Onde a poeira repousa como memória antiga,
Meus pensamentos já ardiam sem corpo,
Traçados por mãos que nunca conheci,
Mas que sabiam exatamente quem eu seria.
Há uma tinta invisível correndo em minhas veias,
Como se cada ideia fosse herança esquecida,
Um sussurro vindo de séculos adormecidos,
Um eco que insiste em se tornar voz,
Mesmo quando penso estar sozinho.
Folhas rasgadas do tempo ainda me leem,
Mesmo quando sou eu quem tenta compreendê-las,
Há palavras que me encontram antes de existir,
E nelas reconheço algo que não aprendi,
Mas que sempre soube, em silêncio.
Sou escrito na margem de um livro antigo,
Um verso perdido entre histórias apagadas,
Um fragmento de um texto maior que me atravessa,
E mesmo sem ver o início ou o fim,
Sinto que pertenço a essa escrita infinita.
E quando o último pergaminho se desfizer no vento,
Quando não restar vestígio de sua matéria,
Ainda assim meus pensamentos continuarão,
Não como lembrança, mas como permanência,
De algo que jamais deixou de ser escrito.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense















