quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Se o destino apagar nossos passos

 É impossível dizer que não te amei, 
Se ainda guardo teu nome no silêncio, 
Se tua lembrança visita minhas noites 
E teu sorriso resiste ao tempo. 
Foste a primavera dos meus sonhos, 
A doce ilusão dos meus dias, 
A saudade que nunca aprendi a esquecer. 
 
Não fomos eternos, eu sei, 
Mas houve eternidade em nossos instantes, 
Houve promessas nos olhos, 
Esperanças escondidas nos abraços, 
E um coração que acreditou no para sempre. 
Hoje, restam caminhos separados, 
E a memória de tudo o que vivemos. 
 
Se o destino apagar nossos passos, 
Se a vida nos tornar desconhecidos, 
Jamais negarei o que senti por ti. 
Porque o amor não morre com as despedidas, 
Nem se torna mentira quando chega ao fim. 
É impossível dizer que não te amei, 
Quando uma parte de mim ainda se lembra de nós. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Desejo escondido

 Tenho um desejo escondido nos dedos, 
Uma poesia querendo nascer, 
Mas a inspiração adormece em silêncio, 
E a imaginação, sem nada dizer, 
Estende-se em redes de nuvens macias, 
Enquanto o tempo se esquece de correr, 
E eu deixo a vontade adormecer. 
 
As palavras passeiam sem rumo, 
Os pensamentos bocejam no ar, 
Há versos que dormem profundamente, 
Sem pressa de um dia despertar, 
E nessa letargia tão doce e serena, 
Minha alma se entrega ao prazer de sonhar, 
Sem saber se deseja escrever ou descansar. 
 
Pode ser que a poesia não queira trabalho, 
Quem sabe ela só precise de um pouco de paz, 
Um silêncio que embale os sentidos, 
Um instante que nada nos traz, 
Pois até a preguiça tem seus encantos, 
E o verso que hoje não nasce fugaz, 
Pode florescer quando a alma quiser mais. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

As palmas do futuro

 Como saber se aquilo que nos dão no escuro 
É o sonho que em vão desejamos, 
Ou apenas a sombra de um desejo 
Que o tempo esqueceu de compreender? 
O amanhã esconde suas respostas, 
E a esperança, de olhos vendados, 
Caminha entre o medo e a ilusão. 
 
O futuro é um abismo sem margens, 
Um horizonte que nunca alcançamos, 
Um perigo adormecido nas promessas 
Que abraçamos sem conhecer. 
E o que hoje parece ser destino 
Amanhã poderá ser arrependimento, 
Pois nada se garante nas mãos do tempo. 
 
Ah, se pudéssemos abrir as mãos 
E encontrar nelas alguma certeza, 
Um sinal de que não sonhamos em vão, 
Uma luz rompendo a noite espessa! 
Mas o amanhã não cabe nas palmas, 
E a vida, entre mistérios e esperanças, 
Ensina-nos a caminhar sem garantias. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Sem esperar revelações finais

 Caminhei depressa durante anos, 
Como se houvesse 
Uma resposta no final da estrada. 
Mas a estrada apenas continuava. 
E o horizonte, indiferente, recuava. 
Foi então que diminuí o passo. 
 
Ao desacelerar, vi o silêncio. 
Não como ausência, mas como presença. 
Ele não ofereceu consolo nem direção. 
Apenas me mostrou o vazio entre as coisas. 
E a liberdade que existe nesse vazio. 
 
Observei uma folha girando ao vento. 
Nenhum destino a guiava. 
Nenhuma razão justificava sua dança. 
Ainda assim, ela existia plenamente. 
Quem sabe a existência seja isso. 
 
As pessoas passavam apressadas, 
Carregando relógios, promessas e medos. 
Eu também carregava os meus. 
Mas percebi que nenhum deles 
Respondia à pergunta essencial: 
O que fazer com o tempo que me foi dado? 
 
Agora caminho sem esperar revelações finais. 
O mundo continua incerto e incompleto. 
A vida não me deve explicações. 
Ainda assim, escolho olhar com atenção. 
E nessa escolha encontro meu significado. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Entre os que partem

 A manhã ergueu suas paredes de poeira, 
E os relógios repetiram uma hora sem dono. 
Nas vitrines, os rostos vestiam o mesmo cansaço, 
Como quem herdou um mapa desenhado por ausentes. 
Só os passos sabiam que o caminho já nos dividira. 
 
Alguns permaneceram conversando com as sombras, 
Catalogando ruínas como se fossem promessas. 
Outros seguiram, não por esperança, 
Mas porque o silêncio também exige movimento, 
E até a dúvida conhece a direção do vento. 
 
Há uma cidade construída dentro de cada homem, 
Com pontes que conduzem apenas à memória. 
Nela, os sinos dobram por decisões adiadas, 
E os corredores devolvem nomes esquecidos, 
Como ecos que nunca encontraram um ouvido. 
 
Separar-se é um verbo antigo. 
Não acontece na estrada, 
Mas no instante em que o coração compreende 
Que nenhuma companhia pode substituir 
A responsabilidade de escolher o próprio destino. 
 
Ao cair da tarde, restam apenas pegadas. 
Nem vencedores, nem vencidos, 
Somente viajantes medindo o infinito 
Com a breve extensão de seus passos, 
Enquanto a noite recolhe, uma a uma, 
As perguntas que deixamos pelo caminho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Gesto silencioso

 Entre ruínas e sementes caminhamos, 
Com as mãos cheias de ontem e olhos no porvir, 
Há vozes antigas que ainda nos chamam baixo, 
Como raízes que recusam deixar de existir. 
Mas o tempo sopra ventos que não pedem licença, 
E nos empurra para aquilo que ainda não somos, 
Mesmo quando tememos perder o que fomos. 
 
Guardamos memórias como quem guarda fogo, 
Nem tudo que arde ilumina, nem tudo que aquece liberta, 
Há brasas que sustentam, há chamas que consomem. 
O novo chega inquieto, batendo às portas da alma, 
Pedindo espaço entre certezas envelhecidas, 
E nos obriga a rever o que chamávamos verdade, 
Como um espelho que aprende a refletir o desconhecido. 
 
Seguimos, entre soltar e permanecer, 
Como quem atravessa um rio levando apenas o essencial, 
Deixando na margem aquilo que já não nos cabe. 
Não somos os mesmos, e ainda assim somos, 
Feitos de camadas que o tempo não apaga, transforma, 
Pois evoluir é esse gesto silencioso e contínuo, 
Morrer em partes, para que outras possam nascer. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Algumas flores abrem ao amanhecer

 Há coisas que vivem à margem da pressa, 
Escondidas entre um passo e outro do caminho; 
Um pássaro pousado sobre o fio, 
A dança da poeira na luz da janela, 
O tempo respirando baixinho. 
 
Quando desacelero, o mundo se alonga, 
Como um rio que abandona as corredeiras; 
Vejo histórias nas rugas das pedras, 
Ouço segredos nas folhas das árvores, 
E encontro sentido nas coisas inteiras. 
 
A correria recolhe apenas distâncias, 
Mas a calma recolhe profundidades; 
Há um universo em cada silêncio, 
Há uma eternidade em cada instante, 
Há sabedoria nas simplicidades. 
 
Nem toda beleza pede testemunhas, 
Nem toda verdade deseja ser anunciada; 
Algumas flores abrem ao amanhecer, 
Alguns afetos crescem sem ruído, 
Alguma luz prefere a estrada calada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 25 de outubro de 2026

Cada memória sua em mim

 Eu não temo a rapidez com que os dias se desfazem, 
Nem a forma como o tempo escorre pelas minhas mãos. 
As estrelas também morrem em silêncio, 
E mesmo assim iluminam distâncias inimagináveis. 
Carrego dentro de mim essa verdade serena, 
Não fui feito para durar como o universo, 
Fui feito para sentir enquanto atravesso a noite. 
 
Quando encontrei você, 
Algo mudou no movimento do mundo. 
As horas perderam a crueldade costumeira, 
E até o vazio pareceu respirar mais devagar. 
Eu, tão pequeno diante das galáxias infinitas, 
Tive o privilégio impossível de tocar sua existência. 
E desde então, cada memória sua em mim 
Vale mais do que séculos inteiros de solidão. 
 
Se amanhã eu desaparecer como poeira antiga, 
Não partirei lamentando a brevidade da vida. 
Direi ao silêncio que vivi o suficiente para amar. 
Direi ao tempo que ele não venceu tudo em mim. 
Porque houve um instante raro sobre esta Terra 
Em que caminhei ao lado de alguém extraordinário, 
E esse instante fez o universo parecer humano. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Pássaros ao vento

 Teu olhar pousava antigo sobre as tardes, 
Como quem procura pássaros no vento, 
E havia uma tristeza feita de jardins 
Nas sombras silenciosas do pensamento. 
Cada lembrança surgia devagar, 
Tal qual fumaça subindo do passado, 
Feito oração de um coração cansado. 
 
Os anos deixaram neve sobre os cabelos, 
Mas não levaram o brilho das ausências. 
Ainda moram nos olhos envelhecidos 
As tardes douradas da adolescência. 
Há um banco vazio na praça da memória, 
Onde o tempo se senta ao cair da noite 
Para contar ruínas como histórias. 
 
E quando o silêncio cobre a velha casa, 
Teu olhar atravessa a janela entreaberta, 
Como quem espera passos no quintal 
Ou uma voz que nunca mais desperta. 
Então a saudade acende suas velas 
E ilumina retratos empoeirados, 
Como luas sobre sonhos abandonados. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 24 de outubro de 2026

O silêncio que fala

 Calei meu peito no instante da partida, 
Quando teu olhar de mim se desprendeu, 
E o que era chama, em silêncio, se perdeu 
Na ausência fria, súbita e contida. 
 
Guardei palavras, dor não proferida, 
Como quem teme o peso do que ardeu; 
Meu verso, antes vivo, em mim morreu 
Sem encontrar tua escuta prometida. 
 
Hoje, o silêncio fala o que não disse, 
Eco tardio de um amor sem voz, 
Que em mim persiste, embora já não seja. 
 
Se ao menos minha coragem existisse, 
Talvez o tempo fosse outro entre nós, 
Ou só mais breve a dor que ainda me inveja. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um tremor leve que nasce

 O desejo é um clarão que não sabe onde cair. 
Paira. 
Suspende o tempo. 
Cria uma geografia íntima 
Que só existe no escuro da mente. 
Há um toque que não toca, mas arde. 
Um beijo que não é gesto, mas ideia. 
E é na ideia que a pele se inflama. 
O outro não é pessoa, mas horizonte: 
Um contorno que insiste em se desfazer 
No instante em que se olha de novo. 
O pensamento percorre esse horizonte 
Como quem passa os dedos 
Sobre um tecido invisível, 
Sentindo texturas que não existem 
A não ser no campo da imaginação. 
O desejo aqui não possui, insinua. 
Não pede, paira. 
Não chega, retorna. 
Há um corpo feito de hipóteses, 
Um perfume que não existe, mas insiste, 
Um tremor leve que nasce 
No exato lugar onde o real hesita. 
E quando a fantasia se aproxima demais, 
O mundo se torna bruma, 
O tempo se dobra, 
E a espera ganha um brilho secreto, 
Quase ritual. 
Pois o amor, quando não acontece, 
Acontece em excesso. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cáceres além do olhar comum

 Tem uma beleza em Cáceres que poucos sabem enxergar, 
Escondida no silêncio das casas adormecidas, 
Nas águas do Paraguai que conversam com o tempo, 
Nas sombras das árvores que abraçam a memória, 
Nas ruas onde o passado ainda respira, 
Nos sonhos que florescem sem fazer barulho, 
E na alma de uma cidade que aprendeu a ser eterna. 
 
O olhar comum vê apenas paisagens, 
Mas o poeta contempla mundos invisíveis, 
Escuta histórias nas paredes envelhecidas, 
Descobre saudades no vento que passa, 
Encontra poesia no simples caminhar da gente, 
E percebe que cada esquina guarda um segredo, 
Que somente o coração consegue traduzir. 
 
Cáceres não precisa de olhos para ser bonita, 
Precisa de almas dispostas a senti-la, 
De corações que compreendam suas raízes, 
De lembranças que não se rendam ao esquecimento, 
De versos que abracem sua história, 
Pois existe uma beleza que não cabe nas fotografias: 
Aquela que só se revela a quem olha com a alma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O velho poeta

Sob a cama, por milagre, paira o caos, 
Em linhas sonoras que ninguém vê, 
Fios de silêncio costuram o impossível, 
Enquanto a poeira inventa eternidades. 
O passado se arrasta entre sombras, 
Os sonhos perdidos murmuram baixinho, 
E o velho poeta apenas observa. 
 
Há sapatos que caminham sem passos, 
Cartas que sangram palavras não ditas, 
Um relógio que esqueceu de morrer, 
E lembranças flutuando no escuro. 
Tudo se desordena, tudo respira, 
Como se o universo, cansado de ser, 
Desaprendesse a própria existência. 
 
O velho poeta não toca em nada, 
Conhece a linguagem secreta das ruínas. 
Sabe que a vida também mora no avesso, 
Onde o caos dança sem música, 
Onde o invisível floresce em silêncio. 
E sorri, enquanto a noite se inclina: 
Existe poesia até naquilo que perdemos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O olhar escondido

 Há beleza no olhar que se esconde, 
Como a lua atrás das nuvens 
Que não deseja desaparecer, 
Apenas guardar por mais um instante 
A luz que carrega dentro de si. 
 
Teus olhos fogem dos meus, 
Mas deixam no caminho 
Um rastro silencioso de desejo, 
Como se cada desvio 
Fosse uma palavra não pronunciada. 
 
Talvez tenhas medo de que eu descubra 
O que teus lábios insistem em calar, 
Mas os olhos são frágeis guardiões 
E sempre deixam escapar 
Aquilo que o coração tenta esconder. 
 
Eu percebo quando me olhas 
Mesmo quando finges não olhar, 
Porque existe uma ternura diferente 
Naquele breve instante 
Em que teu silêncio encontra o meu. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A solidão não faz barulho

 A madrugada não tem pena de ninguém. 
Ela entra pela janela, abre um livro imaginário 
E ri da minha cara. 
O café esfria antes de mim. 
Os livros fingem que ainda têm alguma resposta, 
O relógio insiste no mesmo truque barato: 
Empurrar minutos sobre um homem 
Que já desistiu de contá-los. 
 
Você foi embora. 
O resto é mobília. 
Há uma cadeira vazia na cozinha, 
E às vezes olho para ela 
Como quem espera 
Um milagre de um pedaço de madeira. 
Milagres são péssimos inquilinos: 
Nunca pagam aluguel, nunca aparecem. 
 
Aprendi que a solidão 
Não faz barulho quando chega. 
Ela apenas ocupa o seu lugar na cama, 
Bebe o último gole da garrafa 
E me convence de que amanhã será igual a hoje. 
 
Mesmo assim, escrevo. 
Não porque a poesia salve alguém, 
Mas porque o papel é o único sujeito 
Que ainda suporta ouvir 
O que nem eu tenho coragem de admitir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense