Em que não desejei mais ninguém.
Nem pele, nem voz, nem perfume.
A fome não se voltou para fora,
Ela se fechou como um punho dentro do peito.
E eu entendi.
Nunca foram os beijos das mulheres.
Nunca foi o toque ou a ausência.
O que me matava de sede
Era o espelho.
Era o que eu via nos meus próprios olhos:
Uma boca aberta para sempre,
Esperando ser preenchida por algo que não existe.
Naquela noite, não acendi as luzes.
Me deitei no escuro como quem volta para casa.
E pela primeira vez,
Não busquei corpo algum,
Porque o meu já era ruína suficiente.
Senti a sede me envolver
Como um lençol morno.
Ela me beijou na testa,
Nos olhos, na alma.
E eu beijei de volta.
Então fui deixado para trás.
Ou talvez tenha sido absorvido.
Não sei dizer.
A verdade é que me tornei silêncio.
E o silêncio, enfim, me bastou.
Porque quando deixei de ser homem,
Quando deixei de ser busca,
Quando deixei de ser eco,
Então me tornei a própria sede.
E a sede...
A sede não quer ser saciada.
Ela só quer permanecer.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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