Há um cansaço antigo morando nas praças,
Um eco de promessas que nunca aprenderam a pousar.
Discursos nascem como fogos de artifício,
Luminosos, breves, ensurdecedores,
E morrem antes de tocar o chão da vida comum.
A esperança, essa teimosa, ainda caminha,
Mesmo ferida, mesmo usada como slogan.
Carrega nos ombros o peso de urnas e manchetes,
Enquanto o povo, sempre o povo,
Coleciona sobrevivências em vez de conquistas.
Em Brasília, as palavras vestem ternos caros,
Giram em salões polidos, brindam entre si.
Longe dali, a realidade mastiga o salário mínimo,
Devora o tempo, corrói a paciência,
E ri amarga de cada nova reforma salvadora.
A política, que deveria ser ponte,
Transforma-se tantas vezes em palco.
E o cidadão, figurante involuntário,
Assiste ao espetáculo de alianças improváveis
Como quem vê nuvens prometendo chuva que não vem.
Mas sob o concreto das decepções repetidas,
Algo ainda pulsa, quase invisível, quase ingênuo.
Porque desistir seria entregar o futuro
À mesma engrenagem que nos cansa.
E até o desencanto, no fundo,
É uma forma de esperança ferida.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














