quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A vida não faz discursos

 O café esfriou enquanto eu olhava pela janela. 
Não aconteceu nenhuma revolução. 
O ônibus passou no horário de sempre. 
O cachorro latiu para alguém que nunca vi. 
O mundo continuou indiferente. 
 
Descobri que a vida não faz discursos. 
Ela entrega contas para pagar, 
Cadeiras vazias, 
Telefonemas que não chegam 
E algumas manhãs que insistem em nascer. 
 
As pessoas falam de grandes sonhos. 
Eu desconfio deles. 
Prefiro quem consegue atravessar a semana 
Sem vender a própria consciência 
Por um aplauso qualquer. 
 
Há uma estranha dignidade 
Em voltar para casa cansado, 
Abrir a porta, respirar fundo 
E perceber que ainda existe algo inteiro 
Que o fracasso não conseguiu tocar. 
 
Pode ser que a felicidade nunca tenha feito barulho. 
Talvez ela more nesses instantes esquecidos, 
Quando ninguém está olhando, 
Quando a noite aceita o silêncio 
E você finalmente deixa de fingir ser outro. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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