Hoje quase disse.
Quase.
Você falou alguma coisa sobre o tempo,
Sobre como o dia estava estranho,
E eu só pensei:
Estranho é como você mexe no eixo do meu mundo.
Mas não falei.
Guardei.
Tenho medo de traduzir o que sinto.
Porque na tradução sempre se perde alguma coisa,
E eu não quero que o que você receba
Seja apenas uma sombra do que é aqui dentro.
Às vezes acho que meu corpo já fala por mim:
Meu olhar,
Que se prende em você como se estivesse se afogando;
Minha respiração,
Que muda de ritmo quando o seu nome flutua no ar;
Meu silêncio,
Que não é vazio, é excesso.
Não sei se você percebe.
Ou se percebe e prefere deixar que eu continue aqui,
Tentando domar esse animal selvagem que cresce no peito.
Porque é isso:
Um bicho inquieto,
Um incêndio sem vento,
Uma palavra prestes a saltar do penhasco.
E, quando saltar,
Não será só uma frase.
Será tudo.
E tudo pode ser demais.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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