terça-feira, 9 de junho de 2026

Asas feitas de tempo

O poeta, às vezes, se esquece do chão, 
E sobe leve nas entrelinhas do vento, 
Costurando memórias com invenção, 
Faz da dor um suave movimento, 
E da vida, um recomeço em expansão. 

Há dias em que sua caneta é prisão, 
E a palavra pesa como lamento antigo, 
Mas basta um sopro, uma centelha na mão, 
Para romper o silêncio inimigo 
E erguer voo sobre a própria solidão. 

Ele escreve histórias dentro da história, 
Como quem redesenha o próprio destino, 
Transforma ausência em tênue memória, 
E no caos encontra um traço divino, 
Fazendo do instante uma eterna vitória. 

Seus versos são asas feitas de tempo, 
De tudo aquilo que viveu e perdeu, 
Cada linha carrega um contratempo, 
Mas também o milagre que nasceu 
No abismo entre o sentir e o pensamento. 

O poeta segue, entre céu e chão, 
Ora ferido, ora pleno de luz, 
Carregando em si a contradição 
De quem escreve, apaga e ainda produz 
Novas histórias na própria imensidão. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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