quinta-feira, 21 de maio de 2026

Narcisistas

Existem pessoas que vestem o próprio nome 
Como coroas feitas de fumaça, 
E caminham sobre os dias 
Acreditando possuir o mundo 
Apenas porque não ouviram o silêncio. 
 
Esquecem que o tempo devora espelhos, 
Que a pele também aprende a cair, 
E que as horas mortais regressam 
Como aves sombrias da memória 
Sobre os telhados da soberba. 
 
O narcisismo é um jardim sem raízes, 
Belo apenas enquanto dura a luz. 
Depois, a noite revela os vazios 
Guardados atrás das máscaras 
E das palavras erguidas como tronos. 
 
Há uma tentação em sentir-se invencível. 
Não recordar o próprio abismo. 
Mas quem esquece as antigas dores 
Transforma-se lentamente em pedra 
Diante do sofrimento dos outros. 
 
Melhor é carregar alguma humildade 
Como quem leva água na travessia. 
Pois somente os que aceitam a finitude 
Aprendem a tocar o mundo 
Sem desejar possuir todas as coisas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inatingíveis

O tempo atravessa meu corpo em silêncio, 
Como um vento antigo que não reconheço. 
Tento segurá-lo entre os dedos da memória, 
Mas ele escapa pelas frestas do pensamento. 
Tem distâncias que não pertencem ao mundo, 
Somente ao abismo que cresce dentro de nós 
Quando imaginamos aquilo que nunca alcançaremos. 

O espaço me observa de longe, imóvel, 
Feito um deus sem rosto e sem linguagem. 
Cada estrela parece esconder uma ausência, 
Cada noite amplia o tamanho da minha dúvida. 
Sou pequeno diante das coisas intermináveis, 
Mas continuo inventando caminhos invisíveis 
Para suportar a vastidão que me cerca. 

Creio que viver seja tocar impossíveis, 
Erguer sentidos sobre ruínas do incompreensível. 
O imaginar não vence o tempo nem o vazio, 
Apenas ilumina por instantes a escuridão interna. 
Mesmo sabendo que jamais atravessarei o infinito, 
Permaneço ouvindo o eco dos horizontes distantes, 
Como quem encontra na impossibilidade a própria alma. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sacerdote do pensamento

A mesa de estudos é mais que um móvel. 
É o limiar entre o mundo e o mistério. 
Sobre ela, o tempo suspende a respiração 
E o espírito aprende a ver 
Com olhos que não são os da carne. 
 
Cada livro aberto é um portal, 
Cada página, 
Um véu que se ergue diante do indizível. 
A mente se curva, não por submissão, 
Mas por reverência ao infinito 
Que sussurra entre as linhas. 
 
O estudante é o sacerdote do pensamento, 
E sua mesa, o altar do invisível. 
Ali, o fogo do saber arde em silêncio, 
E a luz que nasce não ilumina os olhos, 
Ilumina o ser. 
 
Há uma presença antiga na madeira polida, 
Como se gerações de buscadores 
Tivessem deixado ali 
O eco de suas orações intelectuais. 
Cada marca é um vestígio de ascensão. 
 
A mesa de estudos 
É o lugar onde o mundo interior desperta. 
A mente, em recolhimento, 
Se oferece ao verdadeiro 
Como um peregrino que encontra o templo 
Dentro da própria sombra. 
 
Estudar é um rito, não um ato. 
Quem se senta à mesa do conhecimento 
Invoca forças 
Que dormem na matéria das palavras 
E desperta em si o eterno aprendiz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cuidado com a manipulação política

Nas praças ecoam vozes inflamadas, 
Promessas vestidas de salvação, 
Homens vendendo futuros dourados 
Aos que carregam fome e exaustão. 
E a mentira aprende a falar manso. 

Há discursos feitos de fumaça, 
Erguidos sobre medos antigos, 
Transformando vizinhos em ameaça 
E ignorância em aplausos públicos. 
O ódio costuma usar belas palavras. 

Desconfie dos heróis excessivos, 
Dos que exigem fé sem pergunta, 
Dos que chamam cegueira de patriotismo 
E fazem da dúvida uma culpa. 
Toda tirania começa pedindo silêncio. 

Leia o mundo além dos cartazes, 
Escute mais do que os palanques, 
Pois quem pensa não cabe em correntes 
Nem ajoelha diante de slogans frágeis. 
A consciência é uma forma de resistência. 

Os discursos passam depressa, 
Como poeira levada pelo vento, 
Mas permanece o peso das escolhas 
Sobre a vida dos homens comuns. 
Por isso, pense antes de seguir multidões. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 19 de maio de 2026

Eu caminhava certo de minha liberdade

 Havia uma multidão nascendo em volta do meu rosto, 
Como fumaça subindo das ruas da tarde, 
Vozes repetindo desejos que nunca tive, 
Mãos invisíveis guiando meus passos cansados. 
Eu caminhava certo de minha liberdade, 
Sem notar que meus sonhos tinham donos antigos, 
Nem que meu silêncio já falava pela massa. 
 
Nas vitrines do mundo penduram pensamentos, 
E cada olhar aprende a desejar o mesmo céu. 
A cidade inteira parece mover-se sonâmbula, 
Como um rio escuro carregando nomes apagados. 
Às vezes escuto minha consciência ao longe, 
Presa atrás do ruído das opiniões prontas, 
Pedindo que eu me recorde de quem sou. 
 
Então paro diante da noite e do espelho, 
Tentando separar minha voz do coro humano. 
Descubro que despertar é quase uma ferida, 
Uma lenta ruptura contra o conforto do rebanho. 
Mas há algo sagrado em pensar sozinho, 
Como uma vela acesa no centro da tempestade, 
Resistindo ao vento feroz das multidões. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Teu exato perfil

É preciso que a saudade te desenhe aos poucos, 
Na quietude azul das horas mais tardias, 
Refazendo em sombra teus contornos loucos, 
Teu rosto suspenso nas melancolias, 
Como um retrato esquecido entre os sonhos. 

Que ela encontre teu perfil exato e sereno, 
Na curva suave da memória cansada, 
Como quem toca um cristal pequeno 
Com mãos de silêncio e madrugada, 
Para não despertar a dor adormecida. 

E que o vento das horas, quase invisível, 
Mova de leve teus cabelos distantes, 
Num gesto breve, secreto e sensível, 
Como passam os antigos instantes 
Pelas janelas frias do pensamento. 

Há uma beleza triste nas ausências, 
Porque nelas o amor aprende a permanecer; 
Vive entre ecos, pequenas permanências, 
Naquilo que o tempo não consegue esquecer, 
Nem apagar do fundo da alma. 

É bem assim que te guardo: incompleta e eterna, 
Feita de lembrança, perfume e espera, 
Como uma luz silenciosa e interna 
Que atravessa a noite e persevera 
Mesmo quando tudo parece partir. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Voltar ao teu abraço

Tem noites em que meu pensamento retorna ao teu abraço 
Como quem procura um lugar onde o mundo não machuca tanto. 
Existe paz no instante em que teus braços me envolvem, 
Uma paz rara, quase impossível de explicar. 
Tudo desacelera quando estou perto de ti, 
E até o silêncio parece compreender aquilo que sinto. 
Como se o coração finalmente encontrasse repouso. 

Teus beijos permanecem em mim depois da despedida. 
Não como lembrança distante, 
Mas como presença que atravessa o dia inteiro. 
Há ternura no modo como teus lábios me encontram, 
Como se conhecessem caminhos secretos dentro da minha alma. 
E nesses instantes eu esqueço o peso do tempo, 
Esqueço até mesmo quem eu era antes de ti. 

Talvez sejam loucos esses desejos de te querer tão perto. 
Quem sabe todo amor verdadeiro carregue algo de desatino. 
Mas há sentimentos que não nasceram para ser contidos, 
Sentimentos que simplesmente ocupam tudo. 
E eu aceito essa vertigem de sentir tua falta, 
Essa vontade constante de voltar ao teu abraço, 
Como quem retorna ao único lugar onde existe amor. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A grande mentira do Capitalismo

A grande mentira do capitalismo 
É um espelho brilhante, 
Onde todos se veem vencedores, mesmo de joelhos. 
É o sonho vendido em prestações, 
Com juros na alma e vencimento no tempo. 
Ensinaram-nos que a liberdade tem preço, 
E chamaram de mérito o peso das correntes. 
Fizeram do trabalho uma religião, 
E do cansaço, uma virtude silenciosa. 
 
O capital veste-se de futuro, 
Mas seu rastro 
É feito de sombras e promessas quebradas. 
Transformou o amor em investimento, 
A esperança em marketing, 
E o corpo em vitrine. 
 
A grande mentira do capitalismo 
É que todos podem subir, 
Mas há poucos degraus e muitos abismos. 
 
Enquanto isso, os que sonham com outro mundo 
São chamados de loucos. 
Mas talvez sejam apenas aqueles 
Que ainda lembram que o sol 
Não se compra por dinheiro nenhum. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Minha alegria mais serena

Tu és a luz que invade a madrugada, 
O riso manso depois da tempestade, 
Um nome escrito dentro da alma cansada, 
A doce permanência da saudade, 
Meu abrigo secreto na jornada. 

Tu és o sentimento que não cessa, 
Mesmo quando o silêncio faz morada, 
Como um rio antigo que atravessa 
As ruínas da esperança abandonada, 
E ainda assim floresce em delicadeza. 

Tem tua presença em cada dia lento, 
Nos gestos simples da manhã vazia, 
No vento que atravessa o pensamento 
E deixa ecos de melancolia, 
Misturados ao perfume do momento. 

Saudade é tua sombra sobre o peito, 
Não como dor, mas chama persistente, 
Um coração guardando, satisfeito, 
A memória de um amor tão presente 
Que transformou ausência em jeito. 

Tu és minha alegria mais serena, 
Meu verso oculto, minha calmaria, 
A lembrança que no tempo não apequena, 
Pois mesmo longe habitas minha poesia 
Como estrela eterna sobre a cena. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 17 de maio de 2026

Contra o sono da consciência

Não caminhes com os que te adormecem, 
Com os que te oferecem o aplauso fácil, 
O consenso raso, 
O abrigo da mediocridade. 

Andar com quem te desafia 
É escolher o desconforto da lucidez, 
É aceitar o espelho sujo que te lançam ao rosto, 
É ter a coragem de olhar para dentro 
E não gostar do que vê… 
Ainda assim, prosseguir. 

Existe uma vertigem própria 
Para os que ousam pensar, 
Uma solidão que queima 
E uma liberdade que pesa. 
Mas é nela que o ser se refaz, 
Rasgando as vestes da ignorância herdada, 
Negando o eco das vozes coletivas 
Que apenas repetem, sem saber o porquê. 

Cúmplice da ignorância? 
Jamais. 
Antes o silêncio lúcido, 
Antes o exílio da aceitação fácil, 
Antes o risco de ser estranho, 
Incompreendido, 
Solitário… 
Mas íntegro. 

Porque crescer é arder. 
É morrer para o que fomos, 
E renascer, 
Sem garantias, 
Sem roteiro, 
Sem rede. 
Por fim, nessa trajetória, 
Que reste ao menos a dignidade 
De não ter feito parte do coro dos adormecidos. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A saudade e o tempo

A saudade é porta esquecida 
Na casa antiga da memória, 
Por onde a vida recolhida 
Revê, em silenciosa história, 
As cinzas mornas da alegria. 

A mocidade foi embora 
Com seus passos de ventania, 
Deixando aberta, noite afora, 
A fresta tênue onde vigia 
O velho rosto dos antigos dias. 

A velhice encosta os olhos 
Na vidraça do passado, 
E encontra, entre os ferrolhos, 
O tempo já despedaçado 
Nos corredores do cuidado. 

Há retratos sobre a mesa, 
Há nomes mortos no jardim, 
Há uma doce natureza 
De sofrer sem saber o fim 
Do que ainda vive em mim. 

E a saudade, paciente chama, 
Permanece acesa no peito, 
Como quem guarda e ainda ama 
Tudo aquilo que foi desfeito 
Pelas mãos cansadas do tempo. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 16 de maio de 2026

Nos funerais das velhas ilusões

A saudade veio à noite, sem aviso, 
Vestida com o frio das horas tardias; 
Sentou-se cansada junto ao meu peito 
Como quem conhece antigos abismos 
E o nome secreto das agonias. 

No coração, acendeu velas trêmulas 
Para os funerais das velhas ilusões; 
Cada chama dançava sobre lembranças 
Como fantasmas presos ao silêncio 
Dos corredores mortos das paixões. 

O passado abriu suas janelas antigas, 
E o vento trouxe vozes esquecidas; 
Retratos caíram dentro da memória 
Feito folhas secas sobre sepulturas 
De promessas jamais adormecidas. 

Há tristezas que passam com o tempo, 
Mas a saudade aprende a permanecer; 
Ela cultiva jardins de ausência 
Onde florescem sombras e murmúrios 
Que o esquecimento não pode vencer. 

Agora caminho entre restos de sonhos, 
Carregando noites dentro do olhar; 
Pois quem amou conhece esse destino: 
Transformar silêncio em eterna vigília 
E deixar o coração lentamente queimar. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O peso do mundo

Nas mesas fartas do império das vitrines, 
Homens brindam ao progresso com taças vazias, 
Enquanto crianças aprendem a mastigar silêncio. 
A cidade vende felicidade em prestações infinitas, 
E os corpos cansados carregam relógios como correntes. 
Chamam isso de liberdade entre anúncios luminosos, 
Mas há ferrugem escondida no coração das avenidas. 

É nobre, dizem, suportar o peso do mundo calado, 
Seguir produzindo mesmo quando a alma apodrece. 
O pobre bebe o veneno em goles mais profundos: 
Ônibus lotados, salários curtos, sonhos mutilados. 
Os donos do banquete discursam sobre mérito 
De dentro de prédios onde o sol nunca falha, 
Enquanto a fome aprende novos nomes burocráticos. 

Dessa forma caminhamos entre ruínas perfumadas, 
Consumindo distrações para esquecer o abismo. 
A miséria veste algoritmos e fala sobre eficiência, 
A guerra virou espetáculo servido após o jantar, 
E até o amor parece um produto fora de estoque. 
Talvez o mundo nunca tenha querido ser salvo, 
Apenas administrado por mãos limpas de sangue visível. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hospedeiros indignos

O vazio caminhava lento em minhas artérias, 
Feito inverno preso dentro do pensamento, 
Até que as palavras romperam o silêncio 
Como rios escuros procurando o mar 
No interior cansado do meu corpo. 

Cada frase queimava antigas impurezas, 
Lavando os corredores da mente fatigada; 
Os medos fugiam pelas frestas da consciência, 
E os fantasmas que habitavam meus olhos 
Perdiam seus nomes diante da escrita. 

Há palavras que respiram como essência, 
Circulam pelas veias como luz febril, 
Erguem pontes onde havia abismos 
E devolvem ao homem despedaçado 
A coragem esquecida de existir. 

Os hospedeiros indignos se contorcem, 
Alimentados pela mentira e pela apatia, 
Mas a mente desperta aprende a expulsá-los 
Quando o pensamento se torna lâmina 
E a poesia desinfeta a escuridão. 

Escrevo para não apodrecer em silêncio, 
Para que o vazio não faça morada definitiva, 
Para que minha alma continue incendiada 
Por essa linguagem que pulsa viva 
Como sangue eterno dentro da noite. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um coração que ainda sonha

Deito meu corpo cansado na noite calma, 
Enquanto o mundo silencia ao redor. 
Mas dentro da mente surgem claridades, 
Pequenas revoluções de esperança 
Acendendo luzes onde havia sombra. 

O teto do quarto vira um céu aberto, 
Cheio de futuros ainda invisíveis. 
Cada pensamento constrói uma ponte, 
Cada memória ensina um recomeço, 
Como sementes rompendo o concreto. 

Espero o próximo dia com paciência, 
Como quem aguarda a chuva no verão. 
Há tempestades atravessando meu peito, 
Mas também existe um rio tranquilo 
Correndo por baixo de todo o caos. 

As revoluções que explodem em mim 
Já não desejam destruir o mundo. 
Querem apenas mudar meus caminhos, 
Abrir janelas na alma cansada 
E devolver sentido aos meus passos. 

Fecho os olhos sem medo da noite, 
Porque sei que a manhã sempre insiste. 
E mesmo que tudo pareça distante, 
Há uma esperança respirando baixinho 
Dentro do coração que ainda sonha. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense