sexta-feira, 5 de junho de 2026

Que nome darei a esta inquietação?

Entre o tique-taque do relógio 
E a poeira acumulada sobre os livros esquecidos, 
Eu me sento diante da página em branco. 
A tarde dissolve-se lentamente na janela, 
Como uma memória que hesita em partir. 

As ruas carregam vozes sem origem, 
Ecos de conversas interrompidas pelo tempo. 
Os homens atravessam os dias apressados, 
Guardando nos bolsos pequenas ruínas, 
Sem perceber o peso que carregam. 

Que nome darei a esta inquietação? 
Não é tristeza, nem esperança. 
É algo que permanece entre ambas, 
Como uma ponte suspensa sobre águas escuras, 
Sem margem visível em qualquer direção. 

Escrevo fragmentos de uma existência dispersa: 
Uma fotografia amarelada, um banco vazio na praça, 
O perfume distante de uma embarcação já perdida. 
Tudo parece dizer alguma coisa, 
Mas numa língua que esqueci há muito tempo. 

E quando a noite finalmente debruça sobre o Rio Paraguai, 
Restam apenas a página, a lâmpada e o silêncio. 
Então compreendo, ainda que por um instante, 
Que a alma não busca respostas definitivas, 
Mas a coragem de habitar suas perguntas. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Eu canto este coração inquieto

Eu canto este coração inquieto, 
Canto esta criatura que habita meu peito 
E que não se contenta com os limites da carne, 
Nem com as fronteiras que os homens traçam 
Entre um corpo e outro, 
Entre um destino e outro. 

Quando penso em você, 
Ele desperta. 

Levanta-se de seu repouso, 
Sacode a poeira dos dias, 
E percorre os vastos campos invisíveis da memória, 
Como um animal livre atravessando planícies sem fim, 
Seguindo um rastro que nenhum mapa registra 
E que nenhuma bússola poderia indicar. 

Ó coração! 
Companheiro de todas as minhas jornadas, 
Irmão das estrelas, dos rios e dos ventos, 
Por que te agitas assim? 
Por que golpeias as paredes do meu ser 
Como se o universo inteiro fosse pequeno demais 
Para conter o teu desejo? 

Eu te vejo, 
E não te condeno. 

Pois o mesmo impulso que te leva em direção a ela 
Move as marés para a praia, 
Faz crescer a árvore em direção ao céu, 
Faz o pássaro abandonar o ninho 
E o viajante seguir adiante sem saber o caminho. 

Penso em você, 
E meu coração torna-se vasto. 

Já não é apenas um órgão oculto na escuridão do corpo, 
Mas uma criatura cósmica, 
Uma força errante, 
Uma centelha da antiga energia 
Que une os seres, os tempos e os mundos. 

E se um dia ele romper meu peito e partir, 
Não chorarei sua ausência. 

Saberei que apenas respondeu ao chamado 
Que ressoa em todas as coisas: 
O desejo profundo de abandonar a própria prisão 
E caminhar, livre e luminoso, 
Em direção àquilo que ama. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Enquanto sigo aprendendo

Olho o horizonte sem exigir respostas, 
Pois sei que o mundo não me deve certezas. 
O tempo ergue montanhas e as desfaz em pó, 
Enquanto sigo aprendendo a arte da permanência. 
Há dimensões que meus olhos não alcançam, 
Mas não me inquieta aquilo que desconheço; 
Basta-me caminhar com serenidade diante do mistério. 

Um único olhar pode atravessar distâncias imensas, 
Mas a sabedoria não está em possuir o horizonte. 
Está em reconhecer os próprios limites 
Sem transformar a ignorância em desespero. 
O futuro repousa além das curvas do tempo, 
E minha tarefa não é dominá-lo, 
Mas receber cada dia com espírito firme. 

Se existem mundos além dos que imagino, 
Que permaneçam por ora guardados no silêncio. 
Nada perco por não tocar o inalcançável, 
Nem diminuo por não compreender o infinito. 
Como o rio que segue sem discutir com as margens, 
Aceito o curso das coisas e prossigo adiante, 
Encontrando liberdade naquilo que posso governar: 
A mim mesmo. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Saudade em um copo vazio

Estou com saudade de você. 
Não daquela saudade elegante dos poemas. 
Falo da que aparece às três da manhã, 
Sentada na beira da cama, 
Fumando os restos da minha paz. 

Sinto falta dos seus afagos, 
Como um bêbado sente falta do último gole. 
E isso é ridículo, eu sei. 
A vida continua empurrando os dias adiante, 
Mas algumas ausências não aprendem a morrer. 

Tenho saudade da sua voz, 
Principalmente daquelas palavras perigosas 
Que você soltava sem avisar. 
Palavras pequenas, quase inocentes, 
Capazes de incendiar uma noite inteira. 

Às vezes fecho os olhos e penso em nós. 
Não há anjos, não há destino. 
Só dois corpos tentando esquecer o mundo, 
Enquanto o mundo fazia questão 
De não esquecer nenhum dos nossos erros. 

No fim, é isso que sobra. 
Uma cadeira vazia, um copo pela metade, 
E lembranças andando pela casa. 
Você foi embora, o tempo também. 
Eu fiquei aqui, conversando com fantasmas. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Os segredos de Deus

Que busco eu no mundo? Um bem esquivo, 
Que foge mais quanto mais o persigo; 
E, sendo eu de mim próprio inimigo, 
Faço do vão desejo o meu cativo. 

Corro por montes, vales, campo e rio, 
Indagando ao céu qual seja o segredo; 
Responde-me o tempo, grave e quedo: 
"Homem, conhece-te, e vence o desvario." 

Vejo na flor a morte anunciada, 
Na pedra firme a lenta corrupção, 
Na glória humana a sombra da jornada. 

Mas, se em tudo se esconde a mutação, 
Talvez Deus deixe a Sua mão velada 
Na ordem que governa a criação. 

E assim prossigo, entre fé e pensamento, 
Pois quanto mais procuro compreender, 
Mais descubro que o maior conhecimento 
Não está em possuir, mas em saber 
Que o mistério sustenta o firmamento. 

Quem julga ter achado a derradeira luz 
Faz de sua razão um falso altar; 
Eu sigo humilde, deixando-me guiar, 
Pois talvez o segredo que a vida conduz 
Seja apenas aprender a contemplar. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Minha biblioteca

 Não abro mão da minha biblioteca. 
Já me desfiz de roupas, amores e ilusões. 
O tempo levou muita coisa sem pedir licença, 
Mas os livros ficaram por aqui, 
Teimosos como velhos bêbados no balcão. 
 
Eles não me prometeram felicidade. 
Isso é coisa de vendedor e candidato. 
Os livros me deram algo mais honesto. 
Algumas verdades desconfortáveis 
E a companhia necessária para suportá-las. 
 
Há noites em que não acredito em quase nada. 
Nem nos jornais, nem nos discursos, nem nos heróis. 
Então puxo um livro da estante, 
E encontro alguém morto há cem anos 
Pensando as mesmas porcarias que eu. 
 
Minha biblioteca não é elegante. 
Há volumes tortos, manchas e poeira. 
Alguns carregam marcas de café e insônia, 
Como cicatrizes que ninguém tentou esconder, 
E talvez por isso eu goste tanto deles. 
 
Quando eu partir, os livros ficarão. 
É assim que deve ser. 
Eles passarão para outras mãos, outros olhos, 
Enquanto eu desapareço no grande silêncio. 
E isso, curiosamente, me parece justo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Toda grandeza termina em nada

 Erguem-se egos sobre a própria ruína, 
Como reis de um império imaginário; 
Cada homem se julga necessário 
Na vaidade que o tempo assassina. 
 
Esquecem que a carne cedo declina, 
Que o brilho é breve e o corpo é precário; 
E fazem do espelho um relicário 
Para ocultar a dor que os contamina. 
 
Nossa época transforma o vazio 
Em mercadoria santa e desejada, 
Vendendo orgulho em cada desafio. 
 
Mas a morte observa, silenciosa e calada, 
Lembrando ao homem soberbo e frio 
Que toda grandeza termina em nada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Me chamaram de estranho

 Havia uma multidão atravessando a rua 
Com as mesmas palavras penduradas na boca, 
Os mesmos medos dobrados no bolso, 
Os mesmos sonhos comprados em liquidação. 
Eu segui na direção contrária. 
 
Não porque fosse mais sábio. 
A vida já me ensinou a desconfiar dos sábios. 
Mas havia algo podre naquele coro, 
Uma ferrugem escondida sob os discursos, 
Um cheiro de cela pintada de liberdade. 
 
Eles não gostavam das minhas perguntas. 
Perguntas estragam a decoração das certezas. 
Preferiam os homens que concordam, 
Que abaixam a cabeça no momento certo, 
Que aplaudem antes de entender. 
 
Então me chamaram de estranho. 
Como se isso fosse um insulto. 
Eu já tinha sido coisa pior: 
Obediente, por exemplo, 
E isso quase matou minha alma. 
 
Agora caminho sozinho quando preciso. 
Bebo meu café olhando o mundo passar. 
O rebanho continua correndo para algum lugar. 
Talvez para lugar nenhum. 
E, pela primeira vez, isso não me preocupa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 2 de junho de 2026

Sinto meu coração tremer

Quando você surge diante de mim, 
Não é apenas a sua imagem que vejo, 
É um clarão que rasga a penumbra do meu dia, 
Um incêndio secreto que se acende em silêncio. 
 
A cada gesto seu, 
Meu corpo se curva ao peso do desejo, 
Mas não é um fardo cruel, 
É como carregar um fogo que aquece 
Mesmo quando ameaça transbordar. 
 
Sinto meu coração tremer, 
Como se buscasse ritmo 
No compasso da sua respiração, 
Como se cada batida fosse chama 
Tentando alcançar a sua pele. 
 
O mundo inteiro se dissolve nesse instante: 
As vozes somem, 
As ruas se desfazem, 
O tempo deixa de existir. 
Só resta você, 
E essa chama que não me destrói, 
Mas me mantém vivo. 
 
Eu caminho entre o medo e a esperança, 
Com receio de que esse fogo me revele, 
E, ao mesmo tempo, 
Com a súplica muda 
De que você perceba o quanto ardo. 
 
É assim que sigo, 
Como um viajante 
Que encontra luz no meio da noite, 
Sabendo que basta o seu olhar 
Para que eu me perca e me encontre 
Na mesma chama suave 
Que me devora e me consola. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Volto ao pó sem revolta

Moribundo e estupefato, caminho devagar, 
Como quem regressa de uma longa travessia. 
Fui arauto do novo mundo, 
Mensageiro de auroras ainda sem nome, 
E carreguei fogos que não me pertenciam. 

Anunciei horizontes aos cegos da esperança, 
Ergui palavras contra o peso dos séculos, 
E por algum tempo acreditei 
Que os sonhos pudessem permanecer intactos 
Diante da ferrugem do tempo. 

Mas tudo o que nasce inclina-se ao ocaso. 
As cidades mudam de rosto, 
Os nomes desaparecem das pedras, 
E as vozes mais altas tornam-se sussurros 
Perdidos na vastidão dos ventos. 

Agora confluo para a inculta catacumba, 
Sem coroas, sem testemunhas, sem estandartes. 
A terra recebe meus ossos 
Com a mesma indiferença antiga 
Com que recebe a chuva e as folhas mortas. 

E volto ao pó sem revolta alguma. 
Aquilo que fui dissolve-se na origem, 
Como um rio que encontra o mar. 
Talvez a eternidade seja apenas isto, 
Aprender a desaparecer serenamente. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Não preciso que compreendam

Não quero que me entendam. 
Já é difícil demais 
Carregar este sujeito que acorda comigo todas as manhãs, 
Que abre um caderno imaginário para os fracassos 
E observa o teto como quem encara um tribunal. 

As pessoas adoram explicações. 
Querem encaixar você numa gaveta, 
Colocar uma etiqueta na sua testa, 
E dormir tranquilas acreditando 
Que o mistério foi domesticado. 

Mas há dias em que nem reconheço 
A voz que sai da minha boca. 
Ela fala de coisas que não planejei, 
Ri em momentos inadequados, 
E permanece muda quando deveria gritar. 

Aprendi a gostar dessa confusão. 
Ela é mais honesta do que muitas certezas. 
Os homens que sabem exatamente quem são 
Costumam me assustar mais 
Do que aqueles que vagam perdidos. 

Então me deixem aqui, 
Sentado ao lado do meu próprio incompreensível. 
Não preciso de tradutores, 
Nem de juízes. 
O silêncio já me faz companhia suficiente. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O pesadelo do artista

Eu percorro corredores que ninguém vê, 
Carregando lanternas feitas de palavras. 
Às vezes encontro rostos atrás dos espelhos, 
E não sei se os inventei ou se me esperavam. 
O horror nasce em minha mente como névoa, 
Mas não sei se sou seu criador ou sua presa. 
Escrevo para descobrir quem observa quem. 

Há noites em que meus sonhos deixam marcas, 
Como pegadas úmidas no chão da consciência. 
Escuto vozes surgirem entre linhas inacabadas, 
Sussurrando verdades que nunca aprendi. 
Então me pergunto se a imaginação cria abismos 
Ou apenas revela aqueles que já existiam. 
E permaneço à beira deles, sem resposta. 

Talvez eu seja apenas um viajante perdido, 
Tentando nomear as sombras que encontro. 
Talvez toda arte seja uma forma de cegueira, 
Ou uma tentativa de enxergar além do véu. 
Entre a criação e a paranoia sigo existindo, 
Incerto sobre o que é real dentro de mim. 
Mas continuo escrevendo, apesar do escuro. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 31 de maio de 2026

Cada verso me recorda que existo

Não peço ao caminho que revele seu destino, 
Nem ao vento que explique sua direção. 
Basta-me seguir com passos firmes, 
Aceitando que o horizonte se afasta 
À medida que avanço. 

Há quem deseje dominar o mundo, 
Mas mal conhece o próprio espírito. 
Aprendo com a pedra e com a árvore: 
Permanecer inteiro sob a chuva 
É uma forma silenciosa de sabedoria. 

O poeta não cria a beleza das coisas; 
Apenas aprende a percebê-la. 
Onde muitos veem apenas rotina, 
Ele encontra sinais discretos 
Da ordem oculta do universo. 

Se a tristeza vier, que venha. 
Se a alegria chegar, que também passe. 
Nenhuma estação permanece para sempre, 
E resistir ao curso do tempo 
É lutar contra a própria maré. 

Encontro refúgio na poesia, 
Não como fuga, mas como compreensão. 
Cada verso me recorda que existo, 
E que há dignidade em contemplar 
O que os outros deixam escapar. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um eterno passageiro

Caminho sem saber o nome da rua seguinte, 
Como quem atravessa um sonho sem intérprete. 
Meus passos riscam perguntas sobre a calçada, 
E o vento responde numa língua esquecida. 
Carrego apenas o peso leve da incerteza, 
Enquanto o mundo se desfaz e se refaz ao redor, 
Como um pensamento que nunca chega ao fim. 

Em cada esquina habita uma possibilidade, 
Um rosto que não conheço, uma perda futura, 
Ou talvez um fragmento de mim abandonado no tempo. 
Olho as vitrines, as sombras e os céus partidos, 
E percebo que sou tão passageiro quanto eles. 
Nada permanece além do instante que atravesso, 
E mesmo o instante já começa a se despedir. 

Continuo, porque parar também é um mistério. 
Não sei quem serei depois da próxima curva, 
Nem o que restará das perguntas que me movem. 
Mas há uma estranha beleza nessa ignorância: 
A de existir sem garantias sob o céu indiferente. 
E assim caminho, entre o acaso e o silêncio, 
Procurando um sentido que talvez seja a própria busca. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 30 de maio de 2026

Entre a luz e o abismo

Na caverna, o jovem observava as sombras 
Como quem observa um destino já escrito. 
Ao seu redor, muitos chamavam de verdade 
Aquilo que apenas passava diante dos olhos. 
Ele foi o primeiro a desconfiar da escuridão. 

Quando encontrou a luz, não sentiu conforto. 
A claridade revelou feridas, dúvidas e limites. 
Mesmo assim, continuou caminhando. 
Preferiu a inquietação do conhecimento 
À tranquilidade das ilusões. 

Do alto, contemplou um mundo mais vasto 
Do que tudo aquilo que lhe haviam ensinado. 
Compreendeu que a verdade não é uma posse, 
Mas uma busca interminável 
Que transforma quem a procura. 

Então voltou seus passos para o abismo. 
Diante das portas do inferno de Dante, 
Não buscava glória nem redenção. 
Desejava apenas compreender 
O que existe nas profundezas da alma humana. 

Ao atravessar sombras e chamas, 
Descobriu que a luz e a escuridão 
 Habitam o mesmo coração. 
E seguiu adiante, 
Carregando dentro de si uma pequena chama, 
Suficiente para iluminar 
O caminho dos que ainda procuram. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense