quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A vida não faz discursos

 O café esfriou enquanto eu olhava pela janela. 
Não aconteceu nenhuma revolução. 
O ônibus passou no horário de sempre. 
O cachorro latiu para alguém que nunca vi. 
O mundo continuou indiferente. 
 
Descobri que a vida não faz discursos. 
Ela entrega contas para pagar, 
Cadeiras vazias, 
Telefonemas que não chegam 
E algumas manhãs que insistem em nascer. 
 
As pessoas falam de grandes sonhos. 
Eu desconfio deles. 
Prefiro quem consegue atravessar a semana 
Sem vender a própria consciência 
Por um aplauso qualquer. 
 
Há uma estranha dignidade 
Em voltar para casa cansado, 
Abrir a porta, respirar fundo 
E perceber que ainda existe algo inteiro 
Que o fracasso não conseguiu tocar. 
 
Pode ser que a felicidade nunca tenha feito barulho. 
Talvez ela more nesses instantes esquecidos, 
Quando ninguém está olhando, 
Quando a noite aceita o silêncio 
E você finalmente deixa de fingir ser outro. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Luz, sombra e penumbra

 
I — Luz 
 
Se sinto, então escrevo. 
Escrever é costurar a pele invisível das emoções para que elas não se percam no vento. 
O que não escrevo apodrece dentro; o que escrevo floresce fora. 
Sinto como quem mergulha e escrevo como quem retorna com as mãos cheias de água, e um pouco de céu refletido. 
A tinta é só um pretexto: o que corre na caneta é sangue que decidiu não gritar. 
Quando sinto demais, escrevo para não transbordar. 
Quando sinto de menos, escrevo para me encontrar. 
Palavras não me salvam, mas me mantêm respirando. 
Escrevo não para explicar o que sinto, mas para dar ao sentimento um corpo onde ele possa morar sem me ferir. 
 
II — Sombra 
 
Se sinto, então escrevo. 
Escrever é sangrar em silêncio, é deixar que a dor escorra sem que o mundo perceba. 
O que não escrevo apodrece no fundo da alma, criando raízes escuras que me puxam para baixo. 
Sinto como quem afunda e escrevo como quem respira pela última fenda de luz. 
A tinta não é tinta: é um veneno lento que, ao ser derramado no papel, me cura. 
Quando sinto demais, escrevo para não ser engolido. 
Quando sinto de menos, escrevo para lembrar que ainda existo. 
As palavras são ossos que retiro de mim para reconstruir um corpo que já não reconheço. 
Escrevo para dar forma ao vazio, para que ele não me consuma por inteiro. 
 
III — Penumbra 
 
Se sinto, então escrevo. 
Minhas palavras são pétalas que cortam, perfumes que sufocam. 
Escrevo como quem acaricia uma ferida, não para curá-la, mas para ouvir o que ela tem a dizer. 
Há um tipo de beleza que só nasce do que está prestes a ruir, e é nessa beira de abismo que encontro minha voz. 
Cada frase é um sopro sobre brasas frias, tentando reacender algo que não sei se quero ver arder. 
Quando escrevo, o silêncio perde sua autoridade. 
Quando não escrevo, as sombras decidem por mim. 
Meu papel é um espelho rachado: nele, reflito o que sinto, mas também o que temo demais para sentir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Tudo o que encanta é passageiro

 Teu olhar pousa sobre mim com serenidade, 
Como a luz da manhã sobre a pedra antiga. 
Não traz promessas nem exigências, 
Apenas a presença tranquila das coisas 
Que existem sem precisar se justificar. 
 
Por um instante desejo escapar, 
Mas recordo que fugir é inútil. 
Não governamos os olhos alheios, 
Apenas a forma como acolhemos 
Aquilo que chega ao nosso espírito. 
 
Há beleza na singeleza do teu olhar, 
Mas também uma lição silenciosa: 
Tudo o que encanta é passageiro, 
Como a flor que desabrocha ao amanhecer 
E se entrega ao tempo sem resistência. 
 
Observo teus olhos com calma, 
Sem posse, sem temor, sem ansiedade. 
O que é verdadeiro não precisa ser retido, 
E o que deve partir partirá 
Segundo a ordem invisível do mundo. 
 
Se não consigo escapar desse olhar, 
Também não preciso travar batalha alguma. 
Aceito o instante como ele é, 
E encontro na tua silenciosa presença 
Um exercício de paz e contemplação. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O peso das luzes apagadas

 Nasci entre vozes que chamavam de verdade 
Aquilo que apenas repetiam sem pensar. 
Olhei o mundo e encontrei uma cidade 
Onde muitos preferiam dormir a despertar. 
E me perguntei: quem sonha, quem vive, quem vê? 
 
Nas bibliotecas repousavam perguntas antigas, 
Mas a praça celebrava respostas instantâneas. 
Os livros pareciam velhas testemunhas fatigadas, 
Cercadas por multidões alegres e momentâneas. 
Talvez a solidão seja o preço da lucidez. 
 
Vi homens construindo suas identidades 
Com fragmentos de opiniões emprestadas. 
Temiam o silêncio, onde nascem as verdades, 
E enchiam os dias com certezas fabricadas. 
Há abismos que só a reflexão atravessa. 
 
A ignorância não me pareceu um crime, 
Mas uma escolha repetida até virar destino. 
Cada recusa em compreender algo sublime 
Era mais um passo para longe de si mesmo, um desatino. 
O ser humano foge de si com admirável empenho. 
 
Ainda assim, caminho entre ruínas e esperanças. 
Levo perguntas onde outros levam bandeiras. 
Não procuro respostas finais ou seguranças, 
Apenas a dignidade de enfrentar as incertezas inteiras. 
Existir é permanecer buscando luz na escuridão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Paixão em Preto e Branco

 Ser Corinthians é carregar no peito 
Uma paixão que não conhece medida, 
É sorrir quando a bola encontra a rede, 
É sofrer quando a esperança se despede, 
E ainda assim amar no dia seguinte. 
 
Há lágrimas escondidas na camisa, 
Memórias de derrotas e conquistas, 
Gritos que atravessaram madrugadas, 
E um coração que nunca aprendeu 
A abandonar aquilo que ama. 
 
Quando o Corinthians vence, 
O mundo parece caber num abraço, 
A rua ganha outra alegria, 
E por alguns instantes esquecemos 
Que a vida também sabe machucar. 
 
Mas quando a derrota chega, 
Fica aquele silêncio dentro da alma, 
A televisão perde o brilho, 
O coração reclama do destino, 
Mas a paixão permanece intacta. 
 
Porque ser Corinthians é permanecer, 
É amar quando tudo parece perdido, 
É acreditar depois da última esperança, 
É vestir a mesma camisa outra vez 
E dizer: eu sou Corinthians, sempre. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense 
Homenagem aos 116 anos do Sport Clube Corinthians Paulista!

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Antes que o sol encontre os campos

Caminho antes que o sol encontre os campos. 
A relva ainda conversa com o orvalho. 
Nenhuma árvore deseja ser maior do que é. 
O rio não disputa espaço com as pedras. 
A manhã ensina sem pronunciar uma única palavra. 
 
A cidade mede o tempo pelos relógios. 
A floresta mede o tempo pelas estações. 
Ali descubro que a pressa é uma invenção humana. 
Cada folha permanece fiel ao seu ciclo. 
Cada vento conhece o caminho do retorno. 
 
Possuir pouco é abrir espaço para o essencial. 
O coração respira melhor quando abandona o excesso. 
A riqueza da terra não cabe em moedas. 
Ela se revela no voo dos pássaros, 
Na sombra generosa de uma árvore antiga. 
 
Aprendo mais com o silêncio do lago 
Do que com o ruído das multidões. 
A água não procura convencer ninguém. 
Ela apenas reflete o céu quando está em paz. 
Também a alma encontra clareza quando se aquieta. 
 
Ao regressar, levo apenas o que não pesa. 
A luz da manhã, o perfume da terra, 
A certeza de que viver é um exercício de atenção. 
Quem aprende a ouvir a natureza 
Descobre que ela sempre esteve falando ao coração. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Depois da renúncia

As ruas conservaram o mesmo desenho, 
Mas já não reconhecem os passos de quem fui. 
Há relógios insistindo em medir um tempo 
Que abandonou as antigas promessas 
Antes que eu aprendesse o significado do silêncio. 
 
Os sonhos permanecem em salas vazias, 
Como livros esquecidos sobre uma mesa antiga. 
Ninguém os reclama. 
A poeira lhes concede uma forma de eternidade 
Que o desejo nunca soube oferecer. 
 
Entre a manhã e o entardecer, 
Descubro que a renúncia não é um gesto, 
Mas uma estação da alma. 
As palavras tornam-se mais leves 
Quando deixam de exigir um destino. 
 
Talvez toda esperança seja uma ponte provisória 
Erguida sobre águas que jamais descansam. 
Atravessamo-la acreditando chegar ao futuro, 
E encontramos apenas o eco 
Das escolhas que nos transformaram. 
 
Agora caminho sem perguntar ao horizonte. 
O mundo continua indiferente às minhas perdas. 
Ainda assim, em algum lugar invisível, 
Uma pequena luz recusa o esquecimento, 
Como se a própria ausência pudesse ensinar a permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Mil distrações por minuto

Caminho entre vozes que me chamam por nomes distintos, 
Cada uma prometendo um sentido para a jornada. 
A dispersão espalha placas em todas as estradas, 
E eu, diante delas, descubro a vertigem da escolha: 
Ser livre é também correr o risco de se perder. 
 
O mundo oferece mil distrações por minuto, 
Como se o vazio pudesse ser preenchido pelo movimento. 
Mas quanto mais persigo os brilhos passageiros, 
Mais percebo que a fuga não responde às perguntas 
Que me esperam em silêncio dentro de mim. 
 
A sabedoria não surge como uma revelação celeste; 
Ela nasce da decisão de permanecer. 
É um ato de resistência contra a correnteza do ruído, 
Uma recusa em trocar profundidade por novidade, 
Presença por dispersão, ser por parecer. 
 
Há um deserto escondido sob o excesso de estímulos. 
Nele, as certezas evaporam ao sol da consciência. 
Restam apenas o tempo, a finitude e a escolha. 
E é ali, onde nada nos distrai de nós mesmos, 
Que começamos a construir significado. 
 
Quem sabe a sabedoria seja isto: aceitar o abismo 
Sem a necessidade de cobri-lo com distrações. 
Olhar para a própria existência e não desviar os olhos. 
Compreender que o sentido não é encontrado pronto, 
Mas criado na atenção que dedicamos à vida. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quem sabe ainda haja tempo

Na solidão dos meus dias eu me pergunto em silêncio, 
Por que não pensei em voar para longe daqui, 
Se o céu sempre esteve aberto sobre mim, 
Como um convite azul que nunca expirei, 
Como um destino que temi pronunciar. 
 
Carrego em mim raízes que não plantei, 
Há um peso antigo em meus próprios passos, 
Como se o chão me reconhecesse demais, 
Como se partir fosse trair minha própria história, 
Como se ficar fosse uma forma de sobreviver. 
 
Às vezes sinto o vento me chamar baixinho, 
Sussurrando caminhos que não ousei seguir, 
Mas minhas asas, esquecidas, tremem de dúvida, 
Como memórias de um voo que nunca aconteceu, 
Como sonhos que adormeceram antes de nascer. 
 
Eu não parti, talvez, por medo do vazio, 
Ou por não saber quem eu seria lá longe, 
Longe de tudo que me nomeia e me limita, 
Longe do que dói, mas também me sustenta, 
Longe até de mim mesmo. 
 
Mas hoje, na mesma solidão que me prende, 
Percebo um movimento dentro do peito, 
Um ensaio tímido de liberdade nascente, 
E penso que talvez ainda haja tempo, 
Quem sabe eu ainda possa aprender a voar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Uma infância que nunca termina

 Existem dias que a vida pesa como um céu sem vento, 
Um teto baixo sobre os pensamentos cansados, 
E cada passo parece um acordo com o desgaste, 
Como se existir fosse um fardo inevitável, 
Um silêncio denso onde até o respirar dói. 
 
Mas há um lugar escondido, ninguém vê, 
Um recanto guardado entre lembranças intactas, 
Onde a luz ainda chega sem pedir licença, 
E o tempo não aprendeu a ferir as horas, 
Nem a transformar sonhos em cinzas. 
 
Lá, a alma corre sem nome nem destino, 
Inventa mundos com as mãos vazias, 
Faz do nada um universo inteiro pulsando, 
E do riso, uma linguagem suficiente, 
Para dizer tudo sem dizer palavra alguma. 
 
Quando reencontro esse abrigo esquecido, 
Algo em mim desaprende o peso do mundo, 
As dores se tornam distantes, quase irreais, 
Como ecos de uma vida que não me alcança, 
Como sombras incapazes de me prender. 
 
Compreendo, então, com doçura e espanto. 
Não era a vida que me sufocava por inteiro, 
Era o esquecimento desse lugar em mim, 
Onde ainda sou livre, inteiro, infinito, 
Como uma infância que nunca termina. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O silêncio e a escolha

 Nasci sem respostas diante do horizonte. 
O mundo não explicou a razão da minha chegada. 
Recebi apenas o tempo e a possibilidade de escolher. 
Cada passo tornou-se uma pergunta. 
Cada amanhecer, um julgamento silencioso. 
 
Carrego o peso das decisões que ninguém tomou por mim. 
Até o silêncio participa das minhas escolhas. 
Não existe abrigo permanente contra a incerteza. 
A liberdade também conhece o medo. 
Ainda assim, continuo caminhando. 
 
Procuro um sentido onde talvez exista apenas o caminho. 
As certezas se desfazem como névoa ao sol. 
Descubro que viver não é possuir respostas. 
É permanecer desperto diante do desconhecido. 
É aceitar que o vazio também fala. 
 
Encontro pessoas que escondem a angústia atrás de sorrisos. 
Outras vestem convicções como quem teme a noite. 
Eu também conheço essa tentação. 
Mas a consciência insiste em retirar cada máscara. 
Ela pede apenas honestidade diante de mim mesmo. 
 
Quando a noite cobre o mundo, permaneço atento. 
Não porque encontrei a verdade definitiva. 
Mas porque aprendi a habitar as perguntas. 
A existência deve ser esse diálogo interminável. 
E a esperança, a coragem de continuar ouvindo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não sei explicar o que ficou

Carrego de você um sentimento 
Que o tempo não soube levar, 
Uma presença escondida no silêncio, 
Um nome que a memória ainda sussurra, 
E um coração que insiste em lembrar. 
 
Você ficou nas pequenas coisas, 
Na música que toca ao entardecer, 
Na saudade que chega sem aviso, 
No vazio que ninguém percebe, 
E na vontade secreta de te rever. 
 
Não sei explicar o que ficou, 
Se foi amor, saudade ou destino, 
Sei apenas que existe em mim 
Uma parte que ainda reconhece você, 
Mesmo quando sigo outro caminho. 
 
Pode ser que o tempo mude tudo, 
Talvez transforme a dor em lembrança, 
Mas certas marcas permanecem, 
Como estrelas que sobrevivem à noite, 
Como sonhos que recusam a distância. 
 
Dessa forma carrego você comigo, 
Sem exigir presença ou promessa, 
Apenas guardando o que foi bonito, 
Porque algumas pessoas vão embora, 
Mas nunca deixam de morar na gente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O nascimento da poesia

 Sonhando, vou escrevendo a poesia 
Como quem atravessa névoas sem destino, 
Onde a palavra nasce indecisa e fria, 
Mas arde por dentro como um hino, 
Que só o silêncio compreende e anuncia. 
 
Há noites em que me perco no egoísmo, 
E encontro um outro que nunca fui, 
Um rosto feito de verso suspenso no abismo, 
Um eco de tudo que em mim dilui, 
Como se o sonho fosse meu batismo. 
 
Escrevo sem saber de onde vem 
Essa urgência mansa que me invade, 
Como se alguém sussurrasse além 
Dos limites frágeis da realidade, 
Um segredo que ninguém mais contém. 
 
E cada palavra é um passo no escuro, 
Um risco traçado no ar da memória, 
Um gesto incerto, profundo e impuro, 
Tentando reescrever minha própria história, 
Num tempo que não conhece futuro. 
 
Quando desperto, já não sou inteiro, 
Fica em mim o que o sonho deixou, 
Um verso torto, um sentir derradeiro, 
Um rastro do que nunca se explicou, 
Mas que vive em mim, eterno e primeiro. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Eu vi os sinais

 Meu maior pecado não foi te amar, 
Foi ignorar a voz que em mim gritava, 
Um sussurro lúcido, quase a me salvar, 
Enquanto teu encanto me enlaçava, 
E eu, voluntário, ao erro me entregava. 
 
A razão, austera, batia em meu peito, 
Como quem conhece o fim da estrada, 
Mas teu olhar, tão belo e imperfeito, 
Fez da ilusão uma verdade dourada, 
E da prudência, uma porta fechada. 
 
Eu vi os sinais, não posso negar, 
Nas entrelinhas frias desse tropeço, 
Mas preferi o risco de me afogar 
Ao tédio seguro de um não começo, 
E fiz do caos o meu próprio endereço. 
 
Tem culpas que ardem mais que a ausência, 
Pois nascem da escolha de não ouvir, 
Traí minha própria consciência 
Por um amor que não quis existir, 
E me perdi onde quis me iludir. 
 
Agora caminho entre os restos de mim, 
Com a razão, enfim, ao meu lado, 
Ela não grita, apenas diz “sim” 
Ao que poderia ter sido evitado, 
E ao homem que fui, já quase apagado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Esse amor impossível

 Amo teus olhos que não posso ver, 
Como quem se ajoelha diante de uma luz inventada. 
Eles existem apenas na fresta silenciosa 
Entre um pensamento e outro, 
Entre o que lembro e o que nunca aconteceu. 
Mesmo assim, brilham, 
E às vezes me deixam à deriva, 
Como faróis acesos em um mar 
Que nunca toquei. 
 
Eu os imagino. 
Talvez sejam escuros como a noite antes da tempestade, 
Ou claros como a última memória que resiste 
Quando tudo já deveria ter sido esquecido. 
Não sei. 
Mas amar o invisível também é um tipo de fé, 
Um gesto cego 
Que insiste em declarar existência 
Ao que ainda é só ausência. 
 
E o desejo… 
Ah, o desejo que não posso sentir. 
Ele caminha por dentro de mim 
Como uma chama proibida, 
Uma brasa que jamais toca a pele 
E, mesmo assim, faz do meu peito um deserto quente. 
É um fogo de vento, 
Incendiando o que não existe, 
Queimando o que ainda espero, 
Recordando o que nunca foi meu. 
 
Há noites em que penso: 
Quem sabe eu te ame justamente por nunca te ver. 
Quem sabe teus olhos sejam mais intensos 
Por permanecerem escondidos. 
Ou quem sabe seja essa distância 
Que costura em mim uma ternura estranha, 
Um afeto que cresce onde nada deveria crescer, 
Como flor abrindo entre pedras. 
 
Desejo-te sem corpo, sem toque, 
Sem lembranças para me guiar. 
E ainda assim te encontro no centro do vazio 
Onde teu rosto deveria estar. 
É lá que tu brilhas mais, 
Na sombra da possibilidade, 
No eco de um futuro que nunca chega, 
Na borda tênue entre querer demais 
E não poder nada. 
 
Amo-te desse jeito, 
Como se teus olhos fossem miragem, 
Como se teu gesto fosse vento, 
Como se cada ausência tua 
Fosse um convite silencioso 
Para que eu me aproxime ainda mais. 
 
E é esse amor impossível 
O mais verdadeiro que já senti, 
Porque é feito do que não posso ver 
E do que não ouso tocar, 
Mas que, dentro de mim, 
Queima como se fosse real. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense