domingo, 19 de abril de 2026

Os amores que tive

 Eu beijei. 
Beijei como quem tenta esquecer o próprio nome. 
Lábios tantos, corpos em brasa, 
Gemidos que soavam como promessas, 
Mas eu sabia: mentiam. 
Não por maldade. 
Por natureza. 
 
Elas vinham com bocas doces, 
Sorrisos partidos e olhos cheios de sol, 
E me davam seus beijos 
Como quem oferece abrigo. 
Mas eu era tempestade. 
E o abrigo nunca me serviu. 
 
Beijei mulheres 
Como quem tenta furar o véu do mundo. 
Como quem espera que, em algum toque, 
Em alguma língua que se enrosca na minha, 
Eu encontre a resposta. 
 
Mas só encontrei silêncio. 
E mais fome. 
Porque o que me falta, 
Não está na carne. 
Está além. 
Está no escuro entre os mundos. 
Na ausência que pulsa no fundo da alma 
Como um tambor de guerra. 
 
Já amei, ou tentei. 
Mas até no amor 
Eu era abismo. 
 
Elas choravam quando eu partia. 
Achavam que era falta de afeto. 
Não sabiam que era excesso. 
Excesso de um vazio que cresce, 
Que consome, 
Que grita por algo 
Que nenhuma mulher carrega entre os lábios. 
 
Eu busco uma sede que não tem boca. 
Um nome que não tem som. 
E enquanto elas se vestem depois do amor, 
Eu permaneço nu, 
Dentro de mim, 
Gritando por aquilo 
Que jamais virá. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A prisão que te cala

 Eles nos ensinaram a sorrir com o rosto, 
Enquanto o espírito apodrecia em silêncio. 
Diziam: “seja forte”, 
Mas queriam dizer: “se conforme”. 
 
Crescemos enjaulados em palavras alheias, 
"Normal", "certo", "aceitável". 
A língua virou grilhão, 
E o pensamento, cela acolchoada. 
 
Somos corpos treinados para se curvar 
Diante de deuses sem rosto, 
Status, moral, aparência. 
Sacrificamos o íntimo 
No altar do coletivo. 
 
Há gritos que só ecoam por dentro, 
Afogados em expectativas herdadas. 
Ser livre dói mais do que ser escravo, 
Porque te faz ver 
A prisão que você mesmo construiu. 
 
Não há grades, mas há normas. 
Não há guardas, mas há julgamentos. 
Não há chicotes, 
Mas cada elogio por obediência 
É um novo elo na corrente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 18 de abril de 2026

És presença inevitável

 Amar-te é um ofício sem método nem medida, 
Um sopro que me encontra antes do pensamento, 
Como se o coração soubesse antes da vida 
O caminho exato do teu nome em mim. 
E tudo começa quando simplesmente existes. 
 
Não te procuro, és presença inevitável, 
Como a luz que invade sem pedir licença, 
Como o vento que conhece todas as frestas. 
Pensar em ti é apenas ceder ao que já sou: 
Um eco do amor que em mim te habita. 
 
E se escrevo, não é por escolha ou vaidade, 
É porque o sentir transborda em linguagem, 
Porque teu nome se torna verbo em mim, 
E cada silêncio teu vira verso inteiro, 
Mesmo quando nada é dito entre nós. 
 
Há poesia no gesto invisível de te lembrar, 
Na ausência que ainda assim te desenha, 
No instante em que o mundo se cala 
E resta apenas esse amor que insiste, 
Como um poema que nunca se encerra. 
 
Amar-te é isso: uma escrita sem fim, 
Um livro que não precisa de páginas, 
Um verso que se repete sem desgaste. 
E em cada batida do meu coração, 
És tu, palavra eterna, sendo dita. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um roteiro invisível

 Tem dias em que acordo já escrito. 
Como se alguém, em silêncio, 
Tivesse traçado meu percurso. 
Hora de levantar, de falar, de existir. 
Um roteiro invisível, 
Disciplinado, quase confortável, 
Como um trilho 
Que me poupa do abismo das escolhas. 
 
Mas então… algo escapa. 
Uma ideia atravessa o pensamento 
Como um relâmpago indeciso, 
Uma lembrança inventada, um desejo sem nome, 
E de repente o caminho já não obedece. 
A imaginação abre portas 
Onde antes havia paredes, 
E me convida, 
Não, me arrasta, 
Para fora do previsto. 
 
É nesse desvio que eu me encontro. 
Porque o roteiro é seguro, 
Mas a imaginação é viva. 
O roteiro me mantém inteiro, 
Mas a imaginação me transforma. 
E entre cumprir o que foi planejado 
E me perder no que nunca foi pensado, 
Vou descobrindo que viver 
É um acordo instável 
Entre o que eu deveria ser 
E tudo aquilo que ainda ouso imaginar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Sementes ao vento

 A poesia que escrevo caminha em silêncio, 
Como quem aprende o caminho do sentir, 
Carrega nos versos aquilo que não digo, 
E nas pausas guarda o que não sei traduzir. 
Ela não pede licença ao seu coração, 
Apenas bate, leve, como quem espera, 
Ser acolhida no instante em que você respira. 
 
Escrevo como quem lança sementes no vento, 
Sem saber onde irão florescer, 
Cada palavra é um gesto invisível, 
Um toque que insiste em acontecer. 
Se alguma delas encontrar seu abrigo, 
Já não será mais minha, será nossa, 
Um segredo partilhado sem voz. 
 
Minha poesia se cumpre no encontro, 
Quando seus olhos a vestem de sentido, 
Quando seu peito responde em silêncio, 
Como se já a tivesse vivido. 
Pois o poema não termina no papel, 
Ele começa quando chega até você, 
E passa a existir dentro do seu sentir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Saudade não é culpa

 Saudade não é culpa, nem sombra a esconder, 
É chama acesa na memória que insiste em arder, 
Um sopro antigo que retorna sem pedir licença, 
Um nome dito em silêncio, cheio de presença, 
Um pedaço do que fomos que se recusa a morrer. 
 
Há quem tema esse sentir tão profundo e aberto, 
Como se amar demais fosse um caminho incerto, 
Mas é na saudade que o afeto se revela inteiro, 
Feito rio que, mesmo longe, lembra o primeiro leito, 
E segue correndo dentro, mesmo quando está deserto. 
 
Privilegiado é quem carrega esse doce peso, 
Quem guarda no peito um passado ainda aceso, 
Pois só sente saudade quem viveu de verdade, 
Quem deixou que o outro habitasse sua eternidade, 
E fez do instante breve um infinito indefeso. 
 
A ausência não é nada, é presença transformada, 
É voz que não se escuta, mas nunca foi calada, 
É o toque que persiste mesmo após o adeus, 
É o rastro invisível que liga dois eus, 
Uma distância cheia de alma entrelaçada. 
 
Que venha a saudade, sem medo ou vergonha, 
Ela não fere em vão, nem a dor é tristonha, 
É prova viva de um encontro que valeu existir, 
É amor que aprendeu, mesmo longe, a florir, 
É que, em silêncio, ainda ilumina e acompanha. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Te escrevo em silêncio

 Faço de palavras pequenas a minha oferenda, 
Um gesto suave, quase imperceptível, 
Como quem teme ferir a delicadeza do instante. 
Te escrevo em silêncio, com o coração atento, 
Para não quebrar a doçura do que sinto por você. 
 
És presença que não se impõe, mas floresce, 
Como luz mansa atravessando a manhã. 
Em ti há um sossego que me desarma, 
Uma ternura que me atravessa inteiro, 
Como se amar fosse apenas repousar em ti. 
 
Meu poema não grita, ele sussurra teu nome, 
Entre pausas, suspiros e breves eternidades. 
Cada verso é um toque que não se vê, 
Mas se sente como um arrepio leve, 
Daqueles que o coração guarda em segredo. 
 
Se te ofereço palavras, é porque não sei mais, 
Como conter o que em mim se transforma. 
Tu és o motivo quieto da minha entrega, 
A razão pela qual o amor se fez simples, 
E ainda assim, profundamente infinito. 
 
Se um dia este poema se desfizer no tempo, 
Que reste ao menos o eco do que te dei. 
Um amor sem peso, sem pressa, sem ruído, 
Feito para existir como brisa na tua alma, 
E permanecer, mesmo quando eu me for. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O poeta entre o céu e o chão

 O poeta, às vezes, se esquece do chão, 
E sobe leve nas entrelinhas do vento, 
Costurando memórias com invenção, 
Faz da dor um suave movimento, 
E da vida, um recomeço em expansão. 
 
Há dias em que sua pena é prisão, 
E a palavra pesa como lamento antigo, 
Mas basta um sopro, uma centelha na mão, 
Para romper o silêncio inimigo 
E erguer voo sobre a própria solidão. 
 
Ele escreve histórias dentro da história, 
Como quem redesenha o próprio destino, 
Transforma ausência em tênue memória, 
E no caos encontra um traço divino, 
Fazendo do instante uma eterna vitória. 
 
Seus versos são asas feitas de tempo, 
De tudo aquilo que viveu e perdeu, 
Cada linha carrega um contratempo, 
Mas também o milagre que nasceu 
No abismo entre o sentir e o pensamento. 
 
O poeta segue, entre céu e chão, 
Ora ferido, ora pleno de luz, 
Carregando em si a contradição 
De quem escreve, apaga e ainda produz 
Novas histórias na própria imensidão. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Cada palavra é lágrima

O escritor sente o mundo em demasia, 
Carrega em si dores que não são suas, 
Ouve o pranto oculto em noites nuas, 
E escreve o peso que ninguém diria. 
 
Na alma guarda a amarga travessia 
De ver feridas cruas, sempre abertas, 
E entre sombras densas, frias e desertas, 
Transforma em verso a dor que o guia. 
 
Cada palavra é lágrima contida, 
Cada silêncio, um grito disfarçado, 
Cada linha, um pedaço de partida. 
 
Mesmo assim persiste, condenado 
A dar à dor do mundo alguma vida, 
Fazendo do sofrer seu fado alado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não sei mais como a desejar

 Ela não vem, e ainda assim permanece, 
Como um eco que nunca pediu voz, 
Como um perfume guardado no ar do nada, 
Como um nome que não ouso dizer alto, 
Mas que insiste em nascer dentro de mim. 
 
É estranho amar o que não se alcança, 
Segurar o vazio como se fosse matéria, 
E encontrar nela, na falta, um abrigo, 
Como se a ausência tivesse mãos 
E me tocasse com mais força que a presença. 
 
Eu gosto dela até no que não existe, 
No que não veio, no que não será, 
Nos caminhos que nunca cruzamos, 
Nos gestos que nunca se fizeram, 
E ainda assim me atravessam como memória. 
 
E então não sei mais como desejar, 
Porque desejar é querer aproximar, 
E ela já está em tudo que me cerca, 
No silêncio, no tempo, no meu próprio peito, 
Como um mistério que não se resolve. 
 
Quem sabe, amar assim seja aceitar o invisível, 
Ser casa de algo que não se possui, 
Ser campo onde a saudade floresce sem fim, 
E compreender, enfim, que há sentimentos 
Que não querem chegada, apenas permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 14 de abril de 2026

Perdoa essa pressa do coração

 Eu te peço perdão, 
Não pelo amor, mas pelo susto. 
Ele chegou sem avisar, 
Como chuva em tarde limpa, 
Como vento que abre janelas 
Que jurávamos fechadas. 
E talvez por isso doa mais. 
Porque não houve tempo de preparo, 
Nem espaço para escolher sentir. 
 
Meu amor, eu sei, soa antigo em teus ouvidos. 
Não é novidade, não é chama inédita, 
É canto repetido, 
Melodia que já cansou outros silêncios. 
Mas em mim, ele nasce como se fosse o primeiro, 
Como se o mundo só agora tivesse aprendido 
A pronunciar teu nome. 
 
Perdoa essa pressa do coração, 
Essa urgência que não pediu licença. 
Não sou eu que amo de repente, 
É o amor que irrompe, indomável, 
Como se tivesse esperado anos em segredo 
Apenas pelo instante de te encontrar. 
 
Se te fere, eu me recolho em silêncio. 
Se te cansa, eu transformo em distância. 
Mas se em algum canto de ti 
Essa velha canção ainda ecoar, 
Mesmo baixa, mesmo tímida, 
Saberás que não era sobre o tempo, 
Mas sobre a eternidade 
Disfarçada de encontro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cada olhar teu

 Teus olhos são bibliotecas vivas, 
Onde cada olhar abre um capítulo secreto 
Que só o coração sabe decifrar. 
 
Neles, não há letras, 
Há silêncios que dizem tudo, 
Há páginas que não se viram com as mãos, 
Mas com o estremecer da alma. 
 
Que livro poderia ensinar melhor o amor 
Do que esse brilho que me lê por dentro? 
Sou leitor perdido em tua íris, 
E quanto mais leio, menos desejo o fim. 
 
Porque teus olhos não se esgotam, 
São obras eternas, 
Escritas na linguagem invisível do sentir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A rua

 A rua, outrora calma e conhecida, 
Guardava passos, nomes e destinos; 
No tempo lento, vozes eram hinos 
De uma presença simples, repartida. 
 
Hoje, é um ruído em fuga desmedida, 
Vitrine de desejos tão cristalinos, 
Onde se cruzam vultos peregrinos 
Sem ver na outra face uma acolhida. 
 
Longa, se estende além de qualquer fim, 
Magra, carrega ausências no seu chão, 
Multidão feita de um só deserto, enfim. 
 
Mas algo insiste, oculto na pressão: 
Um resto de encontro dentro de mim, 
Um sopro antigo em meio à dispersão. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Antes mesmo da partida

 Eu senti muito, mais do que o corpo comportava, 
Um sentir que não cabia nas mãos nem no tempo, 
Como se o adeus tivesse peso e respiração, 
Como se cada segundo ao teu lado gritasse permanência, 
Mesmo sabendo que já era quase ausência. 
 
Antes mesmo da partida, a saudade me encontrou, 
Sentou-se ao meu lado, em silêncio, sem pedir licença, 
Olhou nos meus olhos como quem já sabia tudo, 
E ali, no instante ainda inteiro, começou a faltar, 
Aquilo que ainda estava diante de mim. 
 
Teu nome já ecoava como lembrança, não como presença, 
E eu, perdido entre o agora e o depois, 
Tentava segurar o que não se segura: o instante, 
Tentava impedir o tempo de cumprir seu destino, 
Mas o tempo nunca negocia com o desejo. 
 
A despedida veio mansa, mas definitiva, 
Como um vento que não pede, apenas leva, 
E levou de mim o que ainda nem tinha ido, 
Deixando esse vazio cheio de tudo que fomos, 
Esse silêncio que ainda pronuncia teu nome. 
 
Agora sigo, mas não inteiro, nunca inteiro, 
Porque uma parte de mim ficou naquele adeus, 
E outra parte te acompanha, onde quer que estejas, 
Somos, talvez, dois pedaços do mesmo instante, 
Separados no mundo, mas unidos na saudade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 12 de abril de 2026

Surto filosófico

 Conhecer por dentro é desfazer o mundo, 
É tocar o que não tem pele nem nome, 
É abrir a coisa até que reste o nada, 
Um sopro frio onde antes havia forma, 
E nesse gesto íntimo e profundo 
Perceber que tudo escapa à matéria, 
Como um segredo que se nega a existir. 
 
Existe um vazio que pulsa sem ser visto, 
Um centro oco sustentando o real, 
Como se a ausência fosse fundamento, 
E o ser apenas um eco hesitante, 
Um quase, um talvez, um fio suspenso 
Entre o que é e o que nunca chegou a ser, 
Um abismo disfarçado de presença. 
 
Eu sempre duvido, não com desespero, 
Mas com a lucidez de quem enxerga demais, 
Como se existir fosse um costume antigo, 
Um hábito herdado do próprio nada, 
E nós, frágeis, insistindo em acreditar 
Que há chão sob os pés e forma nas coisas, 
Quando tudo é vertigem pedindo silêncio. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense