segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Você chegou devagar

 Você chegou devagar aos meus dias, 
Como a manhã que afasta a escuridão. 
Sem perceber, passei a procurar 
Sua presença em cada instante, 
Como quem busca abrigo no coração. 
 
Há algo em você que me transforma, 
Algo que não consigo explicar. 
Quando penso no futuro distante, 
É ao seu lado que me imagino, 
Aprendendo a viver e sonhar. 
 
Às vezes temo os caprichos do destino, 
As curvas ocultas da estrada. 
A vida nem sempre avisa 
Quando prepara suas despedidas 
Ou muda a direção da jornada. 
 
E se um dia o tempo nos separar, 
Restará em mim a sua lembrança. 
Mas confesso que o mundo perderia 
Parte de sua beleza e sentido, 
Como uma noite sem esperança. 
 
Por isso guardo cada momento, 
Cada palavra e cada olhar. 
Porque você se tornou, aos poucos, 
Mais do que um amor em minha vida. 
Tornou-se meu modo de amar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Os dias sem esperança

 Carrego dias imóveis nos bolsos da alma, 
Como pedras frias recolhidas no vazio. 
O relógio continua ferindo as paredes, 
Mas dentro de mim o tempo apodrece lento, 
Feito fruta esquecida no fundo da existência. 
 
Caminho entre rostos e vozes apressadas, 
E ninguém percebe meu inverno silencioso. 
Há uma multidão atravessando as ruas, 
Mas eu me sinto perdido fora do mundo, 
Como uma sombra sem origem nem destino. 
 
À noite converso com meus próprios abismos, 
Pergunto ao escuro quem ainda sou. 
As respostas não chegam em palavras, 
Somente o silêncio respirando perto de mim 
Como um animal cansado de sobreviver. 
 
Já tentei encontrar sentido nas estrelas, 
Nas orações, nos livros e nos espelhos, 
Mas tudo parecia distante demais 
Para alguém que desaprendeu a esperança 
E passou a morar dentro da ausência. 
 
Ainda assim desperto em cada manhã, 
Mesmo sem entender o motivo do retorno. 
Talvez exista algo em mim resistindo, 
Uma pequena chama escondida na ruína, 
Recusando-se a morrer completamente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 20 de setembro de 2026

Condenados ao tempo

 A noite não me pergunta quem sou. 
Apenas estende sua escuridão sobre mim. 
Nela descubro que a ausência também respira, 
E que existir, às vezes, 
É permanecer onde ninguém ficou. 
 
Procuro teu rosto na memória, 
Mas a lembrança nunca devolve a presença. 
O passado é um espelho quebrado: 
Reflete tudo, 
Menos aquilo que ainda desejo tocar. 
 
As horas não possuem piedade. 
Não aceleram por amor nem retardam pela dor. 
Somos viajantes condenados ao tempo, 
Colecionando perguntas 
Que jamais encontrarão resposta. 
 
Pode ser que o amor seja apenas isto. 
Um sentido que inventamos para desafiar o vazio. 
Quando partes, permanece a consciência 
De que até a esperança 
É uma forma delicada de solidão. 
 
No meu silêncio eu ainda escrevo. 
Não para chamar teu nome de volta, 
Mas para impedir que o silêncio me defina. 
Se nada possui permanência, 
Que ao menos o verso sobreviva a mim. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nada em você

 Você fala de mim 
Como quem olha uma janela suja 
E acha que viu a casa inteira. 
Não viu. 
Viu apenas o reflexo da própria cara. 
 
As pessoas gostam de distribuir certezas 
Como quem distribui livros baratos. 
Acendem uma fraca luz, 
Que não ilumina por dentro, 
E chamam isso de verdade. 
 
Eu já perdi tempo demais 
Tentando explicar minha vida 
Para quem nunca quis escutar. 
Agora deixo que o silêncio 
Faça o trabalho que as palavras não conseguem. 
 
Não preciso que gostem de mim. 
O café continua amargo, 
O dia continua difícil, 
E ainda assim acordo, 
Visto minha pele e sigo em frente. 
 
Não há nada em você 
Que possa dizer algo sobre mim. 
Mas há muito em tudo o que você diz 
Que explica por que carrega esse peso 
Mesmo quando sorri. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 19 de setembro de 2026

Escolho permanecer

 Nasci entre perguntas sem resposta, 
Num mundo que não pediu meu nome. 
Carrego falhas como quem carrega sombra, 
E às vezes tropeço no que sou. 
A perfeição nunca me encontrou. 
 
Vejo os dias passarem indiferentes, 
Como rios que não sabem para onde vão. 
A razão é apenas uma pequena lanterna 
Erguida contra a vastidão da noite, 
Um gesto humano diante do infinito. 
 
Talvez eu não seja inteiro nem reto, 
Talvez haja desvios em minha alma. 
Sou feito de escolhas inacabadas, 
De medos que vestem meu silêncio, 
E de ausências que me acompanham. 
 
Mesmo assim, escolho permanecer. 
 Escolho dar sentido ao que parece vazio. 
Em cada ato simples e consciente, 
Respondo ao absurdo da existência 
Com a coragem de continuar. 
 
E quando penso em ti, algo resiste. 
Não à morte, nem ao tempo, nem ao esquecimento, 
Mas à indiferença que ronda os dias. 
Pois, mesmo imperfeito e passageiro, 
Amo-te do fundo do meu coração. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não vejo mais você

 Não vejo mais você. 
Aceito o que o destino me entregou. 
Nem toda partida pede explicações. 
O coração também aprende pela perda. 
E sigo o caminho que ainda me resta. 
 
A saudade bate à porta, 
Mas não governa meus passos. 
As lembranças existem, 
Sem que eu me torne prisioneiro delas. 
A serenidade é minha escolha. 
 
Não posso mudar o passado. 
Também não posso apressar o amanhã. 
Tenho apenas este instante, 
Onde cultivo a firmeza da alma 
E a paz que nasce da aceitação. 
 
Se o amor foi verdadeiro, 
Não preciso apagá-lo. 
Basta honrá-lo em silêncio, 
Sem exigir o retorno do que partiu, 
Nem lamentar o que não depende de mim. 
 
Assim caminho com o tempo. 
Levo a memória sem carregar correntes. 
A ausência já não é inimiga, 
Mas uma mestra que ensina desapego 
E fortalece o espírito. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Viajantes

 Há uma hora suspensa entre o relógio e a lembrança; 
É nela que meu pensamento atravessa a tarde 
Como um pássaro que desconhece fronteiras. 
As ruas permanecem imóveis, 
Mas dentro delas o tempo muda de direção. 
 
Se ele encontra você, não sei quem retorna. 
Talvez apenas o eco de uma pergunta antiga, 
Repetida pelos corredores da memória 
Onde as janelas se abrem para um céu sem resposta 
E cada silêncio possui o peso de uma catedral vazia. 
 
O coração aprende a linguagem das ausências. 
Não grita; acumula poeira sobre os nomes, 
Como livros esquecidos em uma biblioteca antiga. 
Ainda assim, basta uma lembrança 
Para que todas as páginas voltem a respirar. 
 
Somos viajantes de instantes incompletos, 
Colecionadores de encontros que nunca terminam. 
Chamamos de destino aquilo que não compreendemos, 
E de saudade aquilo que insiste em permanecer 
Quando todas as despedidas já foram pronunciadas. 
 
Então meu pensamento repousa onde você está, 
Enquanto meu coração permanece entre dois mundos: 
Um feito de passos que o tempo consome, 
Outro de perguntas que nenhuma manhã dissolve. 
Nesse intervalo, a vida silenciosamente nos escreve. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cada aluno

 Educar é permanecer na soleira do desconhecido, 
Onde nenhuma resposta dura para sempre. 
O vento do pensamento atravessa os corredores da alma 
E leva consigo as certezas que julgávamos eternas. 
Resta-nos o silêncio e a pergunta. 
 
Cada aluno carrega um universo incompleto, 
Um enigma que nem ele próprio compreende. 
Tentamos oferecer mapas e direções, 
Mas a existência insiste em inventar outros caminhos. 
E toda rota termina em novas dúvidas. 
 
Há um risco em ensinar: ser transformado. 
A ideia que lançamos ao mundo retorna diferente, 
Vestida de experiências que não vivemos. 
O pensamento não respeita proprietários. 
Ele pertence ao movimento. 
 
Por vezes, o vento chega como tempestade, 
Arrancando crenças das raízes mais profundas. 
Descobrimos então que aprender não é acumular, 
Mas perder versões antigas de si mesmo 
Para habitar outras possibilidades. 
 
Educar é caminhar sem garantias, 
Aceitando a fragilidade de toda verdade humana. 
Sob o céu indiferente do tempo, 
Mestres e aprendizes seguem lado a lado, 
Expostos ao mesmo vento infinito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O governo do coração

 Quando te vejo, meu coração desperta, 
Mas não entrego à paixão o meu destino. 
O desejo floresce como um jardim, 
Sem prender a alma às suas flores, 
Pois a serenidade vale mais que o impulso. 
 
Aprendi que nada verdadeiramente meu 
Pode ser levado pelo tempo ou pela distância. 
Teu sorriso é um presente do instante, 
Não uma promessa para o amanhã; 
Por isso o recebo com gratidão. 
 
Se teus passos vierem ao meu encontro, 
Celebrarei a dádiva sem arrogância. 
Se seguirem por outro caminho, 
Aceitarei o curso da vida, 
Como o rio aceita o desenho de suas margens. 
 
O coração sábio deseja sem exigir, 
Admira sem possuir, 
Ama sem aprisionar, 
Porque sabe que a paz interior 
É o bem que nenhuma perda destrói. 
 
Sempre quando te vejo, sorrio em silêncio. 
Não porque tudo me pertença, 
Mas porque compreendi o essencial: 
A maior vitória do amor é permanecer virtuoso, 
Mesmo quando o destino escreve outra história. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Não vou bater na sua porta

 Não vou bater na sua porta 
Como quem vende a própria alma. 
O mundo já tem gente demais 
Pedindo licença 
Para existir. 
 
Se você não me vê, 
O problema não é o meu rosto. 
Há olhos que só enxergam 
O brilho das vitrines 
E confundem barulho com valor. 
 
Aprendi que a solidão 
É uma mesa mais honesta 
Do que certos aplausos. 
Ela nunca mente 
Sobre quem permanece. 
 
Não preciso vestir outra pele, 
Nem inventar um personagem. 
Quem vive implorando atenção 
Acaba esquecendo 
O próprio nome. 
 
Então fico aqui, 
Com meu café já frio, 
Algumas cicatrizes 
E a estranha paz 
De quem não precisa convencer ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre a ausência e o ser

 A saudade não pergunta quem sou; 
Apenas se senta ao meu lado. 
Na ausência de quem já amei, 
Descubro que também sou feito 
Das perdas que não escolhi. 
 
O silêncio conhece meu nome, 
Mais do que as vozes da multidão. 
Quem partiu deixou uma pergunta, 
E vivo respondendo-a 
Sem jamais encontrar o fim. 
 
Penso que amar seja aceitar 
Que nenhum encontro vence o tempo. 
Somos passageiros da mesma estação, 
Carregando lembranças 
Como quem carrega o próprio rosto. 
 
A sombra que me acompanha 
Não é dela, nem minha. 
É o espaço vazio entre dois mundos, 
Onde o passado insiste em existir 
E o futuro ainda não respondeu. 
 
Se a vida não oferece sentido, 
Cabe ao coração criá-lo. 
Faço da saudade uma chama serena, 
Não para esperar quem não volta, 
Mas para iluminar quem ainda sou. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O retrato da ignorância

 Há quem veja na pele uma fronteira, 
Um muro erguido pela própria ilusão; 
Mas o sangue que corre nas veias 
Não conhece bandeiras nem cores, 
Apenas o ritmo comum do coração. 
 
O racismo nasce da sombra do medo, 
Da semente amarga da desinformação; 
É um espelho que reflete a pobreza 
De quem confunde diferença com distância 
E transforma a ignorância em convicção. 
 
As flores não perdem sua beleza 
Por nascerem em cores diferentes; 
Assim também são os seres humanos, 
Únicos em suas histórias e rostos, 
Iguais em sua dignidade permanente. 
 
Quem aprende a ouvir o outro 
Descobre mundos além dos próprios olhos; 
Percebe que a humanidade é um rio 
Formado por inúmeras correntes, 
Correndo juntas para o mesmo horizonte. 
 
Que o conhecimento seja a luz acesa 
Nos caminhos ainda cobertos de escuridão; 
Pois o racismo é apenas o retrato antigo 
De uma ignorância que insiste em ficar, 
Mas que a fraternidade pode vencer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Quando chegar o último momento

Quando chegar o último momento, não temerei. 
A vida cumprirá o curso que lhe foi dado. 
Receberei o silêncio como velho companheiro, 
Pois ninguém vence a marcha do tempo; 
Vence apenas quem aprende a aceitá-la. 
 
Sonhei enquanto o destino permitiu. 
O que alcancei, agradeço; o que perdi, liberto. 
Não acuso a fortuna por seus caprichos, 
Porque a paz floresce na alma 
Que governa a si mesma. 
 
Não levarei riquezas nem aplausos, 
Mas o caráter moldado pelas escolhas. 
Toda virtude permanece além da posse, 
E quem viveu com retidão descansa 
Sem negociar a própria consciência. 
 
Se ainda houver um sonho, será simples: 
Partir sem remorsos e sem arrogância, 
Deixando bondade onde meus passos estiveram. 
A morte fecha os olhos do corpo, 
Mas não apaga o valor de uma vida justa. 
 
Esperarei o derradeiro instante, 
Sereno como a árvore diante do outono. 
As folhas caem, porém a raiz permanece. 
E compreenderei, enfim, que a maior vitória 
Foi aprender a viver antes de partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Será que preciso chamar tua atenção?

 Será que preciso chamar tua atenção 
Para provar que existo diante dos teus olhos? 
Ou minha existência já basta, 
Mesmo quando o silêncio responde 
Com a indiferença do mundo? 
 
Caminho entre rostos que passam, 
Cada um preso ao seu próprio labirinto. 
Ninguém pode viver a minha escolha, 
Nem carregar o peso da minha liberdade. 
Sou apenas eu diante do instante. 
 
Se esperasse teu olhar para ser alguém, 
Entregaria a ti o sentido da minha vida. 
Mas nenhum outro pode escrever 
A história que nasce 
De minhas próprias decisões. 
 
Quem sabe o vazio não seja um inimigo, 
Mas o espaço onde construo significado. 
O universo não me deve respostas; 
Sou eu quem transforma perguntas 
Em caminhos possíveis. 
 
Por isso já não grito por atenção. 
Prefiro a coragem de ser autêntico. 
Se me encontrares, que seja pela verdade; 
Se não me encontrares, continuarei existindo, 
Criando sentido enquanto caminho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O amor não é um ferro-velho

 Se um dia quebrarem o teu coração, 
Não bata na minha porta 
Como quem procura um bar aberto 
Depois que todos os outros fecharam. 
Eu não sirvo bebida para arrependimentos. 
 
O amor não é um ferro-velho 
Onde se troca o que foi destruído 
Por uma peça que ainda funciona. 
Eu também sangrei, 
Só aprendi a limpar o chão. 
 
Você chamou de destino 
Aquilo que era apenas desejo. 
Agora chama de saudade 
Aquilo que é solidão. 
Há uma diferença enorme. 
 
Não tenho vocação para salvador. 
Heróis morrem cedo 
E idiotas vivem cansados. 
Escolhi sobreviver 
Com o pouco que restou de mim. 
 
Então siga. 
Carregue os cacos que a vida lhe deu. 
Eu carrego os meus. 
E, pela primeira vez, 
Eles não pesam mais do que a minha paz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense