terça-feira, 19 de maio de 2026

Eu caminhava certo de minha liberdade

 Havia uma multidão nascendo em volta do meu rosto, 
Como fumaça subindo das ruas da tarde, 
Vozes repetindo desejos que nunca tive, 
Mãos invisíveis guiando meus passos cansados. 
Eu caminhava certo de minha liberdade, 
Sem notar que meus sonhos tinham donos antigos, 
Nem que meu silêncio já falava pela massa. 
 
Nas vitrines do mundo penduram pensamentos, 
E cada olhar aprende a desejar o mesmo céu. 
A cidade inteira parece mover-se sonâmbula, 
Como um rio escuro carregando nomes apagados. 
Às vezes escuto minha consciência ao longe, 
Presa atrás do ruído das opiniões prontas, 
Pedindo que eu me recorde de quem sou. 
 
Então paro diante da noite e do espelho, 
Tentando separar minha voz do coro humano. 
Descubro que despertar é quase uma ferida, 
Uma lenta ruptura contra o conforto do rebanho. 
Mas há algo sagrado em pensar sozinho, 
Como uma vela acesa no centro da tempestade, 
Resistindo ao vento feroz das multidões. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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