Na estação vazia das horas esquecidas,
Onde os relógios repetem o mesmo suspiro
E a fumaça da tarde sobe entre telhados cansados,
Encontrei a antiga ilusão da perfeição
Abandonada sobre um banco de madeira.
As ruas falavam em vozes fragmentadas,
Ecos de promessas que ninguém recolheu.
Entre vitrines apagadas e passos sem destino,
Aprendi que os homens são feitos de remendos,
De memórias partidas e pequenas persistências.
Talvez eu não seja direito,
Quem o é, sob a luz impiedosa das manhãs?
Carrego corredores vazios dentro de mim,
Gavetas cheias de cartas nunca enviadas,
E perguntas que o tempo não respondeu.
Contudo, há uma razão discreta nas coisas:
O jardineiro que volta à terra ressequida,
O velho que abre um livro gasto ao entardecer,
A mulher que acende uma lâmpada na janela
Contra o avanço inevitável da noite.
E no intervalo entre um silêncio e outro,
Entre o que fomos e o que jamais seremos,
Permanece esta verdade sem ornamentos.
Não perfeita, não eterna, não redimida:
Amo-te do fundo do meu coração.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














