segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os que não querem saber

 O homem estava sentado no bar. 
Falava alto. Todos ouviam. Ninguém perguntava nada. Ele gostava disso. 
Do outro lado da mesa havia um professor. Bebia devagar. Não falava muito. Sabia que certas perguntas estragam uma conversa. 
O homem continuou falando. Tinha respostas para tudo. Para a política. Para a guerra. Para a fome. Para o futuro. 
Os outros concordavam. 
Era mais fácil concordar. 
Lá fora, a noite caía sobre a cidade. As luzes acendiam. Os carros passavam. O mundo seguia complicado. 
Mas dentro do bar tudo era simples. 
Muito simples. 
O professor olhou pela janela. Pensou nos livros que ninguém lia. Pensou nas histórias que ninguém queria ouvir. Pensou no trabalho que dá compreender a alguma coisa. 
Terminou a bebida. 
O homem ainda falava. 
As pessoas ainda ouviam. 
Ninguém parecia perceber a diferença entre uma opinião e um conhecimento. 
Ninguém parecia se importar. 
O professor levantou-se e saiu. 
A rua estava silenciosa. 
O ar da noite era frio. 
Ele sabia que o mundo nunca pertenceu aos que fazem as perguntas. Pertenceu quase sempre aos que falam mais alto. 
Mesmo assim, continuou caminhando. 
Era a única coisa honesta que podia fazer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário