segunda-feira, 25 de maio de 2026

O ontem se tornou sombra

Não posso voltar para ontem, 
Porque o que fui se dissolveu nas águas do tempo. 
O reflexo que um dia me reconhecia 
Hoje me olha com estranheza e cala. 
 
Ontem era um abrigo feito de enganos, 
Um refúgio onde a esperança dormia sem pressa. 
Mas o tempo, em sua delicada crueldade, 
Me ensinou que até os abrigos apodrecem 
Quando o coração amadurece demais. 
 
Há em mim o eco de uma voz antiga, 
Que me chama de um corpo esquecido. 
Era outro o pulso, outra a fé, outro o medo. 
Voltar seria vestir uma pele que o tempo rasgou, 
Ser estrangeiro de mim mesmo. 
 
Às vezes tento tocar o ontem, 
Como quem busca um fantasma querido. 
Mas o toque atravessa o ar, 
Porque o que fui não me espera mais. 
 
O ontem se tornou sombra, 
E eu, o silêncio que resta depois da sombra. 
Sou o intervalo entre duas versões de mim: 
A que sonhava e a que sobreviveu. 
 
Talvez o ontem ainda exista, 
Guardado em um canto do tempo onde já não moro. 
E tudo o que resta é este corpo novo, 
Feito de perdas que aprenderam a respirar. 
 
Não posso voltar para ontem, 
Porque lá eu era outra pessoa. 
E, ainda que doa, 
É nesse não-retorno que o presente me reconhece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário