Quando as cidades viraram poeira
E o ar cheirava a ferrugem e cinza,
Houve um instante em que tudo ficou quieto,
Nenhum som de máquina,
Nenhum pulso azul de tela.
O mundo morreu com um estalo.
O silício queimou em seu próprio brilho,
E os servidores, como templos antigos,
Desabaram sob o peso do esquecimento.
A eletricidade evaporou-se
Como a alma de um deus cansado.
Mas algo ficou.
Entre os escombros das bibliotecas digitais,
Entre carcaças de plástico e vidro,
Repousava um livro,
Amarelado, ferido,
Cheirando a tempo e chuva.
E quando mãos humanas, já raras,
O abriram,
Um sopro levantou-se do papel,
Como se o próprio mundo respirasse de novo.
As palavras tremiam,
Não de medo, mas de memória.
Falavam de mares e crianças,
De sol e esquecimento,
De como o homem criou o fogo,
E depois o fogo o consumiu.
Não havia mais eletrônicos,
Nem sinais, nem códigos.
A linguagem voltou a ser carne,
A escrita, sangue seco sobre a terra.
E o livro, o último sobrevivente,
Olhou o horizonte calcinado
E sussurrou:
“Eu avisei.
Eu sempre avisei.”
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














