sábado, 24 de janeiro de 2026

O sorriso do gato invisível

 Há dias em que o céu não se abre em azul, 
Mas em ironia. 
Um arco invisível se desenha no alto, 
Não de luz, 
Mas de intenção. 
 
É o sorriso de um gato que não está, 
Mas observa. 
Não mia, não salta, não cai: 
Paira. 
Um riso suspenso, debochado, 
Como quem sabe algo 
E se recusa a explicar. 
 
O céu, então, deixa de ser abrigo 
E vira provocação. 
Parece dizer que a ordem é uma invenção humana, 
Que o acaso tem humor 
E que o absurdo sabe rir. 
 
Esse sorriso pintado no nada 
Zomba das nossas urgências, 
Das previsões do tempo, 
Das promessas de amanhã. 
Ele permanece, curvo e calmo, 
Enquanto tudo embaixo insiste em desmoronar. 
 
Talvez o céu seja isso: 
Uma tela onde o invisível ensaia gestos, 
E o gato — esse mestre do desprezo elegante, 
Nos lembra, sem palavras, 
Que nem tudo precisa fazer sentido 
Para continuar existindo. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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