segunda-feira, 9 de março de 2026

O que será de nós?

O que será de nós 
Quando o amanhã nos encontrar desprevenidos? 
Talvez sejamos apenas silêncio, 
Com as mãos ainda cheias de planos inacabados. 
Talvez descubramos, tarde demais, 
Que a vida nunca foi feita 
Para caber nos nossos cálculos. 
 
O amanhã não bate à porta. 
Ele chega como o vento, 
Abrindo janelas que esquecemos de fechar. 
E então estaremos ali: 
Com as palavras que não dissemos, 
Os abraços que adiamos, 
Os sonhos guardados 
Como roupas para uma estação que nunca veio. 
 
O amanhã nos encontra sempre assim, 
Um pouco distraídos, 
Um pouco esperançosos, 
Um pouco humanos demais. 
Mas talvez não seja uma tragédia. 
Porque quem vive preparado demais 
Quase nunca vive de verdade. 
 
Mas pode ser que, 
Quando o amanhã finalmente nos alcançar, 
Ele não nos peça certezas, 
Apenas coragem. 
Coragem para continuar 
Mesmo sem saber o que será de nós. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Mente fragmentada

 A mente corre em mil direções dispersas, 
Acesa pelas luzes do presente, 
Mas traz no fundo, pálida e doente, 
Fadigas que nem mesmo ela confessa. 
 
São vozes, sons e imagens tão diversas 
Que a prendem num turbilhão inclemente; 
Pensa demais, e raramente sente 
A paz que em seus silêncios atravessa. 
 
Assim caminha o homem destes dias: 
Cercado de saberes e notícias, 
Mas pobre de repouso e de inteireza. 
 
Seu pensamento, sempre dividido, 
É como um espelho antigo, partido, 
Refletindo o mundo em mil fraquezas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O olhar além das ruínas

 Abrir os olhos não é apenas acordar. 
É permitir que a luz atravesse 
As ruínas que carregamos. 
Tem dias em que tudo parece um campo de escombros: 
Sonhos quebrados, planos que não chegaram, 
Palavras que ficaram presas no ar 
Como pássaros feridos. 
Mas mesmo nas cidades destruídas 
O vento ainda encontra caminhos entre as pedras. 
 
Abrir os olhos é perceber isso. 
Que entre as rachaduras do concreto 
Sempre nasce alguma coisa verde. 
E então abrimos os braços. 
Não para vencer o mundo, 
Mas para senti-lo. 
 
O vento passa pelo corpo 
Como se lembrasse à pele 
Que estamos vivos. 
O cheiro das flores não pergunta 
Se merecemos beleza. 
Elas simplesmente existem, 
E nos alcançam. 
 
Quem sabe viver seja isso: 
Olhar além das ruínas 
Sem negar que elas estão ali, 
Mas também não esquecer 
Que há céu acima delas. 
Respirar fundo. 
Sentir o vento. 
Cheirar as flores. 
Porque, no fim, 
Antes de qualquer explicação do universo, 
Nós estamos aqui. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 8 de março de 2026

Estamos sendo vigiados

 Tem um olho enorme pairando sobre a cidade. 
Não é de carne nem de divindade, 
É feito de telas, 
De slogans, 
De dados coletados em silêncio. 
Ele não pisca. 
Não dorme. 
E não precisa gritar ordens. 
Basta sugerir. 
 
Nas vitrines iluminadas, 
Nas propagandas 
Que prometem felicidade em parcelas, 
Nas frases curtas que cabem em quinze segundos 
E convencem uma multidão 
De que escolheram livremente. 
 
Mas quase nada é escolha. 
Alguém escreveu o roteiro antes. 
Alguém definiu o desejo 
Antes que ele nascesse em nós. 
 
As ruas estão cheias de pessoas caminhando 
Com as próprias algemas nos bolsos, 
Chamando-as de conforto, 
Chamando-as de progresso. 
 
O olho observa. 
Ele aprende nossos medos, 
Arquiva nossos gostos, 
Mede nossas hesitações. 
E então devolve ao mundo 
Uma realidade cuidadosamente editada. 
Uma verdade filtrada. 
Uma opinião pronta. 
 
A vigilância moderna não precisa de soldados. 
Ela prefere algoritmos. 
Não precisa de censura explícita, 
Basta afogar a verdade em um mar de distrações. 
 
Enquanto isso, 
O grande olho cresce. 
Alimentado por cliques, 
Por selfies, 
Por confissões voluntárias 
Que chamamos de rede social. 
 
O mais inquietante 
Não é o fato de estarmos sendo observados. 
Mas o fato de que, aos poucos, 
Aprendemos a nos comportar 
Como se o olho estivesse sempre olhando. 
 
E assim a prisão se completa. 
Sem muros. 
Sem grades. 
Apenas com um olho gigantesco no céu digital 
E milhões de pessoas 
Que já esqueceram 
Como é viver fora do seu campo de visão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Esquina da ilusão

Há quem caminhe pela vida 
Como quem dobra esquinas imaginárias. 
Acredita que logo ali, 
Depois da próxima curva da rua, 
Da próxima cidade, 
Do próximo rosto bonito, 
Alguma coisa finalmente acontecerá, 
Algo que justificará todas as esperas. 
 
Mas a esquina 
É uma promessa que nunca aprende a cumprir. 
Cada nova rua parece carregada de esperança: 
Talvez a próxima conversa seja diferente, 
Talvez o próximo olhar permaneça, 
Talvez a próxima garota 
Seja exatamente aquela que, em segredo, 
Sempre se esperou encontrar. 
 
E então vem o encontro. 
O sorriso. 
Alguns dias de luz. 
Depois, de novo, a esquina. 
 
Há uma espécie de miragem emocional 
Que nos empurra para frente: 
A crença de que a vida verdadeira ainda não começou, 
Que o amor real ainda não chegou, 
Que o lugar certo ainda está alguns passos adiante. 
 
Mas às vezes a ilusão não está na esquina. 
Está em nós. 
Porque passamos pelas pessoas 
Como viajantes que não desmontam as malas. 
Olhamos os rostos 
Procurando aquilo 
Que já imaginamos antes de conhecê-los. 
 
E quando não encontramos 
Exatamente o sonho, seguimos andando. 
Outra esquina. 
Outra promessa. 
 
Até que um dia se percebe algo desconcertante: 
Talvez a vida 
Não esteja escondida na próxima esquina. 
Talvez ela estivesse 
Nas ruas pelas quais passamos distraídos. 
 
E talvez aquela garota 
Que parecia não ser “a certa” 
Apenas tivesse chegado no momento 
Em que ainda estávamos ocupados demais 
Procurando a próxima curva da estrada. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 7 de março de 2026

Manifesto de um leitor

 Alguns se ajoelham diante do dinheiro. 
Outros erguem altares para a fama. 
Vivem de aplausos, de cifras, 
De nomes gravados em vitrines. 
Eu não. 
 
A minha paixão 
Não faz barulho. 
 Ela vive no silêncio das páginas, 
No cheiro antigo do papel, 
No instante sagrado 
Em que um livro se abre como uma porta. 
 
Enquanto muitos querem ser vistos, 
Eu prefiro ver. 
Ver mundos. 
Ver vidas. 
Ver o que existe 
Por trás das máscaras humanas. 
 
Os livros não me prometem riqueza. 
Não me prometem glória. 
Mas me dão algo maior: 
Mil vidas em uma só 
E uma alma que nunca para de crescer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Uma geração estranha

 Vivemos entre uma geração estranha. 
Não estranha 
Como as estrelas que surgem cedo no céu, 
Mas estranha 
Como prédios vazios iluminados de madrugada. 
 
Há algo quebrado em seus corações. 
Não uma tristeza simples, 
Mas destroços. 
Como se cada peito 
Guardasse os restos de uma guerra 
Que ninguém lembra quando começou. 
 
Cresceram entre telas que piscam 
E silêncios que não abraçam. 
Entre promessas que chegaram quebradas 
E sonhos embalados em plástico. 
 
Às vezes penso que vivem todos 
Numa espécie de clínica maligna 
No topo de um edifício muito alto, 
Onde as janelas não se abrem 
E o vento não entra para bagunçar os pensamentos. 
Ali tratam a alma como quem trata um sintoma. 
Silenciam perguntas. 
Anestesiam o espanto. 
 
Então descem para as salas de aula 
Com olhos cansados antes mesmo da vida começar. 
Alguns não sabem o que fazer com a própria dor 
E acabam perfurando os assentos escolares 
Como se quisessem atravessar a madeira 
E alcançar um chão mais verdadeiro. 
 
Talvez não seja rebeldia. 
Talvez seja apenas um pedido de socorro 
Escrito com objetos pontiagudos. 
Porque quem tem destroços no coração 
Não sabe sempre construir pontes. 
Às vezes só sabe cavar. 
 
Eu ainda acredito 
Que em algum lugar dentro desses escombros 
Existe uma pequena brasa. 
E basta um gesto humano, 
Um olhar que não julgue, 
Uma palavra que não venha armada, 
Para que esses jovens estranhos 
Descubram, enfim, 
Que seus corações não foram feitos 
Para carregar ruínas, 
Mas para aprender, lentamente, 
A reconstruir o mundo onde vivem. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Colunas de fumaça

 As bombas sempre falam primeiro. 
Elas não pedem licença à história, 
Nem consultam a consciência. 
Erguem-se como nuvens negras 
Que fingem ser tempestades, 
Mas não trazem chuva, apenas cinza. 
 
Do chão rasgado da terra 
Sobem colunas de fumaça 
Que tentam imitar o céu. 
São nuvens poluídas de medo, 
De ódio antigo, 
De decisões tomadas em salas silenciosas 
Onde ninguém ouve o choro das cidades. 
 
Enquanto isso, 
Em algum lugar entre os escombros do mundo, 
Palavras frágeis continuam tentando nascer. 
Palavras melancólicas, 
Escritas com a tinta escura da esperança ferida. 
Elas batem, uma a uma, 
Contra os escudos invisíveis da ignorância humana. 
 
Escudos que não são de aço, 
Nem de pedra, mas de orgulho, 
De propaganda, 
De certezas 
Que nunca aprenderam a duvidar de si mesmas. 
 
As palavras insistem. 
São pequenas, 
Quase ridículas diante do estrondo das bombas. 
Mas ainda assim se levantam, 
Como ervas teimosas entre as ruínas. 
Porque talvez, apenas talvez, 
Uma única frase compreendida 
Seja mais poderosa 
Do que mil explosões celebradas. 
 
Quando as nuvens da guerra 
Finalmente se dissiparem, 
Não será a fumaça 
Que permanecerá na memória do mundo. 
Serão as palavras 
Que conseguiram atravessar 
A muralha silenciosa da ignorância 
E lembrar aos homens 
Que eles nasceram para construir céu, 
Não para fabricarem 
Novas nuvens de destruição. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 6 de março de 2026

Eu te desejo

 Eu te desejo 
Não como quem quer possuir um corpo, 
Mas como quem encontra uma chama 
No meio de uma noite longa. 
 
Eu te desejo 
Porque há algo em você 
Que conversa com os silêncios 
Que eu carrego por dentro. 
 
Não é apenas o toque que imagino, 
É a possibilidade de existir ao teu lado 
Sem precisar esconder 
As minhas partes mais indomáveis. 
 
Eu te desejo 
Porque quando penso em você 
O mundo parece menos rígido, 
Menos feito de paredes 
E mais de caminhos. 
 
Há pessoas que passam pela vida 
Como paisagens que vemos da janela, 
Bonitas, talvez, mas distantes. 
Mas você não. 
Você é como um lugar 
Onde a alma quer parar, 
Tirar os sapatos do cansaço 
E permanecer um pouco. 
 
Meu desejo por você é isso: 
Não a fome apressada do instante, 
Mas essa vontade estranha 
De que duas existências 
Se reconheçam no meio da multidão do mundo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O rumor do vento nas árvores

Às vezes sinto que o coração enferruja. 
Não de ódio, mas de silêncio, 
De pressa, de dias repetidos. 
É como se o tempo, ao passar, 
Deixasse uma poeira fina sobre a alma. 
Então percebo 
Que preciso ir para perto da natureza. 
 
Preciso do rumor do vento nas árvores, 
Do barulho discreto das folhas 
Que se despedem dos galhos, 
Do sol que não pede licença para tocar o rosto. 
 
A natureza não pergunta quem eu fui ontem 
Nem o que esperam de mim amanhã. 
Ela apenas me recebe. 
Ali, entre a terra e o céu, 
Algo começa a se soltar dentro de mim. 
 
O coração, que antes rangia como porta antiga, 
Vai sendo lavado 
Pela simplicidade das coisas vivas: 
A água que corre sem destino, 
O pássaro que canta sem plateia, 
A árvore que cresce sem ansiedade. 
 
Percebo então 
Que a ferrugem não era do coração, 
Era do mundo que se acumulava sobre ele. 
 
Cada vez que caminho entre árvores, 
Cada vez que escuto o silêncio de um rio, 
Cada vez que sinto o cheiro da terra molhada, 
É como se Deus, pacientemente, 
Passasse sobre minha alma 
Um pano de eternidade. 
E pouco a pouco, 
O coração volta a brilhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 5 de março de 2026

Apenas desejos

No fundo do peito, 
Há cavernas onde o silêncio sangra, 
E cada desejo oculto 
É uma lâmina embainhada em sombras. 
 
São rios escuros que correm sob a pele, 
Arrastando segredos como corpos submersos, 
Sussurros que o coração enterra 
Para não ser devorado pelo próprio fogo. 
 
Ardem como tochas proibidas, 
Consumindo a carne em segredo, 
Feridas que não fecham, 
Ecoando como tambores na noite. 
 
Às vezes surgem em sonhos, 
Fantasmas de tudo o que não foi vivido, 
Abismos que se abrem atrás dos olhos 
E chamam pelo salto. 
 
Mas o peito cala, porque sabe: 
Se o mundo visse tais desejos, 
Recuaria com medo. 
E assim o coração, em sua escuridão, 
Carrega seu fardo ardente, 
Como um altar secreto 
Alimentado por sangue e silêncio. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O que escrevo aqui

 
Hoje, outra vez, não disse. 
O silêncio parece ter se tornado minha língua materna. 
E, de algum modo, falar seria uma traição 
A tudo o que sinto quando não falo. 
 
Olhei para você e foi como olhar para um eclipse: 
Belo demais para encarar por muito tempo, 
Perigoso demais para não olhar. 
Guardei os olhos para dentro. 
E deixei que o momento passasse, 
Como sempre. 
 
Às vezes acho que o sentimento é uma ferida aberta 
Que eu escondo sob a pele. 
Não sangra para fora, 
Mas arde quando respiro. 
Quando você fala, a dor muda de lugar, 
Se espalha pelo corpo 
Até se tornar impossível saber onde começou. 
 
Meu medo é que, se eu abrir a boca, 
Não saia voz, 
Mas uma enxurrada. 
E essa correnteza arraste tudo, 
Até o pouco de paz que existe entre nós. 
 
Então escrevo aqui. 
Onde posso dizer sem ser ouvido. 
Onde posso confessar que cada gesto seu 
Me atravessa como um corte fino, 
Profundo o bastante para que eu saiba 
Que nunca vou me curar. 
E talvez eu nem queira. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 4 de março de 2026

O homem contemporâneo

 O homem contemporâneo 
Caminha por corredores invisíveis. 
Não há paredes, mas há pressa. 
Não há portas, mas há metas. 
E mesmo assim, 
Ele sente que está sempre atrasado. 
 
Corre atrás de números, 
Metas, notificações, 
Promessas de felicidade em parcelas pequenas. 
Acredita que o próximo reconhecimento será a chave, 
Que o próximo aplauso o fará finalmente descansar. 
Mas quando chega lá, o corredor continua. 
 
Há algo estranho 
Na arquitetura do nosso tempo: 
Quanto mais caminhos surgem, 
Menos sabemos para onde estamos indo. 
 
O prazer é imediato, 
Mas a alegria demora a chegar. 
O reconhecimento é público, 
Mas o vazio permanece íntimo. 
 
O homem contemporâneo 
Aprendeu a produzir sem parar, 
Mas esqueceu de habitar a própria alma. 
Aprendeu a responder mensagens, 
Mas desaprendeu a escutar o silêncio. 
 
E assim ele corre, 
Não porque sabe para onde vai, 
Mas porque teme parar 
E descobrir que se perdeu de si mesmo. 
 
Creio que a verdadeira saída 
Desses corredores invisíveis 
Não esteja em correr mais rápido, 
Mas em parar no meio do caminho, 
Encostar a cabeça no próprio silêncio 
E perguntar, com coragem: 
“Em que momento eu deixei de caminhar 
E comecei apenas a fugir?” 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O dia inteiro era você

Pense em mim 
Como um dia estranho de sol, 
Desses em que a luz não sabe bem 
Se nasce ou se esconde. 
 
Pense em mim 
Como uma manhã silenciosa 
Em que o sol não refletia 
A tua imagem inteira 
Despida apenas na minha fantasia. 
 
Porque há corpos 
Que não precisam da pele 
Para existir. 
Basta a memória 
Desenhando curvas 
No escuro do pensamento. 
 
Pense em mim 
Como quem lembra de um verão antigo, 
Quando a luz atravessava as janelas 
E inventava em nós 
Paisagens que nunca aconteceram. 
 
Quem sabe eu tenha sido isso: 
Um lugar onde teu nome 
Se deitou um instante 
Entre desejo e silêncio. 
E o sol, distraído, não percebeu 
Que dentro de mim 
O dia inteiro era você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 3 de março de 2026

Embriagar-me-ei de poesia

Embriagar-me-ei sem cessar, 
Porque a lucidez do mundo é áspera demais. 
As ruas falam em números, 
Os homens respiram prazos, 
E os relógios devoram o pulso do tempo. 
 
Mas eu escolho outro vício. 
 
Embriago-me de palavras que ainda não nasceram, 
De sílabas que tremem como lâminas 
E depois se tornam asas. 
Bebo metáforas como quem bebe vinho antigo, 
Deixando que me queimem por dentro 
Até queimar também o medo. 
 
Embriagar-me-ei de poesia 
Porque só ela me devolve o espanto. 
Só ela rasga o tecido opaco do dia 
E revela o invisível, 
Esse fio dourado que sustenta o caos. 
 
Que me chamem de insensato. 
Prefiro cambalear entre versos 
Do que caminhar sóbrio na aridez das certezas. 
Prefiro o delírio que cria 
Ao equilíbrio que apaga. 
 
Embriagar-me-ei de poesia 
Como quem mergulha no próprio abismo 
E descobre que o fundo 
É, na verdade, o próprio céu. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense