quinta-feira, 23 de abril de 2026

Tronco oco de uma árvore

 Recosto o corpo ao tronco já vazio, 
E escuto o tempo oco a respirar; 
Há nele um velho e manso desafio: 
Existir é perder algo para durar. 
 
A seiva foi-se embora em seu desvio, 
Mas algo ali persiste a murmurar; 
Um resto de presença, quase um fio, 
Que insiste, mesmo em falta, em continuar. 
 
E eu, que penso a vida nesse instante, 
Me vejo feito uma árvore também: 
Por fora firme, por dentro vacilante. 
 
Mas há no tronco oco um modo de ir além, 
Pois ser não é ser pleno a todo instante, 
É ainda ser, mesmo sem ser ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Tortura

 Ficar sem você é um silêncio que grita. 
É como se o tempo continuasse andando, 
Mas sem destino certo, 
Apenas um arrastar cansado de horas vazias. 
 
Há uma espécie de tortura delicada nisso: 
Não é dor que explode, 
É dor que permanece. 
Ela se instala nos pequenos espaços, 
No intervalo entre um pensamento e outro, 
No instante em que o mundo 
Deveria fazer sentido, mas não faz. 
 
Tudo continua igual, 
E ainda assim tudo falta. 
As ruas, as vozes, os dias… 
Todos parecem cenários abandonados 
De algo que já foi vivo. 
 
O pior não é a ausência do seu corpo, 
É a ausência do que você despertava em mim. 
Sem você, sou menos inteiro. 
Menos som, menos cor, menos fogo. 
 
Então continuo meu caminho 
Carregando essa saudade que não grita alto, 
Mas corrói em silêncio, 
Como quem sabe que amar 
Também é aprender a suportar a falta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Os pergaminhos perdidos de um tempo passado

 Nos pergaminhos gastos de um tempo sem nome, 
Onde a poeira repousa como memória antiga, 
Meus pensamentos já ardiam sem corpo, 
Traçados por mãos que nunca conheci, 
Mas que sabiam exatamente quem eu seria. 
 
Há uma tinta invisível correndo em minhas veias, 
Como se cada ideia fosse herança esquecida, 
Um sussurro vindo de séculos adormecidos, 
Um eco que insiste em se tornar voz, 
Mesmo quando penso estar sozinho. 
 
Folhas rasgadas do tempo ainda me leem, 
Mesmo quando sou eu quem tenta compreendê-las, 
Há palavras que me encontram antes de existir, 
E nelas reconheço algo que não aprendi, 
Mas que sempre soube, em silêncio. 
 
Sou escrito na margem de um livro antigo, 
Um verso perdido entre histórias apagadas, 
Um fragmento de um texto maior que me atravessa, 
E mesmo sem ver o início ou o fim, 
Sinto que pertenço a essa escrita infinita. 
 
E quando o último pergaminho se desfizer no vento, 
Quando não restar vestígio de sua matéria, 
Ainda assim meus pensamentos continuarão, 
Não como lembrança, mas como permanência, 
De algo que jamais deixou de ser escrito. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Acordado

 Tem amores que não dormem, 
Apenas fecham os olhos para o mundo, 
Mas permanecem despertos por dentro, 
Como uma chama que não se entrega ao vento, 
Como um nome que insiste em ser lembrado. 
 
Talvez esse amor esteja acordado em silêncio, 
Vigiando teus passos à distância, 
Recolhendo teus gestos 
Como quem coleciona relíquias, 
Esperando o instante exato 
Em que dois destinos ousam se reconhecer. 
 
É um amor que respira nas entrelinhas, 
Que não precisa de voz para existir, 
Porque pulsa 
No intervalo entre um pensamento e outro, 
Como se o coração tivesse aprendido 
A falar sem pedir permissão à razão. 
 
Mesmo quando tudo parece adormecido, 
As ruas, os dias, os próprios sentimentos, 
Há algo que insiste em permanecer desperto: 
Esse amor que não se cansa de esperar, 
Como se soubesse que, cedo ou tarde, 
Será chamado pelo nome. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 21 de abril de 2026

O segredo de um novo começo

 Na mente há ruas que não levam a lugar algum, 
E ainda assim insistimos em caminhar nelas, 
Como quem procura um nome esquecido, 
Ou um rosto que nunca existiu, 
Mas que dói como se tivesse partido. 
 
Os pensamentos se empilham como ruínas, 
Uns sobre os outros, frágeis e instáveis, 
E cada ideia que nasce já vem trêmula, 
Como se soubesse que será engolida 
Por outra ainda mais inquieta. 
 
Há um barulho mudo que não se cala, 
Um tumulto feito de silêncios gritantes, 
E a imaginação, antes jardim, agora é selva, 
Onde sombras crescem sem permissão 
E o eu se perde entre seus próprios passos. 
 
Tento me encontrar, mas me multiplico, 
Sou muitos em um só corpo cansado, 
Cada versão puxando para um abismo distinto, 
Como se existir fosse escolher 
Entre quedas igualmente profundas. 
 
Mesmo assim, no centro desse caos, 
Há algo que pulsa, frágil, mas vivo, 
Uma centelha que não se rende ao escuro, 
Como se a própria confusão guardasse 
O segredo de um novo começo. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um amor imperfeito

 Eu te amei 
Como quem não entende o próprio gesto, 
Como quem toca uma chama 
Sem saber se aquece ou queima. 
Foi um amor desalinhado, quase torto, 
Desses que não cabem nas palavras bonitas, 
Mas insistem em existir mesmo assim. 
 
Amei no silêncio mais do que na fala, 
Nos intervalos, nos desvios, nos erros. 
Amei sem saber direito como se ama, 
E talvez por isso tenha sido tão verdadeiro, 
Porque não tinha forma, só intensidade. 
 
Havia algo de estranho, sim, 
Como um sonho que não se explica ao acordar. 
Mas era real naquilo que doía, 
Real no que faltava, no que escapava, 
Real como aquilo que nunca se repete. 
 
Se foi imperfeito, foi humano. 
Se foi confuso, foi sincero. 
O meu amor por você 
Foi um descompasso bonito 
Entre sentir e saber amar. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O canto épico ao Marco do Jauru

 I 
Ergue-se altivo o Marco do Jauru, testemunha de eras passadas, 
Quando os homens de coroa e espada vinham do além-mar, 
Trazendo consigo tratados e mapas, cercados de soldados e escribas, 
E diante dos rios imensos e do verde pantanal 
Ousaram fincar, na pedra fria, o selo do poder e da conquista. 
Ali ficou inscrita não apenas a fronteira de dois impérios, 
Mas a memória de sangue, suor e silêncio, 
Dos que aqui viviam muito antes da chegada dos conquistadores, 
E dos que, sob o peso da história, ergueram seus destinos. 
 
II 
Oh Cáceres, cidade de braços abertos sobre o rio Paraguai, 
Em ti repousa este monumento, não como simples pedra, 
Mas como altar da memória coletiva, 
Lembrando a teus filhos que a grandeza não se mede em conquistas, 
Mas na força de preservar o que é raiz, o que é herança, 
O que dá sentido à terra em que caminhamos. 
Pois não há futuro sem memória, 
Nem povo sem história, 
E o Marco é guardião dessa verdade eterna, 
Um livro de granito que o tempo não consome. 
 
III 
Quantos que passam por ele não veem além da matéria, 
Não sentem que ali ecoam as vozes de antigos tratados, 
Dos que disputaram terras, rios e destinos? 
E quantos esquecem que a perda da lembrança 
É a mais amarga derrota de uma sociedade? 
Por isso clamo, em voz alta e solene, 
Que o Marco do Jauru seja mais que ruína esquecida, 
Seja patrimônio vivo, ensinado às crianças, 
Honrado em festas, preservado com zelo, 
Pois ao protegê-lo, protegemos a nós mesmos. 
 
IV 
Que se levantem, pois, os cacerenses, 
Herdeiros de um passado de encontros e choques, 
E vejam no Marco não apenas um sinal de fronteira, 
Mas um farol de identidade, 
Uma pedra que sustenta o espírito da cidade. 
E que os séculos vindouros, ao contemplar seu perfil, 
Saibam que houve um povo que não deixou 
A poeira do descuido apagar a memória, 
Mas que a transformou em chama, 
Firme como granito, ardente como esperança. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense
 

 

A arte de viver em paz

 Viver é esconder o que se sabe para não ferir, 
Duvidar do que se ouve para não adoecer, 
E rir do resto para não enlouquecer. 
Entre o silêncio, a dúvida e o riso, 
Talvez more a única forma possível de paz. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 19 de abril de 2026

Os amores que tive

 Eu beijei. 
Beijei como quem tenta esquecer o próprio nome. 
Lábios tantos, corpos em brasa, 
Gemidos que soavam como promessas, 
Mas eu sabia: mentiam. 
Não por maldade. 
Por natureza. 
 
Elas vinham com bocas doces, 
Sorrisos partidos e olhos cheios de sol, 
E me davam seus beijos 
Como quem oferece abrigo. 
Mas eu era tempestade. 
E o abrigo nunca me serviu. 
 
Beijei mulheres 
Como quem tenta furar o véu do mundo. 
Como quem espera que, em algum toque, 
Em alguma língua que se enrosca na minha, 
Eu encontre a resposta. 
 
Mas só encontrei silêncio. 
E mais fome. 
Porque o que me falta, 
Não está na carne. 
Está além. 
Está no escuro entre os mundos. 
Na ausência que pulsa no fundo da alma 
Como um tambor de guerra. 
 
Já amei, ou tentei. 
Mas até no amor 
Eu era abismo. 
 
Elas choravam quando eu partia. 
Achavam que era falta de afeto. 
Não sabiam que era excesso. 
Excesso de um vazio que cresce, 
Que consome, 
Que grita por algo 
Que nenhuma mulher carrega entre os lábios. 
 
Eu busco uma sede que não tem boca. 
Um nome que não tem som. 
E enquanto elas se vestem depois do amor, 
Eu permaneço nu, 
Dentro de mim, 
Gritando por aquilo 
Que jamais virá. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A prisão que te cala

 Eles nos ensinaram a sorrir com o rosto, 
Enquanto o espírito apodrecia em silêncio. 
Diziam: “seja forte”, 
Mas queriam dizer: “se conforme”. 
 
Crescemos enjaulados em palavras alheias, 
"Normal", "certo", "aceitável". 
A língua virou grilhão, 
E o pensamento, cela acolchoada. 
 
Somos corpos treinados para se curvar 
Diante de deuses sem rosto, 
Status, moral, aparência. 
Sacrificamos o íntimo 
No altar do coletivo. 
 
Há gritos que só ecoam por dentro, 
Afogados em expectativas herdadas. 
Ser livre dói mais do que ser escravo, 
Porque te faz ver 
A prisão que você mesmo construiu. 
 
Não há grades, mas há normas. 
Não há guardas, mas há julgamentos. 
Não há chicotes, 
Mas cada elogio por obediência 
É um novo elo na corrente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 18 de abril de 2026

És presença inevitável

 Amar-te é um ofício sem método nem medida, 
Um sopro que me encontra antes do pensamento, 
Como se o coração soubesse antes da vida 
O caminho exato do teu nome em mim. 
E tudo começa quando simplesmente existes. 
 
Não te procuro, és presença inevitável, 
Como a luz que invade sem pedir licença, 
Como o vento que conhece todas as frestas. 
Pensar em ti é apenas ceder ao que já sou: 
Um eco do amor que em mim te habita. 
 
E se escrevo, não é por escolha ou vaidade, 
É porque o sentir transborda em linguagem, 
Porque teu nome se torna verbo em mim, 
E cada silêncio teu vira verso inteiro, 
Mesmo quando nada é dito entre nós. 
 
Há poesia no gesto invisível de te lembrar, 
Na ausência que ainda assim te desenha, 
No instante em que o mundo se cala 
E resta apenas esse amor que insiste, 
Como um poema que nunca se encerra. 
 
Amar-te é isso: uma escrita sem fim, 
Um livro que não precisa de páginas, 
Um verso que se repete sem desgaste. 
E em cada batida do meu coração, 
És tu, palavra eterna, sendo dita. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um roteiro invisível

 Tem dias em que acordo já escrito. 
Como se alguém, em silêncio, 
Tivesse traçado meu percurso. 
Hora de levantar, de falar, de existir. 
Um roteiro invisível, 
Disciplinado, quase confortável, 
Como um trilho 
Que me poupa do abismo das escolhas. 
 
Mas então… algo escapa. 
Uma ideia atravessa o pensamento 
Como um relâmpago indeciso, 
Uma lembrança inventada, um desejo sem nome, 
E de repente o caminho já não obedece. 
A imaginação abre portas 
Onde antes havia paredes, 
E me convida, 
Não, me arrasta, 
Para fora do previsto. 
 
É nesse desvio que eu me encontro. 
Porque o roteiro é seguro, 
Mas a imaginação é viva. 
O roteiro me mantém inteiro, 
Mas a imaginação me transforma. 
E entre cumprir o que foi planejado 
E me perder no que nunca foi pensado, 
Vou descobrindo que viver 
É um acordo instável 
Entre o que eu deveria ser 
E tudo aquilo que ainda ouso imaginar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Sementes ao vento

 A poesia que escrevo caminha em silêncio, 
Como quem aprende o caminho do sentir, 
Carrega nos versos aquilo que não digo, 
E nas pausas guarda o que não sei traduzir. 
Ela não pede licença ao seu coração, 
Apenas bate, leve, como quem espera, 
Ser acolhida no instante em que você respira. 
 
Escrevo como quem lança sementes no vento, 
Sem saber onde irão florescer, 
Cada palavra é um gesto invisível, 
Um toque que insiste em acontecer. 
Se alguma delas encontrar seu abrigo, 
Já não será mais minha, será nossa, 
Um segredo partilhado sem voz. 
 
Minha poesia se cumpre no encontro, 
Quando seus olhos a vestem de sentido, 
Quando seu peito responde em silêncio, 
Como se já a tivesse vivido. 
Pois o poema não termina no papel, 
Ele começa quando chega até você, 
E passa a existir dentro do seu sentir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Saudade não é culpa

 Saudade não é culpa, nem sombra a esconder, 
É chama acesa na memória que insiste em arder, 
Um sopro antigo que retorna sem pedir licença, 
Um nome dito em silêncio, cheio de presença, 
Um pedaço do que fomos que se recusa a morrer. 
 
Há quem tema esse sentir tão profundo e aberto, 
Como se amar demais fosse um caminho incerto, 
Mas é na saudade que o afeto se revela inteiro, 
Feito rio que, mesmo longe, lembra o primeiro leito, 
E segue correndo dentro, mesmo quando está deserto. 
 
Privilegiado é quem carrega esse doce peso, 
Quem guarda no peito um passado ainda aceso, 
Pois só sente saudade quem viveu de verdade, 
Quem deixou que o outro habitasse sua eternidade, 
E fez do instante breve um infinito indefeso. 
 
A ausência não é nada, é presença transformada, 
É voz que não se escuta, mas nunca foi calada, 
É o toque que persiste mesmo após o adeus, 
É o rastro invisível que liga dois eus, 
Uma distância cheia de alma entrelaçada. 
 
Que venha a saudade, sem medo ou vergonha, 
Ela não fere em vão, nem a dor é tristonha, 
É prova viva de um encontro que valeu existir, 
É amor que aprendeu, mesmo longe, a florir, 
É que, em silêncio, ainda ilumina e acompanha. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Te escrevo em silêncio

 Faço de palavras pequenas a minha oferenda, 
Um gesto suave, quase imperceptível, 
Como quem teme ferir a delicadeza do instante. 
Te escrevo em silêncio, com o coração atento, 
Para não quebrar a doçura do que sinto por você. 
 
És presença que não se impõe, mas floresce, 
Como luz mansa atravessando a manhã. 
Em ti há um sossego que me desarma, 
Uma ternura que me atravessa inteiro, 
Como se amar fosse apenas repousar em ti. 
 
Meu poema não grita, ele sussurra teu nome, 
Entre pausas, suspiros e breves eternidades. 
Cada verso é um toque que não se vê, 
Mas se sente como um arrepio leve, 
Daqueles que o coração guarda em segredo. 
 
Se te ofereço palavras, é porque não sei mais, 
Como conter o que em mim se transforma. 
Tu és o motivo quieto da minha entrega, 
A razão pela qual o amor se fez simples, 
E ainda assim, profundamente infinito. 
 
Se um dia este poema se desfizer no tempo, 
Que reste ao menos o eco do que te dei. 
Um amor sem peso, sem pressa, sem ruído, 
Feito para existir como brisa na tua alma, 
E permanecer, mesmo quando eu me for. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense