quarta-feira, 1 de julho de 2026

O peso invisível de sentir

As ruas recolhem o pó das horas, 
E as janelas, cerradas, guardam nomes 
Que ninguém pronuncia. 
O relógio insiste em sua liturgia de ferro, 
Enquanto a tarde aprende a desaparecer. 
 
Nada fez sentido. Talvez porque o sentido 
Jamais tenha habitado os mapas, 
Mas o intervalo entre dois silêncios, 
Onde a memória acende pequenas lâmpadas 
Sobre os corredores do esquecimento. 
 
Tudo foi sentido. 
O frio das palavras não ditas, 
A chuva confundindo o céu com o rosto, 
Os passos repetidos sobre a mesma pedra, 
Como uma oração esquecida pela própria voz. 
 
Há um jardim que não floresce para os olhos, 
Mas para aquilo que permanece depois deles. 
Ali repousam os gestos interrompidos, 
As esperanças sem testemunhas, 
E o rumor discreto das coisas que resistiram ao tempo. 
 
Então compreendo, sem triunfo e sem resposta, 
Que a vida nunca prometeu clareza. 
Ela apenas confiou às nossas mãos 
O peso invisível de sentir, 
E a lenta revelação de que quase nada foi em vão. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense