Aquele amor que chega
Com uma lista de reformas na mão,
Como um fiscal da prefeitura
Condenando a estrutura da sua alma.
Primeiro pede para você falar menos.
Depois para sonhar menos.
Depois para rir menos.
Depois para ser menos.
E um dia você percebe
Que está sentado numa cadeira,
Olhando para uma parede,
Tentando lembrar quem diabos era
Antes daquela história começar.
O amor de verdade não faz isso.
Ele pode brigar,
Bater portas,
Deixar pratos na pia
E noites mal dormidas.
Mas não exige o assassinato
Da pessoa que você era.
Porque desaparecer
Não é prova de amor.
É só uma forma lenta de morrer
Com aplausos da plateia.
E a vida já tem mortes suficientes.
Quando encontrar alguém
Que deixe seus defeitos respirarem,
Que não queira trocar suas cicatrizes
Por uma versão mais apresentável de você,
Segure sua bebida,
Ouça sua música favorita
E agradeça.
Não acontece todo dia.
A maioria das pessoas
Não procura companhia.
Procura um espelho obediente.
E amor,
Pelo menos do jeito que aprendi,
É outra coisa.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














