domingo, 5 de abril de 2026

Te vejo nas brechas da noite vazia

 Nas inquietas noites, onde o silêncio pesa, 
Caminho por dentro de mim como quem se perde, 
E cada lembrança tua é uma chama acesa, 
Ardendo mansa naquilo que já não me serve, 
Mas que ainda insiste em me chamar pelo nome. 
 
A culpa me veste como um frio sem fim, 
Escorre nos ossos, sussurra nos cantos, 
Dizendo que fui eu quem deixou tudo assim, 
Que o amor não se perde, se perde é o encanto, 
E eu fui descuido no instante em que você partiu. 
 
Há um relógio quebrado dentro do peito, 
Marcando a hora exata do adeus não dito, 
Um tempo suspenso, imóvel, imperfeito, 
Onde teu olhar ainda me encontra aflito, 
Como se o fim nunca tivesse sido completo. 
 
Te vejo nas brechas da noite vazia, 
No vento que passa e parece te trazer, 
Na sombra que dança na parede fria, 
No sonho que insiste em não me esquecer, 
Mesmo sabendo que o dia te apaga de mim. 
 
E sigo, entre a culpa e o que ainda resiste, 
Aprendendo que amar também é perder, 
Que há dores que o tempo não cura, apenas persiste, 
Como marcas que escolhem permanecer, 
Lembrando que um dia eu tive você… e deixei ir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O amor não faz perguntas

O amor é esse tradutor silencioso do infinito. 
Ele aprende a linguagem das estrelas 
Não pelo brilho, mas pela distância. 
Porque amar é justamente isso: 
Decifrar o que está longe como se fosse íntimo, 
Tocar o inalcançável 
Como quem reconhece um velho conhecido. 
 
Se o amor consegue ler o que está escrito 
Na mais remota das estrelas, 
É porque ele não lê com os olhos 
Lê com ausência, com desejo, com espera. 
E tudo aquilo que é vasto demais para ser dito 
Se curva diante de quem ousa sentir. 
 
Por que não revelaria o seu coração? 
O coração é menor que uma galáxia, 
Menos misterioso que o tempo, 
Menos silencioso que a noite. 
 
Talvez o amor já o tenha lido, 
Em cada gesto interrompido, 
Em cada palavra que você não disse, 
Em cada suspiro que escapou sem nome. 
 
O amor não faz perguntas. 
Ele reconhece o olhar, o sorriso. 
Antes mesmo de você se entender, 
Ele já te escreveu inteira 
No infinito céu de alguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 4 de abril de 2026

Aprendi em teus olhos o caminho

 No teu olhar encontrei abrigo, 
Um silêncio que dizia mais que palavras, 
Como se o mundo ali se curvasse, 
Suave, inteiro, inevitável, 
Para que eu enfim me perdesse em ti. 
 
Havia luz nas tuas pupilas, 
Não uma luz qualquer, mas viva, 
Dessas que acendem memórias futuras, 
E fazem do instante um eterno, 
Como um segredo sussurrado ao destino. 
 
Teu olhar me atravessou sem pressa, 
Leu em mim o que nem eu sabia, 
Desfez minhas certezas frágeis, 
E refez meus sentidos perdidos, 
Como quem redesenha a própria alma. 
 
Eu, que andava disperso no mundo, 
Aprendi em teus olhos o caminho, 
Não de volta, mas de encontro, 
Onde tudo faz sentido sem razão, 
E o coração ousa enfim descansar. 
 
Se amar é nascer outra vez, 
Foi no teu olhar que despertei, 
Não como quem chega, mas como quem fica, 
Habitando esse brilho que me chama, 
E me torna, em ti, infinito. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Uma saudade que nunca nasceu

 Houve um instante que não existiu, 
Mas que insiste em permanecer. 
Teu corpo sensual, tão próximo, 
Não era carne, nem ausência, 
Era um quase, 
Um sopro moldado na forma do desejo. 
 
Te segurei como quem segura o inevitável, 
Como quem abraça a própria ilusão 
E, ainda assim, acredita. 
Havia calor, ou memória dele. 
Havia desejo, ou vontade de sentir. 
Havia você, inteira, 
Cabendo no espaço exato entre meus braços 
E aquilo que me faltava. 
 
E quando acordei, 
Não foi o vazio que me doeu, 
Foi a perfeição do que não aconteceu. 
Não posso negar que certos sonhos 
Não querem se realizar, 
Querem apenas nos lembrar 
Daquilo que somos capazes de sentir 
Quando a realidade falha. 
 
Na minha imaginação, 
Carrego teu corpo inexistente 
Como uma saudade que nunca nasceu, 
Mas insiste… 
Em não morrer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Os que acordam o vento

 Tem aqueles que são como casa de portas fechadas, 
Com janelas que nunca se abrem, 
E cortinas que escondem até o próprio sol. 
Ali dentro, a poeira é cômoda, 
O ar é velho, 
Mas ninguém questiona. 
 
São muitos, 
São vozes repetidas, 
São rostos que assentem sem olhar. 
 
Mas tem também os outros... 
Os que acordam o vento. 
Os que entram rasgando o ar imóvel 
Com perguntas que doem, 
Com silêncios que acusam, 
Com gestos que te empurram para fora de ti. 
 
Andar com eles 
É como caminhar em bordas de penhascos invisíveis, 
É tropeçar nos próprios passos, 
É descobrir que chão firme pode ser ilusão. 
Eles não te oferecem abrigo, 
Mas te dão asas estranhas, 
Feitas de dúvida e desejo de ir além. 
 
E o preço? 
O preço é a perda das antigas certezas. 
É o exílio dos cômodos afetos. 
É a dor de ser estrangeiro até dentro da própria pele. 
 
Mas o prêmio... 
Ah, o prêmio... 
É a lucidez que nasce como claridade depois da tempestade. 
É o olhar que atravessa véus, 
É o pensamento que se recusa a ajoelhar. 
 
Nunca, jamais, 
Faças parte da procissão dos adormecidos. 
Não te tornes cúmplice do eco que nada diz. 
 
Escolhe sempre 
Os que te obrigam a crescer, 
Os que desarrumam teus móveis interiores, 
Os que te ensinam a soprar as cinzas 
Até que reste apenas a chama. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Falta de consciência

 Os dias passam como páginas sem leitura, 
Viradas por mãos que não sentem o papel. 
Há uma pressa vestida de falsa urgência pura, 
Como se viver fosse cumprir um papel cruel, 
E não incendiar-se no próprio céu. 
 
Olham o horizonte como quem evita cair, 
Mas esquecem de olhar o chão que pisa o ser. 
E assim, seguem sem nunca verdadeiramente ir, 
Como sombras tentando o próprio amanhecer, 
Sem saber que já deixaram de viver. 
 
Perguntar-se é um abismo necessário, 
Um risco que poucos desejam correr. 
Pois há conforto no caminho ordinário, 
Mesmo que ele seja um lento desaparecer, 
Uma ausência vestida de permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Nenhuma vida é pequena demais

 Há um sopro antigo em cada rosto humano, 
Uma chama que não se apaga no tempo, 
Mesmo quando a dor escurece os olhos, 
Mesmo quando o mundo insiste em medir o valor, 
Algo permanece, indizível, intacto. 
 
Somos feitos de quedas e recomeços, 
De silêncios que ninguém escuta, 
De batalhas travadas por dentro, 
E ainda assim carregamos uma luz, 
Mesmo quando não sabemos nomeá-la. 
 
Nenhuma vida é pequena demais, 
Nenhuma história é inútil ao todo, 
Há universos inteiros em cada gesto, 
E mistérios guardados em cada olhar, 
Como se o infinito coubesse no humano. 
 
Chamamos de diferença aquilo que nos revela, 
Rostos múltiplos de uma mesma origem, 
Cada cultura, cada fé, cada corpo, 
Uma variação do mesmo enigma vivo, 
Uma linguagem diversa do mesmo sagrado. 
 
No fim, quando tudo se desfaz, 
Resta apenas aquilo que fomos no outro, 
O cuidado, o respeito, o reconhecimento, 
Como quem toca o invisível com reverência, 
E descobre que também é sagrado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Ainda insisto

 Eu caminho entre vozes ocas que se aplaudem, 
Como tambores cheios de vento e vaidade, 
E carrego em mim um peso antigo e incômodo: pensar. 
Vejo a superfície ser coroada como profundidade, 
E me pergunto em que abismo a razão foi deixada. 
 
Sinto o riso fácil ferir mais do que o silêncio, 
Como lâminas leves que cortam sem esforço, 
E tudo o que é denso se torna alvo de escárnio. 
Carrego perguntas como quem carrega cicatrizes, 
Num mundo que só tolera respostas rasas. 
 
Eu, que quis compreender, tornei-me estranho, 
Quase um erro ambulante entre certezas gritadas. 
O conhecimento em mim não é troféu, é fardo, 
Uma luz que ilumina também o que dói ver. 
E por isso invejo, às vezes, a leveza dos cegos. 
 
Há dias em que o mundo me parece uma encenação, 
Onde os tolos vestem coroas de aplausos vazios, 
E os que pensam se escondem nas sombras do próprio eco. 
Eu assisto, impotente, à ascensão do ruído, 
Como quem vê o incêndio e não encontra água. 
 
Mas ainda escrevo, ainda insisto, ainda respiro fundo, 
Mesmo quando o sentido parece se desfazer no ar. 
Há em mim uma teimosia quase trágica, 
Um apego àquilo que não dá espetáculo, 
Mas sustenta, em silêncio, o que resta de humano. 
 
 Prossigo, não como vencedor, mas como testemunha, 
Guardião de uma chama que já não ilumina multidões. 
Se o mundo prefere a escuridão barulhenta, que prefira, 
Eu ainda escolho o peso lúcido da consciência, 
Mesmo que isso me condene à solidão eterna. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Por que não pensei em voar para longe?

Há uma pergunta que ecoa 
Como um pássaro preso dentro do peito. 
Por que, na solidão dos meus dias, 
Não pensei em voar para longe? 
 
Talvez porque a solidão, 
Embora silenciosa, constrói raízes. 
Ela se entranha nos hábitos, 
Nas horas repetidas, 
E nos convence de que ficar 
É mais seguro do que partir. 
Como se o céu fosse vasto demais 
Para quem desaprendeu a abrir as asas. 
 
Ou talvez você tenha pensado, sim, 
Mas pensar em voar exige coragem 
Para abandonar o chão conhecido. 
E há dias em que o peso da própria existência 
Faz até o vento parecer distante demais. 
 
A verdade é que nem toda solidão pede fuga. 
Algumas pedem escuta. 
Pedem que a gente sente ao lado de si mesmo 
E compreenda por que o voo parecia impossível. 
 
Porque voar não é apenas partir, 
É também acreditar que existe um destino 
Que vale o risco de deixar para trás 
O que nos prende nesta vida. 
 
E quem sabe, no fundo, você não voou 
Porque ainda havia algo em você 
Esperando ser descoberto exatamente aí, 
No território silencioso 
Onde ninguém mais ousou ficar. 
Mas agora que a pergunta surgiu, 
Talvez seja o primeiro bater de asas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Agora tenho que partir

 Partir nunca é apenas ir embora, 
É também deixar pedaços de si 
Respirando em outro peito. 
 
Agora tenho que partir, 
E essa frase pesa mais 
Do que qualquer despedida dita antes, 
Porque ela carrega o que não se resolve, 
O que fica suspenso entre dois silêncios. 
 
Deixar você aqui 
É confiar ao tempo a tarefa impossível 
De não apagar o que fomos. 
 
Levo comigo teus gestos pequenos, 
Os instantes que ninguém viu, 
A memória de um riso que ainda ecoa 
Mesmo quando já não estamos no mesmo lugar. 
 
E parto, 
Não porque quero, 
Mas porque há caminhos que nos chamam 
Mesmo quando o coração insiste em ficar. 
 
Se houver reencontro, 
Que ele venha como chuva em terra seca, 
Sem cobrança, sem medida, 
Apenas como quem nunca deixou de ser. 
 
Se não houver, 
Que ao menos reste em nós 
Essa estranha beleza: 
A de termos sido, 
Mesmo que por um tempo breve, 
Um lugar de abrigo um para o outro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 31 de março de 2026

Que não nos falte a esperança

A vida, mesmo dura, ainda guarda lampejos de sol. 
Quem caminha com pouco carrega dentro de si um muito.
A força de não desistir, 
A coragem de recomeçar, 
A ternura de sonhar mesmo em meio à escassez. 
 
Cada dia pode ser estreito, 
Mas em cada passo há a possibilidade de abertura. 
A oportunidade que não veio ontem 
Pode nascer amanhã, 
Às vezes em forma de encontro, 
Às vezes em forma de gesto, 
Às vezes apenas no coração que insiste em acreditar. 
 
Quem luta pela sobrevivência descobre 
Que há uma poesia secreta no cotidiano.
O pão dividido que alimenta dois, 
A amizade que floresce sem pedir nada, 
O riso que surge inesperado 
Como se fosse um presente. 
 
E é essa beleza miúda, 
Plantada na terra árida da vida, 
Que mantém viva a chama. 
A certeza de que nenhum esforço é em vão, 
E que, mesmo com poucas oportunidades, 
A dignidade pode se transformar em um futuro maior. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Na sedução que me toma a razão

 Na devassidão dos teus delírios eu caminho, 
Como quem tateia o escuro em busca de um nome, 
Teus gestos me vestem de febre e desatino, 
Mas em cada toque há um vazio que consome, 
Um eco de ausência que em mim se recompõe. 
 
Teus olhos são promessas que nunca repousam, 
Ardem como velas em noites sem altar, 
E enquanto teus lábios em silêncio me ousam, 
Há um abismo manso a nos atravessar, 
Como dois corpos que não sabem se encontrar. 
 
Teu riso derrama desejos pela sala, 
Feito vinho antigo que ninguém quer guardar, 
Embriaga o instante, mas logo se cala, 
E no gosto que fica, difícil de apagar, 
Há sempre um depois que insiste em me deixar. 
 
Te possuo apenas no intervalo, 
No quase, no sopro, no gesto por vir, 
És chama que dança sem nunca dar o estalo, 
És tudo que chama e se recusa a florir, 
Um sonho que insiste em não se cumprir. 
 
Mesmo ao teu lado, permaneço distante, 
Como ilha cercada por mares de ilusão, 
Teu corpo é presença, teu ser é instante, 
E na sedução que me toma a razão, 
Sobra, inevitável, a minha solidão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 30 de março de 2026

Sombras da traição

Há uma sombra mais densa do que a noite, 
Não aquela que nasce da ignorância, 
Mas a que floresce na consciência traída. 
 
O sábio que trai a própria verdade 
Não cai, ele se dissolve. 
Carrega livros como quem carrega ossos, 
Mas suas palavras já não têm carne. 
Ele conhece o caminho, 
Mas vende o mapa por conforto. 
 
O filósofo que vive fora da sua moral 
É um templo abandonado. 
Colunas ainda de pé, 
Mas o altar vazio. 
Pensou o mundo com rigor, 
Mas não suportou habitar o que pensou. 
E então passou a discursar para fora, 
Enquanto ruía por dentro. 
 
O nobre que desonra o próprio berço 
Não mancha apenas o nome. 
Rasga o tempo. 
Trai os mortos que o ergueram 
E os vivos que nele ainda acreditam. 
Seu sangue não é mais linhagem, 
É silêncio envergonhado. 
 
Entre todos os monstros possíveis, 
Os piores não são os que ignoram o bem, 
Mas os que o conhecem, 
E ainda assim escolhem abandoná-lo. 
Porque há algo mais terrível que a escuridão, 
A luz que decide apagar a si mesma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Tenho mil olhos

 Carrego em mim mil olhos acesos, 
Não no rosto, mas espalhados na alma, 
E caminho atento como quem teme o esquecimento, 
Pois sei que o mundo sussurra enquanto passa, 
E tudo o que não vejo se perde para sempre. 
 
Eu observo o tremor secreto das coisas pequenas, 
A folha que hesita antes de cair, 
O olhar que se desfaz antes de ser compreendido, 
O silêncio que se esconde entre duas palavras, 
Como se ali estivesse a verdade mais nua. 
 
Eu recolho o que ninguém percebe ou guarda, 
Os gestos interrompidos, os afetos disfarçados, 
A tristeza que aprende a sorrir por costume, 
O instante que quase existiu, mas vacilou, 
E faço disso a matéria do meu próprio ser. 
 
Nunca descanso, não por medo, mas por espanto, 
Porque cada momento é um abismo delicado, 
Onde o invisível dança antes de desaparecer, 
E eu me inclino, como quem escuta o nada, 
Sabendo que o nada também pulsa e chama. 
 
Sou aquele que vigia o mundo em sua fuga, 
Que aprende a ouvir o que nunca foi dito, 
Que transforma o imperceptível em permanência, 
Pois sei que sentir é salvar o instante, 
E escrever é impedir que ele morra em silêncio. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 29 de março de 2026

Um portal discreto

 Será o tédio um eterno vazio? 
Não será ele um campo em repouso, 
Esperando o sopro invisível do pensamento? 
Quando nada acontece, 
Algo começa a acontecer por dentro. 
 
É no silêncio do tempo estagnado 
Que a mente se desprende 
Das margens do útil e do imediato. 
O devaneio surge como um rio sem mapa, 
Correndo por territórios onde a lógica não vigia, 
Onde as ideias 
Não precisam pedir licença para existir. 
 
O tédio, então, é um portal discreto. 
Quem o atravessa 
Abandona o mundo das respostas prontas 
E entra no território das perguntas 
Que ainda não foram feitas. 
 
No devaneio, 
As coisas se tocam de maneiras improváveis, 
Memórias esquecidas 
Conversam com desejos ainda sem nome, 
Imagens se misturam como sonhos acordados, 
E aquilo que parecia desconexo 
Revela uma harmonia secreta. 
 
Ali nascem as conexões que ninguém mais vê, 
Porque não são feitas de evidência, 
Mas de intuição, 
Não são úteis, mas são essenciais. 
 
E pode ser por isso que o mundo tema o tédio. 
Ele desacelera, desorganiza, dissolve a pressa. 
Mas quem aprende a habitá-lo descobre 
Que dentro dele há uma oficina silenciosa, 
Onde o pensamento se reinventa em liberdade. 
 
O tédio é o chão. 
O devaneio, a semente. 
E as ideias, essas flores estranhas, 
Só crescem onde poucos têm coragem de permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense