Perdido nas vertigens do tempo, caminho sem trilha,
Os ponteiros giram, mas não me alcançam.
Há um eco antigo nas dobras do instante,
Como se eu fosse atraso de mim mesmo,
Um desencontro que insiste em permanecer.
O passado me toca com dedos de ausência,
O futuro me observa com olhos de dúvida.
Entre ambos, me desfaço em silêncio,
Feito areia atravessando as mãos do agora,
Sem jamais saber onde realmente estou.
Gosto, mas não amo, e nisso me protejo,
Como quem contempla o fogo sem se queimar.
Há ternura nas bordas, mas não no centro,
Há presença sem entrega, gesto sem raiz,
Um quase que nunca se completa.
E então me volto para dentro, inevitável,
Como quem despenca em um poço sem fundo.
Encontro-me disperso, múltiplo, estranho,
Um eu que me olha e não me reconhece,
Um rosto que já não sabe seu nome.
E fico só, nesse território sem mapas,
Onde o silêncio fala mais que qualquer voz.
Talvez seja aqui o início de algo,
Ou apenas o fim que se alonga em mim,
Como um tempo que nunca termina de cair.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário