Às vezes não é o céu que escurece.
É o homem.
Esse ser humano terrível.
O mundo não termina com trombetas
Nem com estrelas caindo,
Ele termina lentamente
Quando a brutalidade se torna costume.
Termina quando a violência deixa de espantar
E passa apenas a cansar.
Há algo de profundamente assustador
No momento em que percebemos
Que a barbárie não vem de monstros,
Mas de mãos humanas
Que aprenderam a apertar gatilhos,
Erguer muros, e fechar os olhos.
O fim do mundo começa assim:
Não com um estrondo,
Mas com a perda do espanto.
Quando a dor do outro já não nos atravessa.
Quando a mentira vira estratégia.
Quando a crueldade encontra aplausos.
Nesse momento,
Algo dentro da própria humanidade
Se despedaça em silêncio.
E então sentimos aquela estranha sensação,
Como se o chão da história estivesse cedendo,
Como se estivéssemos vivendo
Entre ruínas que ainda não caíram,
Mas já perderam sua alma.
O mais terrível
É que o mundo continua girando.
As manhãs ainda chegam.
Os pássaros ainda atravessam o céu.
Os rios continuam correndo.
Mas algo essencial
Parece ter sido quebrado dentro do homem.
E quem garante que não seja isso
Que faz nascer em nós
Essa sensação difícil de explicar:
A impressão de que o mundo
Não está acabando pela natureza,
Nem pelo tempo,
Mas pela incapacidade humana
De continuar sendo humano.
Mas penso que,
Enquanto existir alguém
Capaz de se indignar,
De chorar pela dor alheia,
De proteger a vida
Mesmo quando tudo parece perdido,
O mundo ainda não tenha terminado.
Mas esteja apenas esperando
Que a humanidade
Se lembre novamente de si mesma.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














