terça-feira, 30 de junho de 2026

O idiota é o que se recusa saber

A ascensão dos idiotas 
Não é um acidente da história, 
É um sintoma. 
Toda época cria seus deuses 
À imagem de suas carências. 

O idiota não é o que ignora, 
Mas o que se recusa a saber. 
Ele transforma a dúvida em ameaça 
E a complexidade em ofensa. 
Pensar, para ele, 
É um desvio moral. 

A inteligência exige tempo, 
Silêncio 
E a coragem de não pertencer. 
A estupidez, ao contrário, 
Oferece abrigo imediato. 
Um de nós contra eles, 
Uma resposta simples, 
Um culpado portátil. 

Quando a razão perde o prestígio, 
O ressentimento assume o trono. 
Não governa para construir, 
Mas para justificar ruínas. 

A multidão não segue o idiota 
Porque ele é líder, 
Mas porque ele dispensa esforço. 
Ele promete alívio 
Num mundo que exige pensamento. 

A tragédia não está na voz alta do idiota, 
Mas na desistência do sábio. 
Quando o pensamento abdica, 
O ruído vira lei. 

Pode ser que o colapso não seja civilizatório, 
Mas interior. 
Um mundo onde cada um 
Renuncia à tarefa de compreender 
E chama isso de liberdade. 

Sendo assim, 
A estupidez não triunfa por força, 
Mas por abandono. 
Porque pensar, 
Em tempos de facilidades, 
Tornou-se um ato de resistência. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Tempo perdido

Houve um tempo em que teus olhos me procuravam, 
E eu, distraído pelas urgências da vida, 
Não percebia que havia um universo inteiro 
Esperando por um simples encontro de olhares. 

Hoje compreendo que algumas oportunidades 
Não chegam fazendo barulho. 
Elas se apresentam em silêncio, 
Escondidas na delicadeza de quem nos admira. 

Perdi o tempo em que teu olhar 
Falava aquilo que teus lábios não ousavam dizer. 
Enquanto eu contava os dias, 
O coração desperdiçava instantes 
Que jamais voltarão. 

Há arrependimentos que não nascem 
Por aquilo que fizemos, 
Mas por aquilo que deixamos de viver. 
E talvez o maior deles 
Seja descobrir tarde demais 
Que alguém nos enxergava 
Com uma beleza 
 Que nunca fomos capazes 
 De reconhecer em nós mesmos. 

Se pudesse voltar, 
Não mudaria o relógio, 
Mudaria a atenção. 
Porque o amor, muitas vezes, 
Não pede promessas grandiosas; 
Pede apenas coragem 
Para sustentar um olhar 
Que nos convida a permanecer. 

Hoje, quando o tempo me visita, 
Ele não me acusa. 
Apenas me lembra que os segundos 
Levam consigo as oportunidades 
Que a hesitação deixou escapar. 

E aprendi, enfim, 
Que o tempo perdido 
 Não está apenas nos anos que passaram, 
Mas nos olhares que evitamos, 
Nos sentimentos que ignoramos 
E nas histórias que poderiam ter começado 
Com um simples gesto de reciprocidade. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Voz inconveniente

O sol cansado já não quer nos ver, 
Desvia o rosto ao peso das cidades; 
Há homens aprendendo a apodrecer 
Sob o verniz cruel das vaidades. 

Nas ruas, vejo a fome envelhecer, 
Crianças sem abrigo ou identidade; 
E os donos do poder, sem perceber, 
Transformam dor humana em novidade. 

Mas eu não quero o silêncio obediente, 
Nem ser mais um fantasma conformado 
Num mundo que celebra a própria ruína. 

Prefiro ser a voz inconveniente, 
O grito contra o tempo envenenado, 
A mão que ainda insiste e ilumina. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 28 de junho de 2026

O que permanece

Não controlo a aspereza do caminho. 
Controlo apenas a direção dos meus passos. 
Se o mundo me negar gentileza, não a negarei a ninguém. 
O amor é uma decisão que depende de mim. 
Nele encontro a liberdade que ninguém pode tomar. 

A ofensa pertence a quem a oferece. 
A resposta pertence a quem a escolhe. 
Não entregarei meu espírito ao domínio da ira. 
Prefiro a serenidade que fortalece o caráter. 
Ela atravessa os dias sem fazer alarde. 

Há perdas que o tempo não devolve. 
Há esperas que não encontram resposta. 
Ainda assim, o coração pode permanecer íntegro. 
A virtude não precisa de circunstâncias favoráveis. 
Ela floresce na disciplina da consciência. 

Cada amanhecer convida a um novo julgamento. 
Posso reclamar do vento ou ajustar as velas. 
Posso lamentar a sombra ou cuidar da luz interior. 
A paz nasce quando aceito o que não depende de mim. 
E ajo com firmeza naquilo que me cabe. 

Custe o que custar, preservarei o amor em meu coração. 
Não como prêmio pelas bondades do mundo. 
Mas como expressão da pessoa que escolho ser. 
Que os dias mudem o cenário, mas não a essência. 
Pois vencer a si mesmo é a mais duradoura das conquistas. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 27 de junho de 2026

Entre o desejo e o espelho

Você sorri 
Como quem acende um fósforo 
Sem pensar no incêndio. 

Seus lábios têm o defeito 
De fazer o mundo parecer menos ridículo, 
E isso é perigoso. 
Porque a esperança sempre cobra caro. 

Passei a vida dizendo 
Que ninguém salva ninguém. 
Ainda acredito nisso. 
Mas há noites em que uma boca 
Convence até o cínico mais antigo. 

O desejo chega sem pedir licença, 
Derruba a filosofia da estante, 
Esvazia o copo 
E ri da disciplina 
Que passei anos tentando construir. 

No fim, cada um volta para o próprio quarto, 
Para o espelho, 
Para as contas, 
Para o silêncio. 
Mas alguns sorrisos continuam morando na memória 
Como se nunca tivessem ido embora. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Enquanto você me procurava

Enquanto você me procurava entre as lembranças, 
Eu seguia por caminhos que não tinham placas. 
Cada passo mudava a forma do meu silêncio. 
Aprendi a reconhecer o peso das ausências. 
Encontrei abrigo nas manhãs mais simples. 
Deixei que o tempo reorganizasse meus sonhos. 
Voltei diferente do que um dia parti. 

Passei por lugares onde ninguém sabia meu nome. 
Observei o rio levar embora antigas certezas. 
Conversei com árvores que resistiam ao vento. 
Os livros me ofereceram novas paisagens. 
A solidão deixou de ser uma ameaça. 
Compreendi que toda espera transforma quem permanece. 
E aceitei que nem toda distância significa perda. 

Quando nossos caminhos voltarem a se cruzar, 
Talvez você reconheça apenas o meu olhar. 
O restante terá sido moldado pelas travessias. 
Carregarei marcas que não pedem explicação. 
Trarei a serenidade de quem aprendeu a partir. 
E, se ainda houver um encontro possível, 
Ele nascerá do que nos tornamos durante a procura. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O amor que não exige ausência

Ao cair da tarde, entre corredores de relógios cansados, 
Onde a poeira repousa sobre fotografias sem nome, 
Caminhamos como quem atravessa uma estação abandonada, 
Ouvindo o rumor distante de vozes que já não recordam 
Se falavam de amor 
Ou apenas da arte refinada 
De perder a si mesmos. 
 
Nas janelas, a luz hesita. 
Os dias empilham-se como jornais antigos. 
E há aqueles que chamam amor 
Ao lento desaparecimento de um rosto, 
Ao hábito de apagar palavras, 
Ao gesto de dobrar a alma 
Para que caiba em molduras estreitas. 
 
Mas o coração conhece outros desertos. 
Sabe que não é amor 
A sala onde os espelhos repetem apenas uma imagem, 
Nem a mesa onde todos os lugares são ocupados 
Pela mesma ausência. 
O amor não é a sombra que cresce 
Sobre o nome que pronunciamos em segredo, 
Até que ele se torne irreconhecível. 
 
E, ainda assim, 
Entre os fragmentos recolhidos ao longo dos anos, 
Entre cartas esquecidas e sonhos interrompidos, 
Permanece uma chama discreta, 
Como uma vela acesa numa igreja vazia, 
Como um pássaro oculto entre ruínas. 
 
Ela sussurra em meus ouvidos 
Que amar não é reduzir, 
Mas permitir que o outro permaneça; 
Que a proximidade não exige naufrágio; 
Que duas solidões podem caminhar juntas 
Sem que uma devore a outra. 
 
E quando a noite enfim desce 
Sobre as ruas, os livros e os calendários, 
Resta essa pequena certeza 
Entre tantas incertezas do mundo. 
O amor que vale 
É aquele diante do qual podemos permanecer inteiros, 
Sem precisar desaparecer 
Para sermos vistos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O encanto que vi em você

 Vi em você o repouso das tardes calmas, 
Um brilho sereno que o tempo não apaga. 
Era como se o mundo, por um instante, 
Tivesse aprendido a respirar em paz. 
 
Havia em teu olhar um horizonte possível, 
Onde o medo se dissolvia feito névoa, 
E o amor, tímido e inteiro, 
Voltava a acreditar em si mesmo. 
 
Tuas palavras traziam o sabor da manhã, 
Um perfume de recomeço, 
E eu, sem perceber, deixei o coração aberto 
Para o milagre de te encontrar. 
 
Não sei se foi destino ou acaso, 
Mas o encanto que vi em você 
Acendeu em mim uma esperança antiga, 
Como quem reconhece um lar 
Num lugar onde nunca esteve. 
 
Desde então, 
Carrego teu nome no silêncio das horas, 
Não como lembrança, 
Mas como promessa de que o amor, 
Quando é verdadeiro, 
Não se apaga: floresce. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Antes que seja tarde

Resgatem o pensamento antes que seja tarde, 
Antes que a última pergunta desapareça das ruas. 
O mundo anda rápido demais para refletir, 
E os homens já confundem repetição com verdade 
Como pássaros cegos seguindo luzes artificiais. 

As palavras foram sequestradas pelo ruído, 
Trituradas por máquinas de pressa e espetáculo. 
Já não escutamos o peso do silêncio, 
Nem o lento trabalho da consciência 
Crescendo como árvore em terra esquecida. 

Eu peço um retorno ao espanto das ideias, 
Ao instante raro em que a alma hesita e procura. 
Pensar exige coragem em tempos anestesiados, 
Porque toda reflexão rompe grades invisíveis 
Erguidas dentro da mente coletiva. 

Resgatem os livros abandonados nas estantes, 
As conversas profundas sufocadas pelas telas, 
O direito de discordar sem se tornar inimigo. 
Há humanidade demais morrendo por dentro 
Sob a ditadura dos pensamentos prontos. 

Talvez ainda possamos salvar alguma centelha. 
Talvez a lucidez sobreviva entre poucos resistentes. 
Mas é preciso parar diante do abismo agora 
E reaprender a olhar o mundo sem filtros, 
Como quem descobre novamente o significado da existência. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 25 de junho de 2026

O pássaro

O pensamento é um pássaro que não paga aluguel. 
Entra pela janela 
Derruba a cadeira 
Bebe o resto do café frio 
E vai embora 
Como se a casa nunca tivesse sido minha. 

Já tentei expulsá-lo. 
Com trabalho. 
Com livros. 
Com promessas feitas diante do espelho. 
Ele sempre encontra uma fresta 
E ri da minha disciplina. 

Há dias em que ele pousa no ombro 
E me convence de que tudo acabou. 
No dia seguinte 
Olha para a mesma rua 
E encontra uma criança correndo atrás de uma bola. 
Não explica a mudança. 

Acho que a liberdade tem esse defeito
Não pede licença 
Nem oferece garantias. 
Apenas continua voando 
Enquanto a gente insiste em chamar isso de vida. 

Então deixo a janela aberta. 
Não por esperança. 
Nem por coragem. 
Apenas porque descobri, 
Depois de tantos anos, 
Que alguns pássaros não nasceram para ser presos, 
E alguns pensamentos também não. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inteiro

Não me cortes em fatias, caminhante; 
A pedra não escolhe qual chuva receber. 
Aceita em mim o inverno e a primavera, 
Pois a alma não se mede por instantes, 
Mas pela serenidade com que permanece. 

Quem abraça apenas o brilho da manhã 
Abandona a coragem que atravessa a noite. 
A virtude não habita as aparências, 
Mas o espírito que suporta o tempo 
Sem negociar a própria essência. 

Não sou apenas o acerto ou o erro, 
Sou o exercício contínuo de tornar-me. 
Assim como o rio aceita cada margem, 
O sábio acolhe a si mesmo por inteiro, 
Sem exaltar nem desprezar o que é. 

Não procures separar minhas sombras; 
Elas também ensinaram meus passos. 
A árvore não renega suas raízes ocultas, 
Porque sabe que delas nasce a firmeza 
Que enfrenta o vento sem se curvar. 

Abraça-me inteiro ou segue teu caminho. 
Nada se perde quando a verdade permanece. 
Quem vive segundo a razão não se divide 
Para agradar aos olhos passageiros; 
Permanece íntegro, e nisso encontra a paz. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A voz que edifica

Não quero a voz que espalha o desalento, 
Nem a palavra amarga da intriga; 
Prefiro semear, em cada momento, 
A paz que o coração sempre abriga. 
Que o verbo seja fonte de esperança, 
E o gesto revele mansidão; 
Pois o amor fortalece a confiança. 

A língua pode erguer ou destruir, 
Como o vento que dispersa a flor; 
Mas quem escolhe o bem para servir 
Transforma a dor em gesto de valor. 
Onde havia sombras, nasce a luz; 
Onde havia mágoa, o perdão; 
E a verdade conduz aos pés da cruz. 

Que meus lábios conheçam o silêncio 
Quando a ira quiser falar primeiro; 
Que a justiça caminhe com prudência, 
E a bondade floresça por inteiro. 
Não terei a má voz do difamador, 
Mas cantarei a graça do Senhor, 
Fazendo da palavra um ato de amor. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Um verso que se perde

Quem sou eu? Um verso que se perde ao vento, 
Um pobre sonhador de olhar apaixonado, 
Que traz no peito um frágil sentimento 
E ousa desejar o teu olhar tão sagrado. 

Sou feito de silêncio e desalento, 
De sonhos que não cabem no coração alado, 
Um quase, um talvez, um pensamento 
Que insiste em te querer, sempre ao meu lado. 

E tu, tão bela além de toda medida, 
Como um milagre em forma de mulher, 
És luz que invade a sombra da minha vida. 

Quem sou eu para ter o que se quer? 
Mas se o amor não pede nem valida, 
Talvez eu seja tudo que ele quer. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Leio em seus olhos

Teus olhos são livros abertos na penumbra, 
Onde a noite aprende a soletrar o desejo, 
Cada brilho é uma palavra não dita, 
Cada silêncio, um verso suspenso, 
Que minha alma insiste em ler devagar. 

Neles encontro histórias que não foram escritas, 
Mas sentidas como febre sob a pele, 
São páginas feitas de luz e vertigem, 
Onde o amor se revela sem gramática, 
E me ensina a linguagem do infinito. 

Que obra no mundo ousaria compará-los? 
Que autor escreveria tamanha verdade? 
Teus olhos não mentem, não fingem, não escondem, 
São confessionários sem paredes, 
Onde me desnudo sem medo de existir. 

Sou leitor cativo de tua profundidade, 
Perdido entre linhas que não têm fim, 
Cada olhar teu me reescreve por dentro, 
Rasga minhas certezas mais antigas, 
E me transforma em verso inacabado. 

E se um dia esses livros se fecharem, 
Restará em mim a memória da leitura, 
Como quem tocou o sagrado por instantes, 
Pois amar teus olhos é aceitar o mistério. 
Ler para sempre, sem jamais compreender. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O tempo morto

Em tudo o que se espera, algo range, 
Um fio de silêncio que ameaça romper. 
E enquanto o mundo se retarda, 
A imaginação grita pelos olhos, 
Como se o olhar fosse um cárcere por dentro. 

O poeta não escreve: ele escuta. 
Escuta o rumor de criaturas 
Que nascem do medo e da demora, 
E que se alimentam do que poderia ter sido. 

Há um limite, dizem. 
Mas o limite só existe até o instante em que é tocado. 
Depois disso, não há retorno, 
Apenas a vertigem de criar o abismo 
E de cair nele com os próprios nomes. 

Esperar é uma forma de necromancia: 
O tempo morto ressuscita ideias, 
E elas voltam deformadas, 
Mais vivas do que deveriam. 

E se há alguma fronteira, 
Ela não está no mundo, 
Mas no corpo que arde para ultrapassá-lo. 
O resto é apenas o escuro aprendendo a ver. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense