terça-feira, 14 de julho de 2026

Quando o último dia vier

Não herdei um caminho pronto. 
Recebi apenas o silêncio das possibilidades. 
Cada escolha apaga outras vidas possíveis. 
Ainda assim, permaneço responsável. 
Não há como delegar a própria existência. 

Os dias não oferecem respostas. 
São páginas que esperam uma decisão. 
O medo veste a máscara da prudência. 
A esperança, a da incerteza. 
Caminho entre ambas. 

Há quem prefira o abrigo das pequenas expectativas. 
Ali o fracasso parece menor. 
Mas também diminui a alegria do encontro. 
Viver pouco para sofrer pouco 
É uma forma lenta de ausência. 

O horizonte não me promete chegada. 
Ele apenas se afasta quando avanço. 
Talvez seu sentido seja esse. 
Ensinar que a vida não cabe no destino, 
Mas no movimento de buscá-lo. 

Quando o último dia vier, 
Quero reconhecer meus próprios passos. 
Não por terem sido perfeitos, 
Mas porque foram escolhidos por mim. 
E nisso reside toda a minha liberdade. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Ninguém percebe quando muda

Um dia você acorda 
Faz seu café 
Olha pela janela 
E percebe que não odeia mais 
As mesmas coisas. 

Isso deveria ser bom 
Mas não é 
Porque você também não ama 
O que amava 
E ninguém escreveu um manual para isso. 

O mundo continua lá 
Vendendo seus produtos 
Buzinando nas esquinas 
Enterrando gente 
E abrindo padarias às seis. 

Então você olha no espelho 
E aquele sujeito ainda usa seu rosto 
O desgraçado até sabe seu nome 
Mas há alguma coisa nos olhos 
Que você nunca convidou para entrar. 

Você bebe o café que acabou de fazer 
E ele já está frio 
E entende finalmente 
Que não foi o mundo que ficou estranho 
Foi você que sobreviveu tempo demais. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Como se a noite soubesse o meu nome

Nas caladas do silêncio noturno 
O mundo é um lugar estranho agora 
As ruas parecem guardar segredos 
E meus passos seguem desconfiados 
Como se a noite soubesse meu nome. 

Olho as janelas ainda acesas 
Imagino vidas acontecendo lá dentro 
Enquanto carrego meus pensamentos 
Por caminhos que já foram familiares 
Mas hoje não reconhecem minha presença. 

Há alguma coisa diferente no tempo 
Uma ausência escondida nas horas 
Um vazio ocupando antigas certezas 
E essa sensação quase inexplicável 
De ter chegado tarde à própria vida. 

Talvez o mundo continue o mesmo 
Com suas manhãs e seus ruídos 
Talvez meus olhos tenham mudado 
Depois de contemplarem tantas despedidas 
E aprenderem o peso das lembranças. 

Nas caladas do silêncio eu caminho 
Sem procurar respostas definitivas 
Apenas tentando compreender a noite 
Porque o mundo é um lugar estranho agora 
E eu também me tornei estranho para ele. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quem não lê

Há um silêncio pesado em quem não lê, 
Um mundo estreito, quase sem horizonte, 
Ideias repetidas como ecos cansados, 
Certezas duras que nunca foram pensadas, 
Olhos que veem, mas não atravessam, 
Mentes que aceitam sem interrogar, 
Vidas que passam sem realmente compreender. 

Não ler é andar por caminhos já traçados, 
Sem suspeitar que há outras direções, 
É viver preso ao imediato e ao raso, 
Sem mergulhar no abismo do pensamento, 
É confundir opinião com verdade, 
É temer a dúvida como se fosse fraqueza, 
E nunca perceber o tamanho da própria ignorância. 

Quem não lê se limita sem perceber, 
Carrega muros onde poderia haver pontes, 
Repete o mundo, mas não o transforma, 
Escuta vozes, mas não dialoga com elas, 
Perde a chance de ser mais do que é, 
De expandir a alma além do costume, 
E de reinventar a si mesmo em silêncio. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inocência

Recordo a luz suave da inocência, 
Dos dias largos, livres de razão, 
Em que viver não pedia consciência, 
E o riso era a própria explicação. 

O tempo ali corria sem urgência, 
Não havia o peso da previsão, 
Cada instante era plena existência, 
Sem medo oculto ou desilusão. 

Mas hoje a lembrança me visita, 
Como um sussurro vindo do passado, 
Trazendo a paz que o tempo limita. 

E no silêncio manso, resignado, 
Entendo: a felicidade era bendita 
Por ser um sonho não questionado. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 12 de julho de 2026

O esquecimento e o desejo

Tenho tentado deixar você no passado, 
Como quem fecha uma porta devagar, 
Sem olhar pela última vez para o quarto, 
Sem recolher as coisas que ficaram, 
Sem perguntar se ainda existe retorno. 

Mas há noites em que meus braços doem 
Pela ausência exata do seu corpo, 
E tudo o que eu desejo é o impossível: 
Sentir você perto de mim novamente, 
Como se nunca tivéssemos partido. 

Estou perdido entre duas vontades, 
A de arrancar você das minhas lembranças 
E a de guardar cada instante vivido, 
Porque esquecer também parece uma perda, 
Uma segunda despedida ainda mais cruel. 

Minha razão pede distância e silêncio, 
Enquanto meu coração inventa reencontros, 
Imagina seus passos chegando até mim, 
Seu olhar atravessando minhas defesas 
E minha coragem desaparecendo outra vez. 

Talvez eu permaneça assim por muito tempo, 
Dividido entre partir e continuar esperando, 
Querendo a paz de não sentir mais nada 
E desejando, com tudo o que ainda sou, 
Ter você nos meus braços mais uma vez. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 11 de julho de 2026

O que ainda sou

Não me cabe desejar outro rosto 
Nem lamentar o homem que não me tornei 
Cada dia exige apenas minha presença 
O restante pertence ao curso das coisas. 
Governo o pensamento que nasce em mim 
Aceito o que escapa às minhas mãos 
E permaneço fiel à minha natureza. 

O mundo tentará dizer quem devo ser 
Mas sua voz não governa minha consciência 
Não combato o inevitável 
Nem entrego minha paz ao acaso. 
Retiro da alma tudo aquilo que é excesso 
Observo minhas fraquezas sem fugir 
E faço do domínio de mim minha tarefa. 

Não preciso construir um novo homem 
Há em mim uma essência a ser reencontrada 
O tempo apenas cobriu seus caminhos 
Cabe-me remover o medo e a aparência. 
Viver segundo aquilo que reconheço como justo 
Seguir sem aplausos e sem ressentimento 
E retornar em silêncio ao que sou. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Da embriaguez

Teu olhar me derramou um acorde escuro. 
Segui seu rastro por dentro das veias da mente, 
Onde o som vira cheiro, 
E o cheiro vira verso. 
Lá, a poesia renasce em carne fria. 

Embebecido pelo teu olhar, 
Busquei uma melodia no fundo das sombras. 
Ela veio úmida, quase ferida, 
E se abriu em poesia dentro de mim 
Como quem sangra para se livrar do silêncio. 

Beber do teu olhar foi beber um vinho denso, 
Que não embriaga, consome. 
Da embriaguez nasceu uma música cansada, 
E dela, um poema que ardeu até virar cinza. 

Tua íris abriu um corredor de ecos. 
Entrei, e cada eco era uma nota quebrada. 
Quando a última caiu, 
Restou apenas o poema, 
Com sua respiração irregular e febril. 

De ti veio a melodia, 
Mas de mim veio o escuro. 
No encontro, tudo se tornou poesia, 
E poesia é o nome que damos 
Ao que não ousamos sentir inteiro. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Que cada um assuma o leme

Há quem espere a voz de alguém 
Para dizer por onde andar; 
Como se o vento do destino 
Pudesse a vida governar. 

Olham caminhos já traçados, 
Receiam o primeiro passo; 
Vivem contando com as mãos 
Que os livrem de qualquer cansaço. 

Mas o tempo, sábio e sereno, 
Não faz escolhas por ninguém; 
Apenas mostra, dia após dia, 
Quem foi além, quem não foi além. 

Quem teme o peso das decisões 
Também renuncia ao florescer; 
Pois cada escolha não vivida 
É um pedaço do próprio ser. 

Conselhos são faróis na noite, 
Mas não substituem o caminhar; 
Nenhuma estrela cruza o céu 
Por quem se recusa a navegar. 

A vida chama, em voz discreta, 
Os que se atrevem a tentar; 
Não exige passos perfeitos, 
Somente a coragem de começar. 

Pois quem vive preso à vontade 
Daqueles que escolhem por si, 
Descobre, tarde, que seus sonhos 
Nunca aprenderam a existir. 

Que cada um assuma o leme 
Do barco entregue em suas mãos; 
Porque a liberdade floresce 
Nas próprias determinações. 

E, quando a tarde enfim chegar, 
Sem culpas para repartir, 
Haverá paz em quem soube 
A própria história construir. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inteiro diante da imensidão

Eu me levanto antes da aurora e caminho entre os campos da existência. 
Não trago espada, nem coroa, nem estandarte. 
Trago apenas o coração que sobreviveu às derrotas, 
A memória daqueles que partiram, 
E a coragem de continuar quando ninguém anuncia a vitória. 

Não vejo mais você, mas não amaldiçoo a distância. 
Ela também pertence ao grande mapa da vida. 
As montanhas conhecem a separação das nuvens, 
Os rios conhecem o abandono das nascentes, 
E ainda assim todos seguem em direção ao mar que os espera. 

Eu canto os homens e as mulheres que aprenderam a perder. 
Canto os que enterraram sonhos e semearam esperança sobre a terra revolvida. 
Canto os que atravessaram desertos sem promessas, 
Os que fizeram do silêncio uma oficina para a alma, 
E transformaram as cicatrizes em testemunhas da própria grandeza. 

Que o tempo venha com seus invernos e suas tempestades. 
Que os dias retirem de mim aquilo que jamais me pertenceu. 
Não renunciarei ao espanto diante do céu, 
Nem ao desejo de abraçar o mundo inteiro 
Como um viajante que reconhece em cada rosto um irmão. 

Assim avanço, sem pedir que o passado retorne. 
Cada passo é um hino oferecido à existência. 
Se um dia meu nome desaparecer entre as poeiras do caminho, 
Que permaneça ao menos esta certeza: 
Vivi caminhando, vivi cantando, vivi inteiro diante da imensidão. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A linguagem é um vírus

Existem palavras que não querem comunicar: querem possuir. 
Entram pelos ouvidos como fumaça invisível 
E se alojam nos corredores úmidos da consciência. 
A linguagem, às vezes, não nasce para aproximar homens, 
Mas para contaminá-los lentamente com versões da realidade. 

Existem atalhos perigosos entre a boca e o abismo. 
Frases prontas economizam pensamento 
Como remédios vencidos aliviam a dor por alguns minutos. 
E assim seguimos repetindo slogans, dogmas e promessas 
Como doentes beijando a febre que os consome. 

Toda palavra carrega uma febre secreta. 
Algumas abrem janelas; 
Outras fecham o céu sobre nossas cabeças. 
Há discursos que se espalham como epidemias silenciosas, 
Infectando ruas, altares, telas e parlamentos. 

Talvez a linguagem seja o vírus mais antigo da humanidade: 
Muda, adapta-se, atravessa gerações 
E aprende a sobreviver dentro do medo coletivo. 
Nenhum corpo escapa totalmente dela, 
Porque até o silêncio já nasce contaminado. 

Mas ainda existem palavras raras 
Que recusam o contágio da mentira. 
Elas caminham devagar, sem propaganda, sem aplauso, 
Como quem carrega uma vela acesa em meio à tempestade 
E insiste em lembrar que pensar ainda pode ser cura. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O amor também é revelação

Em seus braços, lentamente me desdobrei, 
Como um bilhete escondido entre páginas amareladas, 
Guardado do tempo e dos olhos apressados. 
Cada abraço seu desfazia uma dobra antiga, 
Cada silêncio seu traduzia uma palavra esquecida. 
Eu me abria sem ruído, sem resistência, 
Como quem finalmente encontra o lugar onde repousar. 

Havia em seu toque a paciência dos que compreendem, 
Não a pressa de quem deseja possuir. 
Você leu minhas entrelinhas com cuidado, 
As manchas deixadas pelas chuvas da vida, 
Os versos incompletos que eu nunca terminei. 
E aquilo que eu julgava confuso e indecifrável 
Ganhou sentido sob a luz tranquila do seu afeto. 

Então percebi que o amor também é revelação, 
Não de segredos extraordinários, mas do que somos. 
Em seus braços, deixei de ser papel dobrado, 
Deixei de esconder minhas frágeis verdades. 
Tornei-me palavra entregue, presença inteira, 
Um texto que já não temia ser lido, 
Uma carta que finalmente chegou ao destino. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Antes de cada passo

Antes de cada passo, escuta o silêncio, 
Pois nele mora a voz da reflexão; 
O caminho mais curto nem sempre é seguro, 
E a pressa, vestida de urgência, 
Costuma esconder armadilhas no chão. 

A semente lançada sem cuidado 
Pode florescer em espinhos e aflição; 
Mas a escolha regada pela prudência 
Cresce forte sob o sol do tempo 
E oferece frutos ao coração. 

Muitos choram diante das tempestades 
Que eles mesmos ajudaram a formar; 
Uma palavra dita sem pensar, 
Um gesto movido pelo impulso, 
Podem anos de paz transformar. 

A sabedoria não grita nem se impõe; 
Ela caminha serena ao nosso lado, 
Mostrando que cada decisão 
É uma pedra colocada na estrada 
Que um dia haverá de ser cruzada. 

Por isso, pensa antes de agir, 
E consulta a razão antes da emoção; 
A dor de amanhã muitas vezes nasce 
De um descuido cometido hoje, 
Enquanto a prudência constrói proteção. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Hoje

 O dia não espera 
Você terminar de organizar a vida. 
 
Ele atravessa a janela, 
Cai sobre a mesa, 
Esfria o café 
E vai embora 
Sem perguntar se você estava pronto. 
 
Há gente que vive 
Como quem faz um rascunho, 
Como se a versão definitiva 
Fosse começar na semana que vem. 
 
Mas não existe ensaio. 
O tempo não tem coração, 
Não sente culpa, 
Não devolve as horas 
Que você gastou alimentando medos 
Que nunca aconteceram. 
 
Quando a noite chega, 
Ela apenas fecha a porta. 
Não por crueldade, 
Mas porque essa é a única coisa 
Que a noite sabe fazer. 
 
Então levante. 
Diga o que precisa ser dito. 
Ame quem ainda está ao seu lado. 
E, se cair, 
Caia vivendo. 
 
Porque amanhã 
Talvez exista. 
O hoje, 
Esse já está indo embora. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Horas silenciosas

A cidade desperta antes da esperança. 
As janelas devolvem um céu sem promessas. 
Os relógios repetem um idioma que ninguém escuta. 
Há passos que atravessam a manhã como sombras. 
O dia começa antes que a alma consinta. 
 
Carrego lembranças que não pediram abrigo. 
Elas ocupam corredores onde o tempo perdeu o nome. 
Cada porta aberta conduz ao mesmo espelho. 
A poeira conhece histórias que os homens esqueceram. 
O silêncio recolhe aquilo que a voz dispersa. 
 
As praças guardam bancos voltados para ausências. 
O vento desloca folhas como páginas sem autor. 
As pedras observam a pressa dos viajantes. 
Ninguém percebe a lentidão da luz sobre os muros. 
Toda chegada contém o desenho de uma partida. 
 
Procuro um sentido entre objetos comuns. 
Uma xícara vazia, um poste aceso, um rio distante. 
Nada explica, mas tudo sugere. 
O invisível habita as menores permanências. 
Talvez a verdade caminhe sem anunciar o próprio nome. 
 
Quando a noite recolhe o último ruído, 
Resta apenas a respiração do mundo. 
Não encontro respostas definitivas. 
Aprendo a permanecer diante do mistério. 
E sigo, como quem atravessa um horizonte que nunca termina. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense