quarta-feira, 27 de maio de 2026

Contra a tentação de desistir

 Não é que eu queira me provar 
Além do meu limite. 
Já tentei isso, 
E só encontrei o vazio que me esmaga. 
Hoje, percebo que minha sobrevivência 
Está nos pequenos passos, 
Na repetição quase humilde 
De um gesto que me ancora ao tempo. 
 
Cada avanço meu é mínimo, 
Mas carrego nele uma vitória secreta, 
Um sussurro de resistência 
Contra a tentação de desistir. 
 
Celebrar é, então, 
Meu modo silencioso de dizer a mim mesmo: 
“Eu ainda estou aqui”. 
Mesmo quando o corpo pesa, 
Mesmo quando o mundo parece desabar, 
Há em mim esse resquício de vontade 
Que se recusa a apagar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Hospedeiro de muitos delírios

Eu caminho por atalhos contaminados de vozes, 
Como quem atravessa ruas cobertas de fumaça. 
As palavras grudam na minha pele cansada 
E respiram dentro do meu peito sem licença, 
Feito um vírus antigo recusando a própria morte. 

Aprendi cedo que a linguagem também adoece. 
Há frases que beijam enquanto envenenam, 
Discursos que sorriem mostrando os dentes, 
Promessas costuradas com fios de ferrugem 
Para prender os homens no conforto da mentira. 

Eu mesmo já fui hospedeiro de muitos delírios. 
Repeti verdades prontas como orações vazias, 
Engoli slogans para suportar os dias 
E deixei que pensamentos alheios ocupassem 
Os quartos escuros da minha consciência. 

Agora observo a multidão febril nas avenidas, 
Cada rosto carregando uma epidemia diferente. 
Ninguém percebe o quanto sangra por dentro, 
Porque o ruído do mundo cobre os gemidos 
Como propaganda cobrindo cadáveres na chuva. 

Ainda assim escrevo contra essa contaminação. 
Minha poesia é uma ferida tentando respirar, 
Um corpo recusando o idioma das máquinas. 
E enquanto houver silêncio dentro dos meus olhos, 
Lutarei contra a doença escondida nas palavras. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 26 de maio de 2026

Atravessando essa existência

Caminho sozinho pelas ruas da memória, 
Carregando noites dentro do peito cansado, 
Vejo minha vida passar como fumaça antiga, 
Rostos desaparecem na curva do pensamento, 
E eu permaneço parado diante do tempo. 
 
Às vezes escuto minha própria alma chorando 
Nos corredores silenciosos da madrugada, 
Como um relógio ferido marcando ausências, 
Como um pássaro perdido longe do inverno, 
Procurando abrigo em palavras quebradas. 
 
Escrevo porque o silêncio pesa demais, 
Porque há ruínas crescendo dentro de mim, 
E ninguém percebe os abismos que escondo 
Sob o sorriso cansado das horas comuns, 
Sob meus olhos gastos de esperar respostas. 
 
Recordo amores que o vento levou embora, 
Promessas afundadas na lama dos dias, 
Sonhos envelhecidos antes da manhã chegar, 
E a melancolia senta-se ao meu lado 
Como uma velha amiga que nunca me abandona. 
 
Mas continuo atravessando essa existência, 
Mesmo quando a esperança perde a voz, 
Porque ainda há fogo escondido em minha sombra, 
E enquanto meu coração suportar o vazio, 
Farei da solidão morada para meus versos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre bilhões de galáxias

Não me assusta a brevidade da vida. 
O universo leva eras para acender uma estrela 
E segundos para vê-la desaparecer no horizonte. 
Nós também somos assim: clarões passageiros 
Na vastidão silenciosa do tempo. 

E ainda assim, meu amor, 
Há algo que torna essa existência imensa. 
Não é a duração dos dias, 
Nem a quantidade de anos acumulados sobre a pele, 
Mas aquilo que acontece dentro deles. 

Porque entre bilhões de galáxias indiferentes, 
Entre séculos que vieram antes de nós 
E os que continuarão depois, 
Eu tive o improvável privilégio 
De encontrar você. 

E isso muda tudo. 
Transforma a poeira em memória, 
O acaso em destino, 
O instante em eternidade. 

Se a vida dura pouco diante do universo, 
Que dure. 
Pois houve um momento raro, quase impossível, 
Em que meus olhos cruzaram os seus 
E o infinito, por um breve segundo, 
Teve sentido. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Desconfiança

Existe uma palidez andando sobre os telhados, 
Uma fumaça fria atravessando os corredores da manhã. 
Os homens apertam os próprios punhos no escuro 
Como se o mundo escondesse facas sob a língua 
E cada silêncio anunciasse uma queda inevitável. 

As janelas permanecem abertas para ruas vazias, 
Mas ninguém confia totalmente no horizonte. 
Há um rumor metálico vibrando nas esquinas, 
Um tremor invisível dentro das conversas comuns, 
Como febre escondida sob a pele da cidade. 

As luzes dos aparelhos nunca descansam, 
Alimentam fantasmas elétricos madrugada adentro. 
Cada notícia pinga medo dentro das veias, 
Cada palavra parece carregada de pólvora 
E os sonhos amanhecem cansados antes do corpo. 

Vejo pessoas caminhando depressa demais, 
Olhando para trás sem saber exatamente por quê. 
Carregam tempestades privadas dentro dos olhos, 
Orações quebradas dentro dos bolsos do casaco 
E um cansaço antigo pendurado nos ombros. 

Mesmo assim, algo insiste em sobreviver. 
Uma planta crescendo entre rachaduras do cimento. 
Um abraço tardio salvando alguém do abismo. 
Uma voz mansa atravessando o ruído coletivo 
Como uma vela acesa dentro da névoa lívida. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O ontem se tornou sombra

Não posso voltar para ontem, 
Porque o que fui se dissolveu nas águas do tempo. 
O reflexo que um dia me reconhecia 
Hoje me olha com estranheza e cala. 
 
Ontem era um abrigo feito de enganos, 
Um refúgio onde a esperança dormia sem pressa. 
Mas o tempo, em sua delicada crueldade, 
Me ensinou que até os abrigos apodrecem 
Quando o coração amadurece demais. 
 
Há em mim o eco de uma voz antiga, 
Que me chama de um corpo esquecido. 
Era outro o pulso, outra a fé, outro o medo. 
Voltar seria vestir uma pele que o tempo rasgou, 
Ser estrangeiro de mim mesmo. 
 
Às vezes tento tocar o ontem, 
Como quem busca um fantasma querido. 
Mas o toque atravessa o ar, 
Porque o que fui não me espera mais. 
 
O ontem se tornou sombra, 
E eu, o silêncio que resta depois da sombra. 
Sou o intervalo entre duas versões de mim: 
A que sonhava e a que sobreviveu. 
 
Talvez o ontem ainda exista, 
Guardado em um canto do tempo onde já não moro. 
E tudo o que resta é este corpo novo, 
Feito de perdas que aprenderam a respirar. 
 
Não posso voltar para ontem, 
Porque lá eu era outra pessoa. 
E, ainda que doa, 
É nesse não-retorno que o presente me reconhece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cacerense - A Fera da Fronteira

Na fronteira onde o vento atravessa o Pantanal, 
Há um rugido escondido entre ruas antigas, 
Um clarão azul e branco cortando o entardecer, 
Como se a própria cidade vestisse esperança 
Para enfrentar a poeira dos dias difíceis. 

O Cacerense nasce do coração das margens, 
Do calor que sobe da terra rachada, 
Dos meninos correndo atrás da bola ao pôr do sol, 
Dos sonhos pequenos que insistem em crescer 
Mesmo longe dos olhos do país inteiro. 

Quando a Fera da Fronteira entra em campo, 
O estádio parece respirar junto da cidade, 
As arquibancadas carregam vozes antigas, 
E o Rio Paraguai escuta em silêncio 
O eco das bandeiras agitadas ao vento. 

Há times feitos de cifras e vitrines, 
Mas existem clubes feitos de memória, 
Costurados pela mão simples do povo, 
Pelos vendedores na porta do estádio 
E pelos domingos gravados na infância. 

Torcer aqui nunca foi moda passageira, 
É um pacto silencioso de pertencimento, 
Uma fidelidade que resiste às derrotas, 
Porque amar um clube do interior 
É acreditar mesmo quando tudo escurece. 

O azul da camisa guarda cicatrizes antigas, 
Histórias contadas nas esquinas de Cáceres, 
Dias de glória atravessando gerações, 
Como brasas escondidas sob a cinza 
Esperando o instante de voltar a incendiar. 

Enquanto houver alguém cantando nas arquibancadas, 
A Fera jamais desaparecerá da fronteira, 
Porque certos clubes se tornam eternos 
Quando passam a morar dentro das pessoas 
Como parte viva da alma de uma cidade. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 24 de maio de 2026

O amor conhece caminhos secretos

Existe uma delicadeza triste em esperar, 
Como quem rega um jardim durante a seca 
Sem qualquer promessa de chuva. 
Ainda assim, algo dentro do peito insiste 
Em acreditar no invisível das sementes. 

O tempo ergue oceanos entre duas pessoas, 
Silêncios, cidades, noites intermináveis. 
Mas o amor conhece caminhos secretos 
Que os relógios jamais conseguem medir 
Nem a distância consegue interromper. 

Confio no que não posso tocar. 
Na voz que ainda ecoa depois da despedida, 
Na lembrança que aquece corredores vazios, 
E nesse fio invisível que permanece 
Mesmo quando tudo parece ausente. 

Às vezes o mundo exige provas, 
Datas, certezas e respostas imediatas. 
Mas o coração amadurece devagar, 
Como as estrelas que brilham distante 
Antes de alcançarem nossos olhos cansados. 

Penso que amar seja permanecer aceso, 
Mesmo quando a noite demora demais. 
Talvez esperar seja uma forma de abraço 
Que continua existindo em silêncio 
Até que o impossível encontre seu caminho. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O tempo verdadeiro nunca espera

Quase perdi os sinais daquela manhã, 
O tremor invisível escondido nas pequenas coisas. 
Passei apressado pelas vozes da rua, 
Pelas coincidências que me chamavam pelo nome, 
Como se o impossível fosse apenas um engano da esperança. 
Mas havia algo respirando dentro do instante, 
Uma espécie de destino tentando tocar meu ombro. 

Durante muito tempo temi aquilo que não podia explicar. 
Achei mais seguro permanecer entre certezas gastas, 
Vendo as oportunidades morrerem silenciosamente diante de mim. 
Ainda lembro quantas portas deixei se fecharem 
Por imaginar que o momento perfeito viria depois. 
Hoje entendo que o tempo verdadeiro nunca espera demais 
E que a coragem quase sempre chega atrasada. 

Agora caminho atento às pequenas febres do mundo. 
Escuto os silêncios como quem decifra constelações antigas. 
Aprendi que o impossível não pede licença para existir, 
Ele apenas surge entre uma perda e outra, 
Esperando que eu tenha coragem de reconhecê-lo. 
E quando sinto o instante abrir sua luz diante de mim, 
Já não permito que meus medos decidam sozinho. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 23 de maio de 2026

Em meio à fumaça da cidade

Eu caminho entre fumaças e anúncios luminosos, 
Como quem atravessa um sonho contaminado de ferrugem. 
As avenidas me engolem com seus ruídos metálicos, 
E meus olhos ardem sob as lâmpadas do excesso. 
Às vezes sinto meu nome desaparecer nas vitrines, 
Como se a cidade me mastigasse lentamente 
Sob o ópio cinzento das madrugadas intermináveis. 

Eu retorno para casa carregando silêncios partidos, 
Com o corpo exausto de atravessar multidões vazias. 
Cada janela acesa me parece um pequeno sepulcro, 
Onde alguém adormeceu antes mesmo de viver. 
Vejo mendigos conversando com a própria sombra, 
E trabalhadores desabando dentro dos ônibus noturnos 
Como prédios corroídos por dentro e ainda de pé. 

Ainda escuto alguma coisa pulsando na névoa, 
Uma voz distante sob o concreto e o néon. 
Eu observo as rachaduras escondidas nos edifícios 
E percebo a tristeza respirando entre os fios elétricos. 
Talvez eu também esteja ruindo silenciosamente, 
Mas continuo acordado em meio à fumaça da cidade, 
Tentando salvar algum fragmento de humanidade. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Onde quase ninguém ousa olhar

As pequenas coisas atravessam a cidade sem serem chamadas 
Escorrem pelos cantos dos muros rachados 
Dormem sob os bancos antigos das praças 
Carregam poeira nas costas como quem carrega eras. 
Enquanto os homens erguem vozes sobre destinos grandiosos 
Elas apenas continuam existindo em silêncio 
Como se o mundo dependesse justamente do que ninguém percebe. 

Há olhos cobertos pela fumaça do hábito 
Lentes cansadas pela velocidade dos dias. 
Ninguém se curva para ouvir o rumor do chão 
As vitrines falam mais alto que os insetos noturnos 
E a pressa transforma tudo em superfície. 
 
Uma folha esquecida desliza pela calçada molhada, 
Um cão magro observa o vazio da madrugada. 
As ferrugens desenham continentes secretos nas grades 
O limo cresce paciente nas paredes antigas 
E existe uma espécie de eternidade nesses movimentos mínimos 
Algo que resiste sem precisar de testemunhas 
Algo que não pede permissão para permanecer. 

Os relógios continuam mastigando as horas humanas, 
Mas o musgo desconhece a ansiedade. 
As pequenas vidas seguem seu curso invisível 
Por detrás dos óculos poluídos da cidade 
Há universos inteiros respirando devagar. 

Quem sabe o mundo verdadeiro esteja escondido nas beiradas 
Nos lugares onde a luz não deseja permanecer 
Nas coisas que envelhecem sem importância pública 
Nos restos esquecidos após o espetáculo das multidões. 
Talvez sejamos nós os distraídos diante da existência 
Enquanto o ínfimo aprende silenciosamente a sobreviver 
Dentro das esquinas onde ninguém mais ousa olhar. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Quando te vi

O encanto que vi em você 
Foi como o primeiro amanhecer 
Depois de um longo inverno, 
Uma promessa silenciosa de que o coração 
Ainda sabia florescer. 
 
Havia em você uma luz mansa, 
Dessas que não ferem, mas aquecem. 
E quando te vi, o tempo pareceu se inclinar 
Para ouvir o que o amor dizia em segredo. 
 
O encanto que vi em você 
Fez o mundo caber num só instante, 
Como se cada batida do meu coração 
Repetisse teu nome em forma de esperança. 
 
Tudo em você parecia dizer: “fica”. 
E eu fiquei, 
Não porque quis, 
Mas porque o encanto me prendeu 
Com a doçura de quem sonha acordado. 
 
Quando te vi, o medo partiu. 
Havia em teus olhos o abrigo 
Que minha alma sempre procurou, 
E ali, em silêncio, reconheci o amor. 
 
O encanto que vi em você 
É daquelas raras belezas que não passam, 
Porque nascem de dentro, 
E florescem toda vez que lembro do teu sorriso. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Ergueram altares para a ignorância

Ergueram altares para a ignorância 
Como quem acende velas diante de um espelho vazio. 
Os homens cansados ajoelharam sem perguntas, 
Aceitando migalhas de certezas mastigadas. 
Os profetas surgiram vestidos de promessas luminosas, 
Com mãos cheias de sonhos frágeis 
E olhos incapazes de suportar a própria verdade. 
 
No mar de não ter razão 
Barcos seguem sem direção alguma. 
Os remos foram trocados por discursos 
E a tempestade passou a ser chamada de destino. 
 
Existe um conforto estranho em não pensar profundamente. 
A dúvida pesa mais que correntes antigas. 
Por isso muitos preferem os vendedores de esperança rápida, 
Os sacerdotes da resposta simples, 
Os homens que transformam medo em bandeira. 
Enquanto isso, a noite cresce silenciosa 
Sobre cidades cheias de vozes e vazios. 
 
Os sonhadores falsos conhecem a fome coletiva. 
Oferecem horizontes pintados sobre fumaça. 
Chamam delírio de liberdade 
E cegueira de fé necessária. 
 
Mesmo assim, em algum lugar distante, 
Permanece alguém observando o céu sem aplausos. 
Alguém que escuta o rumor das ondas 
E percebe o naufrágio escondido nas palavras grandiosas. 
Quem sabe a lucidez seja apenas isso. 
Continuar procurando sentido entre ruínas 
Sem transformar a própria ignorância em reino. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Narcisistas

Existem pessoas que vestem o próprio nome 
Como coroas feitas de fumaça, 
E caminham sobre os dias 
Acreditando possuir o mundo 
Apenas porque não ouviram o silêncio. 
 
Esquecem que o tempo devora espelhos, 
Que a pele também aprende a cair, 
E que as horas mortais regressam 
Como aves sombrias da memória 
Sobre os telhados da soberba. 
 
O narcisismo é um jardim sem raízes, 
Belo apenas enquanto dura a luz. 
Depois, a noite revela os vazios 
Guardados atrás das máscaras 
E das palavras erguidas como tronos. 
 
Há uma tentação em sentir-se invencível. 
Não recordar o próprio abismo. 
Mas quem esquece as antigas dores 
Transforma-se lentamente em pedra 
Diante do sofrimento dos outros. 
 
Melhor é carregar alguma humildade 
Como quem leva água na travessia. 
Pois somente os que aceitam a finitude 
Aprendem a tocar o mundo 
Sem desejar possuir todas as coisas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inatingíveis

O tempo atravessa meu corpo em silêncio, 
Como um vento antigo que não reconheço. 
Tento segurá-lo entre os dedos da memória, 
Mas ele escapa pelas frestas do pensamento. 
Tem distâncias que não pertencem ao mundo, 
Somente ao abismo que cresce dentro de nós 
Quando imaginamos aquilo que nunca alcançaremos. 

O espaço me observa de longe, imóvel, 
Feito um deus sem rosto e sem linguagem. 
Cada estrela parece esconder uma ausência, 
Cada noite amplia o tamanho da minha dúvida. 
Sou pequeno diante das coisas intermináveis, 
Mas continuo inventando caminhos invisíveis 
Para suportar a vastidão que me cerca. 

Creio que viver seja tocar impossíveis, 
Erguer sentidos sobre ruínas do incompreensível. 
O imaginar não vence o tempo nem o vazio, 
Apenas ilumina por instantes a escuridão interna. 
Mesmo sabendo que jamais atravessarei o infinito, 
Permaneço ouvindo o eco dos horizontes distantes, 
Como quem encontra na impossibilidade a própria alma. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense