Não aconteceu nenhuma revolução.
O ônibus passou no horário de sempre.
O cachorro latiu para alguém que nunca vi.
O mundo continuou indiferente.
Descobri que a vida não faz discursos.
Ela entrega contas para pagar,
Cadeiras vazias,
Telefonemas que não chegam
E algumas manhãs que insistem em nascer.
As pessoas falam de grandes sonhos.
Eu desconfio deles.
Prefiro quem consegue atravessar a semana
Sem vender a própria consciência
Por um aplauso qualquer.
Há uma estranha dignidade
Em voltar para casa cansado,
Abrir a porta, respirar fundo
E perceber que ainda existe algo inteiro
Que o fracasso não conseguiu tocar.
Pode ser que a felicidade nunca tenha feito barulho.
Talvez ela more nesses instantes esquecidos,
Quando ninguém está olhando,
Quando a noite aceita o silêncio
E você finalmente deixa de fingir ser outro.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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