quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Bilhete lido em segredo

Ao cair da tarde, entre relógios fatigados 
E o rumor distante dos ônibus sob a chuva, 
Havia uma luz amarela repousando sobre os móveis, 
Uma luz que não prometia redenção, 
Apenas a continuação das horas. 

Em seus braços, lentamente me desdobrei 
Como um bilhete esquecido numa gaveta antiga, 
Entre recibos, retratos e datas apagadas. 
As palavras emergiam sem triunfo, 
Como fragmentos resgatados de uma cidade submersa. 

Abril já não era o mês mais cruel. 
Cruel era o acúmulo dos dias idênticos, 
As xícaras vazias alinhadas na cozinha, 
Os jornais envelhecendo sobre a mesa, 
E a poeira aprendendo os nomes dos ausentes. 

Que voz falava através de nós? 
A voz dos corredores desertos ao entardecer? 
A voz dos livros que ninguém termina? 
Ou apenas o murmúrio do tempo, 
Costurando perdas na bainha da memória? 

E enquanto a noite descia sobre os telhados, 
Não encontrei revelações nem respostas. 
Apenas o som de uma respiração próxima, 
E um bilhete aberto sobre o abismo das coisas, 
Lido em segredo por dois viajantes do mesmo silêncio. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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