domingo, 11 de janeiro de 2026

A verdade cruel da noite

 O dia mente, sempre mente, 
Antes que a noite 
Faça o corte profundo 
Na superfície de um coração carente. 
Mente com claridade, 
Como se a luz pudesse curar o que não tem nome. 
Mente prometendo que houve sentido, 
Que houve reciprocidade, 
Que houve lugar seguro. 
 
Mas o dia é mestre em pequenas ilusões: 
Tapeia a tristeza com cores quentes, 
Distrai a solidão com o trabalho, 
Disfarça a saudade com tarefas, 
Embelezando a ferida 
Para que ninguém veja o pus da ausência. 
 
A noite não. 
A noite não se ocupa de maquiar. 
Ela entra com bisturi fino, frio, silencioso, 
E corta onde o dia apenas cobriu com gaze. 
Nela, o coração carente 
Escuta o eco do que não foi dito, 
O peso do que não foi sentido, 
E o perfume do que se perdeu antes de florescer. 
 
O dia mente porque precisa que sobrevivamos. 
A noite fere porque quer que aprendamos. 
Entre os dois, 
O coração aprende a pulsar nas frestas, 
A amar no intervalo dos enganos, 
A se reinventar na língua das cicatrizes. 
 
E assim seguimos: 
Vivendo do engano do dia, 
E da verdade cruel da noite. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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