As ruas conservaram o mesmo desenho,
Mas já não reconhecem os passos de quem fui.
Há relógios insistindo em medir um tempo
Que abandonou as antigas promessas
Antes que eu aprendesse o significado do silêncio.
Os sonhos permanecem em salas vazias,
Como livros esquecidos sobre uma mesa antiga.
Ninguém os reclama.
A poeira lhes concede uma forma de eternidade
Que o desejo nunca soube oferecer.
Entre a manhã e o entardecer,
Descubro que a renúncia não é um gesto,
Mas uma estação da alma.
As palavras tornam-se mais leves
Quando deixam de exigir um destino.
Talvez toda esperança seja uma ponte provisória
Erguida sobre águas que jamais descansam.
Atravessamo-la acreditando chegar ao futuro,
E encontramos apenas o eco
Das escolhas que nos transformaram.
Agora caminho sem perguntar ao horizonte.
O mundo continua indiferente às minhas perdas.
Ainda assim, em algum lugar invisível,
Uma pequena luz recusa o esquecimento,
Como se a própria ausência pudesse ensinar a permanecer.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário