Não é um ato de vontade,
É uma luta silenciosa entre a memória,
Que insiste em sobreviver,
E a lucidez que tenta nos salvar.
Há pessoas que não ficam pelo amor,
Mas pelo hábito de terem sido abrigo
Quando tudo doía.
E o coração, confuso,
Chama de saudade o que já é ausência.
Esquecer dói porque exige aceitar
Que o que existiu não voltará a existir
Do mesmo modo.
É enterrar alguém vivo dentro da gente
Sem direito a velório.
A mente entende o adeus antes do peito.
O peito, atrasado, continua
Batendo nomes proibidos,
Recriando cenas que já perderam o chão,
Como quem se agarra ao ar.
Há quem precise esquecer
Não por falta de amor,
Mas por excesso de ferida.
Porque permanecer lembrando
É continuar sangrando sem corte novo.
O mais difícil não é apagar o rosto,
É desmontar a versão de nós
Que só existia ao lado daquela pessoa.
Esquecer alguém, às vezes,
É reaprender a ser inteiro sozinho.
E quando finalmente começa o esquecimento,
Ele não vem como alívio,
Vem como um silêncio estranho,
Quase uma traição à própria história.
Mas é nesse vazio que a vida,
Devagar, aprende a caber de novo.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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