sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

No íntimo silêncio do intelecto

 Só a tua consciência intelectual 
É um sol que incide sem piedade 
Sobre as penumbras do meu saber; 
E quando tento argumentar, 
Descubro-me réu de uma ignorância 
Que eu mesmo nunca soube nomear. 
 
Porque há desconhecimentos que dormem 
Como pedras submersas, 
Não fazem barulho, mas afundam almas. 
E tua lucidez, essa lâmina, 
Persuade-me sem ameaças: 
Não sou quem imagino saber que sou. 
 
Há quem tema o erro, 
Eu temo o desconhecer. 
Pois o erro ainda é filho do saber, 
Enquanto o desconhecer é o abismo 
Onde o pensamento não chega 
E a vaidade se esconde. 
 
E no íntimo silêncio do intelecto, 
Onde até o orgulho se cala, 
O que me convence não é a retórica, 
Nem a eloquência, 
Mas a simples e feroz verdade 
De que nada sei do que penso saber. 
 
Assim, a tua consciência ilumina 
O meu inconsciente. 
E se há persuasão em ti, 
É porque não disputas vitória, 
Disputas clareza. 
E a clareza vence tudo — até a soberba. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O lado oposto

É na transparência do lado oposto 
Que se descobre o avesso da alma; 
O vidro que separa não protege, 
Apenas denuncia o que já sabíamos sentir. 
 
A verdade não se revela na lucidez das palavras, 
Mas no reflexo que elas deixam nas pupilas; 
Lá onde o desgosto se aloja 
Como sombra que não se quer nomear. 
 
Diante do espelho do outro, 
Somos flagrados pelo que negamos ser; 
A transparência não consola, 
Mas esclarece, 
E tudo que se esclarece, dói. 
 
Há uma franqueza silenciosa 
No reflexo que nos devolve o mundo: 
Ele não mente, não poupa, não adorna. 
Apenas mostra, em traços de luz, 
O que tentamos ocultar na penumbra da aparência. 
 
O inconsolável se anuncia no rosto, 
Como um suspiro que se derrama pelos olhos. 
E é nesse gesto involuntário 
Que a verdade encontra passagem 
E se revela — sem pedir licença. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Aos miseráveis

 O tempo é curto — um fósforo aceso no vento. 
As circunstâncias, esses algozes invisíveis, 
Apertam o passo antes que o passo exista. 
 
Aos miseráveis, o mundo oferece túneis 
Que não levam a estações, 
Apenas curvas, 
E curvas, 
E curvas, 
Onde as lanternas queimam cedo 
E o amanhã tem o hábito de não chegar. 
 
O futuro, esse animal esquivo, 
Não entra nos becos, 
Não visita os porões, 
Não conhece a fome que morde a carne 
E a esperança que se cala por vergonha. 
 
Há quem diga que tudo passa, 
Mas há também aquilo que fica: 
O medo enterrado nos ossos, 
A dúvida que dorme na sola dos pés, 
O sonho que ainda respira, 
Mesmo que baixo, 
Mesmo que torto. 
 
E quando o relógio sangra 
E o túnel promete nunca se abrir, 
Resta apenas o frágil milagre 
De continuar, 
Porque continuar também é poesia, 
Mesmo quando o tempo é curto 
E o mundo é cruel. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Se ela ama flores

 Já sei como conquistar o coração dela: 
Vou sujar as mãos de terra 
Até que ela perceba 
Que sei fazer algo florescer. 
 
Plantarei um jardim 
Não para impressionar, 
Mas para que ela entenda 
Que comigo nada é raso, 
Tudo cria raiz. 
 
Se ela ama flores, 
Vai reconhecer em mim 
O homem que sabe esperar 
O desabrochar, 
E aproveitar o perfume 
Quando chega a hora. 
 
Não quero que ela me escolha pela pressa, 
Mas pelo perfume 
De quem soube esperar. 
 
Amar alguém que ama flores 
É aprender que o coração 
Não se invade: 
Se cultiva. 
 
Não quero entrar no coração dela: 
Quero que ele se abra 
Sozinho, 
Como flor que sente 
Quando é primavera. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Porque diante de ti

 Pensar na tua existência 
É como entrar num quarto 
Onde a luz é tão suave 
Que esqueço por que vim. 
 
A pergunta, 
Essa semente inquieta 
Que fecunda minha alma, 
Cai no chão fértil do silêncio 
E ali repousa, sem urgência de resposta. 
 
Porque diante de ti, 
O pensamento não quer ser inteligente, 
Quer apenas ser verdadeiro. 
 
E a verdade, às vezes, 
Não responde: 
Ela faz esquecer a pergunta 
E transforma a dúvida 
Num estado de contemplação. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A Venezuela e o sonho de Bolívar

 O sonho de Simón Bolívar 
Nasceu como um sol continental: 
Uma pátria grande, sem correntes, 
Onde as fronteiras fossem apenas rios 
E a dignidade, língua comum. 
 
Bolívar sonhou com povos irmãos, 
Não tronos, 
Não salvadores eternos, 
Mas homens livres governando a si mesmos 
Com a sobriedade 
De quem conhece o peso da História. 
 
A Venezuela, porém, tornou-se um espelho partido. 
O petróleo brilhou como ouro fácil 
E ensinou o poder 
A confundir abundância com justiça. 
A palavra “revolução” foi repetida 
Até perder o sentido 
Como uma bandeira usada para cobrir ruínas. 
 
Hoje, o sonho anda pelas ruas vazias, 
Na fome silenciosa, 
No êxodo 
Que carrega casas inteiras dentro de mochilas, 
Nas mães que transformaram a esperança 
Em resistência diária. 
 
Bolívar temia isso. 
Temia que a liberdade, mal cuidada, 
Fosse trocada por novos grilhões 
Feitos de discursos, idolatrias 
E promessas eternamente adiadas. 
 
A tragédia venezuelana não é só política, 
É espiritual. 
É o momento em que um povo é forçado 
A escolher entre sobreviver 
Ou continuar acreditando. 
 
Mas sonhos verdadeiros não morrem. 
Eles adoecem, sangram, 
Ficam soterrados sob a poeira da História, 
Até que alguém, um dia, 
Os desenterre com coragem 
E os liberte outra vez, 
Não em nome de um homem, 
Mas em nome da vida e da liberdade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Eu me avisei

 Eu me avisei 
Com a voz baixa da intuição, 
Mas fiz barulho demais por dentro 
Para escutar. 
 
Havia sinais espalhados 
Como migalhas no caminho, 
Mas eu estava com fome de ilusão 
E passei direto. 
 
Eu me avisei 
No aperto súbito do peito, 
Na insônia sem motivo, 
Na alegria que já vinha cansada. 
 
A verdade bateu antes de entrar, 
Mas eu fingi não estar em casa. 
 
Não foi falta de aviso, 
Foi excesso de esperança. 
 
Eu confundi coragem 
Com teimosia, 
E fé 
Com medo de desistir. 
 
Há um tipo de erro 
Que não nasce da ignorância, 
Mas da recusa em aceitar 
O que já sabemos. 
 
Hoje entendo: 
A dor não veio do tombo, 
Mas do silêncio que fiz 
Quando a mim mesmo eu chamei. 
 
Eu me avisei. 
E isso dói mais 
Do que não ter sido alertado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Viver bem

 Há instantes que não pedem pressa, 
Só presença. 
O brilho do sol num fim de tarde, 
Um riso que escapa sem motivo, 
Um abraço que silencia o mundo. 
 
A vida se revela nas entrelinhas, 
Nos detalhes que não se explicam — se sentem. 
 
Viver bem não é correr, 
É saber parar. 
Olhar ao redor e agradecer 
Pelo simples que encanta, 
Pelo breve que marca, 
Pelo agora que existe. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 4 de janeiro de 2026

Calmaria

 Há sol lá fora. 
Um sol que não pede licença, 
Que toca as calçadas, 
Que escorre pelos rostos apressados 
Como se tudo estivesse, de algum modo, 
No lugar certo. 
 
Há gente correndo. 
Pernas em fuga, em destino, em rotina. 
Há passos que sabem para onde vão, 
Mesmo quando não sabem por quê. 
O mundo segue, pontual e distraído. 
 
Há vida. 
Barulhenta, insistente, quase teimosa. 
Vida que não pergunta se pode existir, 
Apenas existe. 
 
Mas aqui dentro… 
Aqui dentro é outro clima. 
 
Uma calmaria estranha, 
Como um lago sem vento 
Que ainda assim dá medo de atravessar. 
Nada se move, 
E justamente por isso 
Tudo pesa. 
 
O silêncio não grita, 
Mas aperta. 
O descanso não acolhe, 
Mas inquieta. 
É paz sem alívio, 
É pausa sem repouso. 
 
Sinto como se o mundo 
Estivesse respirando fundo 
Enquanto eu prendo o ar. 
Como se lá fora tudo estivesse em expansão 
E aqui dentro, em suspensão. 
 
Não é tristeza, 
É um desconforto manso, educado, 
Que senta ao meu lado 
E não vai embora. 
 
Talvez seja isso: 
O corpo em calmaria, 
A alma em vigília. 
Esperando não sei o quê, 
Mas sabendo 
Que ainda não é agora. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Incertezas do amor

 Às vezes o amor não sofre por ausência, 
Mas por excesso de pergunta. 
Ele existe — e, ainda assim, duvida de si. 
 
Há amores que caminham 
Como sombras ao entardecer: 
Estão ali, alongados no chão da alma, 
Mas qualquer mudança de luz os faz desaparecer. 
E então o coração se pergunta 
Se ama alguém 
Ou se ama apenas a ideia de não estar sozinho. 
 
O amor incerto não grita, 
Ele cochicha. 
Não promete, 
Adianta-se em silêncios. 
É um sentimento que pede provas 
Do mesmo modo que a fé pede milagres: 
Com medo de não resistir à resposta. 
 
Há dias em que ele pulsa, 
Outros em que se esconde, 
Como se tivesse vergonha de existir sem garantias. 
Ama, mas teme estar enganado. 
Deseja, mas suspeita que o desejo 
Seja apenas um eco 
Batendo nas paredes da própria carência. 
 
Talvez o amor mais frágil 
Seja aquele que olha para dentro 
E não encontra certeza suficiente para permanecer. 
Não por falta de sentimento, 
Mas por medo de descobrir 
Que tudo o que sente 
Não passa de um ensaio para a perda. 
 
E ainda assim, mesmo duvidando, 
Ele fica. 
Porque até a incerteza 
É uma forma de amor 
Quando o coração prefere questionar 
A simplesmente partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 3 de janeiro de 2026

A ascensão dos idiotas

 A ignorância já não cochicha, 
Ela grita. 
E quem grita mais alto 
Passa a parecer convicto, 
Mesmo quando não pensa. 
 
Os idiotas não chegaram marchando, 
Vieram sorrindo, 
Pedindo likes, 
Confundindo opinião com verdade 
E barulho com razão. 
 
O saber cansou de explicar. 
O silêncio virou refúgio. 
Enquanto isso, 
A estupidez vestiu a fantasia da coragem 
E se autoproclamou líder. 
 
Vivemos a era em que 
Pensar dói 
E repetir anestesia. 
Quem questiona é suspeito, 
Quem reflete é inimigo, 
Quem duvida é fraco. 
 
A ascensão dos idiotas 
Não acontece porque são muitos, 
Mas porque os lúcidos 
Estão exaustos de lutar 
Contra moinhos de vento 
Que agora têm microfone. 
 
O idiota moderno não é vazio: 
Ele é cheio de certezas prontas, 
Opiniões herdadas, 
Ódios terceirizados 
E verdades embaladas a vácuo. 
 
Quando o senso crítico adoece, 
A mediocridade governa 
Como se fosse destino. 
E o futuro, 
Esse, aprende a tropeçar 
Antes mesmo de caminhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Vou te levar comigo

 Vou te levar comigo 
Como quem guarda um fósforo aceso no bolso, 
Não para incendiar o mundo, 
Mas para lembrar que o frio existe. 
 
Vou te levar protegida, 
Não do tempo, 
Mas do esquecimento descuidado, 
Aquele que deixa as coisas caírem no chão 
Sem perceber. 
 
Ninguém vai roubar você de mim, 
Porque não te carrego no corpo, 
Nem nas palavras ditas em voz alta. 
Te levo onde não há mãos, 
Onde não há comércio, 
Onde não há disputa. 
 
Você será a lembrança mais humana 
Porque falha, 
Porque treme, 
Porque às vezes dói sem saber por quê. 
 
E será completa 
Não por ser perfeita, 
Mas porque inclui o silêncio, 
O gesto que não aconteceu, 
O amor que não precisou se explicar. 
 
Vou te levar comigo 
Como quem leva uma casa invisível: 
Não pesa, 
Não aparece, 
Mas é onde eu descanso 
Quando o mundo se torna frio demais. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Não é o tempo que renova

 O novo não nasce à meia-noite, 
Não se revela no calendário virado, 
Nem chega embalado pelo nome do ano. 
Ele pede mãos sujas de tentativa 
E ouvidos cansados de escutar o que retorna. 
 
Aquilo que se repete não é erro: 
É mensagem insistente, 
Batendo à porta da consciência 
Até que tenhamos coragem 
De mudar o lugar da mobília interior. 
 
O novo acontece quando paramos de fugir do eco 
E passamos a dialogar com ele. 
Quando a ferida deixa de ser evitada 
E se transforma em passagem. 
 
Não é o tempo que renova, 
Somos nós, 
Quando ousamos escutar com mais profundidade 
E oferecer outro destino 
Àquilo que sempre volta pedindo sentido. 
 
O novo, afinal, 
É o antigo compreendido 
Pela primeira vez. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A vida é um sonho lírico

 O ser infinito, 
Causa primeira do universo, 
Não empurra o mundo: 
Ele o sonha na imaginação. 
 
E no sonho, 
As estrelas são sílabas antigas 
Escapando da boca do silêncio. 
 
Antes do tempo aprender a andar, 
Já havia um sopro, não de vento, 
Mas de intenção. 
Ali nasceu tudo 
Sem precisar nascer. 
 
A vida, então, 
É um sonho lírico 
Que se esqueceu de acordar. 
Somos versos provisórios 
Escritos na margem do eterno. 
 
Cada dor é metáfora, 
Cada amor, um eco 
Daquilo que não tem nome 
Mas insiste em ser sentido. 
 
O infinito não governa: 
Ele permite. 
E permitir é a forma mais pura 
De criar sem prender. 
 
Viver é recitar o universo 
Com a voz trêmula da carne, 
Sabendo que o poema não termina, 
Apenas muda de leitor. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Todos os dias observo meus sonhos

 Todos os dias observo meus sonhos 
Como quem vigia um fogo fraco 
No fundo da noite. 
Não para queimar o mundo, 
Mas para que o escuro não vença tudo. 
 
Eles respiram em silêncio, 
Frágeis como ideias que ainda não aprenderam 
A pedir abrigo. 
Se não os olho, 
Se não retorno a eles com alguma fidelidade, 
O tempo os cobre de poeira 
E os chama de ilusão. 
 
Aprendi que sonhos não se perdem de uma vez. 
Eles se afastam devagar, 
Quando a vida exige pressa, 
Quando a sobrevivência vira desculpa, 
Quando o cansaço começa a parecer verdade. 
 
Por isso observo. 
Não avanço, não conquisto, não prometo. 
Apenas permaneço. 
Porque existir, às vezes, 
É ficar de pé diante do que ainda não aconteceu 
E não desviar o olhar. 
 
Meus sonhos sabem que posso falhar, 
Sabem que o mundo é maior que minhas forças, 
Mas continuam ali 
Porque reconhecem em mim 
Alguém que não os troca por certezas. 
 
E enquanto eu os observo, 
Mesmo sem entendê-los, 
Eles não se perdem de vista, 
Sou eu 
Quem permanece inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense