quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Escritor

O escritor é um caçador de instantes invisíveis. 
Enquanto o mundo passa apressado, 
Ele permanece, olhos abertos, alma inclinada, 
Recolhendo o que os outros deixam cair sem perceber. 
 
Há histórias escondidas no ranger de uma porta, 
No silêncio entre duas palavras, 
Na lágrima que não chega a cair. 
O olhar atento não apenas vê, 
Ele escuta o que não foi dito. 
 
Cada cena da vida, 
Por mais banal, é um campo fértil. 
Uma conversa de esquina pode ser um romance, 
Um adeus apressado pode carregar uma eternidade, 
Um gesto mínimo pode revelar um abismo inteiro. 
 
O escritor transforma o comum em revelação. 
Ele encontra oportunidades 
Não porque o mundo as oferece prontas, 
Mas porque sabe cavar sentido onde só havia rotina. 
 
Dessa forma, vivendo entre o que é 
E o que poderia ser, 
Ele reescreve a realidade 
Com o delicado poder da percepção, 
Fazendo do olhar, não apenas visão, mas criação. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nos jogos de poder

 Nos jogos de poder, erguem-se nações, 
Buscando além dos limites seus domínios, 
Como se a força fosse dos desígnios 
Que escrevem sobre o mundo imposições. 
 
Governos, cegos por ambições, 
Confundem paz com frágeis raciocínios, 
E fazem da razão breves declínios 
Diante do peso vão das intenções. 
 
Mas se a razão guiasse o próprio agir, 
E o mando fosse feito de prudência, 
Talvez não víssemos o mundo ruir. 
 
Pois onde falta a lúcida consciência, 
A guerra vem seu trono construir, 
E a paz se torna triste ausência. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Sou amante do saber

Carrego nos olhos uma fome antiga, 
Dessas que não se aquietam com o tempo, 
Que cresce no silêncio das páginas abertas 
E se alonga nas margens do pensamento, 
Como raiz que insiste em atravessar a pedra. 
 
Leio o mundo como quem tateia o invisível, 
Cada palavra é um corpo que me chama, 
Cada ideia, uma chama que se multiplica, 
Ardendo mansa dentro da consciência, 
Iluminando zonas onde eu ainda não era. 
 
Sou amante do saber em todas as suas formas, 
Do claro ao turvo, do simples ao indecifrável, 
Do que consola e do que desestabiliza, 
Pois há beleza também no que desconstrói, 
No que me desfaz para me refazer inteiro. 
 
Há noites em que me perco de propósito, 
Caminhando entre teorias como labirintos, 
Onde não procuro saídas, mas encontros, 
Onde cada dúvida é um espelho em expansão 
E cada resposta, apenas um novo começo. 
 
Sigo assim, inacabado e ardente, 
Colecionando mundos dentro do peito, 
Sabendo que jamais serei completo, 
Mas que na busca reside minha essência, 
Ser, eternamente, aprendiz do infinito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Aprender a escutar o coração

 Nos caminhos secretos do coração errante, 
Há mapas feitos de desejo e cicatriz, 
Veredas que nascem no instante vacilante 
Em que amar é perder-se e ainda assim ser feliz, 
Como quem encontra no abismo a própria raiz. 
 
O coração não sabe da lógica dos dias, 
Ele pulsa em desordem, em febre e contramão, 
Costura esperanças com frágeis ousadias, 
E transforma em abrigo o que era solidão, 
Feito um sonho que insiste em caber na razão. 
 
E o amanhã nos chama com voz indecifrável, 
Promessa suspensa no ar do que virá, 
Um sopro invisível, tão doce e inevitável, 
Que nos move adiante, mesmo sem nos guiar, 
Como estrela que existe só para nos sonhar. 
 
A vida nos atravessa sem pedir passagem, 
É lâmina e abraço, é queda e elevação, 
Um rio que nos leva além da própria margem, 
E escreve em nosso peito a sua tradução, 
Em versos que só o silêncio entende então. 
 
Quem sabe o sentido não seja ser completo, 
Mas sentir cada instante em sua imensidão, 
Ser fragmento vivo de um mistério inquieto, 
Onde existir já basta, sem qualquer explicação, 
E viver é aprender a escutar o coração. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 7 de abril de 2026

Viver com poesia

 No silêncio onde o mundo se desfaz em pressa, 
Nasce a poesia como um sopro antigo, 
Não nos lábios, mas no intervalo do sentir, 
Onde a alma repousa entre o ser e o mistério, 
E aprende que existir também é escutar. 
 
Há um sagrado discreto no olhar que contempla, 
Na mão que toca o instante com leveza, 
Como se cada segundo fosse matéria divina, 
Moldada pelo afeto de quem percebe, 
Que o infinito habita o que é pequeno. 
 
A alma poética não foge da dor, atravessa, 
Recolhe seus fragmentos como quem colhe estrelas, 
E no escuro costura sentidos improváveis, 
Fazendo da lágrima um espelho de luz, 
E da queda, um novo modo de voo. 
 
Viver com poesia é recusar o endurecimento, 
É permanecer sensível entre ruínas e ruídos, 
É fazer do gesto simples uma oferenda, 
E da palavra, um abrigo onde o mundo respira, 
Mesmo quando tudo parece desabar. 
 
Assim segue a alma, vasta, indomável, desperta, 
Carregando universos dentro do peito, 
Transformando o comum em eternidade breve, 
Como quem sabe que a vida é mais que passagem. 
É um verso inacabado que insiste em florescer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um vazio que tem o seu nome

 Eu não lhe disse nada. 
E, no entanto, disse tudo no silêncio. 
Guardei no peito 
Aquilo que não encontrou coragem na voz, 
Como se as palavras fossem frágeis demais 
Para atravessar a distância que nasceu 
No instante em que o seu olhar 
Se afastou do meu. 
 
Desde aquele dia, 
Vivo de frases inacabadas, 
De confissões que nunca tocaram o ar, 
De um amor que aprendeu 
A existir sem testemunhas. 
 
Havia um universo inteiro 
Querendo acontecer entre nós, 
Mas ele ficou suspenso, 
Como uma respiração que não se completa. 
 
Você partiu com os olhos, 
E eu fiquei com o que eles deixaram. 
Um vazio que tem o seu nome, 
E um silêncio que insiste em me lembrar 
De tudo o que eu não disse. 
 
O mais profundo dos sentimentos 
Não morre por falta de amor, 
Morre por falta de coragem. 
E o meu… 
Ainda vive, quieto, 
Esperando um passado que já não volta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Tocar o invisível

Tem um tipo de pensamento que não faz ruído, 
Ele chega como sombra suave ao entardecer, 
Não pede nome, nem forma, nem destino, 
Apenas repousa entre um instante e outro, 
Como se o tempo também precisasse respirar. 
 
Pensar em silêncio é tocar o invisível, 
É segurar a água fugidia da existência, 
E sentir que ela escorre pelos dedos atentos, 
Não por descuido, mas por natureza, 
Como tudo aquilo que insiste em passar. 
 
O tempo não grita sua passagem, 
Ele se move com passos que não ouvimos, 
E chamamos de rotina o seu disfarce, 
Sem notar que cada hábito repetido 
É também uma pequena despedida. 
 
Somos feitos de instantes que se dissolvem, 
De presenças que já começam a partir, 
Como pegadas frágeis na areia do agora, 
Que o vento apaga sem pedir licença, 
Lembrando que ficar nunca foi promessa. 
 
Ainda assim há luz nessa brevidade, 
Pois o que passa carrega um brilho único, 
O efêmero é também o que mais toca, 
E talvez viver seja só isso: 
Sentir profundamente o que não permanece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Onde o tempo não ousa tocar

 Não esqueço o encanto daquele dia, 
Como se o tempo 
Tivesse suspendido o próprio fôlego 
Para assistir ao instante 
Em que você surgiu. 
 
Teus cabelos dançavam com o vento 
Como se conhecessem segredos antigos, 
Como se cada fio guardasse uma história 
Que eu ainda aprenderia a ouvir. 
 
Teu sorriso... 
Ah, teu sorriso não era apenas luz, 
Era abrigo. 
Iluminava a tarde como quem acende 
Uma chama infinita do coração. 
 
E teus olhos, 
Profundos, silenciosos, reveladores, 
Me disseram sem palavras 
Aquilo que o coração demora a admitir: 
Que há encontros que não começam no acaso, 
Mas continuam de algo que já nos habitava. 
 
Desde então, carrego esse dia 
Como quem guarda um relicário invisível, 
Onde o tempo não ousa tocar, 
E a memória não precisa esforço para florescer. 
 
Porque há lembranças que não se apagam, 
Elas apenas aprendem 
A viver dentro da gente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 5 de abril de 2026

Te vejo nas brechas da noite vazia

 Nas inquietas noites, onde o silêncio pesa, 
Caminho por dentro de mim como quem se perde, 
E cada lembrança tua é uma chama acesa, 
Ardendo mansa naquilo que já não me serve, 
Mas que ainda insiste em me chamar pelo nome. 
 
A culpa me veste como um frio sem fim, 
Escorre nos ossos, sussurra nos cantos, 
Dizendo que fui eu quem deixou tudo assim, 
Que o amor não se perde, se perde é o encanto, 
E eu fui descuido no instante em que você partiu. 
 
Há um relógio quebrado dentro do peito, 
Marcando a hora exata do adeus não dito, 
Um tempo suspenso, imóvel, imperfeito, 
Onde teu olhar ainda me encontra aflito, 
Como se o fim nunca tivesse sido completo. 
 
Te vejo nas brechas da noite vazia, 
No vento que passa e parece te trazer, 
Na sombra que dança na parede fria, 
No sonho que insiste em não me esquecer, 
Mesmo sabendo que o dia te apaga de mim. 
 
E sigo, entre a culpa e o que ainda resiste, 
Aprendendo que amar também é perder, 
Que há dores que o tempo não cura, apenas persiste, 
Como marcas que escolhem permanecer, 
Lembrando que um dia eu tive você… e deixei ir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O amor não faz perguntas

O amor é esse tradutor silencioso do infinito. 
Ele aprende a linguagem das estrelas 
Não pelo brilho, mas pela distância. 
Porque amar é justamente isso: 
Decifrar o que está longe como se fosse íntimo, 
Tocar o inalcançável 
Como quem reconhece um velho conhecido. 
 
Se o amor consegue ler o que está escrito 
Na mais remota das estrelas, 
É porque ele não lê com os olhos 
Lê com ausência, com desejo, com espera. 
E tudo aquilo que é vasto demais para ser dito 
Se curva diante de quem ousa sentir. 
 
Por que não revelaria o seu coração? 
O coração é menor que uma galáxia, 
Menos misterioso que o tempo, 
Menos silencioso que a noite. 
 
Talvez o amor já o tenha lido, 
Em cada gesto interrompido, 
Em cada palavra que você não disse, 
Em cada suspiro que escapou sem nome. 
 
O amor não faz perguntas. 
Ele reconhece o olhar, o sorriso. 
Antes mesmo de você se entender, 
Ele já te escreveu inteira 
No infinito céu de alguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 4 de abril de 2026

Aprendi em teus olhos o caminho

 No teu olhar encontrei abrigo, 
Um silêncio que dizia mais que palavras, 
Como se o mundo ali se curvasse, 
Suave, inteiro, inevitável, 
Para que eu enfim me perdesse em ti. 
 
Havia luz nas tuas pupilas, 
Não uma luz qualquer, mas viva, 
Dessas que acendem memórias futuras, 
E fazem do instante um eterno, 
Como um segredo sussurrado ao destino. 
 
Teu olhar me atravessou sem pressa, 
Leu em mim o que nem eu sabia, 
Desfez minhas certezas frágeis, 
E refez meus sentidos perdidos, 
Como quem redesenha a própria alma. 
 
Eu, que andava disperso no mundo, 
Aprendi em teus olhos o caminho, 
Não de volta, mas de encontro, 
Onde tudo faz sentido sem razão, 
E o coração ousa enfim descansar. 
 
Se amar é nascer outra vez, 
Foi no teu olhar que despertei, 
Não como quem chega, mas como quem fica, 
Habitando esse brilho que me chama, 
E me torna, em ti, infinito. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Uma saudade que nunca nasceu

 Houve um instante que não existiu, 
Mas que insiste em permanecer. 
Teu corpo sensual, tão próximo, 
Não era carne, nem ausência, 
Era um quase, 
Um sopro moldado na forma do desejo. 
 
Te segurei como quem segura o inevitável, 
Como quem abraça a própria ilusão 
E, ainda assim, acredita. 
Havia calor, ou memória dele. 
Havia desejo, ou vontade de sentir. 
Havia você, inteira, 
Cabendo no espaço exato entre meus braços 
E aquilo que me faltava. 
 
E quando acordei, 
Não foi o vazio que me doeu, 
Foi a perfeição do que não aconteceu. 
Não posso negar que certos sonhos 
Não querem se realizar, 
Querem apenas nos lembrar 
Daquilo que somos capazes de sentir 
Quando a realidade falha. 
 
Na minha imaginação, 
Carrego teu corpo inexistente 
Como uma saudade que nunca nasceu, 
Mas insiste… 
Em não morrer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Os que acordam o vento

 Tem aqueles que são como casa de portas fechadas, 
Com janelas que nunca se abrem, 
E cortinas que escondem até o próprio sol. 
Ali dentro, a poeira é cômoda, 
O ar é velho, 
Mas ninguém questiona. 
 
São muitos, 
São vozes repetidas, 
São rostos que assentem sem olhar. 
 
Mas tem também os outros... 
Os que acordam o vento. 
Os que entram rasgando o ar imóvel 
Com perguntas que doem, 
Com silêncios que acusam, 
Com gestos que te empurram para fora de ti. 
 
Andar com eles 
É como caminhar em bordas de penhascos invisíveis, 
É tropeçar nos próprios passos, 
É descobrir que chão firme pode ser ilusão. 
Eles não te oferecem abrigo, 
Mas te dão asas estranhas, 
Feitas de dúvida e desejo de ir além. 
 
E o preço? 
O preço é a perda das antigas certezas. 
É o exílio dos cômodos afetos. 
É a dor de ser estrangeiro até dentro da própria pele. 
 
Mas o prêmio... 
Ah, o prêmio... 
É a lucidez que nasce como claridade depois da tempestade. 
É o olhar que atravessa véus, 
É o pensamento que se recusa a ajoelhar. 
 
Nunca, jamais, 
Faças parte da procissão dos adormecidos. 
Não te tornes cúmplice do eco que nada diz. 
 
Escolhe sempre 
Os que te obrigam a crescer, 
Os que desarrumam teus móveis interiores, 
Os que te ensinam a soprar as cinzas 
Até que reste apenas a chama. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Falta de consciência

 Os dias passam como páginas sem leitura, 
Viradas por mãos que não sentem o papel. 
Há uma pressa vestida de falsa urgência pura, 
Como se viver fosse cumprir um papel cruel, 
E não incendiar-se no próprio céu. 
 
Olham o horizonte como quem evita cair, 
Mas esquecem de olhar o chão que pisa o ser. 
E assim, seguem sem nunca verdadeiramente ir, 
Como sombras tentando o próprio amanhecer, 
Sem saber que já deixaram de viver. 
 
Perguntar-se é um abismo necessário, 
Um risco que poucos desejam correr. 
Pois há conforto no caminho ordinário, 
Mesmo que ele seja um lento desaparecer, 
Uma ausência vestida de permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Nenhuma vida é pequena demais

 Há um sopro antigo em cada rosto humano, 
Uma chama que não se apaga no tempo, 
Mesmo quando a dor escurece os olhos, 
Mesmo quando o mundo insiste em medir o valor, 
Algo permanece, indizível, intacto. 
 
Somos feitos de quedas e recomeços, 
De silêncios que ninguém escuta, 
De batalhas travadas por dentro, 
E ainda assim carregamos uma luz, 
Mesmo quando não sabemos nomeá-la. 
 
Nenhuma vida é pequena demais, 
Nenhuma história é inútil ao todo, 
Há universos inteiros em cada gesto, 
E mistérios guardados em cada olhar, 
Como se o infinito coubesse no humano. 
 
Chamamos de diferença aquilo que nos revela, 
Rostos múltiplos de uma mesma origem, 
Cada cultura, cada fé, cada corpo, 
Uma variação do mesmo enigma vivo, 
Uma linguagem diversa do mesmo sagrado. 
 
No fim, quando tudo se desfaz, 
Resta apenas aquilo que fomos no outro, 
O cuidado, o respeito, o reconhecimento, 
Como quem toca o invisível com reverência, 
E descobre que também é sagrado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense