O escritor não teme apenas a censura.
Teme o aplauso do palácio.
O poder não precisa queimar livros,
Basta convidar o autor para jantar.
Entre talheres de prata e promessas sutis,
A palavra começa a emagrecer.
Escrever é caminhar sobre uma corda
Esticada entre a verdade e o conforto.
De um lado, o abismo do silêncio imposto.
Do outro, o abismo do silêncio comprado.
O poder adora metáforas domesticadas.
Prefere poemas que falem do céu
Enquanto a terra arde.
Prefere romances que distraiam
Enquanto a história sangra.
O escritor sente o peso invisível
De cada adjetivo.
Sabe que uma vírgula pode ser abrigo
Ou triste rendição.
Há noites em que ele pensa:
“E se eu suavizar?
E se eu calar apenas um pouco?”
Mas a palavra, quando traída,
Vira espelho,
E ninguém suporta viver
Olhando para o próprio rosto rachado.
O poder muda de rosto,
Mas conserva a mesma fome:
Quer narrativas que o eternizem.
O escritor, se ainda for escritor,
Precisa escolher a quem servir:
Ao tempo, ou ao trono.
Porque o tempo perdoa os que resistem.
O trono devora até os que o exaltam.
E no fim, quando o poder já é pó,
Resta apenas a página.
E nela, gravada como cicatriz,
A decisão que ele tomou.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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