domingo, 26 de abril de 2026

Quando você vier

 Quando você vier, 
Não trarei perguntas, nem cobranças. 
Apenas um sorriso aberto, 
Como quem guarda o sol dentro do peito, 
Esperando por você. 
 
Estarei ali, 
Na linha tênue entre o sonho e o real, 
Com um sorriso que nasceu nos dias de espera 
E floresceu só para te ver chegar. 
 
Quando você vier, 
Meus olhos serão o caminho 
E meu sorriso, o abrigo. 
Porque há amores que se constroem 
Nas entrelinhas do tempo. 
 
Você nem saberá quantas manhãs amanheci 
Imaginando o som dos seus passos. 
Mas quando você vier, 
Me encontrará sorrindo, 
Como se todo esse tempo fosse só um breve intervalo. 
 
Guardei em mim um jardim de esperas. 
E quando você vier, 
As flores saberão que é hora de abrir. 
E eu… 
Eu estarei sorrindo, 
Como quem sempre soube que você viria. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Por que se importar?

 Por que um homem triste 
Deveria se importar com a mácula 
De uma geração que não pensa? 
 
Porque ele ainda sente. 
Porque apesar de toda a merda, 
Ele não conseguiu desligar o cérebro, 
Nem congelar o coração. 
Ele vê. 
Vê a fila de idiotas batendo palma para nada, 
Vê os olhos vazios brilhando nas vitrines, 
Vê os cães mijando nas mesmas ideias podres de sempre. 
E mesmo fodido, cansado, meio morto por dentro, 
Ele se importa. 
Não por esperança. 
Mas por raiva. 
Por orgulho. 
Por aquele resto de humanidade 
Que ainda não foi arrancado com alicate. 
Ele sabe que o mundo apodreceu porque ninguém pensa, 
Só consome, repete, morde, defeca. 
E ele não quer ser só mais um cadáver aceitando o cardápio. 
A tristeza dele não é covardia. 
É o preço de estar desperto num campo de zumbis sorridentes. 
Então ele se importa. 
Não para salvar ninguém. 
Mas para não ser engolido pela mesma lama. 
Às vezes, se importar é tudo o que resta 
Antes de virar pedra. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 25 de abril de 2026

A leitura é chama acesa

 A leitura é chama acesa no escuro do ser, 
Um sussurro antigo que insiste em crescer, 
Palavras que dançam na mente inquieta, 
Desatam os nós da razão mais secreta, 
E ensinam o mundo sempre se refazer. 
 
Em cada página, um universo respira, 
Um pensamento nasce, outro se inspira, 
Há vozes que ecoam além do papel, 
Rompendo os limites do próprio céu, 
E a mente, antes presa, agora delira. 
 
Ler é romper com o peso da ignorância, 
É ver o comum sob um prisma da vigilância, 
É dar ao silêncio um novo sentido, 
É nunca aceitar o saber reduzido, 
Mas ampliar o horizonte além da infância. 
 
A leitura cultiva perguntas no peito, 
Desfaz as certezas, refaz o conceito, 
Transforma o olhar, o sentir, o pensar, 
Ensina que o mundo é mais que enxergar, 
É gesto profundo, constante e perfeito. 
 
Quem lê já não volta ao início, 
Carrega na alma um leve artifício. 
O dom de pensar para além do que vê, 
De ser muitos outros sem deixar de ser, 
Um ser em eterno e belo exercício. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Pecado

 Meu maior pecado não foi te amar, 
Foi silenciar a voz lúcida que, em mim, 
Já te conhecia antes de você existir. 
A razão sussurrava como um vento antigo, 
Alertando sobre teus abismos 
Disfarçados de ternura, 
Mas eu, cego pela promessa do teu olhar, 
Escolhi o incêndio em vez da luz. 
 
Há um tipo de erro que não nasce da ignorância, 
Mas da escolha consciente de se perder. 
Eu sabia, eu sentia isso, 
E mesmo assim fui. 
Porque há amores que não pedem permissão, 
Invadem como tempestades em casas frágeis, 
E quando percebemos, 
Já estamos chamando de lar 
Aquilo que nos desmorona. 
 
Meu pecado foi esse. 
Trair a mim mesmo em nome de um sentimento 
Que não sabia permanecer. 
E agora, entre os destroços, 
É a razão, aquela antiga voz esquecida, 
Quem recolhe os pedaços que o amor deixou. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Impassível

Sou margem de um rio que nunca transborda, 
Onde o tempo encosta e desiste de ficar, 
As vozes do mundo chegam como ecos distantes, 
Quase lembranças de algo que nunca vivi. 
Não me comove o peso das horas caídas, 
Nem a pressa dos dias em ruína constante, 
Há em mim um silêncio que não se negocia. 
 
Os afetos passam como sombras indecisas, 
Tocam minha pele e retornam ao vazio, 
Não crio raízes no chão das emoções, 
Sou chão árido, intacto, sem promessa. 
O que em outros pulsa, em mim repousa, 
Como se sentir fosse um gesto esquecido, 
Um idioma antigo que deixei de falar. 
 
Ainda assim, algo vigia no fundo imóvel, 
Um ponto cego que observa sem julgar, 
Talvez o último vestígio do incêndio humano. 
Mas ele não cresce, nem pede passagem, 
Permanece suspenso entre o ser e o nada, 
Como uma chama que não aquece nem consome, 
Apenas existe, impassível, como eu. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Antes que nasça a poesia

 Sonhando, escrevo 
Como quem não segura 
A própria alma dentro do peito, 
Como quem deixa escapar, em palavras, 
Aquilo que a realidade não suporta dizer. 
 
Há uma espécie de verdade nos sonhos 
Que o dia insiste em negar. 
E é nesse território indeciso, 
Entre o que fui e o que ainda não sou, 
Que a poesia nasce, silenciosa e inevitável. 
 
Escrever sonhando é dissolver os limites: 
O tempo já não fere, 
A ausência já não pesa, 
E o amor, mesmo impossível, 
Ganha corpo de eternidade. 
 
Sou feito desses fragmentos oníricos, 
Dessas imagens que não pedem lógica, 
Mas imploram por sentido. 
E cada verso que surge 
É um vestígio de mim em estado de sonho. 
 
A verdade é que, no fundo, 
Não sou eu que escrevo a poesia, 
É ela que me conquista primeiro, 
E me transforma em palavra 
Antes mesmo que eu desperte. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Tronco oco de uma árvore

 Recosto o corpo ao tronco já vazio, 
E escuto o tempo oco a respirar; 
Há nele um velho e manso desafio: 
Existir é perder algo para durar. 
 
A seiva foi-se embora em seu desvio, 
Mas algo ali persiste a murmurar; 
Um resto de presença, quase um fio, 
Que insiste, mesmo em falta, em continuar. 
 
E eu, que penso a vida nesse instante, 
Me vejo feito uma árvore também: 
Por fora firme, por dentro vacilante. 
 
Mas há no tronco oco um modo de ir além, 
Pois ser não é ser pleno a todo instante, 
É ainda ser, mesmo sem ser ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Tortura

 Ficar sem você é um silêncio que grita. 
É como se o tempo continuasse andando, 
Mas sem destino certo, 
Apenas um arrastar cansado de horas vazias. 
 
Há uma espécie de tortura delicada nisso: 
Não é dor que explode, 
É dor que permanece. 
Ela se instala nos pequenos espaços, 
No intervalo entre um pensamento e outro, 
No instante em que o mundo 
Deveria fazer sentido, mas não faz. 
 
Tudo continua igual, 
E ainda assim tudo falta. 
As ruas, as vozes, os dias… 
Todos parecem cenários abandonados 
De algo que já foi vivo. 
 
O pior não é a ausência do seu corpo, 
É a ausência do que você despertava em mim. 
Sem você, sou menos inteiro. 
Menos som, menos cor, menos fogo. 
 
Então continuo meu caminho 
Carregando essa saudade que não grita alto, 
Mas corrói em silêncio, 
Como quem sabe que amar 
Também é aprender a suportar a falta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Os pergaminhos perdidos de um tempo passado

 Nos pergaminhos gastos de um tempo sem nome, 
Onde a poeira repousa como memória antiga, 
Meus pensamentos já ardiam sem corpo, 
Traçados por mãos que nunca conheci, 
Mas que sabiam exatamente quem eu seria. 
 
Há uma tinta invisível correndo em minhas veias, 
Como se cada ideia fosse herança esquecida, 
Um sussurro vindo de séculos adormecidos, 
Um eco que insiste em se tornar voz, 
Mesmo quando penso estar sozinho. 
 
Folhas rasgadas do tempo ainda me leem, 
Mesmo quando sou eu quem tenta compreendê-las, 
Há palavras que me encontram antes de existir, 
E nelas reconheço algo que não aprendi, 
Mas que sempre soube, em silêncio. 
 
Sou escrito na margem de um livro antigo, 
Um verso perdido entre histórias apagadas, 
Um fragmento de um texto maior que me atravessa, 
E mesmo sem ver o início ou o fim, 
Sinto que pertenço a essa escrita infinita. 
 
E quando o último pergaminho se desfizer no vento, 
Quando não restar vestígio de sua matéria, 
Ainda assim meus pensamentos continuarão, 
Não como lembrança, mas como permanência, 
De algo que jamais deixou de ser escrito. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Acordado

 Tem amores que não dormem, 
Apenas fecham os olhos para o mundo, 
Mas permanecem despertos por dentro, 
Como uma chama que não se entrega ao vento, 
Como um nome que insiste em ser lembrado. 
 
Talvez esse amor esteja acordado em silêncio, 
Vigiando teus passos à distância, 
Recolhendo teus gestos 
Como quem coleciona relíquias, 
Esperando o instante exato 
Em que dois destinos ousam se reconhecer. 
 
É um amor que respira nas entrelinhas, 
Que não precisa de voz para existir, 
Porque pulsa 
No intervalo entre um pensamento e outro, 
Como se o coração tivesse aprendido 
A falar sem pedir permissão à razão. 
 
Mesmo quando tudo parece adormecido, 
As ruas, os dias, os próprios sentimentos, 
Há algo que insiste em permanecer desperto: 
Esse amor que não se cansa de esperar, 
Como se soubesse que, cedo ou tarde, 
Será chamado pelo nome. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 21 de abril de 2026

O segredo de um novo começo

 Na mente há ruas que não levam a lugar algum, 
E ainda assim insistimos em caminhar nelas, 
Como quem procura um nome esquecido, 
Ou um rosto que nunca existiu, 
Mas que dói como se tivesse partido. 
 
Os pensamentos se empilham como ruínas, 
Uns sobre os outros, frágeis e instáveis, 
E cada ideia que nasce já vem trêmula, 
Como se soubesse que será engolida 
Por outra ainda mais inquieta. 
 
Há um barulho mudo que não se cala, 
Um tumulto feito de silêncios gritantes, 
E a imaginação, antes jardim, agora é selva, 
Onde sombras crescem sem permissão 
E o eu se perde entre seus próprios passos. 
 
Tento me encontrar, mas me multiplico, 
Sou muitos em um só corpo cansado, 
Cada versão puxando para um abismo distinto, 
Como se existir fosse escolher 
Entre quedas igualmente profundas. 
 
Mesmo assim, no centro desse caos, 
Há algo que pulsa, frágil, mas vivo, 
Uma centelha que não se rende ao escuro, 
Como se a própria confusão guardasse 
O segredo de um novo começo. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um amor imperfeito

 Eu te amei 
Como quem não entende o próprio gesto, 
Como quem toca uma chama 
Sem saber se aquece ou queima. 
Foi um amor desalinhado, quase torto, 
Desses que não cabem nas palavras bonitas, 
Mas insistem em existir mesmo assim. 
 
Amei no silêncio mais do que na fala, 
Nos intervalos, nos desvios, nos erros. 
Amei sem saber direito como se ama, 
E talvez por isso tenha sido tão verdadeiro, 
Porque não tinha forma, só intensidade. 
 
Havia algo de estranho, sim, 
Como um sonho que não se explica ao acordar. 
Mas era real naquilo que doía, 
Real no que faltava, no que escapava, 
Real como aquilo que nunca se repete. 
 
Se foi imperfeito, foi humano. 
Se foi confuso, foi sincero. 
O meu amor por você 
Foi um descompasso bonito 
Entre sentir e saber amar. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O canto épico ao Marco do Jauru

 I 
Ergue-se altivo o Marco do Jauru, testemunha de eras passadas, 
Quando os homens de coroa e espada vinham do além-mar, 
Trazendo consigo tratados e mapas, cercados de soldados e escribas, 
E diante dos rios imensos e do verde pantanal 
Ousaram fincar, na pedra fria, o selo do poder e da conquista. 
Ali ficou inscrita não apenas a fronteira de dois impérios, 
Mas a memória de sangue, suor e silêncio, 
Dos que aqui viviam muito antes da chegada dos conquistadores, 
E dos que, sob o peso da história, ergueram seus destinos. 
 
II 
Oh Cáceres, cidade de braços abertos sobre o rio Paraguai, 
Em ti repousa este monumento, não como simples pedra, 
Mas como altar da memória coletiva, 
Lembrando a teus filhos que a grandeza não se mede em conquistas, 
Mas na força de preservar o que é raiz, o que é herança, 
O que dá sentido à terra em que caminhamos. 
Pois não há futuro sem memória, 
Nem povo sem história, 
E o Marco é guardião dessa verdade eterna, 
Um livro de granito que o tempo não consome. 
 
III 
Quantos que passam por ele não veem além da matéria, 
Não sentem que ali ecoam as vozes de antigos tratados, 
Dos que disputaram terras, rios e destinos? 
E quantos esquecem que a perda da lembrança 
É a mais amarga derrota de uma sociedade? 
Por isso clamo, em voz alta e solene, 
Que o Marco do Jauru seja mais que ruína esquecida, 
Seja patrimônio vivo, ensinado às crianças, 
Honrado em festas, preservado com zelo, 
Pois ao protegê-lo, protegemos a nós mesmos. 
 
IV 
Que se levantem, pois, os cacerenses, 
Herdeiros de um passado de encontros e choques, 
E vejam no Marco não apenas um sinal de fronteira, 
Mas um farol de identidade, 
Uma pedra que sustenta o espírito da cidade. 
E que os séculos vindouros, ao contemplar seu perfil, 
Saibam que houve um povo que não deixou 
A poeira do descuido apagar a memória, 
Mas que a transformou em chama, 
Firme como granito, ardente como esperança. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense
 

 

A arte de viver em paz

 Viver é esconder o que se sabe para não ferir, 
Duvidar do que se ouve para não adoecer, 
E rir do resto para não enlouquecer. 
Entre o silêncio, a dúvida e o riso, 
Talvez more a única forma possível de paz. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 19 de abril de 2026

Os amores que tive

 Eu beijei. 
Beijei como quem tenta esquecer o próprio nome. 
Lábios tantos, corpos em brasa, 
Gemidos que soavam como promessas, 
Mas eu sabia: mentiam. 
Não por maldade. 
Por natureza. 
 
Elas vinham com bocas doces, 
Sorrisos partidos e olhos cheios de sol, 
E me davam seus beijos 
Como quem oferece abrigo. 
Mas eu era tempestade. 
E o abrigo nunca me serviu. 
 
Beijei mulheres 
Como quem tenta furar o véu do mundo. 
Como quem espera que, em algum toque, 
Em alguma língua que se enrosca na minha, 
Eu encontre a resposta. 
 
Mas só encontrei silêncio. 
E mais fome. 
Porque o que me falta, 
Não está na carne. 
Está além. 
Está no escuro entre os mundos. 
Na ausência que pulsa no fundo da alma 
Como um tambor de guerra. 
 
Já amei, ou tentei. 
Mas até no amor 
Eu era abismo. 
 
Elas choravam quando eu partia. 
Achavam que era falta de afeto. 
Não sabiam que era excesso. 
Excesso de um vazio que cresce, 
Que consome, 
Que grita por algo 
Que nenhuma mulher carrega entre os lábios. 
 
Eu busco uma sede que não tem boca. 
Um nome que não tem som. 
E enquanto elas se vestem depois do amor, 
Eu permaneço nu, 
Dentro de mim, 
Gritando por aquilo 
Que jamais virá. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense