terça-feira, 3 de março de 2026

Embriagar-me-ei de poesia

Embriagar-me-ei sem cessar, 
Porque a lucidez do mundo é áspera demais. 
As ruas falam em números, 
Os homens respiram prazos, 
E os relógios devoram o pulso do tempo. 
 
Mas eu escolho outro vício. 
 
Embriago-me de palavras que ainda não nasceram, 
De sílabas que tremem como lâminas 
E depois se tornam asas. 
Bebo metáforas como quem bebe vinho antigo, 
Deixando que me queimem por dentro 
Até queimar também o medo. 
 
Embriagar-me-ei de poesia 
Porque só ela me devolve o espanto. 
Só ela rasga o tecido opaco do dia 
E revela o invisível, 
Esse fio dourado que sustenta o caos. 
 
Que me chamem de insensato. 
Prefiro cambalear entre versos 
Do que caminhar sóbrio na aridez das certezas. 
Prefiro o delírio que cria 
Ao equilíbrio que apaga. 
 
Embriagar-me-ei de poesia 
Como quem mergulha no próprio abismo 
E descobre que o fundo 
É, na verdade, o próprio céu. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A cegueira das verdades

As verdades não sussurram. 
Elas não pedem licença. 
Elas se impõem como o sol do meio-dia, 
Ardem na retina, 
Marcam a pele, 
Escancaram as sombras. 
 
Há verdades que gritam aos olhos 
Como rachaduras num espelho antigo. 
Estão ali, evidentes, 
Nuas como a miséria, 
Claras como o medo que ninguém admite. 
 
Mas há cegueiras 
Que não moram na falta de visão, 
E sim no excesso de conveniência. 
Há quem feche as pálpebras 
Para não desmontar o próprio mundo. 
Há quem prefira o conforto da escuridão 
À responsabilidade da luz. 
 
Então as verdades aumentam a voz. 
Tornam-se protesto, 
Poema, 
Sangue nas ruas, 
Ou silêncio pesado nas mesas de jantar. 
 
Elas gritam mais alto 
Não porque duvidem de si, 
Mas porque sabem 
Que alguns só escutam 
Quando o mundo começa a ruir. 
 
E mesmo assim, haverá os que dirão: 
“Não ouvi nada.” 
Porque a pior cegueira 
Não é a dos olhos fechados, 
É a dos olhos que se recusam a enxergar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Aos que leem

 Se lês tão pouco, andarás pela planície, 
Repetindo ecos gastos da multidão; 
Teu pensamento será rasa superfície, 
Refém do vento e da mesma opinião. 
 
Serás mais um na fila dos que passam, 
Sem lume próprio a arder na escuridão; 
Teus olhos verão só formas que disfarçam 
O vasto abismo oculto em cada questão. 
 
Mas se lês muito, acendes outro fogo, 
Rompes o molde estreito do banal; 
Te tornas artífice do próprio jogo. 
 
Pois cada livro é lâmina e é punhal, 
Corta as correntes, rasga o véu do demagogo, 
E faz de um homem raro um ser sem igual. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 2 de março de 2026

Em um dos meus sonhos

 Em um dos meus sonhos 
Só eu e você existíamos. 
Não havia cidade, 
Nem relógios mastigando as horas, 
Nem o peso do mundo pendurado nos ombros. 
 
Era como se o universo tivesse esquecido 
De terminar a criação, 
E tivesse deixado apenas dois traços 
Sobre a tela do infinito: 
Eu… e você. 
 
O silêncio não doía. 
Ele respirava. 
E cada passo que dávamos 
Inventava o chão. 
 
Teus olhos eram a única geografia possível, 
E eu me perdia neles 
Como quem encontra casa 
Num lugar que nunca esteve no mapa. 
 
Em um dos meus sonhos 
Não havia passado para nos ferir, 
Nem futuro para nos ameaçar. 
Só o instante, 
Vasto e inteiro, 
Como um mar sem margens. 
 
Eu não precisava ser forte. 
Você não precisava fugir. 
Não éramos versões corrigidas de nós mesmos, 
Nem máscaras tentando sobreviver. 
Éramos apenas presença. 
 
E quando acordei, 
O mundo voltou a ter barulho, 
Distâncias e compromissos. 
 
Mas ficou em mim 
Uma espécie de claridade secreta, 
Porque em algum lugar que não obedece à lógica, 
Há um sonho que insiste 
Em continuar nos sonhando. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A nudez final

 O eterno nada não é um abismo, 
É um silêncio paciente, 
Anterior ao nome das coisas. 
Ele não devora, aguarda. 
 
Nasce do querer, 
Esse sopro inquieto que inventa sentidos, 
Que veste o vazio com promessas 
E chama de destino o que é apenas desejo. 
 
Mas o saber chega como inverno. 
Não grita, não fere, retira. 
Apaga as tintas, dissolve os contornos, 
Revela que toda certeza era febre. 
 
Então o nada, já sem disfarces, 
Não é ausência nem castigo: 
É a nudez final de tudo o que foi sonho. 
 
Querer é criar mundos. 
Saber é assistir à sua lenta despedida. 
E entre ambos, respiramos, 
Breves, intensos, quase eternos. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 1 de março de 2026

Um verso imaginado

 Há poemas que não querem voz, 
Querem o refúgio de uma caverna. 
Eles não se pronunciam nos lábios, 
Mas se deitam na parte escura do pensamento, 
Onde a palavra ainda não tem ossos 
E já pulsa com a emoção do sentimento. 
 
É curioso: 
O silêncio não é ausência de som. 
É um som recolhido, 
Dobrado para dentro, 
Como um pássaro que canta 
Com as asas fechadas. 
 
Há versos que não suportam o ar. 
Se ditos, morrem. 
Precisam do território secreto da imaginação, 
Onde cada leitor é também criador, 
Onde o som não vibra no ouvido, 
Mas pulsa na memória. 
 
O poema que só existe no silêncio 
Não pede aplauso, 
Pede escuta interior. 
Ele é feito de respiração suspensa, 
De imagens que se formam 
Como névoa sobre um rio ao amanhecer. 
Você não ouve com os ouvidos, 
Ouve com aquilo que ainda não tem nome. 
 
Talvez o verdadeiro som 
Seja aquele que ninguém escuta, 
Mas que altera o curso dos pensamentos. 
Um verso imaginado 
Pode ser mais alto que um grito. 
 
Todo poema é isso: 
Uma tentativa de dizer o sentimento 
Sem quebrar o silêncio 
Que o sustenta no pensamento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O íntimo abismo

 No silêncio mora um som contido, 
Que não ressoa em boca nem em ar; 
É verbo em sombra, oculto e recolhido, 
Que só na imaginação vem vibrar. 
 
Não pede voz, nem gesto, nem ouvido, 
Prefere o íntimo abismo de pensar; 
Ali se faz mais denso e mais sentido, 
Qual brisa que não cessa de soprar. 
 
Se o digo em voz, talvez não se faça, 
Pois vive do mistério que o sustém; 
É chama que no escuro se refaz. 
 
Melhor que em grito algum se desfaça, 
Floresce no que o sonho ainda contém: 
Um som que cala — e justamente traz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Havia uma ponte em minha razão

 Havia uma ponte em minha razão. 
Não era feita de pedra, 
Nem de cálculos frios, 
Mas de silêncios arquitetados 
Com a precisão de quem já sofreu demais. 
 
Era uma ponte suspensa 
Entre o que penso 
E o que permito. 
 
Do lado de cá, argumentos, 
Firmes como muralhas. 
Do lado de lá, abismos, 
Cheios de nomes 
Que um dia me chamaram de amor. 
 
Eu dizia que era lógico. 
Que era prudente. 
Que era maduro. 
 
Mas a verdade é que a ponte 
Não obedecia à razão que a construiu. 
Ela se abria 
Como um portão secreto 
Ao toque invisível do afeto. 
Só atravessava 
Quem o meu coração queria. 
 
E o coração, esse traidor delicado, 
Não consultava estatísticas, 
Nem ouvia conselhos. 
Ele reconhecia passos 
Pelo peso da ausência 
Antes mesmo da presença chegar. 
 
Havia uma ponte em minha razão, 
Mas ela não era democrática. 
Não era justa. 
Não era coerente. 
Era viva. 
 
Às vezes eu tentava fechá-la. 
Erguer cancelas. 
Cobrar pedágios de dignidade. 
Mas bastava um olhar sincero, 
Um gesto que não exigisse 
Que eu desaparecesse, 
E a ponte tremia, cedia, 
Abria passagem. 
 
Aprendi então: 
A razão constrói pontes para proteger, 
Mas é o coração que decide 
Quem merece atravessar 
E habitar 
O lado mais vulnerável de nós. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O escritor e o poder

O escritor não teme apenas a censura. 
Teme o aplauso do palácio. 
O poder não precisa queimar livros, 
Basta convidar o autor para jantar. 
Entre talheres de prata e promessas sutis, 
A palavra começa a emagrecer. 
 
Escrever é caminhar sobre uma corda 
Esticada entre a verdade e o conforto. 
De um lado, o abismo do silêncio imposto. 
Do outro, o abismo do silêncio comprado. 
 
O poder adora metáforas domesticadas. 
Prefere poemas que falem do céu 
Enquanto a terra arde. 
Prefere romances que distraiam 
Enquanto a história sangra. 
 
O escritor sente o peso invisível 
De cada adjetivo. 
Sabe que uma vírgula pode ser abrigo 
Ou triste rendição. 
 
Há noites em que ele pensa: 
“E se eu suavizar? 
E se eu calar apenas um pouco?” 
Mas a palavra, quando traída, 
Vira espelho, 
E ninguém suporta viver 
Olhando para o próprio rosto rachado. 
 
O poder muda de rosto, 
Mas conserva a mesma fome: 
Quer narrativas que o eternizem. 
 
O escritor, se ainda for escritor, 
Precisa escolher a quem servir: 
Ao tempo, ou ao trono. 
Porque o tempo perdoa os que resistem. 
O trono devora até os que o exaltam. 
 
E no fim, quando o poder já é pó, 
Resta apenas a página. 
E nela, gravada como cicatriz, 
A decisão que ele tomou. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Aproveite o dia

 
Aproveitar o dia 
Não é arrancá-lo do calendário 
Como quem arranca uma flor 
Para vê-la morrer na própria mão. 
Aproveitar o dia 
É escutá-lo com o coração. 
 
Há dias que chegam como pássaros feridos, 
Outros como cavalos em disparada. 
Mas todos carregam no dorso 
A mesma pergunta: 
— O que você fará com a sua consciência hoje? 
 
Não se trata de viver 
Como se não houvesse amanhã, 
Mas de viver como se o amanhã 
Não pudesse consertar 
A covardia do agora. 
 
O dia é um território breve. 
Não é promessa, é presença. 
Ele não pede heroísmo, 
Pede que seja inteiro. 
 
Aproveitar o dia 
É olhar para o próprio medo 
E não negociar a própria alma. 
É escolher, mesmo tremendo. 
É dizer a verdade possível. 
É amar sem desaparecer. 
 
Há quem confunda intensidade com excesso, 
Mas o excesso é fuga. 
Intenso é quem permanece. 
Quem suporta o peso de existir 
Sem anestesiar o sentido. 
 
O dia é um espelho curto: 
Nele cabem nossos gestos, 
Nossas omissões, 
Nossa fidelidade ao que somos. 
 
Talvez aproveitar o dia 
Seja aceitar que ele é finito 
E, justamente por isso, sagrado. 
Não porque dure, mas porque passa. 
E tudo o que passa 
Nos exige coragem de ter existido. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Permaneço inabalável

Sigo uma forma de viver 
Que não grita nos mercados do mundo, 
Não disputa palco com os vaidosos, 
Não ergue bandeiras para provar que existe, 
Apenas respira e caminha. 
 
É uma vida que não se defende 
Porque já fez as pazes com suas cicatrizes. 
Quem vive assim não precisa vencer debates, 
Nem colecionar aplausos, 
Nem explicar a própria luz. 
 
Caminho como quem conhece o próprio chão. 
Se me empurram, não devolvo o gesto, 
Finco os pés mais fundo. 
Raiz não grita para a tempestade, 
Apenas permanece serena. 
 
Não preciso da aprovação alheia 
Porque aprendi que o olhar dos outros 
É espelho quebrado: 
Reflete mais o medo deles 
Do que a minha verdade. 
 
Há uma força silenciosa 
Em quem não precisa provar nada. 
É a firmeza das montanhas invisíveis, 
A coragem das águas subterrâneas, 
A dignidade de quem sabe quem é. 
 
Sigo assim, 
Sem alarde, sem espetáculo, 
Sem pedir licença para existir. 
E no silêncio da minha escolha 
Há um grito que só eu escuto: 
Eu permaneço inabalável. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

No vai e vem das calçadas

 Pelas ruas da cidade, 
Vidas se cruzam sem se tocar. 
Olhos carregam mundos inteiros, 
Mas o passo é apressado demais 
Para que alguém ouse enxergar. 
 
No vai e vem das calçadas, 
Cada rosto é um segredo fechado. 
Sorrisos breves, silêncios longos, 
Histórias gritando por dentro 
Numa pressa que cala o passado. 
 
A cidade respira em ruídos, 
Motores, vozes, passos, ecos. 
E em meio ao fluxo incessante, 
Há solidões disfarçadas 
Sob a multidão de trajetos. 
 
Quem anda, busca ou foge, 
Quem corre, sonha ou se esconde. 
Pois toda rua é também espelho 
De um coração que caminha 
Sem saber bem ao certo para onde. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um milagre estar aqui

 Estar aqui é um milagre silencioso, 
Um sopro improvável entre dois nadas. 
A existência não grita, sussurra 
Na batida distraída do peito, 
Na consciência súbita de que tudo passa. 
 
Viver é segurar água nas mãos, 
Sentir o frescor e a fuga no mesmo gesto. 
Nada nos pertence por muito tempo, 
Nem os dias, nem os rostos, nem os nomes, 
Somos hóspedes do instante. 
 
Há uma beleza quase dolorida 
Em saber que o agora não se repete. 
Cada riso é irreversível, 
Cada encontro, uma raridade cósmica, 
Cada despedida, uma lei antiga. 
 
Estar aqui, pensando, respirando, 
É tocar o mistério sem compreendê-lo. 
É saber que a vida, tão breve, 
Não pede eternidade, pede presença. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Talvez eu nunca mais a veja

Ontem à noite eu conheci uma garota. 
Não sei se era feita de riso ou de silêncio, 
Mas havia nela algo que não cabia no instante, 
Como uma lembrança que nasce antes de existir, 
Ou uma saudade sem passado. 
 
Ela falava, e o mundo diminuía, 
Como se as coisas perdessem a pressa de ser. 
Seus olhos, estranhos abismos calmos, 
Guardavam segredos que não ousei tocar, 
Mas que ainda assim me tocaram. 
 
Foi breve, como tudo que fere fundo. 
A noite seguiu seu curso indiferente, 
Mas algo em mim ficou suspenso, 
Preso naquele encontro improvável, 
Como quem tropeça no próprio destino. 
 
Talvez eu nunca mais a veja. 
Talvez ela nunca tenha sido minha história. 
Mas há encontros que não pedem continuidade, 
Basta que existam, uma única vez, 
Para nunca mais deixarem de ser lembrança. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Princesinha

 Quando a Vila Maria
Ainda aprendia o próprio nome, 
O rio já a chamava em segredo. 
Não com palavras, mas com reflexos, 
Com o ouro trêmulo das tardes 
E o silêncio antigo das correntezas. 
 
Cáceres era barro, passo, espera. 
Casas baixas cochichando histórias, 
Varandas bordadas de vento e lembranças, 
Como se o tempo ali caminhasse descalço 
Para não ferir a memória. 
 
Então alguém viu, ou sentiu, 
Que o rio não a atravessava apenas, 
Mas a escolhia. 
Como se coroasse em águas mansas 
Uma realeza sem trono, sem pressa. 
 
Princesinha. 
Não pela grandeza, 
Mas pela delicadeza de existir à margem, 
Pela graça serena de quem não disputa, 
Apenas permanece. 
 
E o Rio Paraguai, velho e paciente, 
Seguiu passando como quem guarda um segredo: 
Sabendo que certas cidades 
Não apenas nascem, 
São lentamente encantadas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense