terça-feira, 28 de abril de 2026

A chuva de ontem

 Bem que a chuva de ontem descesse como milagre, 
Lavando os rastros gastos da cidade cansada, 
Escorrendo pelas ruas como um pedido antigo, 
Afogando o pó das promessas nunca cumpridas, 
E devolvendo à pedra um pouco de dignidade. 
 
Mas ela veio apenas como água, e partiu, 
Sem tocar o fundo turvo das esquinas, 
Sem arrancar dos muros o grito endurecido, 
Sem dissolver o abandono acumulado, 
Como se a sujeira tivesse raízes na alma. 
 
As poças refletiam um céu quase inocente, 
Enquanto o chão guardava sua memória suja, 
Um espelho quebrado de dias repetidos, 
Onde o tempo passa, mas nada se transforma, 
E a esperança escorre pelos bueiros entupidos. 
 
Há uma poeira que não se rende à tempestade, 
Um peso invisível grudado nas horas, 
Feito de descuido, silêncio e costume, 
Que a água toca, mas não alcança, 
Como se fosse parte do próprio existir. 
 
E eu, olhando a chuva que já não cai, penso: 
Não era água que faltava à cidade, 
Mas mãos, olhos, vontade de recomeço, 
Porque há manchas que só cedem ao cuidado, 
E nenhuma chuva lava o que não se quer limpar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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