E a poeira acumulada sobre os livros esquecidos,
Eu me sento diante da página em branco.
A tarde dissolve-se lentamente na janela,
Como uma memória que hesita em partir.
As ruas carregam vozes sem origem,
Ecos de conversas interrompidas pelo tempo.
Os homens atravessam os dias apressados,
Guardando nos bolsos pequenas ruínas,
Sem perceber o peso que carregam.
Que nome darei a esta inquietação?
Não é tristeza, nem esperança.
É algo que permanece entre ambas,
Como uma ponte suspensa sobre águas escuras,
Sem margem visível em qualquer direção.
Escrevo fragmentos de uma existência dispersa:
Uma fotografia amarelada, um banco vazio na praça,
O perfume distante de uma embarcação já perdida.
Tudo parece dizer alguma coisa,
Mas numa língua que esqueci há muito tempo.
E quando a noite finalmente debruça sobre o Rio Paraguai,
Restam apenas a página, a lâmpada e o silêncio.
Então compreendo, ainda que por um instante,
Que a alma não busca respostas definitivas,
Mas a coragem de habitar suas perguntas.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














