Antes que a noite
Faça o corte profundo
Na superfície de um coração carente.
Mente com claridade,
Como se a luz pudesse curar o que não tem nome.
Mente prometendo que houve sentido,
Que houve reciprocidade,
Que houve lugar seguro.
Mas o dia é mestre em pequenas ilusões:
Tapeia a tristeza com cores quentes,
Distrai a solidão com o trabalho,
Disfarça a saudade com tarefas,
Embelezando a ferida
Para que ninguém veja o pus da ausência.
A noite não.
A noite não se ocupa de maquiar.
Ela entra com bisturi fino, frio, silencioso,
E corta onde o dia apenas cobriu com gaze.
Nela, o coração carente
Escuta o eco do que não foi dito,
O peso do que não foi sentido,
E o perfume do que se perdeu antes de florescer.
O dia mente porque precisa que sobrevivamos.
A noite fere porque quer que aprendamos.
Entre os dois,
O coração aprende a pulsar nas frestas,
A amar no intervalo dos enganos,
A se reinventar na língua das cicatrizes.
E assim seguimos:
Vivendo do engano do dia,
E da verdade cruel da noite.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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