Tem quem caminhe apenas para chegar.
Mas há quem caminhe para ver.
E ver, no meu caso, não é apenas olhar.
É recolher o invisível
Que escorre pelas margens do mundo.
Eu passo pelas ruas
Como quem lê um livro que ninguém escreveu,
E ainda assim entende cada linha.
O vendedor cansado que sorri por necessidade,
A janela entreaberta que guarda segredos,
O silêncio pesado
Entre duas pessoas que já se disseram tudo.
Vejo poesia nisso, mas não pronta.
Ela não se oferece.
Ela se esconde nas frestas do cotidiano,
Nos gestos mínimos,
Nos detalhes que a pressa abandona.
E eu, ao invés de atravessar o mundo,
Permito que o mundo me atravesse.
Transformar o que acontece em poesia
É um tipo raro de coragem,
Porque exige sentir sem anestesia,
Perceber sem filtro,
E aceitar que nem tudo que se vê
Cabe inteiro em palavras.
Mesmo assim eu tento.
Nesse esforço, algo extraordinário acontece.
O comum deixa de ser comum.
O instante ganha eternidade.
E aquilo que passaria despercebido
Encontra, enfim, um lugar para existir.
Ser poeta não é só escrever.
É andar por aí,
Recolhendo pedaços do mundo,
E devolvê-los com alma.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense
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