terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O que quero e não consigo dizer

Há dias em que o coração parece escrever cartas 
Que minha boca não consegue ler. 
Ficam lá, dobradas dentro de mim, 
Como papéis que não ousam ver a luz, 
Com medo de que, ao serem abertos, 
Percam o perfume que só existe no segredo. 
 
Eu tento falar — tento mesmo, 
Mas as palavras tropeçam umas nas outras, 
Disputando quem vai sair primeiro 
E no fim se calam, envergonhadas, 
Como se sentissem que são pequenas demais 
Para o tamanho do que carrego. 
 
Talvez por isso meus gestos se alonguem, 
Meus olhares demorem mais do que o necessário, 
E minha respiração mude de ritmo 
Quando você está por perto. 
É a linguagem subterrânea, 
Essa língua que não se aprende em livros, 
Mas no choque 
Entre querer dizer e temer ser ouvido. 
 
Eu penso em te contar, 
E quase sempre penso forte demais, 
Mas então me assusto com a ideia 
De que, ao traduzir o sentimento, 
Ele se desfaça, 
Como uma estrela cadente 
Que só brilha enquanto cai. 
 
Então sigo guardando, 
Como quem cultiva 
Uma chama pequena dentro do peito, 
Aquecendo-me com o calor secreto dela, 
Esperando que um dia você perceba 
Que até o meu silêncio é todo sobre você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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