domingo, 16 de agosto de 2026

A política que promete

 A política aprendeu a falar a língua dos sonhos, 
Mas muitas vezes governa 
Com a linguagem dos interesses. 
Promete mudança antes da eleição 
E entrega desculpas depois da posse. 
 
Tem discursos que parecem pontes, 
Mas escondem abismos. 
Há promessas que brilham como ouro, 
Mas desaparecem quando chegam ao poder. 
 
O povo escuta palavras bonitas, 
Ergue esperanças, deposita confiança. 
E, não raras vezes, descobre tarde demais 
Que algumas promessas tinham prazo de validade: 
Terminavam no dia seguinte à eleição. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Só na minha cabeça

 Penso em você 
E meu coração vira um bicho ruim. 
Não um desses lobos elegantes 
Que aparecem nos poemas, 
Mas um cão magro de rua, 
Cheio de cicatrizes, 
Que rosna para a noite 
E não sabe por quê. 
 
Estou sentado, 
Olhando o copo pela metade, 
O tempo consumindo os minutos, 
E você aparece de novo. 
 
Não na porta. 
Não no telefone. 
Não na vida. 
Só na minha cabeça, 
Que às vezes é um lugar 
Mais cruel que o mundo. 
 
Então o coração começa. 
Bate forte. 
Empurra as costelas. 
Quer fugir. 
Como se houvesse alguma resposta 
Esperando por ele 
Do outro lado da cidade, 
Do outro lado do tempo, 
Ou do outro lado de você. 
 
Mas não há. 
Existem apenas os ventiladores girando, 
Os cachorros latindo ao longe, 
As contas para pagar, 
O espelho envelhecendo meu rosto 
E essa saudade estúpida 
Que insiste em sobreviver. 
 
No fim, 
O animal se aquieta. 
Deita num canto do peito, 
Ofegante, 
Derrotado. 
Até que eu pense em você outra vez. 
E tudo recomece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 15 de agosto de 2026

Louca condição

 
Que louca condição a dos mortais, 
Que correm sem saber para onde vão, 
Fazendo da ansiedade profissão, 
E dos desejos, cárceres fatais; 
Buscando glórias vãs e triunfais, 
Entregam-se à soberba e à ambição, 
Perdendo a clara luz da percepção 
Por sonhos breves, frágeis e banais. 
 
Não veem a flor que nasce no caminho, 
Nem ouvem do pardal a voz singela, 
Nem notam do crepúsculo o carinho; 
A pressa lhes governa a vida inteira, 
E a alma, feita escrava da cautela, 
Transforma ouro vivo em vil poeira. 
 
Ó século de aflita correria, 
Que vende por progresso a distração, 
E troca a contemplação pela agonia, 
Fazendo do relógio um novo altar! 
Quem para e vê descobre, em um só dia, 
Mais mundo do que aquele que viveu sem reparar. 
 
Pois a verdade habita o que é pequeno, 
Não clama em praça pública ou salão; 
Esconde-se no gesto mais sereno, 
Na sombra, no silêncio e no chão. 
Feliz aquele que, livre do veneno 
Da pressa, encontra a vida em sua simples condição. 
 
Sendo assim concluo, com mordaz conselho: 
Não sigas tão ligeiro tua estrada; 
Que muitas vezes o homem vê no espelho 
Apenas a face do nada. 
E perde, por viver de sobressalto e anseio, 
A beleza que o mundo lhe ofertava calada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Sonhos que não sabemos ouvir

 Mentes jovens estão pedindo socorro 
Em meio ao ruído de um mundo apressado, 
Olhos que escondem perguntas profundas, 
Corações que aprenderam a sorrir 
Mesmo quando por dentro desabam. 
 
Por que não nos importar com eles, 
Se amanhã caminhará sobre seus passos? 
Cada palavra que lançamos hoje 
Pode ser ponte ou abismo, 
Semente ou cicatriz. 
 
Há uma geração crescendo depressa, 
Carregando sonhos que não sabemos ouvir, 
Feridas que ninguém ensinou a nomear, 
Medos escondidos atrás das telas 
E silêncios maiores que suas próprias vozes. 
 
Não basta condenar seus caminhos, 
É preciso perguntar onde se perderam; 
Não basta apontar seus erros, 
É preciso olhar os destroços 
E lembrar que também são vidas. 
 
Porque uma geração não se perde de uma vez, 
Perde-se aos poucos, quando deixamos de olhar; 
E talvez cuidar de um jovem hoje 
Seja salvar um pedaço do amanhã 
Antes que o futuro aprenda a viver sem esperança. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O silêncio e a chama

 Pensar é acender uma luz no meio do vento. 
O intelecto, por si só, é faísca, 
Mas a disciplina é a mão que a protege, 
Paciente, firme, atenta ao sopro invisível do mundo. 
 
Há beleza no gesto de quem persiste. 
Quem retorna todos os dias à página em branco, 
À ideia que resiste, 
Ao silêncio que ensina o ouvido a escutar. 
A mente disciplinada não busca glória, 
Busca clareza, 
A pequena centelha que ilumina o instante. 
 
A disciplina não é prisão; 
É caminho. 
É a arte de voltar ao mesmo ponto 
E encontrar nele outra paisagem. 
Cada esforço, uma ponte. 
Cada erro, um mapa secreto do possível. 
 
O pensamento, quando guiado com ternura, 
É como um rio que sabe onde quer chegar, 
Ainda que suas margens sejam feitas de dúvida. 
 
O verdadeiro saber 
Não está em dominar a mente, 
Mas em caminhar com ela, 
Ouvindo seus silêncios, 
Honrando suas sombras, 
Até que o caos se transforme em música 
E a chama se torne sol. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O engano do final feliz

 Nem todo caminho que termina em luz 
Foi escolhido com sabedoria; 
Às vezes, a sorte fecha os olhos ao erro 
E chama-se vitória 
Aquilo que deveria chamar-se advertência. 
 
O imprudente atravessa o abismo 
E, ao tocar a outra margem, sorri; 
Mas a ponte não se tornou segura, 
Nem o perigo deixou de existir 
Porque seus pés chegaram inteiros. 
 
Não atribuas à razão 
Aquilo que pertenceu ao acaso; 
O homem sábio não celebra apenas o resultado, 
Examina o passo que deu 
E pergunta se poderia tê-lo evitado. 
 
Se a queda não veio, agradece; 
Se o erro não te destruiu, aprende; 
Pois a misericórdia que te preservou hoje 
Não é convite para desafiar o amanhã, 
Mas chamado à prudência. 
 
Domina, portanto, o impulso de repetir o erro; 
Não confundas livramento com aprovação; 
Há vitórias que escondem lições severas, 
E há derrotas que salvam o caráter. 
Sábio é aquele que aprende antes de cair. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A raridade dos encontros

 Raramente encontro alguém 
Que faça o pensamento parar, 
Que atravesse a conversa 
E alcance lugares 
Onde quase ninguém chega. 
 
A maioria passa diante de mim 
Como páginas que não deixam marca, 
Rostos que o tempo dissolve, 
Palavras que nascem e morrem 
Sem sequer perturbar o silêncio. 
 
Mas, às vezes, surge alguém 
Com uma estranha luz nos olhos, 
Uma maneira diferente de pensar, 
Um mistério na presença, 
E tudo se torna inesperadamente inquieto. 
 
É um choque encontrar uma pessoa assim, 
Porque ela quebra a rotina das aparências, 
Desarruma minhas certezas, 
Faz perguntas que permanecem acordadas 
Quando a conversa já terminou. 
 
Acredito que seja por isso que sejam raras. 
Porque pessoas verdadeiramente interessantes 
Não passam simplesmente pela nossa vida, 
Elas deixam uma inquietação profunda, 
E depois delas, o comum já não basta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O sonho que não se cumpriu

 O sonho que não se cumpriu 
É uma casa erguida no vazio. 
Tem janelas abertas, 
Mas nenhum olhar as atravessa. 
As portas rangem em silêncio, 
Como se esperassem um passo 
Que jamais se aproxima. 
 
É um lugar que existe 
Apenas no intervalo entre a memória e o desejo. 
Paredes de sombra sustentam um teto de silêncio, 
E dentro dele repousa a ausência, 
Como um hóspede fiel. 
 
Não há móveis, não há vozes, 
Não há cheiro de vida. 
Somente a promessa de um lar 
Que nunca se tornou abrigo. 
E, no entanto, ali está: 
Firme, intocado, resistente ao tempo, 
Como se lembrasse que até o que não se cumpre 
Tem a dignidade de sua forma imaginada. 
 
O sonho não realizado não morre, 
Ele persiste como casa vazia no meio do campo, 
Como paisagem que o coração insiste em visitar, 
Mesmo sabendo que ali não encontrará ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Porque já foi feito

 Não, Deus não está salvando o mundo agora. 
Não porque desistiu. 
Mas porque já salvou. 
No silêncio da cruz, na escuridão de um madeiro, 
A luz venceu. 
E o grito final
Está consumado!
Ecoa até hoje 
Em cada canto do coração humano. 
 
Esperamos que Deus se mova, 
Mas talvez Ele espere que nós nos movamos. 
Esperamos que Ele impeça as guerras, 
Mas esquecemos que Ele já nos deu o caminho da paz. 
Esperamos milagres visíveis, 
Mas ignoramos os pequenos milagres 
Que nascem toda vez que alguém ama, 
Perdoa ou recomeça. 
 
Deus não está ausente. 
Está no meio da sala, 
Na ferida que cura, no perdão que liberta, 
Na decisão de agir apesar do medo. 
 
A salvação não é promessa futura, 
É realidade presente. 
É uma porta aberta, não uma jaula trancada. 
É um "sim" que ecoa eternamente, 
Aguardando o nosso próprio "sim". 
 
Não precisamos convencer Deus a nos amar. 
Já somos amados. 
Não precisamos esperar que Ele aja. 
Ele já agiu. 
Agora, somos nós. 
Agora, é a nossa vez de viver como quem crê. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Onde os anjos temem caminhar

 Existem caminhos que pedem silêncio, 
Portas que exigem oração, 
Abismos cobertos de flores 
Onde o tolo corre sem olhar, 
E o sábio aprende a esperar. 
 
O tolo chama coragem à pressa, 
Confunde fé com precipitação, 
Atira-se ao desconhecido 
Como quem desafia o próprio céu, 
Sem perceber que o abismo também responde. 
 
Mas o prudente contempla a estrada, 
Mede a sombra antes de avançar, 
Escuta a voz que nasce no silêncio 
E prefere os joelhos ao orgulho, 
Quando o perigo se aproxima. 
 
Deus não nos chama a tentar Seus caminhos, 
Nem a saltar para provar que temos fé; 
Há uma sabedoria santa em recuar, 
Há uma graça escondida no silêncio, 
E há vitórias que começam quando paramos. 
 
Senhor, dá-me olhos para discernir, 
Humildade para não correr, 
Coragem para permanecer quando for preciso, 
Sabedoria para reconhecer o precipício, 
E fé para seguir somente onde Tu fores. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não lamento o desejo

 Não lamento o desejo que não se cumpriu, 
Nem a porta que permaneceu fechada; 
Aprendi que nem todo caminho perdido 
É uma derrota contra o destino, 
Às vezes, é o destino poupando meus passos. 
 
Quis o que não veio, e sobrevivi; 
Esperei o que não chegou, e amadureci; 
Pois aquele que domina o próprio querer 
Não se torna escravo daquilo que deseja, 
Nem chama de tragédia aquilo que não possui. 
 
Melhor a ausência que preserva a paz 
Que a presença que alimenta uma ilusão; 
Melhor perder um sonho antes de vivê-lo 
Que ganhar o mundo imaginado 
E perder a serenidade dentro de si. 
 
Não exigirei da vida aquilo que ela nega, 
Nem perguntarei por que fechou seus caminhos; 
Aceitarei o que não posso mudar 
E guardarei minhas forças para aquilo 
Que ainda depende da minha escolha. 
 
Hoje desejo menos e compreendo mais; 
Não porque tenha deixado de sonhar, 
Mas porque aprendi a não sofrer pelo impossível; 
Se vier, receberei com gratidão, 
Se não vier, permanecerei inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Os sonhos que deixei

 Houve um jardim dentro de mim. 
Nele floresciam os sonhos mais belos. 
Eu os regava com esperança. 
Cada amanhecer renovava a expectativa. 
Nada parecia impossível. 
 
Então vieram os dias silenciosos. 
O vento mudou o rumo das estações. 
As flores perderam o perfume. 
A paisagem tornou-se distante. 
Meu coração aprendeu a esperar menos. 
 
Não renunciei por falta de coragem. 
Renunciei porque a vida exigiu maturidade. 
Algumas portas permaneceram fechadas. 
Alguns caminhos não eram meus. 
Aceitei o que não podia mudar. 
 
Ainda recordo aqueles antigos sonhos. 
Eles visitam minha memória sem fazer ruído. 
Não despertam revolta nem arrependimento. 
São páginas de uma história verdadeira. 
Continuam fazendo parte de quem sou. 
 
Hoje caminho com as mãos livres. 
Levo comigo apenas o essencial. 
A esperança já não depende das antigas promessas. 
Ela nasce da força de recomeçar. 
E segue comigo para onde a vida me levar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Braços invisíveis

 Às vezes contemplo o horizonte 
Como quem procura o próprio nome no vazio. 
Há uma distância entre o que vejo 
E aquilo que imagino existir, 
E nela construo minha morada provisória. 
 
O futuro estende seus braços invisíveis, 
Mas não revela o que guarda em suas mãos. 
Caminho em sua direção mesmo assim, 
Sabendo que cada resposta encontrada 
Gera uma pergunta ainda mais profunda. 
 
Talvez existam dimensões além da matéria, 
Ou talvez apenas inventemos abismos para atravessar. 
O universo permanece em silêncio, 
Enquanto nós, frágeis viajantes, 
Preenchemos a escuridão com significado. 
 
Um único olhar alcança muito longe, 
Mas nunca consegue alcançar a si mesmo por inteiro. 
Há sempre um território desconhecido 
Entre quem observa o mundo 
E quem tenta compreender sua existência. 
 
No fim, o horizonte não é um lugar. 
É a consciência de que jamais chegaremos ao fim da busca. 
Ainda assim seguimos adiante, 
Não porque conhecemos o caminho, 
Mas porque caminhar é a nossa forma de existir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A luta diária contra a ignorância

Caminho contra vozes que celebram a cegueira, 
Como quem atravessa um mercado de espelhos rachados. 
Carrego perguntas onde exigem certezas, 
E por isso me olham como um corpo estranho 
Entre os devotos do conforto fácil. 
 
Muitas vezes a ignorância veste armaduras douradas, 
Fala alto diante das multidões fatigadas 
E transforma medo em verdade absoluta. 
Eu sigo em silêncio, reunindo fragmentos de lucidez 
Como quem recolhe brasas antes do inverno. 
 
Há noites em que quase cedo ao cansaço, 
Porque pensar também sangra por dentro. 
A razão nem sempre consola, 
E enxergar demais pode ser uma forma de exílio 
Num mundo apaixonado pela superfície. 
 
Ainda assim continuo atravessando a névoa, 
Recusando os profetas de desejos vazios. 
Não quero promessas feitas para adormecer consciências, 
Nem paraísos erguidos sobre mentiras repetidas. 
Prefiro a dúvida honesta ao delírio confortável. 
 
Pode ser que minha luta nunca termine completamente, 
Mas há dignidade em resistir ao escuro. 
Mesmo sozinho diante do rumor das multidões, 
Continuo protegendo essa pequena chama interior 
Que insiste em não se ajoelhar diante da ignorância. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Contra a corrente

 Não sigo o rio quando ele escolhe por mim. 
Prefiro o rumor das águas desafiadas, 
O horizonte que ninguém ainda alcançou, 
A incerteza que desperta a esperança, 
E o vento que convida à descoberta. 
 
Remar exige mais que força. 
Exige coragem para enfrentar o silêncio, 
Quando todos apontam outra direção, 
E confiança para acreditar 
Que o impossível também pode ter um porto. 
 
Cada onda tenta convencer-me a voltar. 
Cada pedra anuncia um fracasso. 
Mas a perseverança conhece 
Segredos que a pressa jamais aprende: 
Os grandes destinos nascem da constância. 
 
Levo comigo a paixão como bússola. 
Ela ilumina as noites mais escuras, 
Transforma o cansaço em motivo, 
O sacrifício em caminho, 
E o sonho em horizonte permanente. 
 
Quando enfim alcançar a outra margem, 
Não será a vitória que importará. 
Importará saber que vivi sem me render, 
Que enfrentei a corrente com dignidade 
E fiz da minha travessia um testemunho de liberdade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense