Há dias em que o coração parece escrever cartas
Que minha boca não consegue ler.
Ficam lá, dobradas dentro de mim,
Como papéis que não ousam ver a luz,
Com medo de que, ao serem abertos,
Percam o perfume que só existe no segredo.
Eu tento falar — tento mesmo,
Mas as palavras tropeçam umas nas outras,
Disputando quem vai sair primeiro
E no fim se calam, envergonhadas,
Como se sentissem que são pequenas demais
Para o tamanho do que carrego.
Talvez por isso meus gestos se alonguem,
Meus olhares demorem mais do que o necessário,
E minha respiração mude de ritmo
Quando você está por perto.
É a linguagem subterrânea,
Essa língua que não se aprende em livros,
Mas no choque
Entre querer dizer e temer ser ouvido.
Eu penso em te contar,
E quase sempre penso forte demais,
Mas então me assusto com a ideia
De que, ao traduzir o sentimento,
Ele se desfaça,
Como uma estrela cadente
Que só brilha enquanto cai.
Então sigo guardando,
Como quem cultiva
Uma chama pequena dentro do peito,
Aquecendo-me com o calor secreto dela,
Esperando que um dia você perceba
Que até o meu silêncio é todo sobre você.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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