terça-feira, 28 de abril de 2026

Corrosivo

O incômodo da poesia e da filosofia não é delicado 
É um corte de vidro enfiado na carne dos dias. 
Elas arrancam a pele fina do óbvio, 
Deixam à mostra nervos que tremem, 
Verdades que apodrecem sob a luz. 
 
A poesia vem como febre: 
Faz arder o que antes parecia inofensivo, 
Desfigura o belo até que ele mostre 
Sua podridão escondida. 
 
A filosofia é um martelo cego: 
Esmaga certezas, 
Reduz ideias a pó, 
E sopra o pó nos olhos 
Até que enxerguemos o que não queríamos ver. 
 
O que chamávamos de “óbvio” 
Era apenas uma máscara frouxa, 
Colada ao rosto por medo. 
Ao ser arrancada, 
O rosto revela feridas, 
Cicatrizes que fingíamos não carregar. 
 
É por isso que poesia e filosofia incomodam. 
Não consolam, não adornam. 
Elas corroem. 
São venenos que acordam o espírito, 
E uma vez bebidos, 
Já não há retorno para a paz dos cegos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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