A escrita não é mero registro,
Não é sombra do que já passou,
É incêndio contido em símbolos,
É rio subterrâneo que insiste em romper a pedra.
Escrever é conspirar contra o esquecimento.
É desafiar a rotina, que nos quer dóceis,
Presas da repetição diária.
A palavra, quando ousada, abre fissuras:
Transforma o instante em eternidade,
O banal em revelação,
O silêncio em claridade.
Cada letra é um gesto de resistência.
Cada frase, uma passagem secreta
Que o olhar distraído não percebe,
Mas que o espírito inquieto atravessa
Como quem descobre uma escada escondida
Na casa em ruínas do tempo.
Escrever é ferir o chão
Para que dele surjam flores impossíveis.
É aceitar que dentro de nós habitam vozes
Que não se calam até encontrarem corpo no papel.
É invocar fantasmas, deuses, memórias
E oferecer-lhes abrigo em linhas tortas,
Sabendo que nunca mais serão apenas nossas.
Eis o manifesto:
A escrita é ato de insubmissão,
É o mapa de territórios que não cabem no mundo,
É o risco de se perder para, enfim, encontrar-se.
Quem escreve não obedece à rotina,
Quem escreve fabrica portais
E atravessa o invisível
Para deixar rastros de eternidade.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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