segunda-feira, 1 de junho de 2026

Não preciso que compreendam

Não quero que me entendam. 
Já é difícil demais 
Carregar este sujeito que acorda comigo todas as manhãs, 
Que abre um caderno imaginário para os fracassos 
E observa o teto como quem encara um tribunal. 

As pessoas adoram explicações. 
Querem encaixar você numa gaveta, 
Colocar uma etiqueta na sua testa, 
E dormir tranquilas acreditando 
Que o mistério foi domesticado. 

Mas há dias em que nem reconheço 
A voz que sai da minha boca. 
Ela fala de coisas que não planejei, 
Ri em momentos inadequados, 
E permanece muda quando deveria gritar. 

Aprendi a gostar dessa confusão. 
Ela é mais honesta do que muitas certezas. 
Os homens que sabem exatamente quem são 
Costumam me assustar mais 
Do que aqueles que vagam perdidos. 

Então me deixem aqui, 
Sentado ao lado do meu próprio incompreensível. 
Não preciso de tradutores, 
Nem de juízes. 
O silêncio já me faz companhia suficiente. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O pesadelo do artista

Eu percorro corredores que ninguém vê, 
Carregando lanternas feitas de palavras. 
Às vezes encontro rostos atrás dos espelhos, 
E não sei se os inventei ou se me esperavam. 
O horror nasce em minha mente como névoa, 
Mas não sei se sou seu criador ou sua presa. 
Escrevo para descobrir quem observa quem. 

Há noites em que meus sonhos deixam marcas, 
Como pegadas úmidas no chão da consciência. 
Escuto vozes surgirem entre linhas inacabadas, 
Sussurrando verdades que nunca aprendi. 
Então me pergunto se a imaginação cria abismos 
Ou apenas revela aqueles que já existiam. 
E permaneço à beira deles, sem resposta. 

Talvez eu seja apenas um viajante perdido, 
Tentando nomear as sombras que encontro. 
Talvez toda arte seja uma forma de cegueira, 
Ou uma tentativa de enxergar além do véu. 
Entre a criação e a paranoia sigo existindo, 
Incerto sobre o que é real dentro de mim. 
Mas continuo escrevendo, apesar do escuro. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense