O tempo não concede, apenas adia.
E enquanto adia, nos obriga a inventar sentido
Para que o vazio não nos engula vivos.
O poeta descobre cedo demais
Que imaginar não é luxo, é defesa.
Pois o real é sempre insuficiente
Para quem percebe demais.
Há um momento em que o olhar pensa,
E ao pensar, se condena.
Porque ver é assumir o peso da existência,
E pensar o que se vê é tocar o limite do ser.
Na espera, o desejo se torna pergunta:
“Por que algo ao invés de nada?”
E cada resposta nasce falha,
Como se o pensamento soubesse
Que não há justificativa para existir,
Apenas hábito.
O limite da imaginação não é o impossível,
Mas a consciência.
Pois a consciência quer forma,
Enquanto o mundo é fluxo.
Tudo o que se sonha
É uma tentativa de domesticar o caos.
E tudo o que se teme
É uma tentativa de não ter de habitá-lo.
Esperar é ser lançado ao tempo;
Imaginar, ao contrário,
É tentar roubá-lo.
O poeta reconhece, no fim,
Que não há triunfo em criar abismos,
Apenas o direito de não ser devorado por eles.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














