quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Apologia ao conhecimento III

O conhecimento não vem com luz, 
Ele apaga lâmpadas. 
Depois dele, 
Os contornos do mundo deixam de ser confiáveis. 
 
Pensar é descer. 
Não há elevação no saber profundo, 
Apenas camadas mais densas de sombra 
Onde a consciência aprende a suportar-se. 
 
A verdade não redime. 
Ela expõe. 
E quem a toca perde 
O direito ao conforto. 
 
Há ideias que não libertam, 
Condenam à lucidez. 
Depois de vistas, 
Não podem ser esquecidas sem mutilação. 
 
O ignorante sofre menos 
Porque não vê o abismo inteiro. 
O pensador vê, 
E mesmo assim continua olhando. 
 
Conhecer é aceitar 
Que o mundo não deve sentido algum, 
E que a mente humana 
É apenas um eco tentando se explicar. 
 
A razão não é antídoto contra o horror; 
É a lente que o torna nítido. 
 
Toda filosofia verdadeira 
Nasce de uma perda: 
De Deus, de centro, de promessa, 
Ou de si mesmo. 
 
O saber não salva do vazio. 
Ele ensina a habitá-lo 
Sem gritar. 
 
Pensar até o fim 
É um gesto solitário, 
Quase sempre incompreendido, 
E frequentemente irreversível. 
 
O conhecimento é uma ferida aberta 
Que nunca cicatriza, 
Apenas se aprofunda em silêncio. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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