terça-feira, 3 de novembro de 2026

A cadeira torta

A cidade adora gente bem embalada. 
Sapatos brilhando, sorriso ensaiado, 
Uma vida inteira passada a ferro 
Para esconder os vincos da alma. 
 
Eu prefiro o café barato, 
A cadeira torta, 
O amigo que fala a verdade 
Mesmo quando ela estraga a tarde. 
 
Nunca entendi essa fome 
De parecer importante. 
A conta chega do mesmo jeito, 
O espelho envelhece do mesmo jeito, 
E a solidão não liga para marcas famosas. 
 
Há mais dignidade 
Em voltar para casa cansado 
Sabendo que não vendeu a própria consciência 
Do que desfilar como um rei 
Morando dentro de um castelo de papel. 
 
Se a felicidade aparecer, 
Que me encontre sem fantasia, 
Com as mãos sujas de viver 
E o coração limpo o bastante 
Para não precisar impressionar ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O poeta observa o tempo

 Dizem que esperar é paciência, 
Mas o que se faz, na verdade, 
É negociar com o vazio. 
Enquanto nada ocorre, 
A imaginação, inquieta, 
Abre clareiras no escuro 
E pergunta ao mundo se ele é mesmo finito. 
Pois o poeta sabe 
Que o limite não é a invenção, 
Mas o medo de testá-la. 
Há um instante em que o olhar pensa, 
E ao pensar, cria. 
E é nesse instante que o real fraqueja, 
Como se precisasse da ficção 
Para continuar existindo. 
O poeta observa o tempo 
E suspeita que o tempo também observa. 
Essa é a razão da angústia, 
A espera não é só nossa. 
O pensamento, quando empurrado às margens, 
Não se retrai, expande. 
Procura o que não há, 
Questiona o que não pode tocar, 
E desenha o impossível 
Apenas para provar que ele tem forma. 
Tudo o que se espera ganha um brilho estranho. 
Já não é futuro, mas possibilidade. 
E a possibilidade é mais sombria 
Que qualquer certeza, 
Porque exige que se escolha 
Entre inventar o abismo ou habitá-lo. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O entardecer de Cáceres

 Eu canto a ti, Cáceres, cidade de horizontes largos, 
Terra onde o sol não se despede sem antes abraçar o rio, 
Onde o Paraguai carrega nas águas a memória dos homens, 
E cada onda parece anunciar que a vida continua! 
Eu canto tuas ruas, tuas árvores, tuas casas antigas, 
Teus homens simples, teus sonhos imensos, 
E essa beleza que não pede licença para existir. 
 
Oh, Rio Paraguai! Eu te vejo e me reconheço em tuas águas. 
Quantas histórias atravessaram teu leito? 
Quantos pescadores entregaram seus pensamentos à correnteza? 
Quantos apaixonados contemplaram o céu procurando respostas? 
Tu és caminho, espelho, testemunha e eternidade. 
E quando o sol mergulha lentamente em teu horizonte, 
Parece que o próprio universo 
Se inclina para admirar tua grandeza. 
 
Eu sou também esse entardecer! 
Sou a poeira das estradas, o canto dos pássaros, 
A lembrança dos que partiram e a esperança dos que chegaram. 
Sou o menino que descobriu o mundo olhando o horizonte, 
O homem que aprendeu a conversar com as próprias lembranças, 
O poeta que encontra um universo numa tarde qualquer. 
Não me basta olhar a paisagem: quero fazer parte dela! 
 
E que ninguém diga 
Que o dia termina quando o sol desaparece, 
Pois há uma claridade que não pertence aos olhos, 
Uma chama que permanece acesa dentro dos homens. 
A noite chega, sim, mas não leva consigo a poesia. 
Ela a espalha pelas praças, pelas casas, pelas águas, 
E faz das estrelas pequenas testemunhas da nossa existência. 
 
Cáceres, eu te canto porque és maior que minhas palavras! 
És passado que respira, presente que floresce, 
Futuro que nos chama. 
És o abraço da terra, a liberdade do rio, 
A imensidão do Pantanal. 
E quando já não houver sol sobre tuas águas, 
Quando a última luz se recolher atrás das distâncias, 
Ainda haverá um poeta caminhando dentro da noite, 
Cantando a vida, celebrando o mundo e agradecendo por existir! 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Por onde andei à sua procura

 Por onde andei à sua procura, você não estava, 
Percorri caminhos que guardavam seu perfume, 
Conversei com o silêncio das ruas vazias, 
Busquei seu sorriso nas esquinas do passado, 
Perguntei ao vento se sabia de você, 
Mas ele apenas acariciou minha saudade, 
E segui sozinho, abraçado às lembranças. 
 
Procurei você nas manhãs ensolaradas, 
Nas tardes cinzentas e nas noites frias, 
Em cada canção que falava de amor, 
Em cada verso que escrevi pensando em nós, 
Mas encontrei somente pedaços de uma história, 
Um coração que ainda insiste em recordar, 
E um sentimento que o tempo não levou. 
 
Pode ser que você estivesse onde nunca procurei, 
Ou quem sabe também buscasse meus passos, 
Enquanto nossos destinos seguiam separados, 
Sem perceber que a saudade nos aproximava. 
E se algum dia nossos caminhos se cruzarem, 
Não perguntarei por que demoramos tanto, 
Apenas direi que ainda havia amor esperando por nós. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

No frêmito sutil do esquecimento

 É preciso que a saudade desenhe 
Teu perfil nas paredes da memória, 
E que o tempo, em sua lenta trajetória, 
Nem por um breve instante te desdenhe. 
 
Que o vento antigo em teus cabelos venha 
Mover a tarde vaga e transitória, 
Como quem folheasse uma história 
Que o coração, sozinho, ainda sustenha. 
 
Há gestos teus que o esquecimento ignora, 
Pois vivem mansamente no pensamento 
Como uma luz que o próprio escuro aflora. 
 
Então permaneço, em doce tormento. 
Te revivendo em cada lenta hora, 
No frêmito sutil do esquecimento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 1 de novembro de 2026

Pobre sonhador

 Quem sou eu? 
Quem sabe apenas um intervalo 
Entre o desejo e o silêncio. 
Um nome que o vento aprende e esquece. 
Um corpo cansado de caber na própria pele 
E uma alma insistente em transbordar. 
 
Sou um poeta, e isso já é uma forma de pobreza. 
Não de moedas, mas de certezas. 
Carrego versos no lugar de respostas, 
E sonhos onde o mundo exige concreto. 
Vivo do que não se toca, 
E amo aquilo que não se explica. 
 
Pobre sonhador, sim, 
Porque sonhar é arriscar-se à queda constante, 
É construir palácios onde só há chão duro, 
É acreditar que o impossível, às vezes, cochicha. 
 
E então surge ela, 
A mulher mais linda do mundo, 
Não apenas nos olhos, 
Mas naquilo que ela desperta. 
E eu me pergunto: 
Quem sou eu para merecê-la? 
 Talvez ninguém. 
E pode ser que seja exatamente isso.
 
O amor não se negocia com méritos, 
Não se pesa em posses, 
Não se mede pela grandeza de quem ama. 
O amor, quando vem, 
Não pergunta quem você é, 
Apenas entra, 
Como luz por uma fresta esquecida. 
 
Quem sabe, no fim, 
Ser poeta seja a única riqueza possível. 
Ter dentro de si um universo inteiro 
E ainda assim oferecer tudo 
A um único olhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Uma aposta idiota

 Eu te amei, garota, 
E não há nada de bonito em admitir isso 
Depois de tantas noites bebendo o silêncio 
E fingindo que a solidão 
Era apenas uma velha amiga sentada no sofá. 
 
Você foi embora, 
Como vão embora as pessoas 
Que juraram ficar, 
Deixando um copo sujo na pia, 
Um lado vazio da cama 
E essa maldita lembrança que não paga aluguel 
Mas insiste em morar comigo. 
 
Não vou dizer que me arrependo. 
O amor foi uma aposta idiota, 
Como quase tudo nesta vida, 
Mas, naquela época, 
Quando você sorria para mim, 
Até o mundo parecia menos filho da puta. 
 
Hoje, não espero mensagens, 
Não procuro seu rosto na multidão, 
Nem pergunto por você aos amigos. 
Aprendi a sobreviver à sua ausência, 
O que é diferente de esquecê-la. 
Porque é impossível dizer 
Que não te amei. 
 
Seria como negar as cicatrizes 
Só porque a ferida fechou, 
Ou dizer que nunca houve incêndio 
Porque agora só restam cinzas. 
E, acredite, 
Eu já menti para mim mesmo 
Sobre coisas muito maiores. 
Mas não sobre você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 31 de outubro de 2026

O banquete da lavagem cerebral

 Não se sacia a fome da poesia 
Com o nome estampado no prato, 
Nem com discursos servidos quentes 
Àqueles que esqueceram de pensar. 
Há mentes que devoram ilusões 
E arrotam verdades emprestadas, 
Sem jamais conhecer o sabor da liberdade. 
 
Na mesa dos donos da verdade, 
A lavagem cerebral é servida em ouro, 
Temperada com promessas e mentiras, 
Enquanto a consciência passa fome. 
E o povo, distraído com o banquete, 
Aplaude quem lhe rouba o pensamento, 
Sem perceber que a prisão também alimenta. 
 
Mas o poeta tem fome de infinito, 
Não se ajoelha diante de ideias prontas, 
Nem troca sua voz por migalhas de aplausos. 
Prefere o pão duro da lucidez 
Ao banquete farto da ignorância. 
Pois quem aprende a questionar o alimento 
Jamais será escravo de quem lhe serve. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A sombra que ficou

 A verdade é que ela foi embora. 
Não houve música, 
Não houve chuva cinematográfica, 
Nem um discurso que merecesse lembrança. 
Só uma porta fechando 
E o barulho ridículo de uma xícara sobre a pia. 
 
A saudade é uma criatura estranha. 
Não chega gritando. 
Liga uma música imaginária, 
Senta-se na cadeira da cozinha 
E espera que você diga alguma coisa. 
Mas eu não digo. 
Aprendi que certas derrotas 
Não precisam de revanche. 
 
Algumas pessoas entram na vida 
Apenas para ensinar 
Que o amor também sabe sair. 
De vez em quando o rosto dela aparece 
Numa esquina da memória. 
Eu olho, dou um leve sorriso, 
E continuo andando. 
Porque o mundo não diminuiu a velocidade 
Para lamentar ninguém. 
 
E ele pode estar certo. 
Há uma paz discreta 
Em aceitar que certas sombras 
Não querem assustar. 
Elas apenas caminham conosco, 
Como velhos companheiros 
Que conhecem nossos silêncios 
Melhor do que nossos nomes. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Uma beleza que se vê

 O mundo não mudou naquele instante, 
Foi o teu olhar que redesenhou tudo. 
Havia nele uma espécie de silêncio luminoso, 
Como se o tempo, cansado de correr, 
Tivesse decidido repousar nos teus olhos 
Só para ser visto por mim. 
 
E eu, que atravessava os dias 
Como quem não espera nada, 
Me perdi ali, 
Não como quem se confunde, 
Mas como quem finalmente encontra um lugar. 
 
Teu olhar não me tocou, 
Ele me leu. 
Folheou minhas ausências, 
Subentendeu meus medos, 
E ainda assim... ficou. 
 
Há uma beleza que se vê, 
E outra que acontece na imaginação. 
A tua não apenas existia, 
Ela me acontecia por dentro, 
Como um verso que se escreve sozinho 
Sem pedir permissão ao coração. 
 
Desde então, 
Carrego nos olhos a memória do teu olhar, 
Como quem guarda uma chama 
Sabendo que foi nela 
Que aprendeu a se aquecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Não esteja longe de mim

Não esteja longe de mim nenhum dia só, 
Nem permita que o silêncio apague tua voz, 
Quero encontrar-te nas manhãs que nascem, 
Nos sonhos que a noite guarda para nós, 
No abraço imaginado antes do sono, 
Na saudade que se desfaz quando estamos sós. 
 
Quero tua presença nas coisas pequenas, 
No café da manhã, no entardecer, 
Na palavra que chega inesperada, 
No doce privilégio de te conhecer, 
Pois há pessoas que se tornam abrigo 
E fazem da vida um lugar para viver. 
 
Se a distância atravessar nossos caminhos, 
Que o amor não se perca pelo chão, 
Que teus pensamentos encontrem os meus 
Como dois rios que se unem na imensidão, 
Porque estar perto não depende dos passos, 
Mas daquilo que permanece no coração. 
 
Não esteja longe de mim nenhum dia só, 
Seja a ternura que ilumina o meu viver, 
Quero dividir contigo o tempo e os sonhos, 
As lágrimas que caem, os risos por nascer, 
Pois, entre todas as dádivas da vida, 
A mais bonita é ter alguém para amar e querer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Companheira dos livres

 Eu celebro a pessoa que para à beira da estrada 
E contempla o horizonte antes de seguir viagem; 
Celebro aquele que escuta o rumor dos ventos, 
Que consulta o coração e a razão, 
E faz de sua escolha uma aliança com o futuro. 
 
Ó caminhante! A vida abre diante de ti mil veredas, 
E cada uma delas leva sementes invisíveis. 
Nenhum passo é pequeno demais para o tempo, 
Nenhum gesto se perde completamente no mundo; 
Tudo retorna como fruto, sombra ou memória. 
 
Eu vi os apressados correndo atrás de miragens, 
E vi os prudentes avançando com firmeza e serenidade. 
Os primeiros eram folhas entregues à tempestade; 
Os outros, árvores profundas, amigas da terra, 
Que conheciam o valor do silêncio antes da ação. 
 
Escuta! O amanhã já repousa dentro do presente, 
Como a floresta repousa dentro da semente. 
A dor que pode ser evitada pede apenas atenção, 
E a sabedoria não exige grandeza, 
Mas olhos abertos para as consequências do caminho. 
 
Por isso eu canto a reflexão, companheira dos livres; 
Canto a mente que não se curva ao impulso passageiro. 
Que cada homem e cada mulher sejam arquitetos de seus dias, 
Erguendo com cuidado as pontes sobre o desconhecido, 
Para que o futuro encontre menos ruínas e mais jardins. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Se o destino apagar nossos passos

 É impossível dizer que não te amei, 
Se ainda guardo teu nome no silêncio, 
Se tua lembrança visita minhas noites 
E teu sorriso resiste ao tempo. 
Foste a primavera dos meus sonhos, 
A doce ilusão dos meus dias, 
A saudade que nunca aprendi a esquecer. 
 
Não fomos eternos, eu sei, 
Mas houve eternidade em nossos instantes, 
Houve promessas nos olhos, 
Esperanças escondidas nos abraços, 
E um coração que acreditou no para sempre. 
Hoje, restam caminhos separados, 
E a memória de tudo o que vivemos. 
 
Se o destino apagar nossos passos, 
Se a vida nos tornar desconhecidos, 
Jamais negarei o que senti por ti. 
Porque o amor não morre com as despedidas, 
Nem se torna mentira quando chega ao fim. 
É impossível dizer que não te amei, 
Quando uma parte de mim ainda se lembra de nós. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Desejo escondido

 Tenho um desejo escondido nos dedos, 
Uma poesia querendo nascer, 
Mas a inspiração adormece em silêncio, 
E a imaginação, sem nada dizer, 
Estende-se em redes de nuvens macias, 
Enquanto o tempo se esquece de correr, 
E eu deixo a vontade adormecer. 
 
As palavras passeiam sem rumo, 
Os pensamentos bocejam no ar, 
Há versos que dormem profundamente, 
Sem pressa de um dia despertar, 
E nessa letargia tão doce e serena, 
Minha alma se entrega ao prazer de sonhar, 
Sem saber se deseja escrever ou descansar. 
 
Pode ser que a poesia não queira trabalho, 
Quem sabe ela só precise de um pouco de paz, 
Um silêncio que embale os sentidos, 
Um instante que nada nos traz, 
Pois até a preguiça tem seus encantos, 
E o verso que hoje não nasce fugaz, 
Pode florescer quando a alma quiser mais. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

As palmas do futuro

 Como saber se aquilo que nos dão no escuro 
É o sonho que em vão desejamos, 
Ou apenas a sombra de um desejo 
Que o tempo esqueceu de compreender? 
O amanhã esconde suas respostas, 
E a esperança, de olhos vendados, 
Caminha entre o medo e a ilusão. 
 
O futuro é um abismo sem margens, 
Um horizonte que nunca alcançamos, 
Um perigo adormecido nas promessas 
Que abraçamos sem conhecer. 
E o que hoje parece ser destino 
Amanhã poderá ser arrependimento, 
Pois nada se garante nas mãos do tempo. 
 
Ah, se pudéssemos abrir as mãos 
E encontrar nelas alguma certeza, 
Um sinal de que não sonhamos em vão, 
Uma luz rompendo a noite espessa! 
Mas o amanhã não cabe nas palmas, 
E a vida, entre mistérios e esperanças, 
Ensina-nos a caminhar sem garantias. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense