domingo, 11 de outubro de 2026

Eu me tornei a sede

 Chegou uma noite 
Em que não desejei mais ninguém. 
Nem pele, nem voz, nem perfume. 
A fome não se voltou para fora, 
Ela se fechou como um punho dentro do peito. 
E eu entendi. 
Nunca foram os beijos das mulheres. 
Nunca foi o toque ou a ausência. 
O que me matava de sede 
Era o espelho. 
Era o que eu via nos meus próprios olhos: 
Uma boca aberta para sempre, 
Esperando ser preenchida por algo que não existe. 
 
Naquela noite, não acendi as luzes. 
Me deitei no escuro como quem volta para casa. 
E pela primeira vez, 
Não busquei corpo algum, 
Porque o meu já era ruína suficiente. 
Senti a sede me envolver 
Como um lençol morno. 
Ela me beijou na testa, 
Nos olhos, na alma. 
E eu beijei de volta. 
Então fui deixado para trás. 
Ou talvez tenha sido absorvido. 
Não sei dizer. 
 
A verdade é que me tornei silêncio. 
E o silêncio, enfim, me bastou. 
Porque quando deixei de ser homem, 
Quando deixei de ser busca, 
Quando deixei de ser eco, 
Então me tornei a própria sede. 
E a sede... 
A sede não quer ser saciada. 
Ela só quer permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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