sábado, 11 de abril de 2026

Custe o que custar

 Custe o que custar, eu repito em silêncio, 
Como quem ora diante do invisível, 
Guardarei o amor no fundo do peito, 
Mesmo que o mundo me peça dureza, 
Mesmo que a vida me ensine o contrário. 
 
Há dias em que tudo pesa e retorna, 
Como se o tempo girasse em círculos, 
E aquilo que hoje me fere em segredo 
Amanhã venha com o mesmo nome, 
Vestido apenas de outra forma. 
 
E eu, cansado dessa repetição, 
Quase cedo ao frio das ausências, 
Quase deixo o coração endurecer, 
Quase esqueço o que um dia senti, 
Quase me perco de mim mesmo. 
 
Mas algo em mim ainda resiste, 
Uma centelha teimosa de ternura, 
Um gesto invisível de esperança, 
Que insiste em nascer entre ruínas, 
Como flor em meio ao chão rachado. 
 
Guardo o amor, custe o que custar, 
Não como quem vence, mas como quem persiste, 
Não como força, mas como escolha, 
Pois se tudo volta: dor, tempo e ausência, 
Que volte em mim aquilo que me salva. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Esse velho ilusionista

 Se disser que existem olhares 
Que atravessam os dias como lâminas cegas, 
Que veem o movimento, mas não o sentido; 
Que contam as horas, mas não sentem o instante. 
São olhos educados pelo relógio, 
Domados pela pressa, 
Acostumados a confundir passagem com verdade. 
 
O tempo, esse velho ilusionista, 
Oferece seus truques em ciclos e calendários, 
E muitos aceitam, sem suspeitar, 
Que viver é apenas seguir adiante. 
 
Mas há uma mentira sutil escondida nisso: 
O tempo não revela, apenas encobre; 
Não explica, apenas organiza o esquecimento. 
E aqueles que só confiaram nele 
Perderam o essencial, 
O invisível que não se mede, 
O eterno que não envelhece. 
 
Seus olhares tornam-se desertos: 
Vastos, porém vazios de presença. 
Olham o mundo como quem observa ruínas 
Sem jamais ter conhecido a casa. 
 
É preciso desaprender o tempo, 
Rasgar seus mapas, 
E permitir que os olhos voltem a sentir, 
Não a duração, 
Mas a intensidade de existir. 
 
Tem verdades que não passam, 
E só se revelam 
A quem ousa fechar os olhos para o tempo 
E abrir-se, enfim, ao instante infinito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Um espelho interminável

Há uma vida que não vivi, mas me habita, 
Como um quarto fechado dentro de mim, 
Onde os móveis guardam poeira de sonhos, 
E as janelas jamais foram abertas ao sol, 
Ainda que eu escute o vento do lado de fora. 
 
Carrego destinos que não escolhi nos ombros, 
Como roupas herdadas de um tempo alheio, 
Ajustadas à força sobre minha pele inquieta, 
Costuradas com fios de silêncio e renúncia, 
Que apertam mais quando tento ser livre. 
 
A angústia não chega, ela sempre esteve, 
Sentada ao meu lado nas horas mais comuns, 
Bebendo do mesmo cansaço que me sustenta, 
Sussurrando perguntas sem resposta possível, 
Fazendo da dúvida um espelho interminável. 
 
Penso nas vidas que ficaram pelo caminho, 
Nas versões de mim que nunca respirei, 
Nos gestos que morreram antes de nascer, 
E sinto um luto estranho, sem nome ou corpo, 
Por tudo aquilo que fui apenas em pensamento. 
 
Eu sigo porque viver é também aceitar, 
Que nem todo sonho encontra o seu chão, 
E que há uma beleza áspera na permanência, 
Em resistir mesmo sem entender o rumo, 
E existir, ainda assim, com tudo o que falta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre páginas e silêncios

 Resistir é acender pequenas luzes no escuro, 
Mesmo quando o vento sopra contra a chama, 
É segurar o livro com mãos trêmulas 
Enquanto o mundo grita por pressa e esquecimento, 
E ainda assim escolher permanecer inteiro. 
 
Ler é atravessar silenciosamente o abismo, 
É conversar com vozes que o tempo não calou, 
É beber da fonte invisível das palavras, 
Onde a alma se reconhece e se refaz, 
Longe da aridez dos dias automatizados. 
 
Há um combate que não se vê nas ruas, 
Mas arde dentro de cada consciência desperta, 
Um esforço contínuo de não se tornar pedra, 
De não aceitar a frieza como destino, 
De não negociar o próprio sentir. 
 
Ser humano é insistir na delicadeza, 
Mesmo quando tudo endurece ao redor, 
É permitir que a dor ainda nos atravesse, 
Como prova de que não fomos anestesiados, 
Como lembrança de que ainda há vida pulsando. 
 
Ler é seguir, entre páginas e silêncios, 
Resgatando fragmentos de nós mesmos, 
Costurando sentido onde há ruptura, 
Resistindo ao esquecimento com palavras, 
Para não perder aquilo que nos faz humanos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Escritor

O escritor é um caçador de instantes invisíveis. 
Enquanto o mundo passa apressado, 
Ele permanece, olhos abertos, alma inclinada, 
Recolhendo o que os outros deixam cair sem perceber. 
 
Há histórias escondidas no ranger de uma porta, 
No silêncio entre duas palavras, 
Na lágrima que não chega a cair. 
O olhar atento não apenas vê, 
Ele escuta o que não foi dito. 
 
Cada cena da vida, 
Por mais banal, é um campo fértil. 
Uma conversa de esquina pode ser um romance, 
Um adeus apressado pode carregar uma eternidade, 
Um gesto mínimo pode revelar um abismo inteiro. 
 
O escritor transforma o comum em revelação. 
Ele encontra oportunidades 
Não porque o mundo as oferece prontas, 
Mas porque sabe cavar sentido onde só havia rotina. 
 
Dessa forma, vivendo entre o que é 
E o que poderia ser, 
Ele reescreve a realidade 
Com o delicado poder da percepção, 
Fazendo do olhar, não apenas visão, mas criação. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nos jogos de poder

 Nos jogos de poder, erguem-se nações, 
Buscando além dos limites seus domínios, 
Como se a força fosse dos desígnios 
Que escrevem sobre o mundo imposições. 
 
Governos, cegos por ambições, 
Confundem paz com frágeis raciocínios, 
E fazem da razão breves declínios 
Diante do peso vão das intenções. 
 
Mas se a razão guiasse o próprio agir, 
E o mando fosse feito de prudência, 
Talvez não víssemos o mundo ruir. 
 
Pois onde falta a lúcida consciência, 
A guerra vem seu trono construir, 
E a paz se torna triste ausência. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Sou amante do saber

Carrego nos olhos uma fome antiga, 
Dessas que não se aquietam com o tempo, 
Que cresce no silêncio das páginas abertas 
E se alonga nas margens do pensamento, 
Como raiz que insiste em atravessar a pedra. 
 
Leio o mundo como quem tateia o invisível, 
Cada palavra é um corpo que me chama, 
Cada ideia, uma chama que se multiplica, 
Ardendo mansa dentro da consciência, 
Iluminando zonas onde eu ainda não era. 
 
Sou amante do saber em todas as suas formas, 
Do claro ao turvo, do simples ao indecifrável, 
Do que consola e do que desestabiliza, 
Pois há beleza também no que desconstrói, 
No que me desfaz para me refazer inteiro. 
 
Há noites em que me perco de propósito, 
Caminhando entre teorias como labirintos, 
Onde não procuro saídas, mas encontros, 
Onde cada dúvida é um espelho em expansão 
E cada resposta, apenas um novo começo. 
 
Sigo assim, inacabado e ardente, 
Colecionando mundos dentro do peito, 
Sabendo que jamais serei completo, 
Mas que na busca reside minha essência, 
Ser, eternamente, aprendiz do infinito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Aprender a escutar o coração

 Nos caminhos secretos do coração errante, 
Há mapas feitos de desejo e cicatriz, 
Veredas que nascem no instante vacilante 
Em que amar é perder-se e ainda assim ser feliz, 
Como quem encontra no abismo a própria raiz. 
 
O coração não sabe da lógica dos dias, 
Ele pulsa em desordem, em febre e contramão, 
Costura esperanças com frágeis ousadias, 
E transforma em abrigo o que era solidão, 
Feito um sonho que insiste em caber na razão. 
 
E o amanhã nos chama com voz indecifrável, 
Promessa suspensa no ar do que virá, 
Um sopro invisível, tão doce e inevitável, 
Que nos move adiante, mesmo sem nos guiar, 
Como estrela que existe só para nos sonhar. 
 
A vida nos atravessa sem pedir passagem, 
É lâmina e abraço, é queda e elevação, 
Um rio que nos leva além da própria margem, 
E escreve em nosso peito a sua tradução, 
Em versos que só o silêncio entende então. 
 
Quem sabe o sentido não seja ser completo, 
Mas sentir cada instante em sua imensidão, 
Ser fragmento vivo de um mistério inquieto, 
Onde existir já basta, sem qualquer explicação, 
E viver é aprender a escutar o coração. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 7 de abril de 2026

Viver com poesia

 No silêncio onde o mundo se desfaz em pressa, 
Nasce a poesia como um sopro antigo, 
Não nos lábios, mas no intervalo do sentir, 
Onde a alma repousa entre o ser e o mistério, 
E aprende que existir também é escutar. 
 
Há um sagrado discreto no olhar que contempla, 
Na mão que toca o instante com leveza, 
Como se cada segundo fosse matéria divina, 
Moldada pelo afeto de quem percebe, 
Que o infinito habita o que é pequeno. 
 
A alma poética não foge da dor, atravessa, 
Recolhe seus fragmentos como quem colhe estrelas, 
E no escuro costura sentidos improváveis, 
Fazendo da lágrima um espelho de luz, 
E da queda, um novo modo de voo. 
 
Viver com poesia é recusar o endurecimento, 
É permanecer sensível entre ruínas e ruídos, 
É fazer do gesto simples uma oferenda, 
E da palavra, um abrigo onde o mundo respira, 
Mesmo quando tudo parece desabar. 
 
Assim segue a alma, vasta, indomável, desperta, 
Carregando universos dentro do peito, 
Transformando o comum em eternidade breve, 
Como quem sabe que a vida é mais que passagem. 
É um verso inacabado que insiste em florescer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um vazio que tem o seu nome

 Eu não lhe disse nada. 
E, no entanto, disse tudo no silêncio. 
Guardei no peito 
Aquilo que não encontrou coragem na voz, 
Como se as palavras fossem frágeis demais 
Para atravessar a distância que nasceu 
No instante em que o seu olhar 
Se afastou do meu. 
 
Desde aquele dia, 
Vivo de frases inacabadas, 
De confissões que nunca tocaram o ar, 
De um amor que aprendeu 
A existir sem testemunhas. 
 
Havia um universo inteiro 
Querendo acontecer entre nós, 
Mas ele ficou suspenso, 
Como uma respiração que não se completa. 
 
Você partiu com os olhos, 
E eu fiquei com o que eles deixaram. 
Um vazio que tem o seu nome, 
E um silêncio que insiste em me lembrar 
De tudo o que eu não disse. 
 
O mais profundo dos sentimentos 
Não morre por falta de amor, 
Morre por falta de coragem. 
E o meu… 
Ainda vive, quieto, 
Esperando um passado que já não volta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Tocar o invisível

Tem um tipo de pensamento que não faz ruído, 
Ele chega como sombra suave ao entardecer, 
Não pede nome, nem forma, nem destino, 
Apenas repousa entre um instante e outro, 
Como se o tempo também precisasse respirar. 
 
Pensar em silêncio é tocar o invisível, 
É segurar a água fugidia da existência, 
E sentir que ela escorre pelos dedos atentos, 
Não por descuido, mas por natureza, 
Como tudo aquilo que insiste em passar. 
 
O tempo não grita sua passagem, 
Ele se move com passos que não ouvimos, 
E chamamos de rotina o seu disfarce, 
Sem notar que cada hábito repetido 
É também uma pequena despedida. 
 
Somos feitos de instantes que se dissolvem, 
De presenças que já começam a partir, 
Como pegadas frágeis na areia do agora, 
Que o vento apaga sem pedir licença, 
Lembrando que ficar nunca foi promessa. 
 
Ainda assim há luz nessa brevidade, 
Pois o que passa carrega um brilho único, 
O efêmero é também o que mais toca, 
E talvez viver seja só isso: 
Sentir profundamente o que não permanece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Onde o tempo não ousa tocar

 Não esqueço o encanto daquele dia, 
Como se o tempo 
Tivesse suspendido o próprio fôlego 
Para assistir ao instante 
Em que você surgiu. 
 
Teus cabelos dançavam com o vento 
Como se conhecessem segredos antigos, 
Como se cada fio guardasse uma história 
Que eu ainda aprenderia a ouvir. 
 
Teu sorriso... 
Ah, teu sorriso não era apenas luz, 
Era abrigo. 
Iluminava a tarde como quem acende 
Uma chama infinita do coração. 
 
E teus olhos, 
Profundos, silenciosos, reveladores, 
Me disseram sem palavras 
Aquilo que o coração demora a admitir: 
Que há encontros que não começam no acaso, 
Mas continuam de algo que já nos habitava. 
 
Desde então, carrego esse dia 
Como quem guarda um relicário invisível, 
Onde o tempo não ousa tocar, 
E a memória não precisa esforço para florescer. 
 
Porque há lembranças que não se apagam, 
Elas apenas aprendem 
A viver dentro da gente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 5 de abril de 2026

Te vejo nas brechas da noite vazia

 Nas inquietas noites, onde o silêncio pesa, 
Caminho por dentro de mim como quem se perde, 
E cada lembrança tua é uma chama acesa, 
Ardendo mansa naquilo que já não me serve, 
Mas que ainda insiste em me chamar pelo nome. 
 
A culpa me veste como um frio sem fim, 
Escorre nos ossos, sussurra nos cantos, 
Dizendo que fui eu quem deixou tudo assim, 
Que o amor não se perde, se perde é o encanto, 
E eu fui descuido no instante em que você partiu. 
 
Há um relógio quebrado dentro do peito, 
Marcando a hora exata do adeus não dito, 
Um tempo suspenso, imóvel, imperfeito, 
Onde teu olhar ainda me encontra aflito, 
Como se o fim nunca tivesse sido completo. 
 
Te vejo nas brechas da noite vazia, 
No vento que passa e parece te trazer, 
Na sombra que dança na parede fria, 
No sonho que insiste em não me esquecer, 
Mesmo sabendo que o dia te apaga de mim. 
 
E sigo, entre a culpa e o que ainda resiste, 
Aprendendo que amar também é perder, 
Que há dores que o tempo não cura, apenas persiste, 
Como marcas que escolhem permanecer, 
Lembrando que um dia eu tive você… e deixei ir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O amor não faz perguntas

O amor é esse tradutor silencioso do infinito. 
Ele aprende a linguagem das estrelas 
Não pelo brilho, mas pela distância. 
Porque amar é justamente isso: 
Decifrar o que está longe como se fosse íntimo, 
Tocar o inalcançável 
Como quem reconhece um velho conhecido. 
 
Se o amor consegue ler o que está escrito 
Na mais remota das estrelas, 
É porque ele não lê com os olhos 
Lê com ausência, com desejo, com espera. 
E tudo aquilo que é vasto demais para ser dito 
Se curva diante de quem ousa sentir. 
 
Por que não revelaria o seu coração? 
O coração é menor que uma galáxia, 
Menos misterioso que o tempo, 
Menos silencioso que a noite. 
 
Talvez o amor já o tenha lido, 
Em cada gesto interrompido, 
Em cada palavra que você não disse, 
Em cada suspiro que escapou sem nome. 
 
O amor não faz perguntas. 
Ele reconhece o olhar, o sorriso. 
Antes mesmo de você se entender, 
Ele já te escreveu inteira 
No infinito céu de alguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 4 de abril de 2026

Aprendi em teus olhos o caminho

 No teu olhar encontrei abrigo, 
Um silêncio que dizia mais que palavras, 
Como se o mundo ali se curvasse, 
Suave, inteiro, inevitável, 
Para que eu enfim me perdesse em ti. 
 
Havia luz nas tuas pupilas, 
Não uma luz qualquer, mas viva, 
Dessas que acendem memórias futuras, 
E fazem do instante um eterno, 
Como um segredo sussurrado ao destino. 
 
Teu olhar me atravessou sem pressa, 
Leu em mim o que nem eu sabia, 
Desfez minhas certezas frágeis, 
E refez meus sentidos perdidos, 
Como quem redesenha a própria alma. 
 
Eu, que andava disperso no mundo, 
Aprendi em teus olhos o caminho, 
Não de volta, mas de encontro, 
Onde tudo faz sentido sem razão, 
E o coração ousa enfim descansar. 
 
Se amar é nascer outra vez, 
Foi no teu olhar que despertei, 
Não como quem chega, mas como quem fica, 
Habitando esse brilho que me chama, 
E me torna, em ti, infinito. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense