quinta-feira, 16 de abril de 2026

Te escrevo em silêncio

 Faço de palavras pequenas a minha oferenda, 
Um gesto suave, quase imperceptível, 
Como quem teme ferir a delicadeza do instante. 
Te escrevo em silêncio, com o coração atento, 
Para não quebrar a doçura do que sinto por você. 
 
És presença que não se impõe, mas floresce, 
Como luz mansa atravessando a manhã. 
Em ti há um sossego que me desarma, 
Uma ternura que me atravessa inteiro, 
Como se amar fosse apenas repousar em ti. 
 
Meu poema não grita, ele sussurra teu nome, 
Entre pausas, suspiros e breves eternidades. 
Cada verso é um toque que não se vê, 
Mas se sente como um arrepio leve, 
Daqueles que o coração guarda em segredo. 
 
Se te ofereço palavras, é porque não sei mais, 
Como conter o que em mim se transforma. 
Tu és o motivo quieto da minha entrega, 
A razão pela qual o amor se fez simples, 
E ainda assim, profundamente infinito. 
 
Se um dia este poema se desfizer no tempo, 
Que reste ao menos o eco do que te dei. 
Um amor sem peso, sem pressa, sem ruído, 
Feito para existir como brisa na tua alma, 
E permanecer, mesmo quando eu me for. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O poeta entre o céu e o chão

 O poeta, às vezes, se esquece do chão, 
E sobe leve nas entrelinhas do vento, 
Costurando memórias com invenção, 
Faz da dor um suave movimento, 
E da vida, um recomeço em expansão. 
 
Há dias em que sua pena é prisão, 
E a palavra pesa como lamento antigo, 
Mas basta um sopro, uma centelha na mão, 
Para romper o silêncio inimigo 
E erguer voo sobre a própria solidão. 
 
Ele escreve histórias dentro da história, 
Como quem redesenha o próprio destino, 
Transforma ausência em tênue memória, 
E no caos encontra um traço divino, 
Fazendo do instante uma eterna vitória. 
 
Seus versos são asas feitas de tempo, 
De tudo aquilo que viveu e perdeu, 
Cada linha carrega um contratempo, 
Mas também o milagre que nasceu 
No abismo entre o sentir e o pensamento. 
 
O poeta segue, entre céu e chão, 
Ora ferido, ora pleno de luz, 
Carregando em si a contradição 
De quem escreve, apaga e ainda produz 
Novas histórias na própria imensidão. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Cada palavra é lágrima

O escritor sente o mundo em demasia, 
Carrega em si dores que não são suas, 
Ouve o pranto oculto em noites nuas, 
E escreve o peso que ninguém diria. 
 
Na alma guarda a amarga travessia 
De ver feridas cruas, sempre abertas, 
E entre sombras densas, frias e desertas, 
Transforma em verso a dor que o guia. 
 
Cada palavra é lágrima contida, 
Cada silêncio, um grito disfarçado, 
Cada linha, um pedaço de partida. 
 
Mesmo assim persiste, condenado 
A dar à dor do mundo alguma vida, 
Fazendo do sofrer seu fado alado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não sei mais como a desejar

 Ela não vem, e ainda assim permanece, 
Como um eco que nunca pediu voz, 
Como um perfume guardado no ar do nada, 
Como um nome que não ouso dizer alto, 
Mas que insiste em nascer dentro de mim. 
 
É estranho amar o que não se alcança, 
Segurar o vazio como se fosse matéria, 
E encontrar nela, na falta, um abrigo, 
Como se a ausência tivesse mãos 
E me tocasse com mais força que a presença. 
 
Eu gosto dela até no que não existe, 
No que não veio, no que não será, 
Nos caminhos que nunca cruzamos, 
Nos gestos que nunca se fizeram, 
E ainda assim me atravessam como memória. 
 
E então não sei mais como desejar, 
Porque desejar é querer aproximar, 
E ela já está em tudo que me cerca, 
No silêncio, no tempo, no meu próprio peito, 
Como um mistério que não se resolve. 
 
Quem sabe, amar assim seja aceitar o invisível, 
Ser casa de algo que não se possui, 
Ser campo onde a saudade floresce sem fim, 
E compreender, enfim, que há sentimentos 
Que não querem chegada, apenas permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 14 de abril de 2026

Perdoa essa pressa do coração

 Eu te peço perdão, 
Não pelo amor, mas pelo susto. 
Ele chegou sem avisar, 
Como chuva em tarde limpa, 
Como vento que abre janelas 
Que jurávamos fechadas. 
E talvez por isso doa mais. 
Porque não houve tempo de preparo, 
Nem espaço para escolher sentir. 
 
Meu amor, eu sei, soa antigo em teus ouvidos. 
Não é novidade, não é chama inédita, 
É canto repetido, 
Melodia que já cansou outros silêncios. 
Mas em mim, ele nasce como se fosse o primeiro, 
Como se o mundo só agora tivesse aprendido 
A pronunciar teu nome. 
 
Perdoa essa pressa do coração, 
Essa urgência que não pediu licença. 
Não sou eu que amo de repente, 
É o amor que irrompe, indomável, 
Como se tivesse esperado anos em segredo 
Apenas pelo instante de te encontrar. 
 
Se te fere, eu me recolho em silêncio. 
Se te cansa, eu transformo em distância. 
Mas se em algum canto de ti 
Essa velha canção ainda ecoar, 
Mesmo baixa, mesmo tímida, 
Saberás que não era sobre o tempo, 
Mas sobre a eternidade 
Disfarçada de encontro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cada olhar teu

 Teus olhos são bibliotecas vivas, 
Onde cada olhar abre um capítulo secreto 
Que só o coração sabe decifrar. 
 
Neles, não há letras, 
Há silêncios que dizem tudo, 
Há páginas que não se viram com as mãos, 
Mas com o estremecer da alma. 
 
Que livro poderia ensinar melhor o amor 
Do que esse brilho que me lê por dentro? 
Sou leitor perdido em tua íris, 
E quanto mais leio, menos desejo o fim. 
 
Porque teus olhos não se esgotam, 
São obras eternas, 
Escritas na linguagem invisível do sentir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A rua

 A rua, outrora calma e conhecida, 
Guardava passos, nomes e destinos; 
No tempo lento, vozes eram hinos 
De uma presença simples, repartida. 
 
Hoje, é um ruído em fuga desmedida, 
Vitrine de desejos tão cristalinos, 
Onde se cruzam vultos peregrinos 
Sem ver na outra face uma acolhida. 
 
Longa, se estende além de qualquer fim, 
Magra, carrega ausências no seu chão, 
Multidão feita de um só deserto, enfim. 
 
Mas algo insiste, oculto na pressão: 
Um resto de encontro dentro de mim, 
Um sopro antigo em meio à dispersão. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Antes mesmo da partida

 Eu senti muito, mais do que o corpo comportava, 
Um sentir que não cabia nas mãos nem no tempo, 
Como se o adeus tivesse peso e respiração, 
Como se cada segundo ao teu lado gritasse permanência, 
Mesmo sabendo que já era quase ausência. 
 
Antes mesmo da partida, a saudade me encontrou, 
Sentou-se ao meu lado, em silêncio, sem pedir licença, 
Olhou nos meus olhos como quem já sabia tudo, 
E ali, no instante ainda inteiro, começou a faltar, 
Aquilo que ainda estava diante de mim. 
 
Teu nome já ecoava como lembrança, não como presença, 
E eu, perdido entre o agora e o depois, 
Tentava segurar o que não se segura: o instante, 
Tentava impedir o tempo de cumprir seu destino, 
Mas o tempo nunca negocia com o desejo. 
 
A despedida veio mansa, mas definitiva, 
Como um vento que não pede, apenas leva, 
E levou de mim o que ainda nem tinha ido, 
Deixando esse vazio cheio de tudo que fomos, 
Esse silêncio que ainda pronuncia teu nome. 
 
Agora sigo, mas não inteiro, nunca inteiro, 
Porque uma parte de mim ficou naquele adeus, 
E outra parte te acompanha, onde quer que estejas, 
Somos, talvez, dois pedaços do mesmo instante, 
Separados no mundo, mas unidos na saudade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 12 de abril de 2026

Surto filosófico

 Conhecer por dentro é desfazer o mundo, 
É tocar o que não tem pele nem nome, 
É abrir a coisa até que reste o nada, 
Um sopro frio onde antes havia forma, 
E nesse gesto íntimo e profundo 
Perceber que tudo escapa à matéria, 
Como um segredo que se nega a existir. 
 
Existe um vazio que pulsa sem ser visto, 
Um centro oco sustentando o real, 
Como se a ausência fosse fundamento, 
E o ser apenas um eco hesitante, 
Um quase, um talvez, um fio suspenso 
Entre o que é e o que nunca chegou a ser, 
Um abismo disfarçado de presença. 
 
Eu sempre duvido, não com desespero, 
Mas com a lucidez de quem enxerga demais, 
Como se existir fosse um costume antigo, 
Um hábito herdado do próprio nada, 
E nós, frágeis, insistindo em acreditar 
Que há chão sob os pés e forma nas coisas, 
Quando tudo é vertigem pedindo silêncio. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um olhar que se tornou eternidade

 Tem olhares que passam como vento, 
Leves, esquecidos. 
E há aqueles que permanecem, 
Como uma chama acesa 
Na memória do tempo. 
 
O dela não pediu licença. 
Entrou como quem conhece 
Os caminhos secretos da alma, 
Como se já soubesse onde o coração 
Guarda seus silêncios mais frágeis. 
 
Havia beleza, sim, 
Mas não apenas na forma. 
Era uma beleza que pensava, 
Que sentia, que chamava. 
Uma beleza que não se via por inteiro, 
Porque parte dela 
Se escondia no mistério de cada piscada. 
 
Seus olhos não eram apenas olhos, 
Eram perguntas sem resposta, 
Eram promessas que não ousavam se dizer, 
Eram abismos 
Onde a razão se inclinava e desistia. 
 
E foi ali, nesse instante suspenso, 
Que algo em mim deixou de ser apenas meu. 
Pois quem ama o olhar de alguém 
Não ama apenas o que vê, 
Ama o que se revela sem palavras, 
E, sobretudo, 
O que nunca será completamente revelado. 
 
Com o coração apaixonado sigo, 
Habitado por esse encontro invisível, 
Como quem carrega no peito 
Um olhar que se tornou eternidade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 11 de abril de 2026

Custe o que custar

 Custe o que custar, eu repito em silêncio, 
Como quem ora diante do invisível, 
Guardarei o amor no fundo do peito, 
Mesmo que o mundo me peça dureza, 
Mesmo que a vida me ensine o contrário. 
 
Há dias em que tudo pesa e retorna, 
Como se o tempo girasse em círculos, 
E aquilo que hoje me fere em segredo 
Amanhã venha com o mesmo nome, 
Vestido apenas de outra forma. 
 
E eu, cansado dessa repetição, 
Quase cedo ao frio das ausências, 
Quase deixo o coração endurecer, 
Quase esqueço o que um dia senti, 
Quase me perco de mim mesmo. 
 
Mas algo em mim ainda resiste, 
Uma centelha teimosa de ternura, 
Um gesto invisível de esperança, 
Que insiste em nascer entre ruínas, 
Como flor em meio ao chão rachado. 
 
Guardo o amor, custe o que custar, 
Não como quem vence, mas como quem persiste, 
Não como força, mas como escolha, 
Pois se tudo volta: dor, tempo e ausência, 
Que volte em mim aquilo que me salva. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Esse velho ilusionista

 Se disser que existem olhares 
Que atravessam os dias como lâminas cegas, 
Que veem o movimento, mas não o sentido; 
Que contam as horas, mas não sentem o instante. 
São olhos educados pelo relógio, 
Domados pela pressa, 
Acostumados a confundir passagem com verdade. 
 
O tempo, esse velho ilusionista, 
Oferece seus truques em ciclos e calendários, 
E muitos aceitam, sem suspeitar, 
Que viver é apenas seguir adiante. 
 
Mas há uma mentira sutil escondida nisso: 
O tempo não revela, apenas encobre; 
Não explica, apenas organiza o esquecimento. 
E aqueles que só confiaram nele 
Perderam o essencial, 
O invisível que não se mede, 
O eterno que não envelhece. 
 
Seus olhares tornam-se desertos: 
Vastos, porém vazios de presença. 
Olham o mundo como quem observa ruínas 
Sem jamais ter conhecido a casa. 
 
É preciso desaprender o tempo, 
Rasgar seus mapas, 
E permitir que os olhos voltem a sentir, 
Não a duração, 
Mas a intensidade de existir. 
 
Tem verdades que não passam, 
E só se revelam 
A quem ousa fechar os olhos para o tempo 
E abrir-se, enfim, ao instante infinito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Um espelho interminável

Há uma vida que não vivi, mas me habita, 
Como um quarto fechado dentro de mim, 
Onde os móveis guardam poeira de sonhos, 
E as janelas jamais foram abertas ao sol, 
Ainda que eu escute o vento do lado de fora. 
 
Carrego destinos que não escolhi nos ombros, 
Como roupas herdadas de um tempo alheio, 
Ajustadas à força sobre minha pele inquieta, 
Costuradas com fios de silêncio e renúncia, 
Que apertam mais quando tento ser livre. 
 
A angústia não chega, ela sempre esteve, 
Sentada ao meu lado nas horas mais comuns, 
Bebendo do mesmo cansaço que me sustenta, 
Sussurrando perguntas sem resposta possível, 
Fazendo da dúvida um espelho interminável. 
 
Penso nas vidas que ficaram pelo caminho, 
Nas versões de mim que nunca respirei, 
Nos gestos que morreram antes de nascer, 
E sinto um luto estranho, sem nome ou corpo, 
Por tudo aquilo que fui apenas em pensamento. 
 
Eu sigo porque viver é também aceitar, 
Que nem todo sonho encontra o seu chão, 
E que há uma beleza áspera na permanência, 
Em resistir mesmo sem entender o rumo, 
E existir, ainda assim, com tudo o que falta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre páginas e silêncios

 Resistir é acender pequenas luzes no escuro, 
Mesmo quando o vento sopra contra a chama, 
É segurar o livro com mãos trêmulas 
Enquanto o mundo grita por pressa e esquecimento, 
E ainda assim escolher permanecer inteiro. 
 
Ler é atravessar silenciosamente o abismo, 
É conversar com vozes que o tempo não calou, 
É beber da fonte invisível das palavras, 
Onde a alma se reconhece e se refaz, 
Longe da aridez dos dias automatizados. 
 
Há um combate que não se vê nas ruas, 
Mas arde dentro de cada consciência desperta, 
Um esforço contínuo de não se tornar pedra, 
De não aceitar a frieza como destino, 
De não negociar o próprio sentir. 
 
Ser humano é insistir na delicadeza, 
Mesmo quando tudo endurece ao redor, 
É permitir que a dor ainda nos atravesse, 
Como prova de que não fomos anestesiados, 
Como lembrança de que ainda há vida pulsando. 
 
Ler é seguir, entre páginas e silêncios, 
Resgatando fragmentos de nós mesmos, 
Costurando sentido onde há ruptura, 
Resistindo ao esquecimento com palavras, 
Para não perder aquilo que nos faz humanos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Escritor

O escritor é um caçador de instantes invisíveis. 
Enquanto o mundo passa apressado, 
Ele permanece, olhos abertos, alma inclinada, 
Recolhendo o que os outros deixam cair sem perceber. 
 
Há histórias escondidas no ranger de uma porta, 
No silêncio entre duas palavras, 
Na lágrima que não chega a cair. 
O olhar atento não apenas vê, 
Ele escuta o que não foi dito. 
 
Cada cena da vida, 
Por mais banal, é um campo fértil. 
Uma conversa de esquina pode ser um romance, 
Um adeus apressado pode carregar uma eternidade, 
Um gesto mínimo pode revelar um abismo inteiro. 
 
O escritor transforma o comum em revelação. 
Ele encontra oportunidades 
Não porque o mundo as oferece prontas, 
Mas porque sabe cavar sentido onde só havia rotina. 
 
Dessa forma, vivendo entre o que é 
E o que poderia ser, 
Ele reescreve a realidade 
Com o delicado poder da percepção, 
Fazendo do olhar, não apenas visão, mas criação. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense