sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O escritor e o poder

O escritor não teme apenas a censura. 
Teme o aplauso do palácio. 
O poder não precisa queimar livros, 
Basta convidar o autor para jantar. 
Entre talheres de prata e promessas sutis, 
A palavra começa a emagrecer. 
 
Escrever é caminhar sobre uma corda 
Esticada entre a verdade e o conforto. 
De um lado, o abismo do silêncio imposto. 
Do outro, o abismo do silêncio comprado. 
 
O poder adora metáforas domesticadas. 
Prefere poemas que falem do céu 
Enquanto a terra arde. 
Prefere romances que distraiam 
Enquanto a história sangra. 
 
O escritor sente o peso invisível 
De cada adjetivo. 
Sabe que uma vírgula pode ser abrigo 
Ou triste rendição. 
 
Há noites em que ele pensa: 
“E se eu suavizar? 
E se eu calar apenas um pouco?” 
Mas a palavra, quando traída, 
Vira espelho, 
E ninguém suporta viver 
Olhando para o próprio rosto rachado. 
 
O poder muda de rosto, 
Mas conserva a mesma fome: 
Quer narrativas que o eternizem. 
 
O escritor, se ainda for escritor, 
Precisa escolher a quem servir: 
Ao tempo, ou ao trono. 
Porque o tempo perdoa os que resistem. 
O trono devora até os que o exaltam. 
 
E no fim, quando o poder já é pó, 
Resta apenas a página. 
E nela, gravada como cicatriz, 
A decisão que ele tomou. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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