segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Depois da renúncia

As ruas conservaram o mesmo desenho, 
Mas já não reconhecem os passos de quem fui. 
Há relógios insistindo em medir um tempo 
Que abandonou as antigas promessas 
Antes que eu aprendesse o significado do silêncio. 
 
Os sonhos permanecem em salas vazias, 
Como livros esquecidos sobre uma mesa antiga. 
Ninguém os reclama. 
A poeira lhes concede uma forma de eternidade 
Que o desejo nunca soube oferecer. 
 
Entre a manhã e o entardecer, 
Descubro que a renúncia não é um gesto, 
Mas uma estação da alma. 
As palavras tornam-se mais leves 
Quando deixam de exigir um destino. 
 
Talvez toda esperança seja uma ponte provisória 
Erguida sobre águas que jamais descansam. 
Atravessamo-la acreditando chegar ao futuro, 
E encontramos apenas o eco 
Das escolhas que nos transformaram. 
 
Agora caminho sem perguntar ao horizonte. 
O mundo continua indiferente às minhas perdas. 
Ainda assim, em algum lugar invisível, 
Uma pequena luz recusa o esquecimento, 
Como se a própria ausência pudesse ensinar a permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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