É tocar o que não tem pele nem nome,
É abrir a coisa até que reste o nada,
Um sopro frio onde antes havia forma,
E nesse gesto íntimo e profundo
Perceber que tudo escapa à matéria,
Como um segredo que se nega a existir.
Existe um vazio que pulsa sem ser visto,
Um centro oco sustentando o real,
Como se a ausência fosse fundamento,
E o ser apenas um eco hesitante,
Um quase, um talvez, um fio suspenso
Entre o que é e o que nunca chegou a ser,
Um abismo disfarçado de presença.
Eu sempre duvido, não com desespero,
Mas com a lucidez de quem enxerga demais,
Como se existir fosse um costume antigo,
Um hábito herdado do próprio nada,
E nós, frágeis, insistindo em acreditar
Que há chão sob os pés e forma nas coisas,
Quando tudo é vertigem pedindo silêncio.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














