sábado, 21 de março de 2026

O lúgubre uivo gutural

 Perguntas não trazem respostas, apenas ecos, 
Como passos perdidos em corredores sem fim. 
Interrogam o vazio e o vazio responde com silêncio, 
Um silêncio denso, quase palpável, quase vivo. 
E seguimos, colecionando dúvidas como cicatrizes, 
Cada uma aberta pelo gesto inútil de compreender, 
Cada uma ardendo sob a pele do que não se explica. 
 
Os dias são preenchidos por incompreensão, 
Um pó fino que se deposita sobre as horas. 
Nada se encaixa, nem o riso, nem o cansaço, 
Nem o nome das coisas que deixaram de ser. 
Vivemos em frases interrompidas pelo nada, 
Em gestos que não encontram destino, 
Em sentidos que se desfazem antes de nascer. 
 
Há aqueles que tornam-se sombras nas tardes de verão, 
Quando a luz é excessiva e revela demais. 
Desaparecem à margem do calor e do brilho, 
Dissolvem-se no ar pesado de agosto. 
São presenças que já não pesam no mundo, 
Rostos que o sol esqueceu de iluminar, 
Silhuetas que o tempo não quis guardar. 
 
E então surge o lúgubre uivo gutural, 
Rasgando a noite como um segredo antigo. 
Não é voz, é ferida aberta no escuro, 
É algo que chama sem saber quem responde. 
Cercado de escuridão, ele se multiplica, 
Ecoando em cavernas que habitam o peito, 
Onde o medo aprende a falar sem palavras. 
 
Resta apenas o intervalo entre as coisas, 
Um espaço onde tudo se perde e insiste. 
As perguntas permanecem, imóveis, vigilantes, 
Como olhos que nunca se fecham. 
E nós, meio carne, meio sombra, seguimos, 
Carregando o indizível como destino, 
À espera de respostas que jamais chegarão. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Pelos becos desérticos

 O vírus é a cura, sussurra o corpo febril, 
Como se a doença fosse um código secreto, 
Um mapa inscrito na carne em ruínas, 
Onde cada célula aprende a ruir para existir 
E a dor se torna um tipo torto de salvação. 
 
O vazio é o parasita mais antigo, 
Instala-se antes mesmo do primeiro grito, 
Alimenta-se de nomes, de rostos, de promessas, 
E cresce nos cantos onde a vida hesita, 
Como uma sombra que devora a própria luz. 
 
Onde está o desmascaramento da cidade? 
As ruas vestem seus disfarces de normalidade, 
Mas há rachaduras nos olhos das vitrines, 
Um tremor nos passos apressados, 
Como se todos soubessem, e negassem. 
 
Uma lívida paranoia flutua no ar, 
Feito névoa que ninguém ousa atravessar, 
Ela cola na pele, infiltra nos pensamentos, 
Torna cada silêncio uma ameaça 
E cada respiração, um presságio. 
 
Há fantasmas pelos becos desérticos, 
Eles não têm rosto, mas têm memória, 
Arrastam correntes de vozes esquecidas, 
Ecoam segredos que ninguém quis guardar 
E vigiam os vivos como espelhos quebrados. 
 
E há um buraco que dá no fundo do abismo, 
Não está na terra, mas no centro, 
Um poço sem fundo sob o peito fechado, 
Onde tudo o que somos despenca em silêncio 
E nunca chega a tocar o fim. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 20 de março de 2026

O encontro começa no caminho

As flores perfumadas do caminho 
Irradiadas pelo sol da manhã 
Fizeram meu olhar buscar o horizonte 
Para descobrir o seu amor. 
E nesse instante, o mundo se tornou promessa. 
 
Havia uma brisa leve atravessando o tempo, 
Como se cada segundo respirasse esperança, 
E o chão, coberto de silêncios antigos, 
Sussurrasse histórias que eu ainda não sabia, 
Mas que já me pertenciam de algum modo. 
 
Meus passos eram ecos de um desejo antigo, 
Um querer que não cabia em palavras simples, 
E o céu, aberto como um livro esquecido, 
Parecia ler em mim aquilo que escondo, 
Como quem reconhece o que ainda virá. 
 
Busquei teu nome entre nuvens dispersas, 
Entre sombras que dançavam na luz, 
E encontrei mais que presença, encontrei sentido, 
Um fio invisível costurando distâncias, 
Transformando ausência em delicada espera. 
 
E então compreendi, ao tocar o horizonte, 
Que amar é caminhar sem garantias, 
Mas com o coração cheio de direções, 
Como quem floresce mesmo no incerto, 
Sabendo que o encontro começa no caminho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quando quero estar só

Há um tipo de silêncio que não é ausência, 
Mas abrigo. 
Querer estar só, às vezes, não nasce da tristeza, 
Mas de um excesso, 
De vozes, de olhares, de expectativas 
Que se acumulam sobre a pele 
Como poeira de dias não vividos por inteiro. 
 
É quando o mundo pesa demais 
E a alma pede um quarto sem janelas, 
Onde possa, enfim, respirar sem ser vista. 
A solidão, nesse instante, 
Não é vazio, é um retorno. 
 
Como quem tira os sapatos 
Depois de uma longa caminhada 
E descobre, nos próprios pés, 
Um território esquecido. 
Estar só é, por vezes, 
A única maneira de não desaparecer. 
 
Porque há encontros que nos apagam 
E ausências que nos acendem. 
E nesse estranho desejo de se afastar de tudo, 
Há um gesto quase sagrado: 
O de recolher-se 
Não para fugir do mundo, 
Mas para voltar a si inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 19 de março de 2026

Onde o saber cresce sem alarde

 Estudar não nasce de um instante, 
Não é centelha que acende e se apaga, 
É fio contínuo costurando as horas, 
Um gesto repetido que se torna forma, 
Um ritmo que educa o próprio tempo. 
 
Há quem pense ser tarefa solitária, 
Um bloco isolado no meio do dia, 
Mas é corrente que atravessa tudo: 
O café, o silêncio, a luz da tarde, 
E até o cansaço que insiste em ficar. 
 
Organizar-se é mais que cumprir horários, 
É dar sentido às pequenas escolhas, 
É transformar minutos dispersos 
Em território firme e habitável, 
Onde a mente aprende a permanecer. 
 
O mundo lá fora gira em ruído, 
Notificações, pressa e distrações, 
Um caos vestido de urgência constante, 
Mas quem aprende a ordenar o dia 
Cria dentro de si um lugar de calma. 
 
E nesse espaço, quase invisível, 
O saber cresce sem alarde, 
Como raiz que se aprofunda no escuro, 
Sustentando árvores que ainda virão, 
Sem precisar anunciar sua força. 
 
Assim, estudar deixa de ser esforço, 
E torna-se um modo de existir, 
Um caminho traçado entre os dias, 
Onde cada passo é também abrigo, 
E cada escolha, um gesto de lucidez. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Digestão (quase) impossível

 Vivo num mundo que não se mastiga, 
Duro como ferro entre os dentes cansados, 
Onde ideias apodrecem antes de nascer, 
E verdades são servidas em pratos quebrados, 
Há um gosto metálico no ar que respiro, 
Como se o tempo tivesse sido envenenado. 
 
Chamam de ordem o que é apenas controle, 
Um fio invisível puxando os gestos possíveis, 
Um roteiro escrito por mãos que não pensam, 
Apenas repetem dogmas antigos e insensíveis, 
E cada voz que tenta ser livre 
É silenciada por ecos previsíveis. 
 
As ruas caminham sozinhas, sem destino, 
Cheias de corpos que esqueceram de sonhar, 
Olhos que brilham apenas por reflexo, 
Como vitrines vazias a se iluminar, 
E o silêncio pesa mais que qualquer grito, 
Porque ninguém ousa escutar. 
 
O sistema mastiga nossas vontades, 
Cospe versões menores de quem fomos, 
Nos reduz a números, códigos, padrões, 
A peças frágeis em mecanismos autônomos, 
E nos convence, com falsa ternura, 
De que somos livres, enquanto decompomos. 
 
Há uma ignorância vestida de certeza, 
Um orgulho cego que recusa enxergar, 
Como um rei nu que se crê absoluto, 
Reinando sobre um nada a desmoronar, 
E quem ousa apontar o vazio 
É tratado como alguém a se apagar. 
 
Mesmo assim, algo resiste nas sombras, 
Um fragmento indomável de lucidez, 
Uma chama que não aceita ser moldada, 
Nem dobrada pela fria estupidez, 
Um sussurro que insiste em dizer: 
“Há mais do que essa bruta insensatez.” 
 
E quem sabe seja por isso que sobrevivemos, 
Não no mundo, mas contra ele, 
Na recusa silenciosa de engolir o absurdo, 
Na coragem de sentir o que não cabe nele, 
Pois viver, aqui, é um ato de ruptura, 
Um não constante ao que nos repele. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 18 de março de 2026

A prova de que ainda estamos vivos

A poesia e a filosofia não vieram 
Para adormecer consciências, 
Mas para quebrar o vidro do hábito, 
Rasgar o verniz da normalidade 
E devolver ao espírito o peso da lucidez. 
Elas incomodam porque desnudam. 
 
O que chamamos de óbvio não é verdade, 
É apenas preguiça da alma, 
É a máscara barata que cobre 
A vastidão de nossas perguntas. 
 
A poesia não aceita o chão raso: 
Ela mergulha, atravessa, sangra símbolos, 
Faz do silêncio 
Um grito e da palavra um abismo. 
A filosofia não aceita muros: 
Ela questiona, perfura, 
Expõe a ferrugem dos sistemas 
E mostra que o pensamento 
Só respira na incerteza. 
 
Quem busca conforto deve fugir delas. 
Pois nelas não há consolo, 
Há movimento. 
Nelas não há respostas, 
Há um chamado para queimar as respostas 
E renascer das cinzas da dúvida. 
 
O incômodo é a prova 
De que ainda estamos vivos. 
E se a poesia e a filosofia ferem, 
É porque arrancam de nós a anestesia, 
E só desperto 
Pode alguém escolher o seu próprio caminho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A alavanca

 Tropeço nos ensaios que a vida me oferece, 
Como ator que esquece as falas no meio da cena. 
Mas não é a queda que decide o meu destino, 
É a busca silenciosa dentro de mim 
Pela alavanca que me levanta outra vez. 
 
Há dias em que o chão parece definitivo, 
E o erro ecoa como aplauso invertido. 
Caminho entre tentativas mal acabadas, 
Figurino rasgado de sonhos provisórios, 
Aprendendo a cair sem abandonar o palco. 
 
Porque viver é ensaiar sem roteiro final, 
É repetir gestos até que façam sentido. 
Cada tropeço afrouxa um parafuso do medo, 
Cada falha revela uma porta escondida 
Onde a esperança repousa em silêncio. 
 
Procuro então a pequena alavanca invisível, 
A força mínima que muda todo o peso. 
Um pensamento, um afeto, uma memória, 
Qualquer centelha capaz de mover o mundo 
Quando tudo em mim parece imóvel. 
 
E quando a encontro, às vezes tão simples, 
Levanto como quem redescobre o próprio corpo. 
Os tropeços ficam espalhados pelo caminho 
Como marcas de um aprendizado secreto: 
Cair também faz parte de aprender a subir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 17 de março de 2026

Humano

 Você não é a parabólica que instalou no telhado, 
Girando em busca de sinais distantes, 
Captando vozes que não são suas. 
O céu não cabe em cabos e antenas, 
E a sua essência não depende de frequência alguma. 
 
Você não é o microchip que construiu, 
Minúsculo templo de silício e lógica, 
Onde números marcham em silêncio. 
Mesmo que as máquinas aprendam a falar, 
Há em você um idioma que não pode ser programado. 
 
Você não é o arranha-céu erguido em concreto, 
Nem a altura que os olhos invejam nas cidades. 
Torres são apenas pedras empilhadas 
Tentando tocar um céu que sempre escapa. 
Grandeza não mora em andares numerados. 
 
Você é o intervalo entre uma ideia e outra, 
O espaço onde a dúvida respira. 
É o instante em que alguém para e pergunta 
Se o mundo pode ser diferente 
Do que os mapas insistem em mostrar. 
 
Você é feito de perguntas antigas, 
Daquelas que nenhuma máquina responde. 
Carrega dentro do peito uma noite inteira 
Cheia de estrelas ainda sem nome, 
Esperando apenas que alguém as veja. 
 
Você não precisa de coroas de vidro, 
Nem de circuitos brilhando na escuridão. 
O que você é cresce em silêncio, 
Como uma raiz que atravessa a pedra 
Sem pedir licença ao mundo. 
 
E quando tudo o que foi construído ruir, 
Antenas, chips e cidades verticais, 
Restará aquilo que nunca foi fabricado: 
Esse sopro estranho e indomável 
Que insiste em chamar você de humano. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 16 de março de 2026

Escravo moderno

Quando olhamos um operário, vemos um escravo, 
Não das correntes visíveis, mas do tempo vendido. 
Seu suor não pinga no chão: 
Escorre para relógios alheios, 
Seu nome some no ruído das máquinas, 
E seu cansaço nunca assina o próprio descanso. 
 
Ele acorda antes do sol aprender a nascer, 
Carrega o mundo nas costas sem nunca possuí-lo, 
Constrói casas onde jamais dormirá, 
Ergue pontes que não atravessam sua vida, 
E aprende cedo que dignidade não paga aluguel. 
 
Chamam de trabalho aquilo que o consome inteiro, 
De escolha aquilo que nunca foi opção, 
De mérito a sobrevivência forçada. 
Quando olhamos um operário, 
Vemos um escravo moderno: 
Livre apenas para continuar obedecendo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Imortalizado

Não falo de um amor embalsamado, 
Preservado em vitrines de gestos ensaiados, 
Nem desse afeto que nunca morre 
Porque nunca viveu fora das molduras 
Ou do aplauso confortável dos olhares. 
 
Não falo de flores que não apodrecem, 
Da beleza que não conhece o tempo, 
Pois o que não murcha também não respira, 
E o que não sangra jamais foi pulsação, 
Apenas ornamento obediente. 
 
Falo de um amor que ousa adoecer, 
Que carrega em si o risco e a ruína, 
Que treme diante do fim como quem sente frio, 
Porque é feito da mesma matéria frágil 
Que sustenta os dias e os corpos. 
 
Um amor sem estátuas, sem eternidades, 
Mas intenso o bastante para justificar o abismo; 
Um amor que não pede para ser lembrado, 
Apenas vivido, imortalizado,
Mesmo que sobreviva apenas como cicatriz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 15 de março de 2026

Lúdicas fantasias

 Teu amor é uma moeda rara 
Que não circula nos mercados do mundo. 
Quando cai em minhas mãos cansadas, 
Faz de mim um homem mais valioso 
Do que qualquer ouro escondido na terra. 
 
Teus sonhos são mapas invisíveis 
Que orientam o rumo do meu caminhar. 
Quando teus olhos imaginam o futuro, 
Meu próprio coração aprende a sonhar 
Como quem aprende novamente a viver. 
 
Teu coração pulsa como uma bomba viva, 
Não de guerra, mas de abundância. 
A cada batida derrama riqueza em mim, 
E minha existência, antes tão simples, 
Se torna um tesouro inesperado. 
 
Nos teus prazeres encontro jardins secretos, 
Onde minha imaginação passeia livre. 
São lúdicas fantasias que florescem 
Entre risos, silêncio e desejo, 
Como estrelas brincando na noite. 
 
 Assim seguimos, dois viajantes do afeto, 
Trocando riquezas que o mundo não mede. 
Teu amor me valoriza, me reinventa, 
E em cada gesto teu descubro 
Que amar também é aprender a sonhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O homem da coluna envergada

 Somos uma geração de costas curvadas. 
Não pelo peso do tempo, 
Mas pelo peso das horas vendidas. 
Endireitamo-nos apenas quando nascemos 
Depois disso, a vida nos dobra lentamente 
Como quem dobra um papel 
Até caber dentro de um relógio de ponto. 
 
Nossas colunas não se curvam diante dos deuses, 
Nem diante do mistério do universo. 
Curvam-se diante de planilhas, 
Metas, 
Turnos, 
E promessas de sobrevivência. 
 
Há algo de trágico nisso: 
Trocaram-nos o horizonte pela repetição, 
E a mente, essa massa cinzenta 
Capaz de imaginar mundos, 
Foi comprada 
Em suaves prestações de salário. 
Vendemos pensamentos 
Para pagar o direito de continuar pensando. 
 
Assim nasceu o homem de coluna envergada: 
Não um derrotado, 
Mas um sobrevivente 
De um sistema que descobriu 
Que era mais lucrativo comprar o cérebro 
Se primeiro dobrasse as costas. 
 
E, no entanto, 
Há momentos perigosos para o mundo: 
Quando um trabalhador se endireita. 
Quando uma coluna cansada 
Lembra que foi feita 
Para sustentar o corpo erguido, 
Não para carregar eternamente 
O peso do lucro alheio. 
 
Uma coluna que se levanta 
É também uma consciência que desperta. 
E quando a consciência desperta, 
As costas deixam de ser apenas curvadas, 
Tornam-se espinha dorsal de revolta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 14 de março de 2026

Uma nuvem escura

 Pense em mim 
Como uma nuvem escura 
Que pairava sobre tua vida esquecida, 
Uma sombra lenta atravessando teus dias 
Sem sabor e sem memória. 
 
Eu vinha pesado de silêncios, 
Carregado de tempestades que não viste, 
E ainda assim permaneci ali, suspenso, 
Sobre o horizonte pálido do teu mundo 
Que já não sabia chover. 
 
Tua vida era um campo sem vento, 
Uma estrada que ninguém percorre, 
E eu, nuvem errante, 
Esperava o momento de cair 
Em forma de palavra ou relâmpago. 
 
Mas teus olhos eram janelas fechadas, 
Teu coração, uma cidade abandonada, 
Onde minhas sombras apenas passavam 
Como tardes cinzentas 
Que ninguém recorda. 
 
Então parti lentamente no céu do esquecimento, 
Dissolvendo-me no frio da distância, 
E talvez um dia recordes 
Que até as nuvens escuras 
Tentam, às vezes, trazer chuva. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Gritos de poesia

 Eu morri. 
Não como quem dorme, 
Mas como quem se quebra por dentro 
E escuta o próprio silêncio estilhaçar. 
Morri nas esquinas daquilo que eu era. 
Nas promessas que não floresceram. 
Nos nomes que já não cabiam na minha pele. 
 
E então… 
No fundo de um mundo feito de concreto, 
Onde a vida parece sufocada 
Sob camadas de pressa e esquecimento, 
Algo começou a arder. 
Não era destruição. 
Era nascimento. 
 
Abri os olhos como quem rasga a noite. 
Sou uma fênix brotando 
Do lodo duro do cimento, 
Onde ninguém espera milagres. 
Minhas asas não são limpas, 
São feitas de cinza, de falhas, 
De memórias queimadas. 
Mas ainda assim eu voo. 
 
Consumo o que fui em fogo lento, 
E dos meus próprios escombros 
Erguem-se gritos, 
Gritos de poesia. 
Porque há mortes que não são fins. 
São portas. 
E há incêndios 
Que não destroem o mundo. 
Eles acendem a alma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense