sábado, 2 de maio de 2026

Um segredo que escolheu existir

Nos teus olhos encontrei um abrigo antigo, 
Como se já os tivesse visto em outra vida, 
Havia neles um silêncio cheio de sentido, 
Uma calma que não se explica, apenas habita, 
E um amor que não precisava dizer seu nome. 
 
E quando teus olhos pousaram sobre mim, 
O mundo perdeu o peso e a pressa, 
As horas se dobraram como folhas ao vento, 
E tudo o que era ruído se tornou ausência, 
Restando apenas o que pulsa e permanece. 
 
Teus olhos eram mais que luz, eram promessa, 
Um horizonte que não se mede em distância, 
Neles havia a ternura dos começos, 
E também a coragem dos que permanecem, 
Mesmo quando o amor pede mais do que temos. 
 
Vi em teu olhar a beleza que não se desfaz, 
Aquela que resiste ao tempo e ao esquecimento, 
Não era brilho passageiro ou encanto frágil, 
Era algo profundo, quase eterno, 
Como um segredo que escolheu existir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Onde vejo poesia

Tem quem caminhe apenas para chegar. 
Mas há quem caminhe para ver. 
E ver, no meu caso, não é apenas olhar. 
É recolher o invisível 
Que escorre pelas margens do mundo. 
 
Eu passo pelas ruas 
Como quem lê um livro que ninguém escreveu, 
E ainda assim entende cada linha. 
O vendedor cansado que sorri por necessidade, 
A janela entreaberta que guarda segredos, 
O silêncio pesado 
Entre duas pessoas que já se disseram tudo. 
 
Vejo poesia nisso, mas não pronta. 
Ela não se oferece. 
Ela se esconde nas frestas do cotidiano, 
Nos gestos mínimos, 
Nos detalhes que a pressa abandona. 
E eu, ao invés de atravessar o mundo, 
Permito que o mundo me atravesse. 
 
Transformar o que acontece em poesia 
É um tipo raro de coragem, 
Porque exige sentir sem anestesia, 
Perceber sem filtro, 
E aceitar que nem tudo que se vê 
Cabe inteiro em palavras. 
Mesmo assim eu tento. 
 
Nesse esforço, algo extraordinário acontece. 
O comum deixa de ser comum. 
O instante ganha eternidade. 
E aquilo que passaria despercebido 
Encontra, enfim, um lugar para existir. 
 
Ser poeta não é só escrever. 
É andar por aí, 
Recolhendo pedaços do mundo, 
E devolvê-los com alma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense