terça-feira, 18 de agosto de 2026

O peso da escolha

 Se um dia quebrarem teu coração, não voltes. 
A dor pertence ao tempo que a gerou. 
Não me peças para carregar teu fardo. 
Cada escolha conduz ao seu destino. 
Aceita o caminho que escolheste. 
 
Não lamento o que não pude governar. 
Só me pertence o governo da minha alma. 
O afeto sem prudência torna-se prisão. 
A serenidade vale mais que o arrependimento. 
Por isso permaneço onde estou. 
 
Não recolho os cacos de antigas ilusões. 
O vaso partido jamais volta ao primeiro estado. 
Mas quem aprende com a perda se fortalece. 
A virtude nasce da lucidez, não da carência. 
Assim preservo minha paz. 
 
Quem retorna apenas depois da tempestade 
Não encontrou o amor, mas o medo da solidão. 
Não sou abrigo para fugas tardias. 
Prefiro a verdade de uma ausência 
À mentira de um reencontro. 
 
Sigo adiante sem rancor nem desejo de vingança. 
O que passou já não reclama minhas forças. 
Levo comigo apenas o que edifica o caráter. 
A liberdade floresce na reta consciência. 
E a paz é a maior vitória do coração. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Além da multidão

 Não sigo pegadas apenas porque são muitas, 
Nem confundo quantidade com verdade, 
Há estradas lotadas que conduzem ao vazio, 
E caminhos silenciosos que guardam horizontes, 
Onde poucos chegam porque poucos ousam pensar. 
 
O medo caminha no meio da multidão, 
Agarra-se às certezas que todos repetem, 
Teme a solidão de uma escolha diferente, 
E chama de loucura aquilo que não compreende, 
Porque é mais fácil seguir do que questionar. 
 
A sabedoria, porém, olha mais longe, 
Não pergunta quantos seguem, mas para onde, 
Ergue os olhos além da poeira da estrada, 
Escuta o silêncio antes de dar o próximo passo, 
E prefere uma direção certa a mil passos apressados. 
 
Sei que preciso caminhar sozinho, 
Quando todos correm para o mesmo precipício, 
Porque a coragem é permanecer de pé 
Quando o mundo inteiro escolhe correr, 
E dizer não quando todos dizem sim. 
 
Pois nem sempre o caminho mais cheio é o certo, 
Nem toda voz unida revela a verdade, 
Há momentos em que pensar é resistir, 
Olhar adiante é uma forma de sabedoria, 
E caminhar sozinho pode ser o começo da liberdade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Relógios sem testemunhas

 As horas não caem. 
Acumulam-se nas bordas da xícara esquecida, 
Entre o vidro da janela 
E o rumor de uma rua que aprendeu 
A repetir os mesmos passos. 
 
Havia um relógio sobre a parede, 
Mas ninguém lhe perguntava as respostas. 
Os ponteiros apenas desenhavam círculos, 
Como pássaros presos 
À geometria do vento. 
 
Recordamos o futuro 
Com a mesma nostalgia 
Com que esquecemos o passado. 
Talvez o presente seja apenas 
Uma porta entreaberta que evitamos atravessar. 
 
Na praça, um homem alimenta os pombos. 
Os pombos alimentam o silêncio. 
O silêncio alimenta os edifícios, 
E os edifícios, pedra sobre pedra, 
Guardam nomes que já não encontram seus rostos. 
 
Quem diz que lhe falta tempo 
Talvez nunca tenha escutado 
O lento trabalho da luz sobre as sombras, 
Nem percebido que um minuto inteiro 
Pode caber no intervalo de um olhar. 
 
Quando a tarde recolhe seus espelhos, 
Permanece apenas o eco 
De tudo o que poderia ter sido vivido. 
E a noite, paciente arquivista, 
Fecha mais uma página sem fazer ruído. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Sem jamais encontrar morada

 O verdadeiro tolo caminha ereto, 
Como quem nunca caiu dentro de si, 
Traz no peito um silêncio encoberto, 
Um eco que insiste em não existir, 
E chama de paz o que é apenas fuga. 
 
Os deuses o observam de longe, 
Com olhos antigos como o tempo, 
Não punem sua falta de saber, 
Mas o orgulho de não se buscar, 
Como quem fecha os olhos diante do espelho. 
 
Tem um abismo guardado em cada homem, 
Um território de sombras e febres, 
Mas o tolo constrói pontes de mentira, 
Para não atravessar o próprio nome, 
Para não ouvir o que nele se move. 
 
Ele ri alto, como quem vence, 
Mas seu riso não conhece raiz, 
É um som que se perde no vento, 
Sem tocar o chão da verdade, 
Sem jamais encontrar morada. 
 
Dessa forma, pouco a pouco, se desfaz, 
Não por mãos divinas ou destino cruel, 
Mas por negar a própria travessia, 
Por temer o encontro com o que é, 
E viver sem jamais ter sido. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 16 de agosto de 2026

A política que promete

 A política aprendeu a falar a língua dos sonhos, 
Mas muitas vezes governa 
Com a linguagem dos interesses. 
Promete mudança antes da eleição 
E entrega desculpas depois da posse. 
 
Tem discursos que parecem pontes, 
Mas escondem abismos. 
Há promessas que brilham como ouro, 
Mas desaparecem quando chegam ao poder. 
 
O povo escuta palavras bonitas, 
Ergue esperanças, deposita confiança. 
E, não raras vezes, descobre tarde demais 
Que algumas promessas tinham prazo de validade: 
Terminavam no dia seguinte à eleição. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Só na minha cabeça

 Penso em você 
E meu coração vira um bicho ruim. 
Não um desses lobos elegantes 
Que aparecem nos poemas, 
Mas um cão magro de rua, 
Cheio de cicatrizes, 
Que rosna para a noite 
E não sabe por quê. 
 
Estou sentado, 
Olhando o copo pela metade, 
O tempo consumindo os minutos, 
E você aparece de novo. 
 
Não na porta. 
Não no telefone. 
Não na vida. 
Só na minha cabeça, 
Que às vezes é um lugar 
Mais cruel que o mundo. 
 
Então o coração começa. 
Bate forte. 
Empurra as costelas. 
Quer fugir. 
Como se houvesse alguma resposta 
Esperando por ele 
Do outro lado da cidade, 
Do outro lado do tempo, 
Ou do outro lado de você. 
 
Mas não há. 
Existem apenas os ventiladores girando, 
Os cachorros latindo ao longe, 
As contas para pagar, 
O espelho envelhecendo meu rosto 
E essa saudade estúpida 
Que insiste em sobreviver. 
 
No fim, 
O animal se aquieta. 
Deita num canto do peito, 
Ofegante, 
Derrotado. 
Até que eu pense em você outra vez. 
E tudo recomece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 15 de agosto de 2026

Louca condição

 
Que louca condição a dos mortais, 
Que correm sem saber para onde vão, 
Fazendo da ansiedade profissão, 
E dos desejos, cárceres fatais; 
Buscando glórias vãs e triunfais, 
Entregam-se à soberba e à ambição, 
Perdendo a clara luz da percepção 
Por sonhos breves, frágeis e banais. 
 
Não veem a flor que nasce no caminho, 
Nem ouvem do pardal a voz singela, 
Nem notam do crepúsculo o carinho; 
A pressa lhes governa a vida inteira, 
E a alma, feita escrava da cautela, 
Transforma ouro vivo em vil poeira. 
 
Ó século de aflita correria, 
Que vende por progresso a distração, 
E troca a contemplação pela agonia, 
Fazendo do relógio um novo altar! 
Quem para e vê descobre, em um só dia, 
Mais mundo do que aquele que viveu sem reparar. 
 
Pois a verdade habita o que é pequeno, 
Não clama em praça pública ou salão; 
Esconde-se no gesto mais sereno, 
Na sombra, no silêncio e no chão. 
Feliz aquele que, livre do veneno 
Da pressa, encontra a vida em sua simples condição. 
 
Sendo assim concluo, com mordaz conselho: 
Não sigas tão ligeiro tua estrada; 
Que muitas vezes o homem vê no espelho 
Apenas a face do nada. 
E perde, por viver de sobressalto e anseio, 
A beleza que o mundo lhe ofertava calada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Sonhos que não sabemos ouvir

 Mentes jovens estão pedindo socorro 
Em meio ao ruído de um mundo apressado, 
Olhos que escondem perguntas profundas, 
Corações que aprenderam a sorrir 
Mesmo quando por dentro desabam. 
 
Por que não nos importar com eles, 
Se amanhã caminhará sobre seus passos? 
Cada palavra que lançamos hoje 
Pode ser ponte ou abismo, 
Semente ou cicatriz. 
 
Há uma geração crescendo depressa, 
Carregando sonhos que não sabemos ouvir, 
Feridas que ninguém ensinou a nomear, 
Medos escondidos atrás das telas 
E silêncios maiores que suas próprias vozes. 
 
Não basta condenar seus caminhos, 
É preciso perguntar onde se perderam; 
Não basta apontar seus erros, 
É preciso olhar os destroços 
E lembrar que também são vidas. 
 
Porque uma geração não se perde de uma vez, 
Perde-se aos poucos, quando deixamos de olhar; 
E talvez cuidar de um jovem hoje 
Seja salvar um pedaço do amanhã 
Antes que o futuro aprenda a viver sem esperança. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O silêncio e a chama

 Pensar é acender uma luz no meio do vento. 
O intelecto, por si só, é faísca, 
Mas a disciplina é a mão que a protege, 
Paciente, firme, atenta ao sopro invisível do mundo. 
 
Há beleza no gesto de quem persiste. 
Quem retorna todos os dias à página em branco, 
À ideia que resiste, 
Ao silêncio que ensina o ouvido a escutar. 
A mente disciplinada não busca glória, 
Busca clareza, 
A pequena centelha que ilumina o instante. 
 
A disciplina não é prisão; 
É caminho. 
É a arte de voltar ao mesmo ponto 
E encontrar nele outra paisagem. 
Cada esforço, uma ponte. 
Cada erro, um mapa secreto do possível. 
 
O pensamento, quando guiado com ternura, 
É como um rio que sabe onde quer chegar, 
Ainda que suas margens sejam feitas de dúvida. 
 
O verdadeiro saber 
Não está em dominar a mente, 
Mas em caminhar com ela, 
Ouvindo seus silêncios, 
Honrando suas sombras, 
Até que o caos se transforme em música 
E a chama se torne sol. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O engano do final feliz

 Nem todo caminho que termina em luz 
Foi escolhido com sabedoria; 
Às vezes, a sorte fecha os olhos ao erro 
E chama-se vitória 
Aquilo que deveria chamar-se advertência. 
 
O imprudente atravessa o abismo 
E, ao tocar a outra margem, sorri; 
Mas a ponte não se tornou segura, 
Nem o perigo deixou de existir 
Porque seus pés chegaram inteiros. 
 
Não atribuas à razão 
Aquilo que pertenceu ao acaso; 
O homem sábio não celebra apenas o resultado, 
Examina o passo que deu 
E pergunta se poderia tê-lo evitado. 
 
Se a queda não veio, agradece; 
Se o erro não te destruiu, aprende; 
Pois a misericórdia que te preservou hoje 
Não é convite para desafiar o amanhã, 
Mas chamado à prudência. 
 
Domina, portanto, o impulso de repetir o erro; 
Não confundas livramento com aprovação; 
Há vitórias que escondem lições severas, 
E há derrotas que salvam o caráter. 
Sábio é aquele que aprende antes de cair. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A raridade dos encontros

 Raramente encontro alguém 
Que faça o pensamento parar, 
Que atravesse a conversa 
E alcance lugares 
Onde quase ninguém chega. 
 
A maioria passa diante de mim 
Como páginas que não deixam marca, 
Rostos que o tempo dissolve, 
Palavras que nascem e morrem 
Sem sequer perturbar o silêncio. 
 
Mas, às vezes, surge alguém 
Com uma estranha luz nos olhos, 
Uma maneira diferente de pensar, 
Um mistério na presença, 
E tudo se torna inesperadamente inquieto. 
 
É um choque encontrar uma pessoa assim, 
Porque ela quebra a rotina das aparências, 
Desarruma minhas certezas, 
Faz perguntas que permanecem acordadas 
Quando a conversa já terminou. 
 
Acredito que seja por isso que sejam raras. 
Porque pessoas verdadeiramente interessantes 
Não passam simplesmente pela nossa vida, 
Elas deixam uma inquietação profunda, 
E depois delas, o comum já não basta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O sonho que não se cumpriu

 O sonho que não se cumpriu 
É uma casa erguida no vazio. 
Tem janelas abertas, 
Mas nenhum olhar as atravessa. 
As portas rangem em silêncio, 
Como se esperassem um passo 
Que jamais se aproxima. 
 
É um lugar que existe 
Apenas no intervalo entre a memória e o desejo. 
Paredes de sombra sustentam um teto de silêncio, 
E dentro dele repousa a ausência, 
Como um hóspede fiel. 
 
Não há móveis, não há vozes, 
Não há cheiro de vida. 
Somente a promessa de um lar 
Que nunca se tornou abrigo. 
E, no entanto, ali está: 
Firme, intocado, resistente ao tempo, 
Como se lembrasse que até o que não se cumpre 
Tem a dignidade de sua forma imaginada. 
 
O sonho não realizado não morre, 
Ele persiste como casa vazia no meio do campo, 
Como paisagem que o coração insiste em visitar, 
Mesmo sabendo que ali não encontrará ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Porque já foi feito

 Não, Deus não está salvando o mundo agora. 
Não porque desistiu. 
Mas porque já salvou. 
No silêncio da cruz, na escuridão de um madeiro, 
A luz venceu. 
E o grito final
Está consumado!
Ecoa até hoje 
Em cada canto do coração humano. 
 
Esperamos que Deus se mova, 
Mas talvez Ele espere que nós nos movamos. 
Esperamos que Ele impeça as guerras, 
Mas esquecemos que Ele já nos deu o caminho da paz. 
Esperamos milagres visíveis, 
Mas ignoramos os pequenos milagres 
Que nascem toda vez que alguém ama, 
Perdoa ou recomeça. 
 
Deus não está ausente. 
Está no meio da sala, 
Na ferida que cura, no perdão que liberta, 
Na decisão de agir apesar do medo. 
 
A salvação não é promessa futura, 
É realidade presente. 
É uma porta aberta, não uma jaula trancada. 
É um "sim" que ecoa eternamente, 
Aguardando o nosso próprio "sim". 
 
Não precisamos convencer Deus a nos amar. 
Já somos amados. 
Não precisamos esperar que Ele aja. 
Ele já agiu. 
Agora, somos nós. 
Agora, é a nossa vez de viver como quem crê. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Onde os anjos temem caminhar

 Existem caminhos que pedem silêncio, 
Portas que exigem oração, 
Abismos cobertos de flores 
Onde o tolo corre sem olhar, 
E o sábio aprende a esperar. 
 
O tolo chama coragem à pressa, 
Confunde fé com precipitação, 
Atira-se ao desconhecido 
Como quem desafia o próprio céu, 
Sem perceber que o abismo também responde. 
 
Mas o prudente contempla a estrada, 
Mede a sombra antes de avançar, 
Escuta a voz que nasce no silêncio 
E prefere os joelhos ao orgulho, 
Quando o perigo se aproxima. 
 
Deus não nos chama a tentar Seus caminhos, 
Nem a saltar para provar que temos fé; 
Há uma sabedoria santa em recuar, 
Há uma graça escondida no silêncio, 
E há vitórias que começam quando paramos. 
 
Senhor, dá-me olhos para discernir, 
Humildade para não correr, 
Coragem para permanecer quando for preciso, 
Sabedoria para reconhecer o precipício, 
E fé para seguir somente onde Tu fores. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não lamento o desejo

 Não lamento o desejo que não se cumpriu, 
Nem a porta que permaneceu fechada; 
Aprendi que nem todo caminho perdido 
É uma derrota contra o destino, 
Às vezes, é o destino poupando meus passos. 
 
Quis o que não veio, e sobrevivi; 
Esperei o que não chegou, e amadureci; 
Pois aquele que domina o próprio querer 
Não se torna escravo daquilo que deseja, 
Nem chama de tragédia aquilo que não possui. 
 
Melhor a ausência que preserva a paz 
Que a presença que alimenta uma ilusão; 
Melhor perder um sonho antes de vivê-lo 
Que ganhar o mundo imaginado 
E perder a serenidade dentro de si. 
 
Não exigirei da vida aquilo que ela nega, 
Nem perguntarei por que fechou seus caminhos; 
Aceitarei o que não posso mudar 
E guardarei minhas forças para aquilo 
Que ainda depende da minha escolha. 
 
Hoje desejo menos e compreendo mais; 
Não porque tenha deixado de sonhar, 
Mas porque aprendi a não sofrer pelo impossível; 
Se vier, receberei com gratidão, 
Se não vier, permanecerei inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense