domingo, 1 de março de 2026

Um verso imaginado

 Há poemas que não querem voz, 
Querem o refúgio de uma caverna. 
Eles não se pronunciam nos lábios, 
Mas se deitam na parte escura do pensamento, 
Onde a palavra ainda não tem ossos 
E já pulsa com a emoção do sentimento. 
 
É curioso: 
O silêncio não é ausência de som. 
É um som recolhido, 
Dobrado para dentro, 
Como um pássaro que canta 
Com as asas fechadas. 
 
Há versos que não suportam o ar. 
Se ditos, morrem. 
Precisam do território secreto da imaginação, 
Onde cada leitor é também criador, 
Onde o som não vibra no ouvido, 
Mas pulsa na memória. 
 
O poema que só existe no silêncio 
Não pede aplauso, 
Pede escuta interior. 
Ele é feito de respiração suspensa, 
De imagens que se formam 
Como névoa sobre um rio ao amanhecer. 
Você não ouve com os ouvidos, 
Ouve com aquilo que ainda não tem nome. 
 
Talvez o verdadeiro som 
Seja aquele que ninguém escuta, 
Mas que altera o curso dos pensamentos. 
Um verso imaginado 
Pode ser mais alto que um grito. 
 
Todo poema é isso: 
Uma tentativa de dizer o sentimento 
Sem quebrar o silêncio 
Que o sustenta no pensamento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O íntimo abismo

 No silêncio mora um som contido, 
Que não ressoa em boca nem em ar; 
É verbo em sombra, oculto e recolhido, 
Que só na imaginação vem vibrar. 
 
Não pede voz, nem gesto, nem ouvido, 
Prefere o íntimo abismo de pensar; 
Ali se faz mais denso e mais sentido, 
Qual brisa que não cessa de soprar. 
 
Se o digo em voz, talvez não se faça, 
Pois vive do mistério que o sustém; 
É chama que no escuro se refaz. 
 
Melhor que em grito algum se desfaça, 
Floresce no que o sonho ainda contém: 
Um som que cala — e justamente traz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense