O relógio já não é objeto, é sentença.
Cada segundo me cobra uma coragem
Que ontem eu fingia possuir
E hoje me falta como ar em peito aflito.
Cansei das estradas que não levam,
Dos “talvez” que se vestem de promessa,
Dos planos que nascem com o vício da dúvida.
Quero o chão firme das certezas possíveis,
Mesmo que modestas, mesmo que breves.
Já não negocio com miragens.
Aprendi que a esperança também cansa
Quando vive de hipóteses frágeis.
Agora só me interessa o que respira realidade,
O que aceita nascer imperfeito, mas verdadeiro.
Não tenho tempo para ensaios eternos,
Nem para o conforto morno das indecisões.
Quero o risco lúcido das escolhas,
A dignidade de tentar o que pode florescer,
A paz severa de não mentir para mim mesmo.
Se é para caminhar, que seja na mesma direção.
Se é para sonhar, que haja matéria no sonho.
Se é para esperar, que a espera construa.
Pois o tempo, esse credor impiedoso,
Não perdoa vidas adiadas.
Sigo, menos ingênuo, mais atento:
Não buscando garantias impossíveis,
Mas aquilo que, apesar de tudo,
Tem a rara e silenciosa vocação
De dar certo.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














