Não era feita de pedra,
Nem de cálculos frios,
Mas de silêncios arquitetados
Com a precisão de quem já sofreu demais.
Era uma ponte suspensa
Entre o que penso
E o que permito.
Do lado de cá, argumentos,
Firmes como muralhas.
Do lado de lá, abismos,
Cheios de nomes
Que um dia me chamaram de amor.
Eu dizia que era lógico.
Que era prudente.
Que era maduro.
Mas a verdade é que a ponte
Não obedecia à razão que a construiu.
Ela se abria
Como um portão secreto
Ao toque invisível do afeto.
Só atravessava
Quem o meu coração queria.
E o coração, esse traidor delicado,
Não consultava estatísticas,
Nem ouvia conselhos.
Ele reconhecia passos
Pelo peso da ausência
Antes mesmo da presença chegar.
Havia uma ponte em minha razão,
Mas ela não era democrática.
Não era justa.
Não era coerente.
Era viva.
Às vezes eu tentava fechá-la.
Erguer cancelas.
Cobrar pedágios de dignidade.
Mas bastava um olhar sincero,
Um gesto que não exigisse
Que eu desaparecesse,
E a ponte tremia, cedia,
Abria passagem.
Aprendi então:
A razão constrói pontes para proteger,
Mas é o coração que decide
Quem merece atravessar
E habitar
O lado mais vulnerável de nós.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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