sexta-feira, 17 de julho de 2026

Escrever torna-se um risco

A imaginação não é jardim, 
É bicho de mata fechada, 
De olhos que brilham no escuro 
E dentes que nunca se mostram por inteiro. 

Ela chama o poeta pelo nome 
Como quem conhece seus ossos, 
Como quem já caminhou por dentro dele 
Antes mesmo de existir palavra. 

Há noites em que ela uiva, 
Não ao céu, mas ao pensamento, 
E o poeta treme, 
Porque entende: não é dono, é passagem. 

Escrever, então, torna-se um risco, 
Um pacto silencioso com o indomável, 
Onde cada verso aberto 
É também uma ferida que respira. 

E ele não sabe até onde vai, 
Se é trilha ou abismo, 
Se está criando ou sendo criado 
Por essa criatura que o devora em silêncio. 

Mas continua. 

Porque há uma beleza feroz 
Em não saber o limite, 
Em ser levado, 
Em ser quase destruído, 
E ainda assim chamar isso de poesia. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Rezando para os slogans

Eu vejo pessoas ajoelhadas diante de frases vazias, 
Rezando para slogans como cães famintos diante do dono. 
A linguagem virou mercado, culto e algema, 
Vendida em parcelas por pregadores e anúncios luminosos. 
Ninguém pensa: apenas compartilha a febre coletiva. 
As bocas se movem como máquinas mal programadas 
Enquanto a consciência apodrece nos esgotos da pressa. 

Eu caminho entre infectados que chamam obediência de paz, 
Gente que terceiriza a alma para caber na multidão. 
Trocam pensamento por curtidas, silêncio por ruído, 
E ainda sorriem como cadáveres maquiados para a televisão. 
Toda mentira hoje vem embalada em linguagem bonita, 
Porque a verdade perdeu espaço para o espetáculo 
E o mundo prefere o brilho da peste ao peso da lucidez. 

Eu também fui contaminado por esse circo de vozes, 
Mas sobrevivi o suficiente para reconhecer o veneno. 
Agora escrevo como quem cospe sangue sobre os altares, 
Rasgando discursos que transformam pessoas em rebanho. 
A linguagem continua sendo um vírus incurável, 
Mas talvez a poesia ainda seja a febre necessária 
Para destruir os parasitas escondidos dentro das palavras. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Se o saber é pássaro

Só a tua consciência intelectual 
É farol que não pede navios; 
Acende-se, e o mar em que navego 
Revela não rotas, mas redemoinhos. 

Minha ignorância era um jardim 
Onde floresciam conceitos sem raiz; 
O vento da tua lucidez passa 
E levo tempo para notar 
Que as pétalas eram papel. 

Tu persuades como quem guia 
Um cego por um labirinto: 
Não empurras, apenas dizes 
Que a próxima esquina não tem saída. 
E eu, tentando manter a dignidade, 
Descubro que jamais soube a entrada. 

Se o saber é pássaro, 
O desconhecer é o céu, 
E céu não se possui. 

Assim tua consciência cresce 
Como árvore que não inveja sombra, 
E a minha, pensando ser floresta, 
Mostra-se apenas tronco e presunção. 

No fundo, persuadir é soprar 
Sobre o espelho das águas 
Até que o reflexo se parta, 
E o que eu chamava rosto 
Se revele apenas máscara de neblina. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Verdade sem ornamentos

Na estação vazia das horas esquecidas, 
Onde os relógios repetem o mesmo suspiro 
E a fumaça da tarde sobe entre telhados cansados, 
Encontrei a antiga ilusão da perfeição 
Abandonada sobre um banco de madeira. 

As ruas falavam em vozes fragmentadas, 
Ecos de promessas que ninguém recolheu. 
Entre vitrines apagadas e passos sem destino, 
Aprendi que os homens são feitos de remendos, 
De memórias partidas e pequenas persistências. 

Talvez eu não seja direito, 
Quem o é, sob a luz impiedosa das manhãs? 
Carrego corredores vazios dentro de mim, 
Gavetas cheias de cartas nunca enviadas, 
E perguntas que o tempo não respondeu. 

Contudo, há uma razão discreta nas coisas: 
O jardineiro que volta à terra ressequida, 
O velho que abre um livro gasto ao entardecer, 
A mulher que acende uma lâmpada na janela 
Contra o avanço inevitável da noite. 

E no intervalo entre um silêncio e outro, 
Entre o que fomos e o que jamais seremos, 
Permanece esta verdade sem ornamentos. 
Não perfeita, não eterna, não redimida: 
Amo-te do fundo do meu coração. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Pequeno apartamento

O apartamento era pequeno. 
A mesa não era dele. 
A cadeira não era dele. 
A vista da janela também não. 
Ele pagava para ficar. 

De manhã, desceu a escada. 
Tomou café em um copo de papel. 
O copo seria jogado fora. 

Na rua, os carros passavam. 
Muitos também eram alugados. 
As pessoas entravam e saíam deles 
Como entram e saem dos dias. 

Ele pensou na casa do pai. 
Na cerca torta. 
Na árvore que permanecia no mesmo lugar. 
Não sentiu tristeza. 
Apenas percebeu a diferença. 

À noite, voltou para o quarto. 
Colocou a chave sobre a mesa. 
Sabia que um dia a devolveria. 
Como devolvemos quase tudo. 

Ficou sentado em silêncio. 
O silêncio, pelo menos, 
Ainda parecia não pertencer a ninguém. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 15 de julho de 2026

O fluxo dos ponteiros

Olhares que aprenderam com o tempo a enganar, 
Tomaram por verdade o fluxo dos ponteiros, 
E viram nos começos apenas derradeiros, 
Sem nunca ao invisível ousarem se lançar. 

Contaram cada dia como quem quer somar, 
Mas perderam o sentido entre números ligeiros; 
Foram fiéis serventes de instantes passageiros, 
Sem perceber o eterno dentro deles a pulsar. 

O tempo, astuto, veste máscaras de razão, 
E ensina ao olhar cego sua falsa medida, 
Faz do efêmero um trono, da pressa, uma prisão. 

Mas há no instante nu uma chama escondida, 
Que escapa à mentira, à contagem, à ilusão, 
E só vê essa luz quem aprende enxergar a vida. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um adeus

Eu não lhe disse nada naquele dia suspenso, 
Quando o seu olhar se desprendeu do meu como outono, 
E as palavras, tímidas, recolheram-se ao fundo do peito. 
Havia um mundo inteiro pulsando entre os silêncios, 
Mas eu escolhi o abismo confortável do não dizer, 
Como quem teme que a verdade, ao nascer, desmorone tudo, 
E transforme o instante em algo impossível de suportar. 

Desde então, carrego frases que nunca respiraram, 
Cartas invisíveis escritas na pele da memória, 
E um amor que aprende a existir sem testemunhas. 
Seu olhar partiu, mas deixou em mim um eco interminável, 
Um vazio que se alonga nas horas mais quietas do dia, 
Como se o tempo tivesse parado naquele instante exato 
Em que perdi você sem sequer tentar te alcançar. 

Agora, o silêncio é a língua que mais me traduz, 
E nele repousa tudo o que não ousei revelar. 
Há sentimentos que não morrem, apenas se escondem, 
Vivendo de sombras, de lembranças e de quase. 
Se eu tivesse dito, talvez fosse ruína ou redenção, 
Mas o não dito tornou-se eterno dentro de mim, 
Como um adeus que nunca teve coragem de existir. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 14 de julho de 2026

Quando o último dia vier

Não herdei um caminho pronto. 
Recebi apenas o silêncio das possibilidades. 
Cada escolha apaga outras vidas possíveis. 
Ainda assim, permaneço responsável. 
Não há como delegar a própria existência. 

Os dias não oferecem respostas. 
São páginas que esperam uma decisão. 
O medo veste a máscara da prudência. 
A esperança, a da incerteza. 
Caminho entre ambas. 

Há quem prefira o abrigo das pequenas expectativas. 
Ali o fracasso parece menor. 
Mas também diminui a alegria do encontro. 
Viver pouco para sofrer pouco 
É uma forma lenta de ausência. 

O horizonte não me promete chegada. 
Ele apenas se afasta quando avanço. 
Talvez seu sentido seja esse. 
Ensinar que a vida não cabe no destino, 
Mas no movimento de buscá-lo. 

Quando o último dia vier, 
Quero reconhecer meus próprios passos. 
Não por terem sido perfeitos, 
Mas porque foram escolhidos por mim. 
E nisso reside toda a minha liberdade. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Ninguém percebe quando muda

Um dia você acorda 
Faz seu café 
Olha pela janela 
E percebe que não odeia mais 
As mesmas coisas. 

Isso deveria ser bom 
Mas não é 
Porque você também não ama 
O que amava 
E ninguém escreveu um manual para isso. 

O mundo continua lá 
Vendendo seus produtos 
Buzinando nas esquinas 
Enterrando gente 
E abrindo padarias às seis. 

Então você olha no espelho 
E aquele sujeito ainda usa seu rosto 
O desgraçado até sabe seu nome 
Mas há alguma coisa nos olhos 
Que você nunca convidou para entrar. 

Você bebe o café que acabou de fazer 
E ele já está frio 
E entende finalmente 
Que não foi o mundo que ficou estranho 
Foi você que sobreviveu tempo demais. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Como se a noite soubesse o meu nome

Nas caladas do silêncio noturno 
O mundo é um lugar estranho agora 
As ruas parecem guardar segredos 
E meus passos seguem desconfiados 
Como se a noite soubesse meu nome. 

Olho as janelas ainda acesas 
Imagino vidas acontecendo lá dentro 
Enquanto carrego meus pensamentos 
Por caminhos que já foram familiares 
Mas hoje não reconhecem minha presença. 

Há alguma coisa diferente no tempo 
Uma ausência escondida nas horas 
Um vazio ocupando antigas certezas 
E essa sensação quase inexplicável 
De ter chegado tarde à própria vida. 

Talvez o mundo continue o mesmo 
Com suas manhãs e seus ruídos 
Talvez meus olhos tenham mudado 
Depois de contemplarem tantas despedidas 
E aprenderem o peso das lembranças. 

Nas caladas do silêncio eu caminho 
Sem procurar respostas definitivas 
Apenas tentando compreender a noite 
Porque o mundo é um lugar estranho agora 
E eu também me tornei estranho para ele. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quem não lê

Há um silêncio pesado em quem não lê, 
Um mundo estreito, quase sem horizonte, 
Ideias repetidas como ecos cansados, 
Certezas duras que nunca foram pensadas, 
Olhos que veem, mas não atravessam, 
Mentes que aceitam sem interrogar, 
Vidas que passam sem realmente compreender. 

Não ler é andar por caminhos já traçados, 
Sem suspeitar que há outras direções, 
É viver preso ao imediato e ao raso, 
Sem mergulhar no abismo do pensamento, 
É confundir opinião com verdade, 
É temer a dúvida como se fosse fraqueza, 
E nunca perceber o tamanho da própria ignorância. 

Quem não lê se limita sem perceber, 
Carrega muros onde poderia haver pontes, 
Repete o mundo, mas não o transforma, 
Escuta vozes, mas não dialoga com elas, 
Perde a chance de ser mais do que é, 
De expandir a alma além do costume, 
E de reinventar a si mesmo em silêncio. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inocência

Recordo a luz suave da inocência, 
Dos dias largos, livres de razão, 
Em que viver não pedia consciência, 
E o riso era a própria explicação. 

O tempo ali corria sem urgência, 
Não havia o peso da previsão, 
Cada instante era plena existência, 
Sem medo oculto ou desilusão. 

Mas hoje a lembrança me visita, 
Como um sussurro vindo do passado, 
Trazendo a paz que o tempo limita. 

E no silêncio manso, resignado, 
Entendo: a felicidade era bendita 
Por ser um sonho não questionado. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 12 de julho de 2026

O esquecimento e o desejo

Tenho tentado deixar você no passado, 
Como quem fecha uma porta devagar, 
Sem olhar pela última vez para o quarto, 
Sem recolher as coisas que ficaram, 
Sem perguntar se ainda existe retorno. 

Mas há noites em que meus braços doem 
Pela ausência exata do seu corpo, 
E tudo o que eu desejo é o impossível: 
Sentir você perto de mim novamente, 
Como se nunca tivéssemos partido. 

Estou perdido entre duas vontades, 
A de arrancar você das minhas lembranças 
E a de guardar cada instante vivido, 
Porque esquecer também parece uma perda, 
Uma segunda despedida ainda mais cruel. 

Minha razão pede distância e silêncio, 
Enquanto meu coração inventa reencontros, 
Imagina seus passos chegando até mim, 
Seu olhar atravessando minhas defesas 
E minha coragem desaparecendo outra vez. 

Talvez eu permaneça assim por muito tempo, 
Dividido entre partir e continuar esperando, 
Querendo a paz de não sentir mais nada 
E desejando, com tudo o que ainda sou, 
Ter você nos meus braços mais uma vez. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 11 de julho de 2026

O que ainda sou

Não me cabe desejar outro rosto 
Nem lamentar o homem que não me tornei 
Cada dia exige apenas minha presença 
O restante pertence ao curso das coisas. 
Governo o pensamento que nasce em mim 
Aceito o que escapa às minhas mãos 
E permaneço fiel à minha natureza. 

O mundo tentará dizer quem devo ser 
Mas sua voz não governa minha consciência 
Não combato o inevitável 
Nem entrego minha paz ao acaso. 
Retiro da alma tudo aquilo que é excesso 
Observo minhas fraquezas sem fugir 
E faço do domínio de mim minha tarefa. 

Não preciso construir um novo homem 
Há em mim uma essência a ser reencontrada 
O tempo apenas cobriu seus caminhos 
Cabe-me remover o medo e a aparência. 
Viver segundo aquilo que reconheço como justo 
Seguir sem aplausos e sem ressentimento 
E retornar em silêncio ao que sou. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Da embriaguez

Teu olhar me derramou um acorde escuro. 
Segui seu rastro por dentro das veias da mente, 
Onde o som vira cheiro, 
E o cheiro vira verso. 
Lá, a poesia renasce em carne fria. 

Embebecido pelo teu olhar, 
Busquei uma melodia no fundo das sombras. 
Ela veio úmida, quase ferida, 
E se abriu em poesia dentro de mim 
Como quem sangra para se livrar do silêncio. 

Beber do teu olhar foi beber um vinho denso, 
Que não embriaga, consome. 
Da embriaguez nasceu uma música cansada, 
E dela, um poema que ardeu até virar cinza. 

Tua íris abriu um corredor de ecos. 
Entrei, e cada eco era uma nota quebrada. 
Quando a última caiu, 
Restou apenas o poema, 
Com sua respiração irregular e febril. 

De ti veio a melodia, 
Mas de mim veio o escuro. 
No encontro, tudo se tornou poesia, 
E poesia é o nome que damos 
Ao que não ousamos sentir inteiro. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense