quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Não amaldiçoo o destino

 Foi acabar bem na nossa vez. 
Não discuto o veredito do tempo. 
O que veio, veio por sua natureza; 
O que partiu, partiu pelo mesmo caminho. 
Aceitar também é uma forma de vencer. 
 
Nada nos pertenceu de fato. 
Nem os dias, nem os abraços, nem as promessas. 
Somos hóspedes de instantes passageiros, 
E a sabedoria começa 
Quando deixamos de exigir permanências. 
 
A perda não diminui o vivido. 
Apenas revela a medida das coisas. 
Quem aprende a agradecer o percurso 
Não se revolta com o ponto final; 
Compreende que tudo cumpre seu ciclo. 
 
Não amaldiçoo o destino. 
Faço da serenidade a minha resposta. 
O coração encontra paz 
Quando deseja apenas o que depende de si 
E entrega o restante ao curso da vida. 
 
Foi acabar bem na nossa vez. 
Que assim seja. 
Levo comigo o que me tornou melhor, 
E deixo para o vento o que não posso guardar. 
A virtude permanece quando tudo o mais passa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Diante do infinito

 Caminho só entre a terra e o céu, 
Com perguntas maiores que minha voz. 
A multidão me oferece um papel, 
Mas minha alma procura outro algoz: 
O silêncio que revela quem sou. 
 
A angústia não é sombra que condena; 
É a porta estreita da liberdade. 
Cada escolha rompe uma corrente, 
E faz nascer, na eternidade, 
O homem que decido ser. 
 
Não encontro repouso nas certezas, 
Nem na razão que tudo quer medir. 
Há um abismo entre minhas fraquezas 
E o infinito que insiste em me seguir, 
Chamando-me para além de mim. 
 
A fé não dissolve meus temores, 
Nem transforma a noite em pleno dia. 
Ela sustenta meus passos vacilantes, 
Quando a esperança desafia 
O que meus olhos não conseguem ver. 
 
Peregrino sou, sem fugir de mim, 
Entre o tempo e o eterno a me buscar. 
Se cair, recomeço até o fim, 
Pois viver é ousar acreditar 
Quando somente Deus pode responder. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre o silêncio e o caminho

 Nasci sem mapa para a travessia, 
Com o vazio a me interrogar. 
Cada manhã inventa um novo dia, 
E sou eu quem decide caminhar, 
Mesmo sem saber onde vou chegar. 
 
O mundo não responde às minhas perguntas, 
Guarda um silêncio antigo e profundo. 
As certezas desmancham-se todas juntas, 
E descubro, diante do mundo, 
Que viver é criar um segundo. 
 
Carrego o peso das minhas escolhas, 
Sem outro culpado além de mim. 
O destino não escreve minhas folhas; 
Sou autor do meu próprio jardim, 
Ainda que floresça sem fim. 
 
Às vezes a noite parece infinita, 
E a esperança aprende a vacilar. 
Mas a consciência jamais se evita: 
Quem foge de si torna a encontrar 
A mesma pergunta em qualquer lugar. 
 
Se a vida não traz um sentido pronto, 
Cabe ao coração fazê-lo nascer. 
Cada passo transforma o horizonte em ponto, 
E, enquanto escolho permanecer, 
Descubro que existir é sempre renascer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Distâncias

 Meu pensamento sempre encontra o caminho. 
O corpo, não. 
Essa é a piada que a vida conta 
Enquanto o café esfria 
E a noite finge que sabe de alguma coisa. 
 
Ele chega até você 
Como quem entra num bar vazio: 
Sem bater na porta, 
Sem pedir licença, 
Sem prometer que vai ficar. 
 
O coração é mais complicado. 
Não quebra de uma vez. 
Vai rachando devagar, 
Como uma calçada antiga 
Que ninguém se preocupa em consertar. 
 
Às vezes acho que amar 
É perder discussões para o silêncio. 
Você segue vivendo do seu lado do mundo, 
Eu continuo deste, 
E nenhum dos dois vence a distância. 
 
Quando meu pensamento volta, 
Traz o seu nome nos bolsos 
E um cansaço difícil de explicar. 
O coração apenas suspira, 
Acende mais um dia e continua batendo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A travessia do pensamento

 O pensamento atravessa a tarde como uma ave sem estação. 
Não pergunta pelo nome das árvores, 
Nem pela idade das pedras. 
Apenas risca o céu 
E deixa no silêncio um vestígio que ninguém recolhe. 
 
As ruas carregam o cansaço das horas. 
As janelas observam o mundo sem expectativa. 
Há uma poeira antiga sobre os gestos cotidianos, 
Como se cada passo repetisse 
Uma pergunta esquecida antes de ser formulada. 
 
Procuro um centro entre tantas direções. 
O relógio responde com o seu ofício indiferente. 
As sombras alongam o que não compreendo. 
Mesmo a luz parece hesitar 
Diante daquilo que não pode explicar. 
 
Quem sabe a alma seja apenas um corredor 
Por onde passam vozes sem rosto. 
Reconheço algumas, mas nenhuma permanece. 
O pensamento continua seu voo, 
Estranho até para quem o abriga. 
 
Quando a noite enfim recolhe os contornos do mundo, 
Resta apenas o espaço entre uma respiração e outra. 
É ali que descubro a medida da existência: 
Não na posse das respostas, 
Mas na coragem de permanecer diante do mistério. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não me cortes em fatias

 Não me cortes em fatias. 
Cada parte perderia o nome da outra. 
Sou a soma das perguntas que me habitam, 
E o vazio que me atravessa 
Também é uma forma de existir. 
 
Não me escolhas apenas nos dias claros. 
A noite revela o que o sol esconde. 
Há uma verdade nas minhas incertezas 
Que nenhuma máscara consegue silenciar, 
Porque existir é caminhar sem garantias. 
 
Se me abraças, abraça também meus abismos. 
Não para preenchê-los, mas para reconhecê-los. 
O ser humano não nasce acabado; 
Constrói-se entre escolhas e renúncias, 
Como quem escreve o próprio destino no escuro. 
 
Não procures um sentido pronto em mim. 
Sou obra inacabada de cada instante. 
O significado não me espera adiante; 
Ele nasce quando assumo a liberdade 
E aceito o peso de ser quem sou. 
 
Se não podes acolher-me inteiro, parte. 
Prefiro a solidão à existência fragmentada. 
Ninguém vive plenamente em pedaços, 
Pois a alma, quando dividida para agradar, 
Deixa de reconhecer a própria voz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Último sonho

 Não existe um sino anunciando 
O último sonho. 
Você apenas percebe 
Que o café esfriou 
E que ninguém está esperando por você. 
 
A vida sempre cobra a conta. 
Alguns pagam com dinheiro, 
Outros com noites em claro. 
No fim, todos deixam algumas moedas 
Sobre a mesa do tempo. 
 
Eu já quis mudar o mundo. 
Depois quis mudar a mim mesmo. 
Descobri que ambas as tarefas 
Quebram os ossos 
De quem insiste demais. 
 
Quando o último sonho chegar, 
Não quero discursos. 
Abra a janela, deixe o vento entrar, 
E permita que o silêncio faça 
O trabalho que sempre soube fazer. 
 
Se houver alguma vitória, 
Ela será pequena: 
Ter atravessado o caos sem vender a alma, 
Ter encontrado um ou dois sorrisos verdadeiros, 
E partir sem fingir que a vida devia ter sido outra. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Você chegou devagar

 Você chegou devagar aos meus dias, 
Como a manhã que afasta a escuridão. 
Sem perceber, passei a procurar 
Sua presença em cada instante, 
Como quem busca abrigo no coração. 
 
Há algo em você que me transforma, 
Algo que não consigo explicar. 
Quando penso no futuro distante, 
É ao seu lado que me imagino, 
Aprendendo a viver e sonhar. 
 
Às vezes temo os caprichos do destino, 
As curvas ocultas da estrada. 
A vida nem sempre avisa 
Quando prepara suas despedidas 
Ou muda a direção da jornada. 
 
E se um dia o tempo nos separar, 
Restará em mim a sua lembrança. 
Mas confesso que o mundo perderia 
Parte de sua beleza e sentido, 
Como uma noite sem esperança. 
 
Por isso guardo cada momento, 
Cada palavra e cada olhar. 
Porque você se tornou, aos poucos, 
Mais do que um amor em minha vida. 
Tornou-se meu modo de amar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Os dias sem esperança

 Carrego dias imóveis nos bolsos da alma, 
Como pedras frias recolhidas no vazio. 
O relógio continua ferindo as paredes, 
Mas dentro de mim o tempo apodrece lento, 
Feito fruta esquecida no fundo da existência. 
 
Caminho entre rostos e vozes apressadas, 
E ninguém percebe meu inverno silencioso. 
Há uma multidão atravessando as ruas, 
Mas eu me sinto perdido fora do mundo, 
Como uma sombra sem origem nem destino. 
 
À noite converso com meus próprios abismos, 
Pergunto ao escuro quem ainda sou. 
As respostas não chegam em palavras, 
Somente o silêncio respirando perto de mim 
Como um animal cansado de sobreviver. 
 
Já tentei encontrar sentido nas estrelas, 
Nas orações, nos livros e nos espelhos, 
Mas tudo parecia distante demais 
Para alguém que desaprendeu a esperança 
E passou a morar dentro da ausência. 
 
Ainda assim desperto em cada manhã, 
Mesmo sem entender o motivo do retorno. 
Talvez exista algo em mim resistindo, 
Uma pequena chama escondida na ruína, 
Recusando-se a morrer completamente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 20 de setembro de 2026

Condenados ao tempo

 A noite não me pergunta quem sou. 
Apenas estende sua escuridão sobre mim. 
Nela descubro que a ausência também respira, 
E que existir, às vezes, 
É permanecer onde ninguém ficou. 
 
Procuro teu rosto na memória, 
Mas a lembrança nunca devolve a presença. 
O passado é um espelho quebrado: 
Reflete tudo, 
Menos aquilo que ainda desejo tocar. 
 
As horas não possuem piedade. 
Não aceleram por amor nem retardam pela dor. 
Somos viajantes condenados ao tempo, 
Colecionando perguntas 
Que jamais encontrarão resposta. 
 
Pode ser que o amor seja apenas isto. 
Um sentido que inventamos para desafiar o vazio. 
Quando partes, permanece a consciência 
De que até a esperança 
É uma forma delicada de solidão. 
 
No meu silêncio eu ainda escrevo. 
Não para chamar teu nome de volta, 
Mas para impedir que o silêncio me defina. 
Se nada possui permanência, 
Que ao menos o verso sobreviva a mim. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nada em você

 Você fala de mim 
Como quem olha uma janela suja 
E acha que viu a casa inteira. 
Não viu. 
Viu apenas o reflexo da própria cara. 
 
As pessoas gostam de distribuir certezas 
Como quem distribui livros baratos. 
Acendem uma fraca luz, 
Que não ilumina por dentro, 
E chamam isso de verdade. 
 
Eu já perdi tempo demais 
Tentando explicar minha vida 
Para quem nunca quis escutar. 
Agora deixo que o silêncio 
Faça o trabalho que as palavras não conseguem. 
 
Não preciso que gostem de mim. 
O café continua amargo, 
O dia continua difícil, 
E ainda assim acordo, 
Visto minha pele e sigo em frente. 
 
Não há nada em você 
Que possa dizer algo sobre mim. 
Mas há muito em tudo o que você diz 
Que explica por que carrega esse peso 
Mesmo quando sorri. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 19 de setembro de 2026

Escolho permanecer

 Nasci entre perguntas sem resposta, 
Num mundo que não pediu meu nome. 
Carrego falhas como quem carrega sombra, 
E às vezes tropeço no que sou. 
A perfeição nunca me encontrou. 
 
Vejo os dias passarem indiferentes, 
Como rios que não sabem para onde vão. 
A razão é apenas uma pequena lanterna 
Erguida contra a vastidão da noite, 
Um gesto humano diante do infinito. 
 
Talvez eu não seja inteiro nem reto, 
Talvez haja desvios em minha alma. 
Sou feito de escolhas inacabadas, 
De medos que vestem meu silêncio, 
E de ausências que me acompanham. 
 
Mesmo assim, escolho permanecer. 
 Escolho dar sentido ao que parece vazio. 
Em cada ato simples e consciente, 
Respondo ao absurdo da existência 
Com a coragem de continuar. 
 
E quando penso em ti, algo resiste. 
Não à morte, nem ao tempo, nem ao esquecimento, 
Mas à indiferença que ronda os dias. 
Pois, mesmo imperfeito e passageiro, 
Amo-te do fundo do meu coração. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não vejo mais você

 Não vejo mais você. 
Aceito o que o destino me entregou. 
Nem toda partida pede explicações. 
O coração também aprende pela perda. 
E sigo o caminho que ainda me resta. 
 
A saudade bate à porta, 
Mas não governa meus passos. 
As lembranças existem, 
Sem que eu me torne prisioneiro delas. 
A serenidade é minha escolha. 
 
Não posso mudar o passado. 
Também não posso apressar o amanhã. 
Tenho apenas este instante, 
Onde cultivo a firmeza da alma 
E a paz que nasce da aceitação. 
 
Se o amor foi verdadeiro, 
Não preciso apagá-lo. 
Basta honrá-lo em silêncio, 
Sem exigir o retorno do que partiu, 
Nem lamentar o que não depende de mim. 
 
Assim caminho com o tempo. 
Levo a memória sem carregar correntes. 
A ausência já não é inimiga, 
Mas uma mestra que ensina desapego 
E fortalece o espírito. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Viajantes

 Há uma hora suspensa entre o relógio e a lembrança; 
É nela que meu pensamento atravessa a tarde 
Como um pássaro que desconhece fronteiras. 
As ruas permanecem imóveis, 
Mas dentro delas o tempo muda de direção. 
 
Se ele encontra você, não sei quem retorna. 
Talvez apenas o eco de uma pergunta antiga, 
Repetida pelos corredores da memória 
Onde as janelas se abrem para um céu sem resposta 
E cada silêncio possui o peso de uma catedral vazia. 
 
O coração aprende a linguagem das ausências. 
Não grita; acumula poeira sobre os nomes, 
Como livros esquecidos em uma biblioteca antiga. 
Ainda assim, basta uma lembrança 
Para que todas as páginas voltem a respirar. 
 
Somos viajantes de instantes incompletos, 
Colecionadores de encontros que nunca terminam. 
Chamamos de destino aquilo que não compreendemos, 
E de saudade aquilo que insiste em permanecer 
Quando todas as despedidas já foram pronunciadas. 
 
Então meu pensamento repousa onde você está, 
Enquanto meu coração permanece entre dois mundos: 
Um feito de passos que o tempo consome, 
Outro de perguntas que nenhuma manhã dissolve. 
Nesse intervalo, a vida silenciosamente nos escreve. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cada aluno

 Educar é permanecer na soleira do desconhecido, 
Onde nenhuma resposta dura para sempre. 
O vento do pensamento atravessa os corredores da alma 
E leva consigo as certezas que julgávamos eternas. 
Resta-nos o silêncio e a pergunta. 
 
Cada aluno carrega um universo incompleto, 
Um enigma que nem ele próprio compreende. 
Tentamos oferecer mapas e direções, 
Mas a existência insiste em inventar outros caminhos. 
E toda rota termina em novas dúvidas. 
 
Há um risco em ensinar: ser transformado. 
A ideia que lançamos ao mundo retorna diferente, 
Vestida de experiências que não vivemos. 
O pensamento não respeita proprietários. 
Ele pertence ao movimento. 
 
Por vezes, o vento chega como tempestade, 
Arrancando crenças das raízes mais profundas. 
Descobrimos então que aprender não é acumular, 
Mas perder versões antigas de si mesmo 
Para habitar outras possibilidades. 
 
Educar é caminhar sem garantias, 
Aceitando a fragilidade de toda verdade humana. 
Sob o céu indiferente do tempo, 
Mestres e aprendizes seguem lado a lado, 
Expostos ao mesmo vento infinito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense