A imaginação não é jardim,
É bicho de mata fechada,
De olhos que brilham no escuro
E dentes que nunca se mostram por inteiro.
Ela chama o poeta pelo nome
Como quem conhece seus ossos,
Como quem já caminhou por dentro dele
Antes mesmo de existir palavra.
Há noites em que ela uiva,
Não ao céu, mas ao pensamento,
E o poeta treme,
Porque entende: não é dono, é passagem.
Escrever, então, torna-se um risco,
Um pacto silencioso com o indomável,
Onde cada verso aberto
É também uma ferida que respira.
E ele não sabe até onde vai,
Se é trilha ou abismo,
Se está criando ou sendo criado
Por essa criatura que o devora em silêncio.
Mas continua.
Porque há uma beleza feroz
Em não saber o limite,
Em ser levado,
Em ser quase destruído,
E ainda assim chamar isso de poesia.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














