Com janelas que nunca se abrem,
E cortinas que escondem até o próprio sol.
Ali dentro, a poeira é cômoda,
O ar é velho,
Mas ninguém questiona.
São muitos,
São vozes repetidas,
São rostos que assentem sem olhar.
Mas tem também os outros...
Os que acordam o vento.
Os que entram rasgando o ar imóvel
Com perguntas que doem,
Com silêncios que acusam,
Com gestos que te empurram para fora de ti.
Andar com eles
É como caminhar em bordas de penhascos invisíveis,
É tropeçar nos próprios passos,
É descobrir que chão firme pode ser ilusão.
Eles não te oferecem abrigo,
Mas te dão asas estranhas,
Feitas de dúvida e desejo de ir além.
E o preço?
O preço é a perda das antigas certezas.
É o exílio dos cômodos afetos.
É a dor de ser estrangeiro até dentro da própria pele.
Mas o prêmio...
Ah, o prêmio...
É a lucidez que nasce como claridade depois da tempestade.
É o olhar que atravessa véus,
É o pensamento que se recusa a ajoelhar.
Nunca, jamais,
Faças parte da procissão dos adormecidos.
Não te tornes cúmplice do eco que nada diz.
Escolhe sempre
Os que te obrigam a crescer,
Os que desarrumam teus móveis interiores,
Os que te ensinam a soprar as cinzas
Até que reste apenas a chama.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














