domingo, 1 de março de 2026

O íntimo abismo

 No silêncio mora um som contido, 
Que não ressoa em boca nem em ar; 
É verbo em sombra, oculto e recolhido, 
Que só na imaginação vem vibrar. 
 
Não pede voz, nem gesto, nem ouvido, 
Prefere o íntimo abismo de pensar; 
Ali se faz mais denso e mais sentido, 
Qual brisa que não cessa de soprar. 
 
Se o digo em voz, talvez não se faça, 
Pois vive do mistério que o sustém; 
É chama que no escuro se refaz. 
 
Melhor que em grito algum se desfaça, 
Floresce no que o sonho ainda contém: 
Um som que cala — e justamente traz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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