segunda-feira, 4 de maio de 2026

Manifesto poético sobre a escrita

A escrita não é mero registro, 
Não é sombra do que já passou, 
É incêndio contido em símbolos, 
É rio subterrâneo que insiste em romper a pedra. 
Escrever é conspirar contra o esquecimento. 
É desafiar a rotina, que nos quer dóceis, 
Presas da repetição diária. 
 
A palavra, quando ousada, abre fissuras: 
Transforma o instante em eternidade, 
O banal em revelação, 
O silêncio em claridade. 
 
Cada letra é um gesto de resistência. 
Cada frase, uma passagem secreta 
Que o olhar distraído não percebe, 
Mas que o espírito inquieto atravessa 
Como quem descobre uma escada escondida 
Na casa em ruínas do tempo. 
 
Escrever é ferir o chão 
Para que dele surjam flores impossíveis. 
É aceitar que dentro de nós habitam vozes 
Que não se calam até encontrarem corpo no papel. 
É invocar fantasmas, deuses, memórias 
E oferecer-lhes abrigo em linhas tortas, 
Sabendo que nunca mais serão apenas nossas. 
 
Eis o manifesto: 
A escrita é ato de insubmissão, 
É o mapa de territórios que não cabem no mundo, 
É o risco de se perder para, enfim, encontrar-se. 
Quem escreve não obedece à rotina, 
Quem escreve fabrica portais 
E atravessa o invisível 
Para deixar rastros de eternidade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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