domingo, 4 de janeiro de 2026

Incertezas do amor

 Às vezes o amor não sofre por ausência, 
Mas por excesso de pergunta. 
Ele existe — e, ainda assim, duvida de si. 
 
Há amores que caminham 
Como sombras ao entardecer: 
Estão ali, alongados no chão da alma, 
Mas qualquer mudança de luz os faz desaparecer. 
E então o coração se pergunta 
Se ama alguém 
Ou se ama apenas a ideia de não estar sozinho. 
 
O amor incerto não grita, 
Ele cochicha. 
Não promete, 
Adianta-se em silêncios. 
É um sentimento que pede provas 
Do mesmo modo que a fé pede milagres: 
Com medo de não resistir à resposta. 
 
Há dias em que ele pulsa, 
Outros em que se esconde, 
Como se tivesse vergonha de existir sem garantias. 
Ama, mas teme estar enganado. 
Deseja, mas suspeita que o desejo 
Seja apenas um eco 
Batendo nas paredes da própria carência. 
 
Talvez o amor mais frágil 
Seja aquele que olha para dentro 
E não encontra certeza suficiente para permanecer. 
Não por falta de sentimento, 
Mas por medo de descobrir 
Que tudo o que sente 
Não passa de um ensaio para a perda. 
 
E ainda assim, mesmo duvidando, 
Ele fica. 
Porque até a incerteza 
É uma forma de amor 
Quando o coração prefere questionar 
A simplesmente partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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