quarta-feira, 13 de maio de 2026

Um papel em branco

Estou diante de um papel em branco 
Esse deserto silencioso 
 Onde a alma hesita antes do primeiro passo. 
Minhas mãos desejam escrever, 
Mas não procuram palavras. 
Procuram vestígios teus. 

Minha mente vagueia pelos corredores da memória 
Tentando reencontrar os olhos 
Daquela que me faz viver 
Mesmo quando a noite pesa sobre meus ombros 
Como um inverno sem fim. 

Há amores que se tornam linguagem. 
Basta pensar neles 
E os versos começam a respirar sozinhos, 
Como se o coração abrisse lentamente 
Uma janela voltada para o infinito. 

É aí então que percebo. 
O papel nunca esteve vazio. 
Nele já existia tua ausência, 
Teu nome escondido entre silêncios, 
E essa saudade luminosa 
 Que insiste em florescer dentro de mim. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 12 de maio de 2026

A solidão possui música secreta

Existe uma canção perdida no escuro, 
Presa entre paredes e fotografias, 
Cantada por relógios sem futuro 
E por noites longas, frias e vazias, 
Onde o silêncio aprende a ser murmúrio. 
 
Ela não fala de amantes abraçados, 
Nem de promessas feitas ao luar, 
Mas de caminhos nunca atravessados, 
De mãos suspensas antes de tocar 
E de afetos calados, sepultados. 
 
Há nomes que morreram sem ternura, 
Sem o calor de uma voz a florescer, 
Ficaram como sombras na moldura 
De um coração cansado de esquecer, 
Guardando ausências como quem procura. 
 
A solidão possui música secreta, 
Feita de ecos, vento e despedida, 
Uma melodia lenta e incompleta 
Que atravessa as janelas desta vida 
Como chuva antiga sobre um poeta. 
 
E mesmo sem encontros ou chegada, 
Essa canção insiste em permanecer, 
Pois toda alma que sofreu calada 
Transforma o próprio vazio em viver 
E faz da dor uma estrela iluminada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O poeta sente

 O poeta não escreve, é escrito. 
Uma brisa antiga sopra por sua alma, 
E as palavras nascem como ondas 
Que não pertencem ao mar, 
Mas ao mistério que o move. 
 
As Musas não falam em voz alta. 
Sussurram no instante em que o silêncio se inclina. 
É preciso morrer um pouco de si mesmo 
Para ouvi-las viver dentro do verso. 
 
Homero abriu os olhos e viu o mundo em canto; 
Hesíodo ouviu nas colinas 
A respiração das nove irmãs. 
Desde então, todo poeta 
É apenas um eco do divino desejo de dizer. 
 
A inspiração é um véu que toca o rosto da mente. 
O poeta sente, e não entende. 
As Musas passam, e o poema permanece, 
Como um perfume esquecido no ar. 
 
Ser poeta é lembrar-se do que nunca se viveu. 
As Musas entregam memórias que não são nossas, 
Para que o homem se reconheça 
No espelho da eternidade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Eu me recuso a aceitar

Não podemos continuar fingindo que o céu está limpo 
Enquanto o sol vira o rosto para nossa covardia. 
Há fome escondida atrás dos outdoors luminosos, 
Há crianças aprendendo cedo demais o gosto da ausência, 
Há velhos esquecidos nas calçadas da pressa, 
E nós seguimos contando moedas e curtidas 
Como se isso bastasse para salvar o mundo. 

Eu me recuso a aceitar essa anestesia coletiva. 
Quero rasgar o silêncio confortável das salas fechadas, 
Quero devolver nomes aos que viraram estatística, 
Acender consciência onde só existe indiferença, 
Porque toda cidade que abandona os seus frágeis 
Apodrece lentamente por dentro, 
Mesmo quando suas luzes continuam brilhando. 

Ainda há tempo de interromper a queda. 
O sol talvez volte a olhar para nós 
Se aprendermos a repartir o pão e a escuta, 
Se trocarmos o egoísmo por presença verdadeira, 
Se entendermos que ninguém se salva sozinho. 
Toda mudança começa quando alguém decide 
Não ser mais cúmplice da própria omissão. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A vontade de tocar o intocável

Toda vez que te vejo, 
Eu me perco dentro de mim. 
Há um fogo que nasce no peito, 
Silencioso, mas incontrolável, 
Como se minha alma inteira ardesse 
Só para confessar o quanto te deseja. 
 
Não é apenas atração, 
É um chamado que me arranca do mundo, 
Que me deixa febril diante da sua presença. 
Eu tento disfarçar, 
Sorrir sem revelar, 
Mas dentro de mim há um tumulto de chamas 
Implorando por você. 
 
Queria que soubesse 
Quando seu olhar cruza o meu, 
Meu corpo inteiro se acende, 
Minhas mãos tremem 
Com a vontade de tocar o intocável. 
É como se a vida fosse breve demais 
Para guardar tanto fogo em silêncio. 
 
Não sei se um dia terei coragem 
De dizer isso diante dos seus olhos, 
Mas aqui, nestas palavras escondidas, 
Posso confessar. 
Você é a chama que me consome 
E, ao mesmo tempo, 
A única razão de eu ainda querer arder. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Eu poderia ser outra pessoa

Eu poderia ser outra pessoa, 
Com outro nome, outro olhar, 
Ter passos que não são os meus 
E um jeito estranho de amar. 
 
Eu poderia ser diferente, 
Menos medo, mais razão, 
Falar sem tanto receio 
E não calar o coração. 
 
Eu poderia ter escolhido 
Outros rumos para seguir, 
Mas sou feito de escolhas 
Que nem sempre pude decidir. 
 
Eu poderia, quem sabe, 
Ser alguém que não sou, 
Mas então perderia 
O que em mim já restou. 
 
E se eu fosse outra pessoa, 
Seria mais feliz ou menos real? 
Prefiro ser quem sou agora, 
Mesmo sem saber se sou ideal. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 10 de maio de 2026

Não quero ser escravo das mentiras

Eu vejo pessoas dançando ao som das próprias correntes, 
Orgulhosas da mentira que lhes cobre os olhos cansados. 
Andam pelas ruas como folhas mortas no vendaval do mundo, 
Sem raízes, sem memória, sem coragem de permanecer. 
Falam alto para esconder o vazio que carregam no peito, 
E chamam de liberdade a prisão construída pelo medo. 
Às vezes sinto que sou estrangeiro entre esses rostos sem verdade. 

Eu já ouvi o riso daqueles que zombam da lucidez, 
Como se pensar fosse um pecado imperdoável nestes tempos. 
Preferem a fumaça confortável das ilusões repetidas 
Ao peso difícil e solitário de enxergar além das máscaras. 
Vejo-os venderem a alma por aplausos passageiros, 
Ajoelhados diante do vento que muda conforme a conveniência, 
Enquanto eu recolho no silêncio os restos da dignidade perdida. 

Eu caminho contra a corrente dessas sombras satisfeitas, 
Mesmo sabendo que a verdade também fere quem a abraça. 
Carrego nos olhos o cansaço de quem ainda procura sentido 
Num mundo que celebra o ruído e crucifica a consciência. 
Mas não quero ser escravo das mentiras que anestesiam a alma, 
Nem deixar que o vento decida o rumo dos meus passos. 
Prefiro a solidão da verdade ao conforto podre da cegueira. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nesta noite fria

Nesta noite fria, escuto o vento 
Arranhando devagar minha janela, 
Como se trouxesse tua voz cansada 
Das distâncias que o tempo construiu. 
E eu permaneço aqui, acordado. 

Acendo lembranças como quem acende 
Uma vela pequena contra o inverno. 
Teu nome ainda aquece meus silêncios, 
Mesmo perdido entre anos e ausências. 
Há amores que nunca vão embora. 

Às vezes fecho os olhos e imagino 
Teus passos vindo pela rua vazia, 
O casaco escuro, o olhar tranquilo, 
E minhas mãos procurando as tuas 
Como quem procura abrigo na neve. 

Minha imaginação voa sem descanso, 
Feito pássaro ferido no inverno. 
Ela atravessa noites e estações, 
Retorna aos lugares onde fomos felizes 
E pousa cansada dentro do meu peito. 

Quando a madrugada se torna mais fria, 
Eu converso baixinho com tua lembrança. 
Não peço retorno, nem milagres. 
Só deixo meu coração te visitar 
Antes que o amanhecer me esqueça. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 9 de maio de 2026

Os pequenos vultos

Nas esquinas da cidade deixei pedaços meus, 
Rostos que fui sem jamais permanecer. 
Os semáforos piscavam como dúvidas eternas, 
E cada avenida parecia fugir de si mesma. 
Há uma solidão que nasce do excesso de vozes, 
Um silêncio escondido dentro do concreto, 
Como se viver fosse apenas atravessar neblinas. 

Os prédios observam tudo com olhos de vidro, 
Guardando destinos que nunca se encontram. 
Homens caminham apressados para lugar nenhum, 
Carregando relógios cheios de ausências. 
A madrugada recolhe os sonhos abandonados 
Junto aos jornais molhados pela chuva fina, 
E os devolve ao vento como memórias sem dono. 

Às vezes penso que a cidade também sofre, 
Presa em suas ruas longas e intermináveis. 
Talvez ela conheça o peso de existir sem descanso, 
Esse cansaço antigo de continuar pulsando. 
E nós, pequenos vultos sob luzes artificiais, 
Seguimos procurando sentido nas esquinas, 
Como quem procura a si mesmo no fim da noite. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Se atravesso as noites sozinho

Nas noites longas, os pensamentos vagam, 
Como pássaros perdidos sem direção. 
A lua observa meus passos cansados, 
Enquanto o silêncio invade o coração 
E tua ausência pesa sobre minhas mãos. 

Há um frio escondido na madrugada, 
Um vazio que não aprende a partir. 
As estrelas parecem tão distantes, 
Como os sonhos que deixei de seguir 
Desde o dia em que vi você partir. 

Procuro sentido nas ruas desertas, 
Nos relógios que insistem em correr. 
Mas a vida se torna tão confusa 
Quando tudo me leva a compreender 
Que viver sem você é sobreviver. 

Às vezes penso que amar é castigo, 
Uma chama que arde sem descansar. 
Outras vezes, vejo na saudade 
A última esperança de encontrar 
Um motivo para continuar. 

Então atravesso as noites sozinho, 
Carregando lembranças no olhar. 
Talvez exista um sentido escondido 
Nesse amor que se recusa a acabar, 
Mesmo tão longe do teu respirar. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Cada vez que vejo você

 O desejo que queima em mim 
Não é chama branda, 
É incêndio noturno, 
Fagulha que se arrasta como serpente de fogo 
Pelas entranhas da minha sombra. 
 
Cada vez que vejo você, 
O ar rarefeito se envenena, 
Meu corpo se torna cárcere em chamas, 
E a carne grita silenciosa 
Pela perdição de um toque. 
 
É febre que não recua, 
É maldição que arde sem cura, 
Um tormento que se alimenta do próprio vazio. 
 
Você passa, e eu me consumo, 
Sou vela sem fim, 
Sou pira condenada, 
Ardendo por um desejo 
Que nunca se extingue, 
E que talvez só encontre paz 
Na ruína final das cinzas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O perigo das pessoas ruins

Tem pessoas que não chegam para caminhar conosco, 
Mas para testar o peso da nossa alma. 
Sorriem perto demais, 
Aprendem nossos passos, 
E silenciosamente espalham pedras no caminho. 

O perigo das pessoas ruins 
Não está apenas na maldade evidente, 
Mas na intimidade que concedemos a elas. 
Algumas sombras entram em nossa vida 
Disfarçadas de companhia. 

Existem presenças que cansam a esperança, 
Que diminuem sonhos, 
Que transformam confiança em vigilância constante. 
E, sem perceber, começamos a tropeçar 
Em obstáculos que não estavam ali antes. 

Nem todo inimigo levanta a voz. 
Há quem destrua devagar, 
Com inveja escondida, 
Com palavras sutis, 
Com o prazer secreto de ver alguém parar. 

A sabedoria também consiste em escolher distâncias. 
Nem todos merecem conhecer nossos planos, 
Nossas fragilidades 
Ou os caminhos que desejamos seguir. 
Há portas que precisam permanecer fechadas. 

Porque a alma, quando cercada de veneno, 
Aprende a adoecer em silêncio. 
E há caminhos que só florescem 
Quando certas presenças 
Ficam para trás. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Mundos invisíveis

Existem coisas acontecendo além da minha janela, 
Mares que se revoltam sem que eu os veja, 
Rostos desconhecidos chorando em silêncio, 
Cidades acesas na distância da noite, 
E um mundo inteiro respirando longe de mim. 
 
Enquanto caminho entre ruas familiares, 
Outros caminhos se abrem no invisível, 
Alguém nasce sob um céu tempestuoso, 
Alguém perde a esperança lentamente, 
E eu sequer conheço seus nomes. 
 
Às vezes penso se a vida termina 
Naquilo que meus olhos podem alcançar, 
Mas há estrelas ocultas pelas nuvens 
Continuando a arder no escuro eterno, 
Como verdades escondidas do coração humano. 
 
Quem sabe existir seja justamente isso. 
Sentir o peso do que não compreendemos, 
Pressentir universos atrás do silêncio, 
Buscar sentido no desconhecido infinito 
E continuar caminhando mesmo sem respostas. 
 
Porque a vida é maior do que as paredes, 
Maior que os dias comuns e repetidos, 
Há um mistério pulsando além da matéria, 
Um rumor distante chamando nossa alma 
Para enxergar além daquilo que vemos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Caminhando sobre o abismo

Caminho sobre pontes feitas de silêncio, 
Entre homens que abraçam e homens que ferem, 
O mundo dividido em lâminas e flores, 
Uns acendem estrelas nas noites dos outros, 
Outros transformam jardins em ruínas frias. 
 
Há mãos que repartem o pouco que possuem, 
Como velas acesas contra a tempestade, 
Olhares mansos que ainda reconhecem a dor, 
Corações que se recusam a virar pedra, 
Mesmo ouvindo o grito cruel do mundo. 
 
Mas também existem os senhores da sombra, 
Que bebem do medo e da miséria humana, 
Erguem tronos sobre ossos esquecidos, 
E confundem poder com eternidade, 
Enquanto espalham cinzas pelos caminhos. 
 
E nós seguimos entre extremos invisíveis, 
Carregando esperança como chama frágil, 
Tentando salvar o que ainda é humano, 
Sobre o abismo aberto da própria existência, 
Sem deixar a alma cair no vazio. 
 
Quem sabe viver seja uma escolha diária. 
Não permitir que a crueldade nos domine, 
Guardar compaixão em meio às guerras, 
E permanecer inteiro entre os destroços, 
Como quem protege luz no coração da noite. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sangrar em segredos

O escritor carrega um mundo nos olhos, 
Mas ninguém vê o peso que ele sustenta, 
Sorri enquanto a alma se rasga, 
Pois sente demais o que é de todos, 
E sofre em silêncio o que não lhe pertence. 
 
Há dores que não são suas, mas ardem, 
Como feridas abertas no tempo alheio, 
Crianças chorando em ruas distantes, 
Injustiças sussurradas na noite, 
E tudo encontra morada em seu peito. 
 
Ele escreve para não sucumbir, 
Cada palavra é um grito contido, 
Cada verso, um pedido de respiro, 
Pois o mundo invade sua carne, 
E não há portas que o protejam. 
 
Ser escritor é sangrar em segredo, 
É sentir o invisível do sofrimento, 
É traduzir a dor que não tem voz, 
E oferecer ao papel a própria alma, 
Como quem tenta salvar o indizível. 
 
Mesmo assim ele permanece, 
Teimoso diante do caos humano, 
Pois acredita, mesmo ferido, 
Que dar forma à dor do mundo,
É um modo de não deixá-la vencer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense