domingo, 15 de março de 2026

Lúdicas fantasias

 Teu amor é uma moeda rara 
Que não circula nos mercados do mundo. 
Quando cai em minhas mãos cansadas, 
Faz de mim um homem mais valioso 
Do que qualquer ouro escondido na terra. 
 
Teus sonhos são mapas invisíveis 
Que orientam o rumo do meu caminhar. 
Quando teus olhos imaginam o futuro, 
Meu próprio coração aprende a sonhar 
Como quem aprende novamente a viver. 
 
Teu coração pulsa como uma bomba viva, 
Não de guerra, mas de abundância. 
A cada batida derrama riqueza em mim, 
E minha existência, antes tão simples, 
Se torna um tesouro inesperado. 
 
Nos teus prazeres encontro jardins secretos, 
Onde minha imaginação passeia livre. 
São lúdicas fantasias que florescem 
Entre risos, silêncio e desejo, 
Como estrelas brincando na noite. 
 
 Assim seguimos, dois viajantes do afeto, 
Trocando riquezas que o mundo não mede. 
Teu amor me valoriza, me reinventa, 
E em cada gesto teu descubro 
Que amar também é aprender a sonhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O homem da coluna envergada

 Somos uma geração de costas curvadas. 
Não pelo peso do tempo, 
Mas pelo peso das horas vendidas. 
Endireitamo-nos apenas quando nascemos 
Depois disso, a vida nos dobra lentamente 
Como quem dobra um papel 
Até caber dentro de um relógio de ponto. 
 
Nossas colunas não se curvam diante dos deuses, 
Nem diante do mistério do universo. 
Curvam-se diante de planilhas, 
Metas, 
Turnos, 
E promessas de sobrevivência. 
 
Há algo de trágico nisso: 
Trocaram-nos o horizonte pela repetição, 
E a mente, essa massa cinzenta 
Capaz de imaginar mundos, 
Foi comprada 
Em suaves prestações de salário. 
Vendemos pensamentos 
Para pagar o direito de continuar pensando. 
 
Assim nasceu o homem de coluna envergada: 
Não um derrotado, 
Mas um sobrevivente 
De um sistema que descobriu 
Que era mais lucrativo comprar o cérebro 
Se primeiro dobrasse as costas. 
 
E, no entanto, 
Há momentos perigosos para o mundo: 
Quando um trabalhador se endireita. 
Quando uma coluna cansada 
Lembra que foi feita 
Para sustentar o corpo erguido, 
Não para carregar eternamente 
O peso do lucro alheio. 
 
Uma coluna que se levanta 
É também uma consciência que desperta. 
E quando a consciência desperta, 
As costas deixam de ser apenas curvadas, 
Tornam-se espinha dorsal de revolta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 14 de março de 2026

Uma nuvem escura

 Pense em mim 
Como uma nuvem escura 
Que pairava sobre tua vida esquecida, 
Uma sombra lenta atravessando teus dias 
Sem sabor e sem memória. 
 
Eu vinha pesado de silêncios, 
Carregado de tempestades que não viste, 
E ainda assim permaneci ali, suspenso, 
Sobre o horizonte pálido do teu mundo 
Que já não sabia chover. 
 
Tua vida era um campo sem vento, 
Uma estrada que ninguém percorre, 
E eu, nuvem errante, 
Esperava o momento de cair 
Em forma de palavra ou relâmpago. 
 
Mas teus olhos eram janelas fechadas, 
Teu coração, uma cidade abandonada, 
Onde minhas sombras apenas passavam 
Como tardes cinzentas 
Que ninguém recorda. 
 
Então parti lentamente no céu do esquecimento, 
Dissolvendo-me no frio da distância, 
E talvez um dia recordes 
Que até as nuvens escuras 
Tentam, às vezes, trazer chuva. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Gritos de poesia

 Eu morri. 
Não como quem dorme, 
Mas como quem se quebra por dentro 
E escuta o próprio silêncio estilhaçar. 
Morri nas esquinas daquilo que eu era. 
Nas promessas que não floresceram. 
Nos nomes que já não cabiam na minha pele. 
 
E então… 
No fundo de um mundo feito de concreto, 
Onde a vida parece sufocada 
Sob camadas de pressa e esquecimento, 
Algo começou a arder. 
Não era destruição. 
Era nascimento. 
 
Abri os olhos como quem rasga a noite. 
Sou uma fênix brotando 
Do lodo duro do cimento, 
Onde ninguém espera milagres. 
Minhas asas não são limpas, 
São feitas de cinza, de falhas, 
De memórias queimadas. 
Mas ainda assim eu voo. 
 
Consumo o que fui em fogo lento, 
E dos meus próprios escombros 
Erguem-se gritos, 
Gritos de poesia. 
Porque há mortes que não são fins. 
São portas. 
E há incêndios 
Que não destroem o mundo. 
Eles acendem a alma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 13 de março de 2026

Incapacidade humana

Às vezes não é o céu que escurece. 
É o homem. 
Esse ser humano terrível. 
O mundo não termina com trombetas 
Nem com estrelas caindo, 
Ele termina lentamente 
Quando a brutalidade se torna costume. 
Termina quando a violência deixa de espantar 
E passa apenas a cansar. 
 
Há algo de profundamente assustador 
No momento em que percebemos 
Que a barbárie não vem de monstros, 
Mas de mãos humanas 
Que aprenderam a apertar gatilhos, 
Erguer muros, e fechar os olhos. 
 
O fim do mundo começa assim: 
Não com um estrondo, 
Mas com a perda do espanto. 
Quando a dor do outro já não nos atravessa. 
Quando a mentira vira estratégia. 
Quando a crueldade encontra aplausos. 
 
Nesse momento, 
Algo dentro da própria humanidade 
Se despedaça em silêncio. 
E então sentimos aquela estranha sensação, 
Como se o chão da história estivesse cedendo, 
Como se estivéssemos vivendo 
Entre ruínas que ainda não caíram, 
Mas já perderam sua alma. 
 
O mais terrível 
É que o mundo continua girando. 
As manhãs ainda chegam. 
Os pássaros ainda atravessam o céu. 
Os rios continuam correndo. 
Mas algo essencial 
Parece ter sido quebrado dentro do homem. 
 
E quem garante que não seja isso 
Que faz nascer em nós 
Essa sensação difícil de explicar: 
A impressão de que o mundo 
Não está acabando pela natureza, 
Nem pelo tempo, 
Mas pela incapacidade humana 
De continuar sendo humano. 
 
Mas penso que, 
Enquanto existir alguém 
Capaz de se indignar, 
De chorar pela dor alheia, 
De proteger a vida 
Mesmo quando tudo parece perdido, 
O mundo ainda não tenha terminado. 
Mas esteja apenas esperando 
Que a humanidade 
Se lembre novamente de si mesma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 12 de março de 2026

Hierarquia interior

 No começo, 
Tudo fala ao mesmo tempo. 
As vozes do mundo, 
As expectativas dos outros, 
Os medos que herdamos, 
Os desejos que nos atravessam 
Como ventos sem direção. 
Tudo exige urgência. 
Tudo parece importante. 
E assim o espírito se cansa. 
 
Mas um dia, 
Quase sempre depois de muitas tempestades, 
Aprendemos a organizar o silêncio. 
Descobrimos que nem todo ruído 
Merece morada em nós. 
Algumas palavras 
Devem ficar do lado de fora da porta. 
Algumas memórias 
Precisam apenas passar, 
Como nuvens que não pedem abrigo. 
 
Então nasce uma ordem invisível. 
O essencial sobe 
Como quem encontra 
O lugar mais alto da casa. 
O que é pequeno 
Aprende a ficar pequeno. 
O que é barulho Já não governa o coração. 
E ali, nesse território recém-arrumado, 
Algo inesperado floresce: 
A paz. 
 
Não a paz frágil 
Que depende de dias sem conflito, 
Nem a paz que pede ao mundo 
Que se torne gentil. 
Mas a paz firme 
De quem governa a própria alma. 
 
Porque quem aprende 
Essa hierarquia secreta da vida 
Descobre, enfim, 
Que a paz nunca esteve fora. 
Ela sempre esperou 
Na disciplina silenciosa de dentro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 11 de março de 2026

Se um dia eu falar

Dizem que há nomes que não podem ser pronunciados 
Porque carregam dentro deles 
A força para despertar tempestades. 
O seu é um desses. 
Não porque seja proibido, 
Mas porque, se eu o disser como sinto, 
O mundo pode se partir em dois. 
 
Há noites em que acordo 
Com a certeza de que esse sentimento 
Não nasceu agora. 
Ele vem de antes. 
De outra vida, 
De outra história que não terminou. 
E aqui estamos, repetindo a cena, 
Com as mesmas mãos hesitantes, 
O mesmo silêncio que pesa como pedra. 
 
Sinto como se eu tivesse feito um pacto sem saber: 
Guardar seu nome preso dentro de mim 
Até que o tempo me esqueça. 
E nesse pacto, falar seria quebrar o selo 
Que mantém as sombras quietas. 
 
Quando você está perto, 
O ar muda de cor. 
É como andar por um campo onde, 
Sob a terra, dorme um animal imenso. 
Um passo errado e ele acorda. 
E eu… 
Eu sou o passo errado. 
 
Se um dia eu falar, 
Não será uma declaração. 
Será um feitiço antigo, 
A chave para uma porta que ninguém deveria abrir. 
E talvez, ao abrir, 
Não sobre nada de nós dois para contar a história. 
 
Até lá, sigo amaldiçoado: 
Te olhando como quem lê uma profecia, 
Te guardando como quem esconde uma arma carregada, 
Te amando como quem segura o próprio fim 
Na palma da mão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 10 de março de 2026

Muros e pontes

 Tem pessoas que chegam como rios 
E pedem passagem. 
Para elas, não se levantam barreiras, 
Constrói-se pontes. 
Pontes feitas de escuta, 
De confiança, 
De silêncios compartilhados 
Onde ninguém precisa se defender. 
 
Mas há também quem chegue 
Como tempestade que destrói jardins 
E pisa nas sementes 
Que ainda nem tiveram tempo de nascer. 
Para essas presenças, 
Não se oferece passagem. 
Ergue-se muros. 
 
Muros não de ódio, 
Mas de lucidez. 
Porque aprender a viver 
Também é aprender 
Que o coração não é praça pública. 
 
Há quem mereça atravessar nossa vida 
De mãos dadas. 
E há quem precise permanecer 
Do lado de fora 
Daquilo que levamos de mais sagrado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 9 de março de 2026

O que será de nós?

O que será de nós 
Quando o amanhã nos encontrar desprevenidos? 
Talvez sejamos apenas silêncio, 
Com as mãos ainda cheias de planos inacabados. 
Talvez descubramos, tarde demais, 
Que a vida nunca foi feita 
Para caber nos nossos cálculos. 
 
O amanhã não bate à porta. 
Ele chega como o vento, 
Abrindo janelas que esquecemos de fechar. 
E então estaremos ali: 
Com as palavras que não dissemos, 
Os abraços que adiamos, 
Os sonhos guardados 
Como roupas para uma estação que nunca veio. 
 
O amanhã nos encontra sempre assim, 
Um pouco distraídos, 
Um pouco esperançosos, 
Um pouco humanos demais. 
Mas talvez não seja uma tragédia. 
Porque quem vive preparado demais 
Quase nunca vive de verdade. 
 
Mas pode ser que, 
Quando o amanhã finalmente nos alcançar, 
Ele não nos peça certezas, 
Apenas coragem. 
Coragem para continuar 
Mesmo sem saber o que será de nós. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Mente fragmentada

 A mente corre em mil direções dispersas, 
Acesa pelas luzes do presente, 
Mas traz no fundo, pálida e doente, 
Fadigas que nem mesmo ela confessa. 
 
São vozes, sons e imagens tão diversas 
Que a prendem num turbilhão inclemente; 
Pensa demais, e raramente sente 
A paz que em seus silêncios atravessa. 
 
Assim caminha o homem destes dias: 
Cercado de saberes e notícias, 
Mas pobre de repouso e de inteireza. 
 
Seu pensamento, sempre dividido, 
É como um espelho antigo, partido, 
Refletindo o mundo em mil fraquezas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O olhar além das ruínas

 Abrir os olhos não é apenas acordar. 
É permitir que a luz atravesse 
As ruínas que carregamos. 
Tem dias em que tudo parece um campo de escombros: 
Sonhos quebrados, planos que não chegaram, 
Palavras que ficaram presas no ar 
Como pássaros feridos. 
Mas mesmo nas cidades destruídas 
O vento ainda encontra caminhos entre as pedras. 
 
Abrir os olhos é perceber isso. 
Que entre as rachaduras do concreto 
Sempre nasce alguma coisa verde. 
E então abrimos os braços. 
Não para vencer o mundo, 
Mas para senti-lo. 
 
O vento passa pelo corpo 
Como se lembrasse à pele 
Que estamos vivos. 
O cheiro das flores não pergunta 
Se merecemos beleza. 
Elas simplesmente existem, 
E nos alcançam. 
 
Quem sabe viver seja isso: 
Olhar além das ruínas 
Sem negar que elas estão ali, 
Mas também não esquecer 
Que há céu acima delas. 
Respirar fundo. 
Sentir o vento. 
Cheirar as flores. 
Porque, no fim, 
Antes de qualquer explicação do universo, 
Nós estamos aqui. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 8 de março de 2026

Estamos sendo vigiados

 Tem um olho enorme pairando sobre a cidade. 
Não é de carne nem de divindade, 
É feito de telas, 
De slogans, 
De dados coletados em silêncio. 
Ele não pisca. 
Não dorme. 
E não precisa gritar ordens. 
Basta sugerir. 
 
Nas vitrines iluminadas, 
Nas propagandas 
Que prometem felicidade em parcelas, 
Nas frases curtas que cabem em quinze segundos 
E convencem uma multidão 
De que escolheram livremente. 
 
Mas quase nada é escolha. 
Alguém escreveu o roteiro antes. 
Alguém definiu o desejo 
Antes que ele nascesse em nós. 
 
As ruas estão cheias de pessoas caminhando 
Com as próprias algemas nos bolsos, 
Chamando-as de conforto, 
Chamando-as de progresso. 
 
O olho observa. 
Ele aprende nossos medos, 
Arquiva nossos gostos, 
Mede nossas hesitações. 
E então devolve ao mundo 
Uma realidade cuidadosamente editada. 
Uma verdade filtrada. 
Uma opinião pronta. 
 
A vigilância moderna não precisa de soldados. 
Ela prefere algoritmos. 
Não precisa de censura explícita, 
Basta afogar a verdade em um mar de distrações. 
 
Enquanto isso, 
O grande olho cresce. 
Alimentado por cliques, 
Por selfies, 
Por confissões voluntárias 
Que chamamos de rede social. 
 
O mais inquietante 
Não é o fato de estarmos sendo observados. 
Mas o fato de que, aos poucos, 
Aprendemos a nos comportar 
Como se o olho estivesse sempre olhando. 
 
E assim a prisão se completa. 
Sem muros. 
Sem grades. 
Apenas com um olho gigantesco no céu digital 
E milhões de pessoas 
Que já esqueceram 
Como é viver fora do seu campo de visão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Esquina da ilusão

Há quem caminhe pela vida 
Como quem dobra esquinas imaginárias. 
Acredita que logo ali, 
Depois da próxima curva da rua, 
Da próxima cidade, 
Do próximo rosto bonito, 
Alguma coisa finalmente acontecerá, 
Algo que justificará todas as esperas. 
 
Mas a esquina 
É uma promessa que nunca aprende a cumprir. 
Cada nova rua parece carregada de esperança: 
Talvez a próxima conversa seja diferente, 
Talvez o próximo olhar permaneça, 
Talvez a próxima garota 
Seja exatamente aquela que, em segredo, 
Sempre se esperou encontrar. 
 
E então vem o encontro. 
O sorriso. 
Alguns dias de luz. 
Depois, de novo, a esquina. 
 
Há uma espécie de miragem emocional 
Que nos empurra para frente: 
A crença de que a vida verdadeira ainda não começou, 
Que o amor real ainda não chegou, 
Que o lugar certo ainda está alguns passos adiante. 
 
Mas às vezes a ilusão não está na esquina. 
Está em nós. 
Porque passamos pelas pessoas 
Como viajantes que não desmontam as malas. 
Olhamos os rostos 
Procurando aquilo 
Que já imaginamos antes de conhecê-los. 
 
E quando não encontramos 
Exatamente o sonho, seguimos andando. 
Outra esquina. 
Outra promessa. 
 
Até que um dia se percebe algo desconcertante: 
Talvez a vida 
Não esteja escondida na próxima esquina. 
Talvez ela estivesse 
Nas ruas pelas quais passamos distraídos. 
 
E talvez aquela garota 
Que parecia não ser “a certa” 
Apenas tivesse chegado no momento 
Em que ainda estávamos ocupados demais 
Procurando a próxima curva da estrada. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 7 de março de 2026

Manifesto de um leitor

 Alguns se ajoelham diante do dinheiro. 
Outros erguem altares para a fama. 
Vivem de aplausos, de cifras, 
De nomes gravados em vitrines. 
Eu não. 
 
A minha paixão 
Não faz barulho. 
 Ela vive no silêncio das páginas, 
No cheiro antigo do papel, 
No instante sagrado 
Em que um livro se abre como uma porta. 
 
Enquanto muitos querem ser vistos, 
Eu prefiro ver. 
Ver mundos. 
Ver vidas. 
Ver o que existe 
Por trás das máscaras humanas. 
 
Os livros não me prometem riqueza. 
Não me prometem glória. 
Mas me dão algo maior: 
Mil vidas em uma só 
E uma alma que nunca para de crescer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Uma geração estranha

 Vivemos entre uma geração estranha. 
Não estranha 
Como as estrelas que surgem cedo no céu, 
Mas estranha 
Como prédios vazios iluminados de madrugada. 
 
Há algo quebrado em seus corações. 
Não uma tristeza simples, 
Mas destroços. 
Como se cada peito 
Guardasse os restos de uma guerra 
Que ninguém lembra quando começou. 
 
Cresceram entre telas que piscam 
E silêncios que não abraçam. 
Entre promessas que chegaram quebradas 
E sonhos embalados em plástico. 
 
Às vezes penso que vivem todos 
Numa espécie de clínica maligna 
No topo de um edifício muito alto, 
Onde as janelas não se abrem 
E o vento não entra para bagunçar os pensamentos. 
Ali tratam a alma como quem trata um sintoma. 
Silenciam perguntas. 
Anestesiam o espanto. 
 
Então descem para as salas de aula 
Com olhos cansados antes mesmo da vida começar. 
Alguns não sabem o que fazer com a própria dor 
E acabam perfurando os assentos escolares 
Como se quisessem atravessar a madeira 
E alcançar um chão mais verdadeiro. 
 
Talvez não seja rebeldia. 
Talvez seja apenas um pedido de socorro 
Escrito com objetos pontiagudos. 
Porque quem tem destroços no coração 
Não sabe sempre construir pontes. 
Às vezes só sabe cavar. 
 
Eu ainda acredito 
Que em algum lugar dentro desses escombros 
Existe uma pequena brasa. 
E basta um gesto humano, 
Um olhar que não julgue, 
Uma palavra que não venha armada, 
Para que esses jovens estranhos 
Descubram, enfim, 
Que seus corações não foram feitos 
Para carregar ruínas, 
Mas para aprender, lentamente, 
A reconstruir o mundo onde vivem. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense