Há mapas feitos de desejo e cicatriz,
Veredas que nascem no instante vacilante
Em que amar é perder-se e ainda assim ser feliz,
Como quem encontra no abismo a própria raiz.
O coração não sabe da lógica dos dias,
Ele pulsa em desordem, em febre e contramão,
Costura esperanças com frágeis ousadias,
E transforma em abrigo o que era solidão,
Feito um sonho que insiste em caber na razão.
E o amanhã nos chama com voz indecifrável,
Promessa suspensa no ar do que virá,
Um sopro invisível, tão doce e inevitável,
Que nos move adiante, mesmo sem nos guiar,
Como estrela que existe só para nos sonhar.
A vida nos atravessa sem pedir passagem,
É lâmina e abraço, é queda e elevação,
Um rio que nos leva além da própria margem,
E escreve em nosso peito a sua tradução,
Em versos que só o silêncio entende então.
Quem sabe o sentido não seja ser completo,
Mas sentir cada instante em sua imensidão,
Ser fragmento vivo de um mistério inquieto,
Onde existir já basta, sem qualquer explicação,
E viver é aprender a escutar o coração.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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