sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Viajantes

 Há uma hora suspensa entre o relógio e a lembrança; 
É nela que meu pensamento atravessa a tarde 
Como um pássaro que desconhece fronteiras. 
As ruas permanecem imóveis, 
Mas dentro delas o tempo muda de direção. 
 
Se ele encontra você, não sei quem retorna. 
Talvez apenas o eco de uma pergunta antiga, 
Repetida pelos corredores da memória 
Onde as janelas se abrem para um céu sem resposta 
E cada silêncio possui o peso de uma catedral vazia. 
 
O coração aprende a linguagem das ausências. 
Não grita; acumula poeira sobre os nomes, 
Como livros esquecidos em uma biblioteca antiga. 
Ainda assim, basta uma lembrança 
Para que todas as páginas voltem a respirar. 
 
Somos viajantes de instantes incompletos, 
Colecionadores de encontros que nunca terminam. 
Chamamos de destino aquilo que não compreendemos, 
E de saudade aquilo que insiste em permanecer 
Quando todas as despedidas já foram pronunciadas. 
 
Então meu pensamento repousa onde você está, 
Enquanto meu coração permanece entre dois mundos: 
Um feito de passos que o tempo consome, 
Outro de perguntas que nenhuma manhã dissolve. 
Nesse intervalo, a vida silenciosamente nos escreve. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cada aluno

 Educar é permanecer na soleira do desconhecido, 
Onde nenhuma resposta dura para sempre. 
O vento do pensamento atravessa os corredores da alma 
E leva consigo as certezas que julgávamos eternas. 
Resta-nos o silêncio e a pergunta. 
 
Cada aluno carrega um universo incompleto, 
Um enigma que nem ele próprio compreende. 
Tentamos oferecer mapas e direções, 
Mas a existência insiste em inventar outros caminhos. 
E toda rota termina em novas dúvidas. 
 
Há um risco em ensinar: ser transformado. 
A ideia que lançamos ao mundo retorna diferente, 
Vestida de experiências que não vivemos. 
O pensamento não respeita proprietários. 
Ele pertence ao movimento. 
 
Por vezes, o vento chega como tempestade, 
Arrancando crenças das raízes mais profundas. 
Descobrimos então que aprender não é acumular, 
Mas perder versões antigas de si mesmo 
Para habitar outras possibilidades. 
 
Educar é caminhar sem garantias, 
Aceitando a fragilidade de toda verdade humana. 
Sob o céu indiferente do tempo, 
Mestres e aprendizes seguem lado a lado, 
Expostos ao mesmo vento infinito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O governo do coração

 Quando te vejo, meu coração desperta, 
Mas não entrego à paixão o meu destino. 
O desejo floresce como um jardim, 
Sem prender a alma às suas flores, 
Pois a serenidade vale mais que o impulso. 
 
Aprendi que nada verdadeiramente meu 
Pode ser levado pelo tempo ou pela distância. 
Teu sorriso é um presente do instante, 
Não uma promessa para o amanhã; 
Por isso o recebo com gratidão. 
 
Se teus passos vierem ao meu encontro, 
Celebrarei a dádiva sem arrogância. 
Se seguirem por outro caminho, 
Aceitarei o curso da vida, 
Como o rio aceita o desenho de suas margens. 
 
O coração sábio deseja sem exigir, 
Admira sem possuir, 
Ama sem aprisionar, 
Porque sabe que a paz interior 
É o bem que nenhuma perda destrói. 
 
Sempre quando te vejo, sorrio em silêncio. 
Não porque tudo me pertença, 
Mas porque compreendi o essencial: 
A maior vitória do amor é permanecer virtuoso, 
Mesmo quando o destino escreve outra história. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Não vou bater na sua porta

 Não vou bater na sua porta 
Como quem vende a própria alma. 
O mundo já tem gente demais 
Pedindo licença 
Para existir. 
 
Se você não me vê, 
O problema não é o meu rosto. 
Há olhos que só enxergam 
O brilho das vitrines 
E confundem barulho com valor. 
 
Aprendi que a solidão 
É uma mesa mais honesta 
Do que certos aplausos. 
Ela nunca mente 
Sobre quem permanece. 
 
Não preciso vestir outra pele, 
Nem inventar um personagem. 
Quem vive implorando atenção 
Acaba esquecendo 
O próprio nome. 
 
Então fico aqui, 
Com meu café já frio, 
Algumas cicatrizes 
E a estranha paz 
De quem não precisa convencer ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre a ausência e o ser

 A saudade não pergunta quem sou; 
Apenas se senta ao meu lado. 
Na ausência de quem já amei, 
Descubro que também sou feito 
Das perdas que não escolhi. 
 
O silêncio conhece meu nome, 
Mais do que as vozes da multidão. 
Quem partiu deixou uma pergunta, 
E vivo respondendo-a 
Sem jamais encontrar o fim. 
 
Penso que amar seja aceitar 
Que nenhum encontro vence o tempo. 
Somos passageiros da mesma estação, 
Carregando lembranças 
Como quem carrega o próprio rosto. 
 
A sombra que me acompanha 
Não é dela, nem minha. 
É o espaço vazio entre dois mundos, 
Onde o passado insiste em existir 
E o futuro ainda não respondeu. 
 
Se a vida não oferece sentido, 
Cabe ao coração criá-lo. 
Faço da saudade uma chama serena, 
Não para esperar quem não volta, 
Mas para iluminar quem ainda sou. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O retrato da ignorância

 Há quem veja na pele uma fronteira, 
Um muro erguido pela própria ilusão; 
Mas o sangue que corre nas veias 
Não conhece bandeiras nem cores, 
Apenas o ritmo comum do coração. 
 
O racismo nasce da sombra do medo, 
Da semente amarga da desinformação; 
É um espelho que reflete a pobreza 
De quem confunde diferença com distância 
E transforma a ignorância em convicção. 
 
As flores não perdem sua beleza 
Por nascerem em cores diferentes; 
Assim também são os seres humanos, 
Únicos em suas histórias e rostos, 
Iguais em sua dignidade permanente. 
 
Quem aprende a ouvir o outro 
Descobre mundos além dos próprios olhos; 
Percebe que a humanidade é um rio 
Formado por inúmeras correntes, 
Correndo juntas para o mesmo horizonte. 
 
Que o conhecimento seja a luz acesa 
Nos caminhos ainda cobertos de escuridão; 
Pois o racismo é apenas o retrato antigo 
De uma ignorância que insiste em ficar, 
Mas que a fraternidade pode vencer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Quando chegar o último momento

Quando chegar o último momento, não temerei. 
A vida cumprirá o curso que lhe foi dado. 
Receberei o silêncio como velho companheiro, 
Pois ninguém vence a marcha do tempo; 
Vence apenas quem aprende a aceitá-la. 
 
Sonhei enquanto o destino permitiu. 
O que alcancei, agradeço; o que perdi, liberto. 
Não acuso a fortuna por seus caprichos, 
Porque a paz floresce na alma 
Que governa a si mesma. 
 
Não levarei riquezas nem aplausos, 
Mas o caráter moldado pelas escolhas. 
Toda virtude permanece além da posse, 
E quem viveu com retidão descansa 
Sem negociar a própria consciência. 
 
Se ainda houver um sonho, será simples: 
Partir sem remorsos e sem arrogância, 
Deixando bondade onde meus passos estiveram. 
A morte fecha os olhos do corpo, 
Mas não apaga o valor de uma vida justa. 
 
Esperarei o derradeiro instante, 
Sereno como a árvore diante do outono. 
As folhas caem, porém a raiz permanece. 
E compreenderei, enfim, que a maior vitória 
Foi aprender a viver antes de partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Será que preciso chamar tua atenção?

 Será que preciso chamar tua atenção 
Para provar que existo diante dos teus olhos? 
Ou minha existência já basta, 
Mesmo quando o silêncio responde 
Com a indiferença do mundo? 
 
Caminho entre rostos que passam, 
Cada um preso ao seu próprio labirinto. 
Ninguém pode viver a minha escolha, 
Nem carregar o peso da minha liberdade. 
Sou apenas eu diante do instante. 
 
Se esperasse teu olhar para ser alguém, 
Entregaria a ti o sentido da minha vida. 
Mas nenhum outro pode escrever 
A história que nasce 
De minhas próprias decisões. 
 
Quem sabe o vazio não seja um inimigo, 
Mas o espaço onde construo significado. 
O universo não me deve respostas; 
Sou eu quem transforma perguntas 
Em caminhos possíveis. 
 
Por isso já não grito por atenção. 
Prefiro a coragem de ser autêntico. 
Se me encontrares, que seja pela verdade; 
Se não me encontrares, continuarei existindo, 
Criando sentido enquanto caminho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O amor não é um ferro-velho

 Se um dia quebrarem o teu coração, 
Não bata na minha porta 
Como quem procura um bar aberto 
Depois que todos os outros fecharam. 
Eu não sirvo bebida para arrependimentos. 
 
O amor não é um ferro-velho 
Onde se troca o que foi destruído 
Por uma peça que ainda funciona. 
Eu também sangrei, 
Só aprendi a limpar o chão. 
 
Você chamou de destino 
Aquilo que era apenas desejo. 
Agora chama de saudade 
Aquilo que é solidão. 
Há uma diferença enorme. 
 
Não tenho vocação para salvador. 
Heróis morrem cedo 
E idiotas vivem cansados. 
Escolhi sobreviver 
Com o pouco que restou de mim. 
 
Então siga. 
Carregue os cacos que a vida lhe deu. 
Eu carrego os meus. 
E, pela primeira vez, 
Eles não pesam mais do que a minha paz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O mistério inteiro de uma vida

Nascemos sem escolher o rosto, 
A terra, o tempo ou a estação. 
Somos lançados ao mundo, de repente, 
Carregando perguntas sem respostas 
E o peso silencioso da existência. 
 
Mas alguns transformam a diferença 
Em fronteira, em medo, em exclusão. 
Inventam sentidos onde não existem, 
Como se a cor da pele pudesse conter 
O mistério inteiro de uma vida. 
 
Cada ser humano é um universo, 
Um conjunto de memórias e ausências. 
Nenhum olhar alcança a profundidade 
Do que habita por trás dos olhos 
Que atravessam os dias em silêncio. 
 
O racismo é uma tentativa inútil 
De reduzir o infinito ao superficial. 
É esquecer que toda identidade 
É mais vasta do que qualquer definição 
 Que a linguagem consiga aprisionar. 
 
E quando a noite cair sobre todos, 
Como inevitavelmente cairá, 
Restará apenas o que fizemos do tempo. 
Se construímos muros entre as pessoas 
Ou pontes sobre o abismo da solidão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O coração não conhece mapas

 Se o meu pensamento vai até onde você está, 
Quem permanece aqui para responder por mim? 
Talvez eu seja apenas essa travessia invisível, 
Um ser repartido entre a presença e a lembrança, 
Procurando sentido no espaço entre nós. 
 
O coração não conhece mapas. 
Ele inventa caminhos onde o mundo impõe fronteiras. 
Cada lembrança é uma escolha contra o esquecimento, 
E cada silêncio pergunta, sem piedade, 
O que ainda resta de nós. 
 
Penso em você, e descubro que pensar 
É também criar uma existência possível. 
Você vive em mim como possibilidade, 
Não como certeza, 
E isso basta para inquietar o infinito. 
 
Pode ser que o amor não vença a distância. 
Talvez apenas revele o vazio que carregamos. 
Ainda assim, continuo caminhando, 
Porque desistir de sentir 
Seria desistir de existir. 
 
Se o meu pensamento alcança você, 
Meu coração não pede respostas. 
Aceita que viver é habitar perguntas, 
E que o sentido não está no encontro, 
Mas na coragem de continuar amando apesar do absurdo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Ode à minha biblioteca

 Que tesouro maior pode haver na vida, 
Que este ajuntamento de sábios defuntos? 
Enquanto o mundo corre atrás de assuntos 
Que acabam em vaidade consumida, 
Guardo a palavra antiga e refletida. 
 
Vejo fidalgos de pomposa aparência, 
Mercadores de honra e de opinião; 
Vendem virtude em praça e procissão, 
Mas mostram, na primeira conveniência, 
Que o ouro é sua única consciência. 
 
Os livros, porém, não fingem grandeza, 
Não trocam a verdade por aplausos; 
Suportam em silêncio os muitos causos 
Da humana e tão frágil natureza, 
Sem mascarar a própria pequeneza. 
 
Aqui converso com o morto e o ausente, 
Com o poeta, o filósofo e o soldado; 
Cada qual, por seu destino castigado, 
Ensina que é breve a glória da gente 
E que o tempo não poupa o mais potente. 
 
Por isso não renuncio à livraria, 
Refúgio contra o engano e a aparência; 
Se o mundo é teatro de inconsistência, 
Prefiro a companhia e a cortesia 
Dos livros à vulgar hipocrisia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 13 de setembro de 2026

A mão que escreve

 As sombras visitam minha mente à noite, 
Trazendo formas que não posso explicar. 
Não discuto com aquilo que não controlo; 
Apenas observo suas passagens silenciosas 
Como quem contempla nuvens sobre o rio. 
 
Às vezes imagino monstros sem nome, 
Ou talvez eles imaginem a mim. 
Mas pouco importa a origem do medo 
Quando o dever permanece o mesmo: 
Manter firme a mão que escreve. 
 
A razão é uma pequena chama, 
Não capaz de expulsar toda a escuridão, 
Mas suficiente para indicar o caminho. 
Com ela atravesso os corredores da dúvida 
Sem exigir certezas do mundo. 
 
Se a paranoia me oferece fantasmas, 
Transformo-os em palavras e imagens. 
Se a imaginação me oferece abismos, 
Aprendo a medir seus contornos. 
Tudo pode servir à obra e ao aprendizado. 
 
Sigo entre o mistério e a lucidez, 
Aceitando os limites da minha compreensão. 
Nem tudo o que vejo precisa ser verdade, 
Nem tudo o que temo merece domínio. 
Basta-me criar e continuar caminhando. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Prossigo sem pressa

 Caminho sem exigir respostas da estrada, 
Nem peço ao horizonte promessas de chegada. 
Há coisas que pertencem aos meus passos, 
E outras que pertencem ao curso dos ventos; 
Aprendi a distinguir umas das outras. 
 
A esquina seguinte guarda o que guarda, 
Indiferente aos meus desejos e receios. 
Não cabe a mim governar o inesperado, 
Mas receber com firmeza o que vier, 
Como a terra recebe a chuva e o sol. 
 
Se encontro jardins, contemplo sua beleza; 
Se encontro ruínas, observo suas lições. 
Nem a fortuna merece excessiva euforia, 
Nem a adversidade merece desespero. 
Tudo passa pela mesma estrada do tempo. 
 
Os passos tornam-se mais leves quando aceito 
Que o mundo não foi feito para me obedecer. 
Há serenidade em seguir adiante, 
Fazendo bem aquilo que me cabe fazer, 
E deixando o restante ao destino. 
 
Assim prossigo entre sombras e claridades, 
Sem pressa de alcançar alguma certeza final. 
Cada curva oferece apenas o presente, 
E o presente, quando acolhido com lucidez, 
É suficiente para sustentar a jornada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 12 de setembro de 2026

Esperando um sinal

 Nas noites escuras procurei por você. 
A cidade permanecia indiferente. 
O silêncio não oferecia respostas. 
Apenas devolvia o som dos meus próprios passos. 
Foi então que percebi que eu também era uma pergunta. 
 
Imaginei que sua ausência explicaria a minha dor. 
Mas nenhuma ausência explica uma existência. 
Somos lançados ao tempo sem mapas. 
Cada escolha abre um caminho e fecha muitos outros. 
Resta apenas a responsabilidade de continuar. 
 
Olhei para o céu esperando um sinal. 
As estrelas permaneceram distantes. 
O universo não prometeu sentido. 
Coube a mim enfrentar o vazio 
Sem transformá-lo em desespero. 
 
Compreendi que procurar você 
Era também procurar quem eu havia sido. 
Ninguém retorna ao instante que passou. 
A memória conserva rostos, 
Mas não restitui o que o tempo levou. 
 
Hoje caminho sem esperar respostas definitivas. 
Aceito que viver é atravessar incertezas. 
A liberdade pesa tanto quanto liberta. 
Ainda assim, escolho seguir. 
E essa escolha dá forma ao meu existir. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense