Como passos perdidos em corredores sem fim.
Interrogam o vazio e o vazio responde com silêncio,
Um silêncio denso, quase palpável, quase vivo.
E seguimos, colecionando dúvidas como cicatrizes,
Cada uma aberta pelo gesto inútil de compreender,
Cada uma ardendo sob a pele do que não se explica.
Os dias são preenchidos por incompreensão,
Um pó fino que se deposita sobre as horas.
Nada se encaixa, nem o riso, nem o cansaço,
Nem o nome das coisas que deixaram de ser.
Vivemos em frases interrompidas pelo nada,
Em gestos que não encontram destino,
Em sentidos que se desfazem antes de nascer.
Há aqueles que tornam-se sombras nas tardes de verão,
Quando a luz é excessiva e revela demais.
Desaparecem à margem do calor e do brilho,
Dissolvem-se no ar pesado de agosto.
São presenças que já não pesam no mundo,
Rostos que o sol esqueceu de iluminar,
Silhuetas que o tempo não quis guardar.
E então surge o lúgubre uivo gutural,
Rasgando a noite como um segredo antigo.
Não é voz, é ferida aberta no escuro,
É algo que chama sem saber quem responde.
Cercado de escuridão, ele se multiplica,
Ecoando em cavernas que habitam o peito,
Onde o medo aprende a falar sem palavras.
Resta apenas o intervalo entre as coisas,
Um espaço onde tudo se perde e insiste.
As perguntas permanecem, imóveis, vigilantes,
Como olhos que nunca se fecham.
E nós, meio carne, meio sombra, seguimos,
Carregando o indizível como destino,
À espera de respostas que jamais chegarão.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














