Lavando os rastros gastos da cidade cansada,
Escorrendo pelas ruas como um pedido antigo,
Afogando o pó das promessas nunca cumpridas,
E devolvendo à pedra um pouco de dignidade.
Mas ela veio apenas como água, e partiu,
Sem tocar o fundo turvo das esquinas,
Sem arrancar dos muros o grito endurecido,
Sem dissolver o abandono acumulado,
Como se a sujeira tivesse raízes na alma.
As poças refletiam um céu quase inocente,
Enquanto o chão guardava sua memória suja,
Um espelho quebrado de dias repetidos,
Onde o tempo passa, mas nada se transforma,
E a esperança escorre pelos bueiros entupidos.
Há uma poeira que não se rende à tempestade,
Um peso invisível grudado nas horas,
Feito de descuido, silêncio e costume,
Que a água toca, mas não alcança,
Como se fosse parte do próprio existir.
E eu, olhando a chuva que já não cai, penso:
Não era água que faltava à cidade,
Mas mãos, olhos, vontade de recomeço,
Porque há manchas que só cedem ao cuidado,
E nenhuma chuva lava o que não se quer limpar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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