Aproveitar o dia
Não é arrancá-lo do calendário
Como quem arranca uma flor
Para vê-la morrer na própria mão.
Aproveitar o dia
É escutá-lo com o coração.
Há dias que chegam como pássaros feridos,
Outros como cavalos em disparada.
Mas todos carregam no dorso
A mesma pergunta:
— O que você fará com a sua consciência hoje?
Não se trata de viver
Como se não houvesse amanhã,
Mas de viver como se o amanhã
Não pudesse consertar
A covardia do agora.
O dia é um território breve.
Não é promessa, é presença.
Ele não pede heroísmo,
Pede que seja inteiro.
Aproveitar o dia
É olhar para o próprio medo
E não negociar a própria alma.
É escolher, mesmo tremendo.
É dizer a verdade possível.
É amar sem desaparecer.
Há quem confunda intensidade com excesso,
Mas o excesso é fuga.
Intenso é quem permanece.
Quem suporta o peso de existir
Sem anestesiar o sentido.
O dia é um espelho curto:
Nele cabem nossos gestos,
Nossas omissões,
Nossa fidelidade ao que somos.
Talvez aproveitar o dia
Seja aceitar que ele é finito
E, justamente por isso, sagrado.
Não porque dure, mas porque passa.
E tudo o que passa
Nos exige coragem de ter existido.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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