domingo, 31 de maio de 2026

Cada verso me recorda que existo

Não peço ao caminho que revele seu destino, 
Nem ao vento que explique sua direção. 
Basta-me seguir com passos firmes, 
Aceitando que o horizonte se afasta 
À medida que avanço. 

Há quem deseje dominar o mundo, 
Mas mal conhece o próprio espírito. 
Aprendo com a pedra e com a árvore: 
Permanecer inteiro sob a chuva 
É uma forma silenciosa de sabedoria. 

O poeta não cria a beleza das coisas; 
Apenas aprende a percebê-la. 
Onde muitos veem apenas rotina, 
Ele encontra sinais discretos 
Da ordem oculta do universo. 

Se a tristeza vier, que venha. 
Se a alegria chegar, que também passe. 
Nenhuma estação permanece para sempre, 
E resistir ao curso do tempo 
É lutar contra a própria maré. 

Encontro refúgio na poesia, 
Não como fuga, mas como compreensão. 
Cada verso me recorda que existo, 
E que há dignidade em contemplar 
O que os outros deixam escapar. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um eterno passageiro

Caminho sem saber o nome da rua seguinte, 
Como quem atravessa um sonho sem intérprete. 
Meus passos riscam perguntas sobre a calçada, 
E o vento responde numa língua esquecida. 
Carrego apenas o peso leve da incerteza, 
Enquanto o mundo se desfaz e se refaz ao redor, 
Como um pensamento que nunca chega ao fim. 

Em cada esquina habita uma possibilidade, 
Um rosto que não conheço, uma perda futura, 
Ou talvez um fragmento de mim abandonado no tempo. 
Olho as vitrines, as sombras e os céus partidos, 
E percebo que sou tão passageiro quanto eles. 
Nada permanece além do instante que atravesso, 
E mesmo o instante já começa a se despedir. 

Continuo, porque parar também é um mistério. 
Não sei quem serei depois da próxima curva, 
Nem o que restará das perguntas que me movem. 
Mas há uma estranha beleza nessa ignorância: 
A de existir sem garantias sob o céu indiferente. 
E assim caminho, entre o acaso e o silêncio, 
Procurando um sentido que talvez seja a própria busca. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 30 de maio de 2026

Entre a luz e o abismo

Na caverna, o jovem observava as sombras 
Como quem observa um destino já escrito. 
Ao seu redor, muitos chamavam de verdade 
Aquilo que apenas passava diante dos olhos. 
Ele foi o primeiro a desconfiar da escuridão. 

Quando encontrou a luz, não sentiu conforto. 
A claridade revelou feridas, dúvidas e limites. 
Mesmo assim, continuou caminhando. 
Preferiu a inquietação do conhecimento 
À tranquilidade das ilusões. 

Do alto, contemplou um mundo mais vasto 
Do que tudo aquilo que lhe haviam ensinado. 
Compreendeu que a verdade não é uma posse, 
Mas uma busca interminável 
Que transforma quem a procura. 

Então voltou seus passos para o abismo. 
Diante das portas do inferno de Dante, 
Não buscava glória nem redenção. 
Desejava apenas compreender 
O que existe nas profundezas da alma humana. 

Ao atravessar sombras e chamas, 
Descobriu que a luz e a escuridão 
 Habitam o mesmo coração. 
E seguiu adiante, 
Carregando dentro de si uma pequena chama, 
Suficiente para iluminar 
O caminho dos que ainda procuram. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Parte da paisagem da alma

Você chegou sem anunciar a própria chegada, 
E fez morada nos cômodos mais secretos de mim. 
Desde então, meus dias aprenderam outro ritmo, 
E meus silêncios passaram a dizer o seu nome. 
Já não sei onde terminam meus pensamentos 
E onde começam as lembranças que guardo de você. 
Talvez porque você tenha se tornado parte de quem sou. 

Às vezes me assusta o poder que o destino possui, 
Essa habilidade de separar caminhos que se amam. 
Penso em sua ausência 
Como quem observa uma tempestade distante, 
Esperando que ela jamais alcance o próprio jardim. 
Porque há afetos que não cabem na palavra saudade, 
E perdas que transformam o mundo em um lugar estranho. 
Você é uma dessas presenças que sustentam meus horizontes. 

Se um dia a vida nos colocar em margens diferentes, 
Levarei sua luz acesa dentro de minhas memórias. 
Mesmo assim, confesso 
Que haveria um vazio difícil de nomear, 
Uma espécie de inverno habitando os meus dias. 
Pois algumas pessoas não apenas passam por nós: 
Elas se tornam parte da paisagem da nossa alma, 
E você é o lugar mais bonito que encontrei em mim. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Quando ouso te escrever

Juro que tentei 
Mas não consegui descrever 
A sua beleza em um poema. 
Não por falta de vocabulário, 
Mas por excesso de realidade. 
 
Se tento medir tua beleza, 
O verso encolhe, 
A sintaxe cede, 
E a tinta fica pálida 
Como quem olha o sol de frente. 
 
Há grandezas que se recusam à miniatura, 
E tu és uma delas: 
A escala natural do desejo, 
O traço mais alto do corpo, 
A geometria que insulta os cartógrafos. 
 
O poema é uma maquete, 
Enquanto tu és o edifício inteiro: 
Andares de luz, 
Escadas de perfume, 
Varandas onde repousam tempestades. 
 
Quando ouso te escrever, 
O papel se sente inferior. 
Ele sabe que nasceu para caber mundos, 
Não para tentar medir o teu. 
 
Por isso te digo sem pudor: 
Não cabe beleza tua em nenhuma moldura, 
Nem em métrica, nem em carne, 
Nem em fotografia. 
Teu tamanho é argumento contra a poesia. 
E ainda assim, absurdo maior, 
Sou poeta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Acredito nos jovens que pensam

Nas salas iluminadas por telas inquietas, 
Vejo adolescentes caminhando em círculos, 
Carregando bandeiras que não costuraram, 
Repetindo palavras que não lhes pertencem, 
Como ecos perdidos em corredores vazios. 

Sentam-se lado a lado, mas habitam continentes, 
Separados por fronteiras invisíveis, 
Erguidas por doutrinas embaladas em certezas, 
Por manuais que dispensam perguntas, 
Por respostas entregues antes da dúvida nascer. 

Alguns confundem opinião com identidade, 
E transformam discordâncias em abismos, 
Como se toda diferença fosse ameaça, 
Como se o mundo coubesse inteiro 
Dentro de um único espelho rachado. 

Enquanto isso, a juventude desmorona devagar, 
Não sob o peso das tempestades reais, 
Mas sob o peso das ideias herdadas, 
Que ocupam cada espaço da alma 
E deixam pouco lugar para a descoberta. 

Mesmo assim, acredito nas pontes possíveis, 
Na conversa que desafia os muros, 
Na pergunta que rompe com os dogmas, 
E no jovem que aprende a pensar sozinho, 
Fazendo da liberdade sua própria voz. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Pelas ruas da cidade

Visto meu sorriso como quem acende 
O último cigarro de uma madrugada podre. 
Ninguém precisa saber do estrago. 
Ninguém precisa ouvir 
Meu coração tropeçando no teu nome. 
Bebo café frio, olho a fumaça subir 
E finjo que sobreviver é uma espécie de talento, 
Quando na verdade 
Só estou cansado demais para cair. 
 
Ando pelas ruas com essa cara de homem duro, 
Mas por dentro ainda existe um quarto vazio 
Onde tua ausência dorme atravessada na cama. 
As pessoas falam de política, futebol, dinheiro, 
E eu apenas balanço a cabeça 
Como um idiota educado, 
Porque se eu disser a verdade 
Vou acabar confessando 
Que ainda sinto tua falta todos os dias. 
 
Aprendi que o amor não morre bonito. 
Ele apodrece devagar dentro da gente 
Feito cerveja esquecida 
Sobre a mesa de um bar barato. 
Então mantenho minhas máscaras limpas, 
Meus silêncios afiados, 
E sigo por aí fingindo que não te procuro 
Em cada rosto perdido na fumaça da cidade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Se minha voz alcançar alguém

Não quero falar ao mundo 
Como quem vende certezas nas feiras do ruído. 
Quero apenas que a minha voz 
Atravesse as rachaduras do silêncio 
E encontre algum espírito ainda desperto 
Entre os escombros da indiferença. 

Meus versos não nasceram 
Para ornamentar salões vazios, 
Mas para incomodar consciências adormecidas, 
Para arranhar o verniz confortável da ignorância 
Que se fantasia de sabedoria em bocas apressadas. 

Há uma tristeza funda em viver entre pessoas 
Que já não escutam antes de opinar, 
Que confundem grito com verdade 
E repetição com pensamento. 

Escrevo porque me recuso a aceitar 
Que a mediocridade Seja celebrada como virtude 
E que o desprezo pelo conhecimento 
Se torne costume Entre pessoas cansadas de refletir. 

Não desejo aplausos. 
Desejo leitores que sintam o peso das palavras, 
Que parem por um instante diante de um verso 
Como quem encara um espelho inesperado. 

Se minha voz alcançar alguém, 
Que não seja apenas para consolar, 
Mas para despertar. 
Porque há indignações 
 Que não cabem em discursos, 
Precisam incendiar a linguagem 
 Para continuar vivas. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O vazio deixado por alguém

 Perambulo confuso pelos corredores da noite, 
Como quem perdeu o próprio nome na fumaça do tempo. 
Cambaleio entre memórias e silêncios partidos, 
Tentando encontrar teus passos dentro do escuro. 
Mesmo sem sair do meu quarto, eu viajo distante, 
Atravesso cidades feitas de lembranças antigas 
E continuo te procurando onde já não estás. 
 
Meu quarto guarda ainda o calor do teu descanso, 
A marca invisível do teu corpo sobre os lençóis. 
Às vezes encaro a porta como quem espera um milagre, 
Ouço ruídos pequenos e invento tua chegada. 
A madrugada se senta ao meu lado em silêncio, 
E eu converso com sombras como um homem febril 
Que se recusa a aceitar a ausência definitiva. 
 
Sigo acordado enquanto o mundo adormece distante, 
Preso entre o desejo e a impossibilidade do retorno. 
Há uma tristeza funda vagando dentro do peito, 
Como chuva esquecida sobre ruas abandonadas. 
Ainda assim, caminho pela noite à tua procura, 
Porque amar também é persistir no impossível 
E sobreviver ao vazio deixado por alguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Contra a tentação de desistir

 Não é que eu queira me provar 
Além do meu limite. 
Já tentei isso, 
E só encontrei o vazio que me esmaga. 
Hoje, percebo que minha sobrevivência 
Está nos pequenos passos, 
Na repetição quase humilde 
De um gesto que me ancora ao tempo. 
 
Cada avanço meu é mínimo, 
Mas carrego nele uma vitória secreta, 
Um sussurro de resistência 
Contra a tentação de desistir. 
 
Celebrar é, então, 
Meu modo silencioso de dizer a mim mesmo: 
“Eu ainda estou aqui”. 
Mesmo quando o corpo pesa, 
Mesmo quando o mundo parece desabar, 
Há em mim esse resquício de vontade 
Que se recusa a apagar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Hospedeiro de muitos delírios

Eu caminho por atalhos contaminados de vozes, 
Como quem atravessa ruas cobertas de fumaça. 
As palavras grudam na minha pele cansada 
E respiram dentro do meu peito sem licença, 
Feito um vírus antigo recusando a própria morte. 

Aprendi cedo que a linguagem também adoece. 
Há frases que beijam enquanto envenenam, 
Discursos que sorriem mostrando os dentes, 
Promessas costuradas com fios de ferrugem 
Para prender os homens no conforto da mentira. 

Eu mesmo já fui hospedeiro de muitos delírios. 
Repeti verdades prontas como orações vazias, 
Engoli slogans para suportar os dias 
E deixei que pensamentos alheios ocupassem 
Os quartos escuros da minha consciência. 

Agora observo a multidão febril nas avenidas, 
Cada rosto carregando uma epidemia diferente. 
Ninguém percebe o quanto sangra por dentro, 
Porque o ruído do mundo cobre os gemidos 
Como propaganda cobrindo cadáveres na chuva. 

Ainda assim escrevo contra essa contaminação. 
Minha poesia é uma ferida tentando respirar, 
Um corpo recusando o idioma das máquinas. 
E enquanto houver silêncio dentro dos meus olhos, 
Lutarei contra a doença escondida nas palavras. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 26 de maio de 2026

Atravessando essa existência

Caminho sozinho pelas ruas da memória, 
Carregando noites dentro do peito cansado, 
Vejo minha vida passar como fumaça antiga, 
Rostos desaparecem na curva do pensamento, 
E eu permaneço parado diante do tempo. 
 
Às vezes escuto minha própria alma chorando 
Nos corredores silenciosos da madrugada, 
Como um relógio ferido marcando ausências, 
Como um pássaro perdido longe do inverno, 
Procurando abrigo em palavras quebradas. 
 
Escrevo porque o silêncio pesa demais, 
Porque há ruínas crescendo dentro de mim, 
E ninguém percebe os abismos que escondo 
Sob o sorriso cansado das horas comuns, 
Sob meus olhos gastos de esperar respostas. 
 
Recordo amores que o vento levou embora, 
Promessas afundadas na lama dos dias, 
Sonhos envelhecidos antes da manhã chegar, 
E a melancolia senta-se ao meu lado 
Como uma velha amiga que nunca me abandona. 
 
Mas continuo atravessando essa existência, 
Mesmo quando a esperança perde a voz, 
Porque ainda há fogo escondido em minha sombra, 
E enquanto meu coração suportar o vazio, 
Farei da solidão morada para meus versos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre bilhões de galáxias

Não me assusta a brevidade da vida. 
O universo leva eras para acender uma estrela 
E segundos para vê-la desaparecer no horizonte. 
Nós também somos assim: clarões passageiros 
Na vastidão silenciosa do tempo. 

E ainda assim, meu amor, 
Há algo que torna essa existência imensa. 
Não é a duração dos dias, 
Nem a quantidade de anos acumulados sobre a pele, 
Mas aquilo que acontece dentro deles. 

Porque entre bilhões de galáxias indiferentes, 
Entre séculos que vieram antes de nós 
E os que continuarão depois, 
Eu tive o improvável privilégio 
De encontrar você. 

E isso muda tudo. 
Transforma a poeira em memória, 
O acaso em destino, 
O instante em eternidade. 

Se a vida dura pouco diante do universo, 
Que dure. 
Pois houve um momento raro, quase impossível, 
Em que meus olhos cruzaram os seus 
E o infinito, por um breve segundo, 
Teve sentido. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Desconfiança

Existe uma palidez andando sobre os telhados, 
Uma fumaça fria atravessando os corredores da manhã. 
Os homens apertam os próprios punhos no escuro 
Como se o mundo escondesse facas sob a língua 
E cada silêncio anunciasse uma queda inevitável. 

As janelas permanecem abertas para ruas vazias, 
Mas ninguém confia totalmente no horizonte. 
Há um rumor metálico vibrando nas esquinas, 
Um tremor invisível dentro das conversas comuns, 
Como febre escondida sob a pele da cidade. 

As luzes dos aparelhos nunca descansam, 
Alimentam fantasmas elétricos madrugada adentro. 
Cada notícia pinga medo dentro das veias, 
Cada palavra parece carregada de pólvora 
E os sonhos amanhecem cansados antes do corpo. 

Vejo pessoas caminhando depressa demais, 
Olhando para trás sem saber exatamente por quê. 
Carregam tempestades privadas dentro dos olhos, 
Orações quebradas dentro dos bolsos do casaco 
E um cansaço antigo pendurado nos ombros. 

Mesmo assim, algo insiste em sobreviver. 
Uma planta crescendo entre rachaduras do cimento. 
Um abraço tardio salvando alguém do abismo. 
Uma voz mansa atravessando o ruído coletivo 
Como uma vela acesa dentro da névoa lívida. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O ontem se tornou sombra

Não posso voltar para ontem, 
Porque o que fui se dissolveu nas águas do tempo. 
O reflexo que um dia me reconhecia 
Hoje me olha com estranheza e cala. 
 
Ontem era um abrigo feito de enganos, 
Um refúgio onde a esperança dormia sem pressa. 
Mas o tempo, em sua delicada crueldade, 
Me ensinou que até os abrigos apodrecem 
Quando o coração amadurece demais. 
 
Há em mim o eco de uma voz antiga, 
Que me chama de um corpo esquecido. 
Era outro o pulso, outra a fé, outro o medo. 
Voltar seria vestir uma pele que o tempo rasgou, 
Ser estrangeiro de mim mesmo. 
 
Às vezes tento tocar o ontem, 
Como quem busca um fantasma querido. 
Mas o toque atravessa o ar, 
Porque o que fui não me espera mais. 
 
O ontem se tornou sombra, 
E eu, o silêncio que resta depois da sombra. 
Sou o intervalo entre duas versões de mim: 
A que sonhava e a que sobreviveu. 
 
Talvez o ontem ainda exista, 
Guardado em um canto do tempo onde já não moro. 
E tudo o que resta é este corpo novo, 
Feito de perdas que aprenderam a respirar. 
 
Não posso voltar para ontem, 
Porque lá eu era outra pessoa. 
E, ainda que doa, 
É nesse não-retorno que o presente me reconhece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense