Existem pessoas que vestem o próprio nome
Como coroas feitas de fumaça,
E caminham sobre os dias
Acreditando possuir o mundo
Apenas porque não ouviram o silêncio.
Esquecem que o tempo devora espelhos,
Que a pele também aprende a cair,
E que as horas mortais regressam
Como aves sombrias da memória
Sobre os telhados da soberba.
O narcisismo é um jardim sem raízes,
Belo apenas enquanto dura a luz.
Depois, a noite revela os vazios
Guardados atrás das máscaras
E das palavras erguidas como tronos.
Há uma tentação em sentir-se invencível.
Não recordar o próprio abismo.
Mas quem esquece as antigas dores
Transforma-se lentamente em pedra
Diante do sofrimento dos outros.
Melhor é carregar alguma humildade
Como quem leva água na travessia.
Pois somente os que aceitam a finitude
Aprendem a tocar o mundo
Sem desejar possuir todas as coisas.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














