domingo, 1 de fevereiro de 2026

Luta silenciosa

 Esquecer quem precisamos esquecer 
Não é um ato de vontade, 
É uma luta silenciosa entre a memória, 
Que insiste em sobreviver, 
E a lucidez que tenta nos salvar. 
 
Há pessoas que não ficam pelo amor, 
Mas pelo hábito de terem sido abrigo 
Quando tudo doía. 
E o coração, confuso, 
Chama de saudade o que já é ausência. 
 
Esquecer dói porque exige aceitar 
Que o que existiu não voltará a existir 
Do mesmo modo. 
É enterrar alguém vivo dentro da gente 
Sem direito a velório. 
 
A mente entende o adeus antes do peito. 
O peito, atrasado, continua 
Batendo nomes proibidos, 
Recriando cenas que já perderam o chão, 
Como quem se agarra ao ar. 
 
Há quem precise esquecer 
Não por falta de amor, 
Mas por excesso de ferida. 
Porque permanecer lembrando 
É continuar sangrando sem corte novo. 
 
O mais difícil não é apagar o rosto, 
É desmontar a versão de nós 
Que só existia ao lado daquela pessoa. 
Esquecer alguém, às vezes, 
É reaprender a ser inteiro sozinho. 
 
E quando finalmente começa o esquecimento, 
Ele não vem como alívio, 
Vem como um silêncio estranho, 
Quase uma traição à própria história. 
Mas é nesse vazio que a vida, 
Devagar, aprende a caber de novo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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