. 
E, de repente, senti nascer 
Essa delicada vertigem 
De querer permanecer em um outro ser. 
 
Há sorrisos que apenas enfeitam o mundo. 
O teu, não. 
O teu reorganizou constelações internas, 
Deu nome ao que em mim era apenas ausência, 
E transformou o acaso em destino íntimo. 
 
Se amor tem um princípio, talvez seja esse: 
Um breve gesto, um clarão involuntário, 
Capaz de acender eternidades 
No espaço mínimo de um olhar 
Que decide ficar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Um breve clarão entre dois mistérios

 O dia começa antes de nós. 
Quando ainda somos promessa e sonho, 
Ele já caminha, indiferente, 
Vestindo a luz sem pedir licença, 
Abrindo portas que não vimos. 
 
A manhã não nos espera. 
Ela simplesmente acontece, 
Como um rio que ignora margens, 
Como o tempo que não negocia 
Com nossas vontades tardias. 
 
Vivemos na ilusão do comando, 
Mas o dia nunca foi rédea, 
É vento, é curso, é queda. 
Passa por nossas mãos 
Como areia que não se deixa prender. 
 
Ao entardecer, compreendemos: 
Muito do que fomos já não cabe em nós. 
O sol se despede sem consulta, 
E a sombra cresce, serena, 
Lembrando-nos da nossa medida. 
 
E a noite vem, soberana, 
Fechando o que não terminamos, 
Silenciando o que não dissemos. 
O dia termina como começou: 
Sem jamais ter sido nosso. 
 
Ainda assim, há beleza nisso, 
Naquilo que não governamos, 
Naquilo que apenas atravessamos. 
Pois viver, talvez, seja isto: 
Um breve clarão entre dois mistérios. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Pensamentos devorados pela noite

Há pensamentos que nascem durante o dia, 
Mas não suportam o peso da própria luz. 
Esperam, silenciosos, 
Até que a noite os reclame 
Como criaturas que pertencem à sombra. 
 
A noite não é ausência, 
É boca. 
E nela, certos pensamentos são devorados 
Antes mesmo de aprenderem 
A existir por inteiro. 
 
Ideias interrompidas, 
Memórias que quase se revelam, 
Verdades que chegam à beira dos lábios 
E recuam, temerosas, 
Como se o escuro fosse um abismo com fome. 
 
Pois há em nós um território noturno 
Onde o pensamento não pensa, 
Lateja, 
Hesita, 
Desmancha-se em ecos 
Que jamais verão a manhã. 
 
E quando o dia retorna, 
Trazemos apenas vestígios: 
Uma inquietação sem nome, 
Um sentimento sem rosto, 
Como se algo precioso tivesse sido perdido 
Em algum lugar entre o silêncio e o sono. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Apologia ao conhecimento V

 O conhecimento chegou 
Como chega uma notícia irreversível. 
Não pediu licença. 
Apenas ficou. 
E tudo o que eu era 
Precisou aprender a conviver com isso. 
 
Saber foi perder pessoas 
Sem que elas partissem. 
Foi olhar os mesmos rostos 
E perceber 
Que já não falávamos da mesma vida. 
 
A cada verdade compreendida, 
Algo em mim precisou morrer. 
Não houve luto público, 
Apenas o silêncio constrangido 
De quem segue funcionando. 
 
Descobri que pensar até o fim 
É um gesto que cobra preço. 
E quase sempre 
Não há quem ajude a pagar. 
 
O mundo não se tornou cruel, 
Ele apenas se revelou. 
E o horror não estava fora, 
Mas na lucidez 
De vê-lo sem filtros. 
 
Há saberes que isolam 
Mais do que o erro. 
Porque errar ainda permite companhia, 
Mas compreender 
Exige solidão. 
 
O conhecimento não me deu escolha. 
Depois dele, 
Viver se tornou um ato consciente, 
E isso é uma forma de tragédia diária. 
 
Às vezes invejo 
Quem consegue acreditar sem fissuras. 
Não por fraqueza, 
Mas porque a fé intacta 
É um descanso que perdi. 
 
O pensamento profundo 
Não grita nem consola. 
Ele permanece, 
Como uma dor antiga 
Que já não sangra, 
Mas nunca passa. 
 
O conhecimento não foi salvação. 
Foi consciência. 
E a consciência, 
Quando não pode ser desfeita, 
É o mais humano 
E o mais trágico dos destinos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Capitalismo religioso

 Eu não falo de um amor convertido em cifra, 
Nem de afetos que cabem em planilhas celestiais. 
Recuso o altar onde a fé tem etiqueta, 
E a graça é vendida em suaves prestações 
Para corações endividados de esperança. 
 
Eu não falo de um amor que negocia milagres, 
Que pesa a alma em balanças de mercado, 
Onde a bênção depende do saldo 
E Deus é reduzido a um contrato 
Com cláusulas de prosperidade. 
 
Falo de um amor que não cobra ingresso, 
Que não exige senha, nem comprovante. 
Um amor que não transforma o sagrado em produto 
Nem a oração em moeda de troca 
Para comprar um pedaço de eternidade. 
 
Porque o amor, quando verdadeiro, 
Não rende dividendos nem juros compostos. 
Ele arde gratuito, indomável, 
Como algo que jamais aceitaria 
Ser propriedade de qualquer sistema. 
 
E se há fé nesse amor que digo, 
Ela não se ajoelha ao lucro, 
Mas à vertigem de existir e sentir, 
Onde o divino não é mercadoria, 
Mas um mistério que não se vende. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Distante, não ausente

 Estou distante, amor, mas não ausente, 
Pois há caminhos que não são de chão; 
A distância é um truque inconsequente, 
Um véu que o mundo estende sobre a mão. 
 
Teu nome em mim persiste, incandescente, 
Como uma chama oculta na amplidão; 
O tempo curva-se, impotente, 
Ao que resiste além da separação. 
 
Se o corpo parte, a essência permanece, 
Tecendo pontes onde nada se vê; 
O longe é só miragem que fenece. 
 
Amar é um modo estranho de vencer: 
Quanto mais o universo nos esquece, 
Mais perto estás, sem nunca me perder. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Passado mal resolvido

 Se não tomar cuidado, 
O passado não fica para trás, 
Ele aprende o caminho de volta. 
 
O passado é paciente. 
Não grita, não força portas. 
Apenas espera 
Que a saudade destranque tudo. 
 
Há memórias que começam como lembrança 
E terminam como algema. 
O perigo não está em recordar, 
Mas em morar onde já não se vive. 
 
O passado, quando mal resolvido, 
Não é arquivo, é âncora. 
Carregá-lo no peito é humano. 
Arrastá-lo nos pés é prisão. 
 
Existem dias que já acabaram, 
Mas continuam acontecendo dentro de nós. 
Toda nostalgia tem algo de doce 
E algo de uma cela amarga. 
 
O passado 
É um excelente contador de histórias, 
Mas um péssimo lugar para construir morada. 
 
Quem vive só olhando para trás 
Corre o risco de transformar 
Lembranças em correntes 
E o ontem em carcereiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Se a ausência dói

 Penso em você nos intervalos do dia, 
Naqueles instantes em que o tempo falha 
E o coração, distraído, pronuncia teu nome 
Como se fosse uma prece antiga, 
Dessas que a gente nunca esquece de verdade. 
 
Estar longe é só um estado do corpo, 
Porque a memória não obedece estradas. 
Ela fica, insiste, reaparece, 
Feito perfume que não aceita ir embora, 
Feito saudade que aprendeu a respirar sozinha. 
 
Se a ausência dói, é porque você ficou. 
Não na rotina, não nos objetos, 
Mas nesse lugar indizível 
Onde moram as coisas eternas: 
Entre um pensamento e outro, 
Entre o que sou 
E tudo o que ainda lembro de ser com você. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Essa morada indomável

 Todos os dias você amanhece em mim 
Como uma lembrança que não pediu licença. 
Não bate à porta, simplesmente existe, 
Feito luz infiltrada pelas frestas 
De um quarto que desaprendeu o escuro. 
 
E todas as noites você retorna, 
Não como quem chega, mas como quem nunca saiu. 
Habita o silêncio entre um pensamento e outro, 
Escorre manso pelas horas insones, 
Feito sombra que conhece o caminho de cor. 
 
Há algo de eterno em sua ausência, 
Algo de íntimo em sua distância. 
Porque o corpo pode desconhecer o toque, 
Mas a mente, essa morada indomável, 
Insiste em refazer você dentro de mim. 
 
Você vive onde ninguém vê, 
Onde o mundo não alcança, 
Onde até o tempo hesita: 
Nesse território invisível e vasto 
Que chamam, com descuido, de pensamento. 
 
Entre dias que passam 
E noites que se acumulam, 
Você permanece, inexplicavelmente viva, 
Como uma presença sem forma, 
Como um destino que escolheu não partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Apologia ao conhecimento IV

 O conhecimento me visitou 
Quando já não havia testemunhas. 
Não bateu à porta, 
Sentou-se comigo 
No escuro. 
 
Aprender foi perder o chão 
Dentro de mim. 
As certezas caíram primeiro, 
Depois as palavras fáceis, 
Por fim, a paz. 
 
Descobri que saber 
É conversar com aquilo 
Que eu tentava calar. 
E ele nunca responde 
Com gentileza. 
 
Há pensamentos que não compartilho, 
Não por orgulho, 
Mas porque nasceram 
Num lugar 
Onde só eu sangrei. 
 
O conhecimento não me fez melhor. 
Fez-me mais atento 
Às minhas próprias mentiras 
E menos indulgente 
Com meus silêncios. 
 
Às vezes sinto saudade 
De quando não sabia. 
Mas sei que essa saudade 
Já é um efeito do saber, 
E não um refúgio. 
 
Pensar é ficar acordado 
Quando o mundo dorme 
E perceber 
Que ninguém virá 
Confirmar se estou certo. 
 
O que aprendi 
Não cabe em discurso. 
Cabe em vigílias, 
Em pausas longas, 
Em escolhas que não explico. 
 
O conhecimento 
Não me afastou das pessoas, 
Aproximou-me de mim. 
E isso, confesso, 
Foi o mais difícil de suportar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Pantanal

 No espelho lento das águas sem fim, 
O céu se deita em brasas e ouro velho; 
O sol, cansado, inclina-se enfim, 
Bordando fogo no silêncio vermelho. 
 
Respira a terra em húmus e jasmim, 
Enquanto a tarde afunda sem conselho; 
E o vento escreve em ondas de capim 
Segredos fundos de um antigo anelo. 
 
À tona, imóveis como a própria lei, 
Repousam jacarés, olhos de tempo, 
Guardando a luz que morre sem ruído. 
 
O dia cede ao sono que já sei, 
E o Pantanal, em místico acalento, 
Acende estrelas no horizonte diluído. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Não tenho tempo a perder

 Não tenho tempo a perder. 
O relógio já não é objeto, é sentença. 
Cada segundo me cobra uma coragem 
Que ontem eu fingia possuir 
E hoje me falta como ar em peito aflito. 
 
Cansei das estradas que não levam, 
Dos “talvez” que se vestem de promessa, 
Dos planos que nascem com o vício da dúvida. 
Quero o chão firme das certezas possíveis, 
Mesmo que modestas, mesmo que breves. 
 
Já não negocio com miragens. 
Aprendi que a esperança também cansa 
Quando vive de hipóteses frágeis. 
Agora só me interessa o que respira realidade, 
O que aceita nascer imperfeito, mas verdadeiro. 
 
Não tenho tempo para ensaios eternos, 
Nem para o conforto morno das indecisões. 
Quero o risco lúcido das escolhas, 
A dignidade de tentar o que pode florescer, 
A paz severa de não mentir para mim mesmo. 
 
Se é para caminhar, que seja na mesma direção. 
Se é para sonhar, que haja matéria no sonho. 
Se é para esperar, que a espera construa. 
Pois o tempo, esse credor impiedoso, 
Não perdoa vidas adiadas. 
 
Sigo, menos ingênuo, mais atento: 
Não buscando garantias impossíveis, 
Mas aquilo que, apesar de tudo, 
Tem a rara e silenciosa vocação 
De dar certo. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Como quem evita um abismo

 Há olhares que não apenas veem, 
Eles invadem. 
E o meu gesto mais sincero foi tentar fugir 
Como quem fecha as janelas durante a tempestade, 
Sem perceber que a chuva já mora dentro. 
 
Desviei-me como quem evita um abismo, 
Mas certos abismos aprendem a caminhar. 
Onde eu mirava o chão, você ainda estava, 
Silenciosa e inevitável, 
Como destino disfarçado de acaso. 
 
Fingir indiferença foi minha última defesa. 
Ergui muros, inventei distrações, calei impulsos. 
Mas havia algo no seu olhar 
Que atravessava minhas negações 
Como luz atravessa frestas. 
 
Evitar você tornou-se uma forma de vê-la. 
Na recusa, sua presença crescia. 
No esforço de não olhar, 
Meus olhos tornaram-se ainda mais seus, 
Reféns de uma ausência impossível. 
 
Há batalhas que se perdem em silêncio. 
Ninguém percebe o colapso interno, 
Ninguém escuta o ruído da rendição, 
Pois tudo acontece no território invisível 
Entre dois pares de olhos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Não toleram a superfície

 A poesia e a filosofia não toleram a superfície. 
Elas caminham como ventos antigos, 
Levantando o pó do costume, 
Até que a paisagem banal se revele 
Cheia de sombras e relâmpagos. 
 
Arrancar a máscara do óbvio é um ato de revelação: 
Deixa-se ver o que sempre esteve ali, 
Mas adormecido nos cantos da consciência. 
É o despertar daquilo que se oculta 
Sob a pressa dos dias, 
Sob o peso das palavras gastas. 
 
O incômodo que provocam não é uma dor vulgar, 
Mas a vertigem da altura. 
De repente, estamos diante do abismo 
Não como ameaça, 
Mas como horizonte. 
 
A poesia acende a chama da pergunta, 
A filosofia alimenta o fogo da dúvida. 
Juntas, abrem clareiras na escuridão 
Para que o espírito perceba 
Que o óbvio nunca foi um destino, 
Apenas um repouso breve 
No caminho da descoberta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense