quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Mil distrações por minuto

Caminho entre vozes que me chamam por nomes distintos, 
Cada uma prometendo um sentido para a jornada. 
A dispersão espalha placas em todas as estradas, 
E eu, diante delas, descubro a vertigem da escolha: 
Ser livre é também correr o risco de se perder. 
 
O mundo oferece mil distrações por minuto, 
Como se o vazio pudesse ser preenchido pelo movimento. 
Mas quanto mais persigo os brilhos passageiros, 
Mais percebo que a fuga não responde às perguntas 
Que me esperam em silêncio dentro de mim. 
 
A sabedoria não surge como uma revelação celeste; 
Ela nasce da decisão de permanecer. 
É um ato de resistência contra a correnteza do ruído, 
Uma recusa em trocar profundidade por novidade, 
Presença por dispersão, ser por parecer. 
 
Há um deserto escondido sob o excesso de estímulos. 
Nele, as certezas evaporam ao sol da consciência. 
Restam apenas o tempo, a finitude e a escolha. 
E é ali, onde nada nos distrai de nós mesmos, 
Que começamos a construir significado. 
 
Quem sabe a sabedoria seja isto: aceitar o abismo 
Sem a necessidade de cobri-lo com distrações. 
Olhar para a própria existência e não desviar os olhos. 
Compreender que o sentido não é encontrado pronto, 
Mas criado na atenção que dedicamos à vida. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quem sabe ainda haja tempo

Na solidão dos meus dias eu me pergunto em silêncio, 
Por que não pensei em voar para longe daqui, 
Se o céu sempre esteve aberto sobre mim, 
Como um convite azul que nunca expirei, 
Como um destino que temi pronunciar. 
 
Carrego em mim raízes que não plantei, 
Há um peso antigo em meus próprios passos, 
Como se o chão me reconhecesse demais, 
Como se partir fosse trair minha própria história, 
Como se ficar fosse uma forma de sobreviver. 
 
Às vezes sinto o vento me chamar baixinho, 
Sussurrando caminhos que não ousei seguir, 
Mas minhas asas, esquecidas, tremem de dúvida, 
Como memórias de um voo que nunca aconteceu, 
Como sonhos que adormeceram antes de nascer. 
 
Eu não parti, talvez, por medo do vazio, 
Ou por não saber quem eu seria lá longe, 
Longe de tudo que me nomeia e me limita, 
Longe do que dói, mas também me sustenta, 
Longe até de mim mesmo. 
 
Mas hoje, na mesma solidão que me prende, 
Percebo um movimento dentro do peito, 
Um ensaio tímido de liberdade nascente, 
E penso que talvez ainda haja tempo, 
Quem sabe eu ainda possa aprender a voar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Uma infância que nunca termina

 Existem dias que a vida pesa como um céu sem vento, 
Um teto baixo sobre os pensamentos cansados, 
E cada passo parece um acordo com o desgaste, 
Como se existir fosse um fardo inevitável, 
Um silêncio denso onde até o respirar dói. 
 
Mas há um lugar escondido, ninguém vê, 
Um recanto guardado entre lembranças intactas, 
Onde a luz ainda chega sem pedir licença, 
E o tempo não aprendeu a ferir as horas, 
Nem a transformar sonhos em cinzas. 
 
Lá, a alma corre sem nome nem destino, 
Inventa mundos com as mãos vazias, 
Faz do nada um universo inteiro pulsando, 
E do riso, uma linguagem suficiente, 
Para dizer tudo sem dizer palavra alguma. 
 
Quando reencontro esse abrigo esquecido, 
Algo em mim desaprende o peso do mundo, 
As dores se tornam distantes, quase irreais, 
Como ecos de uma vida que não me alcança, 
Como sombras incapazes de me prender. 
 
Compreendo, então, com doçura e espanto. 
Não era a vida que me sufocava por inteiro, 
Era o esquecimento desse lugar em mim, 
Onde ainda sou livre, inteiro, infinito, 
Como uma infância que nunca termina. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O silêncio e a escolha

 Nasci sem respostas diante do horizonte. 
O mundo não explicou a razão da minha chegada. 
Recebi apenas o tempo e a possibilidade de escolher. 
Cada passo tornou-se uma pergunta. 
Cada amanhecer, um julgamento silencioso. 
 
Carrego o peso das decisões que ninguém tomou por mim. 
Até o silêncio participa das minhas escolhas. 
Não existe abrigo permanente contra a incerteza. 
A liberdade também conhece o medo. 
Ainda assim, continuo caminhando. 
 
Procuro um sentido onde talvez exista apenas o caminho. 
As certezas se desfazem como névoa ao sol. 
Descubro que viver não é possuir respostas. 
É permanecer desperto diante do desconhecido. 
É aceitar que o vazio também fala. 
 
Encontro pessoas que escondem a angústia atrás de sorrisos. 
Outras vestem convicções como quem teme a noite. 
Eu também conheço essa tentação. 
Mas a consciência insiste em retirar cada máscara. 
Ela pede apenas honestidade diante de mim mesmo. 
 
Quando a noite cobre o mundo, permaneço atento. 
Não porque encontrei a verdade definitiva. 
Mas porque aprendi a habitar as perguntas. 
A existência deve ser esse diálogo interminável. 
E a esperança, a coragem de continuar ouvindo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não sei explicar o que ficou

Carrego de você um sentimento 
Que o tempo não soube levar, 
Uma presença escondida no silêncio, 
Um nome que a memória ainda sussurra, 
E um coração que insiste em lembrar. 
 
Você ficou nas pequenas coisas, 
Na música que toca ao entardecer, 
Na saudade que chega sem aviso, 
No vazio que ninguém percebe, 
E na vontade secreta de te rever. 
 
Não sei explicar o que ficou, 
Se foi amor, saudade ou destino, 
Sei apenas que existe em mim 
Uma parte que ainda reconhece você, 
Mesmo quando sigo outro caminho. 
 
Pode ser que o tempo mude tudo, 
Talvez transforme a dor em lembrança, 
Mas certas marcas permanecem, 
Como estrelas que sobrevivem à noite, 
Como sonhos que recusam a distância. 
 
Dessa forma carrego você comigo, 
Sem exigir presença ou promessa, 
Apenas guardando o que foi bonito, 
Porque algumas pessoas vão embora, 
Mas nunca deixam de morar na gente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O nascimento da poesia

 Sonhando, vou escrevendo a poesia 
Como quem atravessa névoas sem destino, 
Onde a palavra nasce indecisa e fria, 
Mas arde por dentro como um hino, 
Que só o silêncio compreende e anuncia. 
 
Há noites em que me perco no egoísmo, 
E encontro um outro que nunca fui, 
Um rosto feito de verso suspenso no abismo, 
Um eco de tudo que em mim dilui, 
Como se o sonho fosse meu batismo. 
 
Escrevo sem saber de onde vem 
Essa urgência mansa que me invade, 
Como se alguém sussurrasse além 
Dos limites frágeis da realidade, 
Um segredo que ninguém mais contém. 
 
E cada palavra é um passo no escuro, 
Um risco traçado no ar da memória, 
Um gesto incerto, profundo e impuro, 
Tentando reescrever minha própria história, 
Num tempo que não conhece futuro. 
 
Quando desperto, já não sou inteiro, 
Fica em mim o que o sonho deixou, 
Um verso torto, um sentir derradeiro, 
Um rastro do que nunca se explicou, 
Mas que vive em mim, eterno e primeiro. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Eu vi os sinais

 Meu maior pecado não foi te amar, 
Foi ignorar a voz que em mim gritava, 
Um sussurro lúcido, quase a me salvar, 
Enquanto teu encanto me enlaçava, 
E eu, voluntário, ao erro me entregava. 
 
A razão, austera, batia em meu peito, 
Como quem conhece o fim da estrada, 
Mas teu olhar, tão belo e imperfeito, 
Fez da ilusão uma verdade dourada, 
E da prudência, uma porta fechada. 
 
Eu vi os sinais, não posso negar, 
Nas entrelinhas frias desse tropeço, 
Mas preferi o risco de me afogar 
Ao tédio seguro de um não começo, 
E fiz do caos o meu próprio endereço. 
 
Tem culpas que ardem mais que a ausência, 
Pois nascem da escolha de não ouvir, 
Traí minha própria consciência 
Por um amor que não quis existir, 
E me perdi onde quis me iludir. 
 
Agora caminho entre os restos de mim, 
Com a razão, enfim, ao meu lado, 
Ela não grita, apenas diz “sim” 
Ao que poderia ter sido evitado, 
E ao homem que fui, já quase apagado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Esse amor impossível

 Amo teus olhos que não posso ver, 
Como quem se ajoelha diante de uma luz inventada. 
Eles existem apenas na fresta silenciosa 
Entre um pensamento e outro, 
Entre o que lembro e o que nunca aconteceu. 
Mesmo assim, brilham, 
E às vezes me deixam à deriva, 
Como faróis acesos em um mar 
Que nunca toquei. 
 
Eu os imagino. 
Talvez sejam escuros como a noite antes da tempestade, 
Ou claros como a última memória que resiste 
Quando tudo já deveria ter sido esquecido. 
Não sei. 
Mas amar o invisível também é um tipo de fé, 
Um gesto cego 
Que insiste em declarar existência 
Ao que ainda é só ausência. 
 
E o desejo… 
Ah, o desejo que não posso sentir. 
Ele caminha por dentro de mim 
Como uma chama proibida, 
Uma brasa que jamais toca a pele 
E, mesmo assim, faz do meu peito um deserto quente. 
É um fogo de vento, 
Incendiando o que não existe, 
Queimando o que ainda espero, 
Recordando o que nunca foi meu. 
 
Há noites em que penso: 
Quem sabe eu te ame justamente por nunca te ver. 
Quem sabe teus olhos sejam mais intensos 
Por permanecerem escondidos. 
Ou quem sabe seja essa distância 
Que costura em mim uma ternura estranha, 
Um afeto que cresce onde nada deveria crescer, 
Como flor abrindo entre pedras. 
 
Desejo-te sem corpo, sem toque, 
Sem lembranças para me guiar. 
E ainda assim te encontro no centro do vazio 
Onde teu rosto deveria estar. 
É lá que tu brilhas mais, 
Na sombra da possibilidade, 
No eco de um futuro que nunca chega, 
Na borda tênue entre querer demais 
E não poder nada. 
 
Amo-te desse jeito, 
Como se teus olhos fossem miragem, 
Como se teu gesto fosse vento, 
Como se cada ausência tua 
Fosse um convite silencioso 
Para que eu me aproxime ainda mais. 
 
E é esse amor impossível 
O mais verdadeiro que já senti, 
Porque é feito do que não posso ver 
E do que não ouso tocar, 
Mas que, dentro de mim, 
Queima como se fosse real. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Folhas esquecidas numa rua vazia

 Carrego de você uma tarde sem relógio, 
Onde a luz já não sabe se termina, 
E o silêncio, sentado junto à janela, 
Recolhe os nomes que o tempo abandonou, 
Como folhas esquecidas numa rua vazia. 
 
Você permanece no intervalo das coisas, 
Entre o café frio e a página não lida, 
No rumor distante de uma cidade cansada, 
Onde cada passo parece procurar 
Aquilo que já não espera ser encontrado. 
 
Há uma estação dentro de mim 
Em que as árvores continuam sem folhas, 
E ainda assim alguma coisa floresce, 
Não sei se é esperança ou apenas memória, 
Mas tem o seu rosto quando anoitece. 
 
O tempo passa, dizem, e leva tudo. 
Mas há relógios que apenas repetem 
A mesma hora perdida no passado; 
E há corações que caminham para diante 
Carregando ruínas de uma antiga primavera. 
 
Penso que amar seja permanecer 
Depois que a presença se tornou ausência, 
Guardar no peito uma luz quase extinta 
E compreender, tarde demais, 
Que algumas despedidas nunca terminam. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O valor do dia

 A manhã não pede pressa. 
Ela apenas abre as portas da luz 
E convida os olhos 
A perceberem aquilo 
Que sempre esteve presente. 
 
O vento não conhece calendários. 
As árvores não lamentam 
As folhas que já partiram. 
O rio não retorna à nascente, 
Mas também não teme o mar. 
 
Aprende com o silêncio dos campos. 
A terra ensina 
Que cada semente possui seu tempo, 
Mas nenhuma floresce 
Fora do instante que lhe foi concedido. 
 
Quem vive esperando o futuro 
Caminha ao lado da própria vida 
Sem verdadeiramente encontrá-la. 
O hoje é uma clareira 
Que se fecha quando deixamos de atravessá-la. 
 
Ao cair da tarde, que teu coração esteja leve, 
Não porque o dia foi perfeito, 
Mas porque foste inteiro nele, 
Como a árvore que apenas cresce 
E o céu que apenas acolhe a luz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Permita-me acreditar

 Permita-me acreditar que posso viver sem você, 
Que o coração encontrará outros caminhos, 
Que a saudade perderá sua força lentamente, 
E que as noites deixarão de chamar pelo seu nome, 
Mesmo quando o silêncio parecer lembrar de nós. 
 
Permita-me acreditar que o tempo cura, 
Mesmo aquilo que parece impossível esquecer, 
Que as lembranças podem envelhecer em paz, 
Sem ferir cada vez que retornam, 
Sem transformar passado em esperança. 
 
Pode ser que eu ainda procure você em certos lugares, 
Talvez uma música traga seu sorriso de volta, 
Ou quem sabe a chuva carregue antigas memórias, 
Mas aprenderei a deixar tudo passar, 
Como quem solta das mãos aquilo que já partiu. 
 
Não quero apagar você da minha história, 
Nem fingir que não fomos importantes, 
Quero apenas devolver ao coração a liberdade 
De continuar batendo sem esperar seus passos, 
De encontrar beleza depois da despedida. 
 
Permita-me, enfim, acreditar em mim, 
Na vida que continua depois de você, 
Nos caminhos que ainda não conheço, 
E no amor que um dia nascerá sem medo, 
Quando meu coração compreender que também sabe recomeçar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 23 de agosto de 2026

Joguei tudo fora

Joguei tudo fora, 
As cartas, as fotografias, 
Os pequenos restos de nós, 
As lembranças que insistiam em voltar, 
E até o silêncio que tinha o seu nome. 
 
Joguei fora os presentes, 
As palavras guardadas nas gavetas, 
Os lugares onde ainda morava você, 
Como quem fecha uma porta 
Sem coragem de olhar para trás. 
 
Mas a memória não se joga fora, 
Ela permanece escondida no peito, 
Surgindo quando menos esperamos, 
Numa música, num perfume, numa tarde, 
Numa saudade que ninguém convidou. 
 
Hoje, não tenho mais nada seu, 
Nem retratos para contemplar, 
Nem cartas para reler, 
Apenas um vazio estranho 
Ocupando o lugar do que fomos. 
 
Joguei tudo fora, menos você, 
Porque algumas pessoas não partem, 
Apenas deixam de estar presentes, 
E continuam vivendo dentro da gente 
Mesmo depois que aprendemos a esquecê-las. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre as estantes

 Não abro mão da minha biblioteca, 
Não por apego ao papel ou à madeira, 
Mas porque nela aprendi uma verdade simples. 
Há coisas que o tempo leva sem pedir licença, 
E há coisas que permanecem dentro de nós. 
 
Os livros ensinaram-me a aceitar as estações, 
A queda das folhas e o peso dos invernos. 
Toda página virada recorda em silêncio 
Que viver é mudar constantemente, 
Sem perder a integridade do tronco. 
 
Entre autores antigos e modernos, 
Descobri que as inquietações se repetem. 
Mudam os séculos, mudam os cenários, 
Mas o coração humano continua buscando 
A serenidade em meio às tempestades. 
 
Minha biblioteca não me afasta do mundo; 
Ela me devolve a ele com mais clareza. 
Ali aprendo a distinguir o essencial do supérfluo, 
O que depende da minha vontade 
Daquilo que pertence ao destino. 
 
Por isso guardo meus livros com gratidão. 
Não como quem acumula tesouros raros, 
Mas como quem cultiva um jardim interior. 
Quando a vida se torna incerta, volto a eles 
E encontro, outra vez, a medida das coisas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 22 de agosto de 2026

Sempre fiel a mim

 Posso partir sem que tenham entendido meus silêncios, 
Sem que tenham decifrado as marcas do caminho, 
Sem que conheçam as batalhas que lutei sozinho, 
Pois nem todo coração se revela em palavras, 
E nem toda verdade encontra ouvidos dispostos. 
 
Quem sabe confundam minha firmeza com orgulho, 
Minha solidão com desprezo, 
Minha maneira de seguir com indiferença, 
Mas somente eu conheço o preço 
De permanecer inteiro depois de tantas quedas. 
 
Não quero viver moldado pela opinião alheia, 
Nem vestir máscaras para merecer abraços, 
Nem abandonar meus princípios por aprovação, 
Porque há uma paz que nasce quando somos nós mesmos, 
Mesmo quando o mundo prefere outra versão. 
 
Se um dia minha história for mal compreendida, 
Que digam o que quiserem sobre meus passos; 
Não carregarei comigo a necessidade de convencer ninguém, 
Levarei apenas a certeza tranquila 
De que não traí minha própria essência. 
 
E quando chegar a hora de partir, 
Que eu leve no peito a verdade que escolhi, 
A consciência limpa de quem permaneceu fiel, 
Porque ser compreendido é um privilégio, 
Mas ser fiel a si mesmo é uma escolha. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A testemunha do que não digo

 A mesa de estudos é mais que um móvel. 
É um refúgio onde o mundo se cala 
E a mente, cansada de errar, 
Procura abrigo nas palavras. 
Entre papéis e silêncios, 
Escrevo para não me perder. 
 
Há noites em que a mesa parece respirar comigo. 
As páginas tremem como lembranças, 
E a luz da lâmpada é a última chama 
Que resiste ao escuro do pensamento. 
 
Estudar é conversar com vozes que já partiram. 
Elas sussurram entre as linhas, 
E eu, sozinho, escuto, 
Sabendo que toda sabedoria tem algo de luto. 
 
Sobre a mesa, o tempo se acumula em pilhas de papel. 
Cada anotação é um traço de quem fui, 
Cada palavra riscada, um erro que ainda me habita. 
O aprendizado é, talvez, uma forma de saudade. 
 
Às vezes, penso que estudo 
Para me lembrar de mim mesmo. 
Porque nas pausas entre uma frase e outra, 
É o coração quem pensa, 
E o pensamento, quem sente. 
 
A mesa é testemunha do que não digo. 
Ali repousam perguntas que não ouso escrever, 
E verdades que só o silêncio compreende. 
 
Não estudo apenas o mundo, 
Mas o que de mim se dissolve nele. 
Cada leitura é um espelho, 
Cada noite, uma travessia para dentro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense