Não por falta de nomes ou endereços.
Mas porque algumas palavras nascem livres.
Elas recusam o destino das respostas.
E escolhem apenas existir.
Escrevo sobre tardes que não regressam.
Sobre rostos que o tempo redesenhou.
Sobre promessas dissolvidas na memória.
Cada frase carrega um instante.
Cada instante procura permanecer.
O papel conhece minhas pausas.
A tinta revela o que escondo da voz.
O silêncio caminha entre as linhas.
Como um velho companheiro de viagem.
Que nunca exige explicações.
Às vezes imagino um leitor desconhecido.
Alguém que reconheça minha caligrafia interior.
Não para concordar comigo.
Mas para compreender o peso das entrelinhas.
E o valor de uma ausência.
Continuo escrevendo para ninguém.
Porque a escrita também é uma forma de abrigo.
Há caminhos que só as palavras atravessam.
E verdades que só aparecem quando estamos sós.
Talvez toda carta seja um encontro adiado.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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