As vitrines acendem seus pequenos sóis artificiais,
E cada rosto atravessa a manhã
Como quem carrega uma biografia emprestada.
Nas calçadas, o eco dos passos pergunta, em vão,
Quem ainda se recorda do próprio nome.
No quarto estreito, uma xícara de café esfriando
Vale mais do que o brilho das janelas espelhadas.
Há uma verdade discreta nas coisas comuns,
O pó sobre os livros, o relógio insistente,
A cadeira vazia esperando alguém
Que talvez nunca tenha partido.
Vivemos cercados por espelhos
Que refletem apenas aquilo que desejam vender.
Mas a alma não aprende sua linguagem nas vitrines.
Ela prefere o rumor da chuva sobre o telhado,
O peso das lembranças,
E a humilde claridade de uma manhã qualquer.
Quem sabe a felicidade nunca tenha sido um espetáculo.
Talvez sempre tenha caminhado descalça,
Sem anúncios, sem testemunhas,
Entre a fadiga e a esperança.
E pode ser que a maior pobreza
Seja gastar a vida adornando a própria máscara.
Quando a noite recolhe as últimas vozes,
Permanece apenas o diálogo silencioso
Entre aquilo que mostramos ao mundo
E aquilo que ousamos confessar a nós mesmos.
Nesse intervalo, breve como um suspiro,
O simples deixa de ser pequeno e torna-se eterno.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














