sexta-feira, 27 de março de 2026

Que me leve pela vida o coração

Que me leve pela vida o coração, 
Como versos que se soltam no vento, 
Feito canção que nasce sem razão, 
Mas encontra morada no sentimento, 
E repousa suave no tempo. 
 
Que ele pulse como um tambor antigo, 
Marcando o compasso dos meus dias, 
Mesmo quando o mundo for inimigo, 
Mesmo nas noites mais vazias, 
Seja chama entre as agonias. 
 
Que me guie por estradas invisíveis, 
Onde os sonhos ainda respiram, 
Entre silêncios quase inaudíveis, 
Onde as dores também suspiram, 
E as esperanças não se retiram. 
 
Que ele dance entre erros e acertos, 
Sem medo de cair no abismo, 
Pois são nos passos mais incertos 
Que se revela o lirismo, 
De existir além do cinismo. 
 
Que ao fim, quando tudo for memória, 
Reste o eco doce dessa canção, 
Não como fim, mas como história, 
De quem viveu pela emoção, 
E deixou-se levar pelo coração. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Incompleto

Não sei onde estou 
Quando o amor não me encontra. 
É como caminhar por ruas sem nome, 
Onde as sombras parecem lembrar de mim 
Mais do que eu mesmo. 
Há um vazio que não grita 
Apenas ecoa, 
Lento, como um sino distante 
Em uma cidade abandonada. 
 
Mas mesmo assim… eu sonho. 
Porque há algo em mim 
Que não se rende à ausência. 
Uma centelha teimosa que insiste em acender luz 
Mesmo dentro da noite mais espessa. 
Eu posso não saber o caminho, 
Posso não reconhecer o lugar, 
Mas carrego em mim mapas invisíveis, 
Feitos de desejo, de memória, de promessa. 
 
Sem um grande amor, o mundo perde contorno, 
Mas não perde possibilidade. 
E é nessa possibilidade que eu habito. 
 
Sou aquele que caminha sem saber onde pisa, 
Mas ainda assim imagina jardins onde só há flores, 
Ouve música onde só há silêncio, 
E acredita, mesmo quando tudo parece desmentir, 
Que em algum instante, 
Em algum cruzamento do destino, 
O amor me reconhecerá primeiro. 
 
Até lá, eu sigo. 
Perdido, talvez. 
Incompleto, certamente. 
Mas nunca vazio de sonhos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 26 de março de 2026

Entre dois sentimentos

 Eu caminho por dentro de mim 
Como quem pisa em terra devastada, 
Carregando no peito 
Dois exércitos que não descansam. 
 
O ódio me chama pelo nome com voz de ferro, 
Promete força, 
Promete esquecimento, 
Promete não sentir, 
E por um instante, 
Quase cedo à sua disciplina fria. 
 
Mas o amor… 
Ah, o amor me encontra 
Mesmo quando me escondo de mim, 
Toca minhas ruínas como quem ainda vê morada, 
E insiste, 
Teimoso, quase louco, em me reconstruir. 
 
Minha mente ergue trincheiras, 
Calcula cada passo, 
Diz que sentir é perigo, 
Que lembrar é fraqueza, 
Que sobreviver 
Exige endurecer até não sangrar mais. 
 
Meu coração, no entanto, 
Trai todos os planos. 
Abre as portas que fechei, 
Acende luz onde jurei cultivar apenas sombras. 
 
E eu… 
Eu sou o campo onde tudo isso acontece, 
Sou o grito que não sai, 
Sou a decisão que nunca termina. 
E se há um traidor nesta guerra que me atravessa, 
Eu o reconheço agora. 
É o medo, 
Que me faz recuar do amor 
E me entregar ao ódio 
Como quem escolhe a própria queda 
Disfarçada de proteção. 
 
Mas eu sigo lutando, 
Porque no fundo, bem no fundo, eu sei 
Não é o mais forte que vence em mim, 
É o que eu escolho alimentar no silêncio. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 25 de março de 2026

Um pacto com o escuro

 No coração silencioso, 
Há uma noite que nunca termina. 
Os desejos ocultos não são apenas sombras, 
São a própria argila que molda o ser, 
Fendas pelas quais escorre a verdade 
Que não suportamos nomear. 
 
Cada silêncio guardado 
Torna-se uma espinha dorsal invisível, 
Cada chama sufocada 
Esculpe o rosto que mostramos ao mundo. 
Não somos o que dizemos, 
Somos o que escondemos. 
 
Esses desejos são feridas abertas 
Onde o tempo se alimenta, 
Abismos que nos olham de volta 
E nos lembram que existir 
É sempre carregar algo que não cabe 
Na superfície da vida. 
 
E talvez a identidade 
Não seja mais que isso. 
Um pacto com o escuro, 
Um acordo secreto 
Entre aquilo que o mundo vê 
E aquilo que nunca poderá suportar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Sou o poeta que escreve

 Sou o poeta que não pertence ao agora. 
Caminho com os pés no instante, 
Mas com a alma adiantada, 
Sempre um pouco depois do tempo, 
Como quem escreve cartas 
Para um mundo que ainda não nasceu. 
 
Imagino aventuras que ainda não aconteceram, 
Mas já carregam o peso da saudade. 
Elas me chamam, não como gritos, 
Mas como ecos suaves de um futuro 
Que insiste em existir dentro de mim. 
 
Clamo poemas 
Como quem acende fogueiras no escuro, 
Não para iluminar o caminho, 
Mas para lembrar que há caminho. 
Cada verso é um sinal lançado ao desconhecido, 
Uma tentativa de ser entendido 
Por olhos que ainda virão. 
 
Deito simbolismo como quem semeia silêncio: 
Palavras enterradas na terra do invisível, 
Esperando florescer em significados 
Que nem eu compreendo por inteiro. 
Sou menos o dono do poema 
E mais o seu primeiro testemunho. 
 
E quando durmo, não descanso, 
Atravesso o desconhecido. 
Meu sono é uma ponte onde desfilam eras, 
Rostos antigos, ruínas futuras, 
Civilizações que nascem e desaparecem 
No intervalo de um suspiro. 
 
Vejo o que foi, o que é, 
O que ainda sangra para existir. 
E acordo com fragmentos em mim, 
Não de sonhos, 
Mas de memórias que o tempo ainda não viveu. 
 
Sou o poeta 
Que escreve antes do mundo aprender a ler. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 24 de março de 2026

Filho da guerra

 Filho da guerra, nascido entre o eco e a cinza, 
Carrega no peito um tambor de despedidas, 
Seus passos ainda lembram o peso das ruínas, 
Mas corre, corre como quem desafia o fim, 
Como quem planta futuro no chão devastado. 
 
Ele atravessou o caminho mítico da tragédia, 
Onde deuses esquecidos sussurram nomes partidos, 
Onde o tempo se curva diante do sofrimento antigo, 
E cada pedra guarda um grito que não morreu, 
Mas dorme sob a pele da memória. 
 
Seus olhos são mapas de incêndios e auroras, 
Já viram o mundo romper-se como vidro antigo, 
Mas também aprenderam a recolher a luz dispersa, 
Como quem junta estrelas caídas no barro, 
E as devolve ao céu com mãos feridas. 
 
Agora corre por seus jardins inventados, 
Cultivados no território secreto da esperança, 
Onde flores nascem apesar do sangue enterrado, 
E o vento já não carrega apenas lamentos, 
Mas promessas que ainda não têm nome. 
 
Entre árvores que não existiam antes da dor, 
Ele escuta vozes que pedem para ser escritas, 
Aventuras que crescem como raízes inquietas, 
Histórias que insistem em atravessar o silêncio, 
Como rios buscando um mar que ainda virá. 
 
E ele escreve, mesmo correndo, com o corpo, 
Com o fôlego rasgado e a coragem improvisada, 
Cada passo é um verso arrancado do esquecimento, 
Cada queda, um poema que se recusa a morrer, 
Cada recomeço, uma nova linguagem do mundo. 
 
Filho da guerra, agora semeador de futuros, 
Carrega nos ombros o peso e a leveza do que virá, 
Seus jardins não negam a tragédia que os gerou, 
Mas a transformam em canto, em chama, em caminho, 
Onde a vida aprende, enfim, a continuar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 23 de março de 2026

Desventura do amor proibido

 Amar-te é um erro que floresce em silêncio, 
Como erva daninha entre as pedras do destino, 
Um gesto contido na borda do abismo, 
Onde o querer se desfaz antes de existir, 
E o nome que guardo não pode ser dito. 
 
Te vejo como quem olha o que não pode tocar, 
Um incêndio distante sob chuva constante, 
Meu desejo é um rio que corre proibido, 
Contornando margens que nunca serão nossas, 
Afogando-se em promessas que não fizemos. 
 
Há um mundo inteiro entre mim e teus olhos, 
Um muro erguido com leis invisíveis, 
Com vozes que julgam antes de entender, 
E eu, prisioneiro do que sinto em segredo, 
Aprendo a sorrir com o peito em ruínas. 
 
Se te alcanço em sonho, acordo em perda, 
Se te esqueço um instante, retorno em dor, 
És presença ausente que me persegue, 
Um eco que insiste nas horas vazias, 
Uma ausência que pesa mais que o real. 
 
Amar-te é viver no quase, no nunca, 
É colher espinhos de um jardim vedado, 
É ser estrangeiro no próprio sentimento, 
E ainda assim, em cada pedaço de mim, 
Te amar, mesmo sabendo que não devo. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 22 de março de 2026

Quem sou eu para sonhar com ela?

 Quem sou eu, pergunto ao vento gasto, 
Que atravessa as ruas onde me perco? 
Sou verso torto, mal escrito e vasto, 
Ou só mais um sonho em desalinho aberto, 
Um nome esquecido no fundo de um caderno? 
 
Sou poeta, dizem, por falta de destino, 
Ou por excesso de sentir sem medida. 
Carrego no bolso um mundo clandestino, 
Feito de palavras que sangram vida, 
Mesmo quando a vida me vira as costas. 
 
Pobre, sim, de ouro, de teto e de calma, 
Rico apenas do que não se compra: 
Uma inquietação que devora a alma, 
Um amor que cresce mesmo na sombra, 
Uma fome de eternidade que não cessa. 
 
Vagabundo, talvez, mas de estrelas, 
Caminhante de noites sem paradeiro, 
Colecionador de dores tão belas 
Que transformo em verso ligeiro, 
Como quem engana a própria queda. 
 
E quem sou eu para sonhar com ela? 
A mais bonita, não só de rosto, 
Mas de luz que o mundo revela 
Quando sorri, sem saber o gosto 
De ser poema no peito de alguém. 
 
Mas ainda assim, eu ouso existir, 
Entre o nada e o impossível ardente: 
Pois se amar é também insistir, 
Sou tudo aquilo que sente a mente, 
Um ninguém… que a amaria eternamente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nunca mais

 Nunca mais verás o meu pranto de saudade, 
Ele se escondeu nas dobras do silêncio, 
Onde a noite aprende a não dizer teu nome, 
E o tempo, cansado, esquece de doer. 
Eu me tornei ausência antes de partir. 
 
As lágrimas que um dia te buscaram 
Agora evaporam em sonhos sem rosto, 
Não há mais mar dentro dos meus olhos, 
Apenas um deserto que aprendeu a existir 
Sem esperar a chuva do teu retorno. 
 
Guardei tua lembrança em um lugar fechado, 
Onde nem mesmo a memória ousa entrar, 
Trancei as portas com fios de esquecimento 
E deixei a chave cair no fundo dos dias 
Que nunca mais serão revisitados. 
 
Se um dia pensares em mim, que seja tarde, 
Quando já não houver vestígio do que fomos, 
Quando meu nome soar como eco distante 
Em uma língua que teu coração não fala mais, 
Como um livro que se fecha sem leitura. 
 
Nunca mais verás o meu pranto de saudade, 
Porque ele morreu na última despedida, 
E no lugar onde antes eu te amava 
Cresceu um silêncio firme, quase eterno, 
Que não sabe mais chorar por ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 21 de março de 2026

O lúgubre uivo gutural

 Perguntas não trazem respostas, apenas ecos, 
Como passos perdidos em corredores sem fim. 
Interrogam o vazio e o vazio responde com silêncio, 
Um silêncio denso, quase palpável, quase vivo. 
E seguimos, colecionando dúvidas como cicatrizes, 
Cada uma aberta pelo gesto inútil de compreender, 
Cada uma ardendo sob a pele do que não se explica. 
 
Os dias são preenchidos por incompreensão, 
Um pó fino que se deposita sobre as horas. 
Nada se encaixa, nem o riso, nem o cansaço, 
Nem o nome das coisas que deixaram de ser. 
Vivemos em frases interrompidas pelo nada, 
Em gestos que não encontram destino, 
Em sentidos que se desfazem antes de nascer. 
 
Há aqueles que tornam-se sombras nas tardes de verão, 
Quando a luz é excessiva e revela demais. 
Desaparecem à margem do calor e do brilho, 
Dissolvem-se no ar pesado de agosto. 
São presenças que já não pesam no mundo, 
Rostos que o sol esqueceu de iluminar, 
Silhuetas que o tempo não quis guardar. 
 
E então surge o lúgubre uivo gutural, 
Rasgando a noite como um segredo antigo. 
Não é voz, é ferida aberta no escuro, 
É algo que chama sem saber quem responde. 
Cercado de escuridão, ele se multiplica, 
Ecoando em cavernas que habitam o peito, 
Onde o medo aprende a falar sem palavras. 
 
Resta apenas o intervalo entre as coisas, 
Um espaço onde tudo se perde e insiste. 
As perguntas permanecem, imóveis, vigilantes, 
Como olhos que nunca se fecham. 
E nós, meio carne, meio sombra, seguimos, 
Carregando o indizível como destino, 
À espera de respostas que jamais chegarão. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Pelos becos desérticos

 O vírus é a cura, sussurra o corpo febril, 
Como se a doença fosse um código secreto, 
Um mapa inscrito na carne em ruínas, 
Onde cada célula aprende a ruir para existir 
E a dor se torna um tipo torto de salvação. 
 
O vazio é o parasita mais antigo, 
Instala-se antes mesmo do primeiro grito, 
Alimenta-se de nomes, de rostos, de promessas, 
E cresce nos cantos onde a vida hesita, 
Como uma sombra que devora a própria luz. 
 
Onde está o desmascaramento da cidade? 
As ruas vestem seus disfarces de normalidade, 
Mas há rachaduras nos olhos das vitrines, 
Um tremor nos passos apressados, 
Como se todos soubessem, e negassem. 
 
Uma lívida paranoia flutua no ar, 
Feito névoa que ninguém ousa atravessar, 
Ela cola na pele, infiltra nos pensamentos, 
Torna cada silêncio uma ameaça 
E cada respiração, um presságio. 
 
Há fantasmas pelos becos desérticos, 
Eles não têm rosto, mas têm memória, 
Arrastam correntes de vozes esquecidas, 
Ecoam segredos que ninguém quis guardar 
E vigiam os vivos como espelhos quebrados. 
 
E há um buraco que dá no fundo do abismo, 
Não está na terra, mas no centro, 
Um poço sem fundo sob o peito fechado, 
Onde tudo o que somos despenca em silêncio 
E nunca chega a tocar o fim. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 20 de março de 2026

O encontro começa no caminho

As flores perfumadas do caminho 
Irradiadas pelo sol da manhã 
Fizeram meu olhar buscar o horizonte 
Para descobrir o seu amor. 
E nesse instante, o mundo se tornou promessa. 
 
Havia uma brisa leve atravessando o tempo, 
Como se cada segundo respirasse esperança, 
E o chão, coberto de silêncios antigos, 
Sussurrasse histórias que eu ainda não sabia, 
Mas que já me pertenciam de algum modo. 
 
Meus passos eram ecos de um desejo antigo, 
Um querer que não cabia em palavras simples, 
E o céu, aberto como um livro esquecido, 
Parecia ler em mim aquilo que escondo, 
Como quem reconhece o que ainda virá. 
 
Busquei teu nome entre nuvens dispersas, 
Entre sombras que dançavam na luz, 
E encontrei mais que presença, encontrei sentido, 
Um fio invisível costurando distâncias, 
Transformando ausência em delicada espera. 
 
E então compreendi, ao tocar o horizonte, 
Que amar é caminhar sem garantias, 
Mas com o coração cheio de direções, 
Como quem floresce mesmo no incerto, 
Sabendo que o encontro começa no caminho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quando quero estar só

Há um tipo de silêncio que não é ausência, 
Mas abrigo. 
Querer estar só, às vezes, não nasce da tristeza, 
Mas de um excesso, 
De vozes, de olhares, de expectativas 
Que se acumulam sobre a pele 
Como poeira de dias não vividos por inteiro. 
 
É quando o mundo pesa demais 
E a alma pede um quarto sem janelas, 
Onde possa, enfim, respirar sem ser vista. 
A solidão, nesse instante, 
Não é vazio, é um retorno. 
 
Como quem tira os sapatos 
Depois de uma longa caminhada 
E descobre, nos próprios pés, 
Um território esquecido. 
Estar só é, por vezes, 
A única maneira de não desaparecer. 
 
Porque há encontros que nos apagam 
E ausências que nos acendem. 
E nesse estranho desejo de se afastar de tudo, 
Há um gesto quase sagrado: 
O de recolher-se 
Não para fugir do mundo, 
Mas para voltar a si inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 19 de março de 2026

Onde o saber cresce sem alarde

 Estudar não nasce de um instante, 
Não é centelha que acende e se apaga, 
É fio contínuo costurando as horas, 
Um gesto repetido que se torna forma, 
Um ritmo que educa o próprio tempo. 
 
Há quem pense ser tarefa solitária, 
Um bloco isolado no meio do dia, 
Mas é corrente que atravessa tudo: 
O café, o silêncio, a luz da tarde, 
E até o cansaço que insiste em ficar. 
 
Organizar-se é mais que cumprir horários, 
É dar sentido às pequenas escolhas, 
É transformar minutos dispersos 
Em território firme e habitável, 
Onde a mente aprende a permanecer. 
 
O mundo lá fora gira em ruído, 
Notificações, pressa e distrações, 
Um caos vestido de urgência constante, 
Mas quem aprende a ordenar o dia 
Cria dentro de si um lugar de calma. 
 
E nesse espaço, quase invisível, 
O saber cresce sem alarde, 
Como raiz que se aprofunda no escuro, 
Sustentando árvores que ainda virão, 
Sem precisar anunciar sua força. 
 
Assim, estudar deixa de ser esforço, 
E torna-se um modo de existir, 
Um caminho traçado entre os dias, 
Onde cada passo é também abrigo, 
E cada escolha, um gesto de lucidez. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Digestão (quase) impossível

 Vivo num mundo que não se mastiga, 
Duro como ferro entre os dentes cansados, 
Onde ideias apodrecem antes de nascer, 
E verdades são servidas em pratos quebrados, 
Há um gosto metálico no ar que respiro, 
Como se o tempo tivesse sido envenenado. 
 
Chamam de ordem o que é apenas controle, 
Um fio invisível puxando os gestos possíveis, 
Um roteiro escrito por mãos que não pensam, 
Apenas repetem dogmas antigos e insensíveis, 
E cada voz que tenta ser livre 
É silenciada por ecos previsíveis. 
 
As ruas caminham sozinhas, sem destino, 
Cheias de corpos que esqueceram de sonhar, 
Olhos que brilham apenas por reflexo, 
Como vitrines vazias a se iluminar, 
E o silêncio pesa mais que qualquer grito, 
Porque ninguém ousa escutar. 
 
O sistema mastiga nossas vontades, 
Cospe versões menores de quem fomos, 
Nos reduz a números, códigos, padrões, 
A peças frágeis em mecanismos autônomos, 
E nos convence, com falsa ternura, 
De que somos livres, enquanto decompomos. 
 
Há uma ignorância vestida de certeza, 
Um orgulho cego que recusa enxergar, 
Como um rei nu que se crê absoluto, 
Reinando sobre um nada a desmoronar, 
E quem ousa apontar o vazio 
É tratado como alguém a se apagar. 
 
Mesmo assim, algo resiste nas sombras, 
Um fragmento indomável de lucidez, 
Uma chama que não aceita ser moldada, 
Nem dobrada pela fria estupidez, 
Um sussurro que insiste em dizer: 
“Há mais do que essa bruta insensatez.” 
 
E quem sabe seja por isso que sobrevivemos, 
Não no mundo, mas contra ele, 
Na recusa silenciosa de engolir o absurdo, 
Na coragem de sentir o que não cabe nele, 
Pois viver, aqui, é um ato de ruptura, 
Um não constante ao que nos repele. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense