Quando ainda somos promessa e sonho,
Ele já caminha, indiferente,
Vestindo a luz sem pedir licença,
Abrindo portas que não vimos.
A manhã não nos espera.
Ela simplesmente acontece,
Como um rio que ignora margens,
Como o tempo que não negocia
Com nossas vontades tardias.
Vivemos na ilusão do comando,
Mas o dia nunca foi rédea,
É vento, é curso, é queda.
Passa por nossas mãos
Como areia que não se deixa prender.
Ao entardecer, compreendemos:
Muito do que fomos já não cabe em nós.
O sol se despede sem consulta,
E a sombra cresce, serena,
Lembrando-nos da nossa medida.
E a noite vem, soberana,
Fechando o que não terminamos,
Silenciando o que não dissemos.
O dia termina como começou:
Sem jamais ter sido nosso.
Ainda assim, há beleza nisso,
Naquilo que não governamos,
Naquilo que apenas atravessamos.
Pois viver, talvez, seja isto:
Um breve clarão entre dois mistérios.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














