quinta-feira, 25 de junho de 2026

O pássaro

O pensamento é um pássaro que não paga aluguel. 
Entra pela janela 
Derruba a cadeira 
Bebe o resto do café frio 
E vai embora 
Como se a casa nunca tivesse sido minha. 

Já tentei expulsá-lo. 
Com trabalho. 
Com livros. 
Com promessas feitas diante do espelho. 
Ele sempre encontra uma fresta 
E ri da minha disciplina. 

Há dias em que ele pousa no ombro 
E me convence de que tudo acabou. 
No dia seguinte 
Olha para a mesma rua 
E encontra uma criança correndo atrás de uma bola. 
Não explica a mudança. 

Acho que a liberdade tem esse defeito
Não pede licença 
Nem oferece garantias. 
Apenas continua voando 
Enquanto a gente insiste em chamar isso de vida. 

Então deixo a janela aberta. 
Não por esperança. 
Nem por coragem. 
Apenas porque descobri, 
Depois de tantos anos, 
Que alguns pássaros não nasceram para ser presos, 
E alguns pensamentos também não. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inteiro

Não me cortes em fatias, caminhante; 
A pedra não escolhe qual chuva receber. 
Aceita em mim o inverno e a primavera, 
Pois a alma não se mede por instantes, 
Mas pela serenidade com que permanece. 

Quem abraça apenas o brilho da manhã 
Abandona a coragem que atravessa a noite. 
A virtude não habita as aparências, 
Mas o espírito que suporta o tempo 
Sem negociar a própria essência. 

Não sou apenas o acerto ou o erro, 
Sou o exercício contínuo de tornar-me. 
Assim como o rio aceita cada margem, 
O sábio acolhe a si mesmo por inteiro, 
Sem exaltar nem desprezar o que é. 

Não procures separar minhas sombras; 
Elas também ensinaram meus passos. 
A árvore não renega suas raízes ocultas, 
Porque sabe que delas nasce a firmeza 
Que enfrenta o vento sem se curvar. 

Abraça-me inteiro ou segue teu caminho. 
Nada se perde quando a verdade permanece. 
Quem vive segundo a razão não se divide 
Para agradar aos olhos passageiros; 
Permanece íntegro, e nisso encontra a paz. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A voz que edifica

Não quero a voz que espalha o desalento, 
Nem a palavra amarga da intriga; 
Prefiro semear, em cada momento, 
A paz que o coração sempre abriga. 
Que o verbo seja fonte de esperança, 
E o gesto revele mansidão; 
Pois o amor fortalece a confiança. 

A língua pode erguer ou destruir, 
Como o vento que dispersa a flor; 
Mas quem escolhe o bem para servir 
Transforma a dor em gesto de valor. 
Onde havia sombras, nasce a luz; 
Onde havia mágoa, o perdão; 
E a verdade conduz aos pés da cruz. 

Que meus lábios conheçam o silêncio 
Quando a ira quiser falar primeiro; 
Que a justiça caminhe com prudência, 
E a bondade floresça por inteiro. 
Não terei a má voz do difamador, 
Mas cantarei a graça do Senhor, 
Fazendo da palavra um ato de amor. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Um verso que se perde

Quem sou eu? Um verso que se perde ao vento, 
Um pobre sonhador de olhar apaixonado, 
Que traz no peito um frágil sentimento 
E ousa desejar o teu olhar tão sagrado. 

Sou feito de silêncio e desalento, 
De sonhos que não cabem no coração alado, 
Um quase, um talvez, um pensamento 
Que insiste em te querer, sempre ao meu lado. 

E tu, tão bela além de toda medida, 
Como um milagre em forma de mulher, 
És luz que invade a sombra da minha vida. 

Quem sou eu para ter o que se quer? 
Mas se o amor não pede nem valida, 
Talvez eu seja tudo que ele quer. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Leio em seus olhos

Teus olhos são livros abertos na penumbra, 
Onde a noite aprende a soletrar o desejo, 
Cada brilho é uma palavra não dita, 
Cada silêncio, um verso suspenso, 
Que minha alma insiste em ler devagar. 

Neles encontro histórias que não foram escritas, 
Mas sentidas como febre sob a pele, 
São páginas feitas de luz e vertigem, 
Onde o amor se revela sem gramática, 
E me ensina a linguagem do infinito. 

Que obra no mundo ousaria compará-los? 
Que autor escreveria tamanha verdade? 
Teus olhos não mentem, não fingem, não escondem, 
São confessionários sem paredes, 
Onde me desnudo sem medo de existir. 

Sou leitor cativo de tua profundidade, 
Perdido entre linhas que não têm fim, 
Cada olhar teu me reescreve por dentro, 
Rasga minhas certezas mais antigas, 
E me transforma em verso inacabado. 

E se um dia esses livros se fecharem, 
Restará em mim a memória da leitura, 
Como quem tocou o sagrado por instantes, 
Pois amar teus olhos é aceitar o mistério. 
Ler para sempre, sem jamais compreender. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O tempo morto

Em tudo o que se espera, algo range, 
Um fio de silêncio que ameaça romper. 
E enquanto o mundo se retarda, 
A imaginação grita pelos olhos, 
Como se o olhar fosse um cárcere por dentro. 

O poeta não escreve: ele escuta. 
Escuta o rumor de criaturas 
Que nascem do medo e da demora, 
E que se alimentam do que poderia ter sido. 

Há um limite, dizem. 
Mas o limite só existe até o instante em que é tocado. 
Depois disso, não há retorno, 
Apenas a vertigem de criar o abismo 
E de cair nele com os próprios nomes. 

Esperar é uma forma de necromancia: 
O tempo morto ressuscita ideias, 
E elas voltam deformadas, 
Mais vivas do que deveriam. 

E se há alguma fronteira, 
Ela não está no mundo, 
Mas no corpo que arde para ultrapassá-lo. 
O resto é apenas o escuro aprendendo a ver. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 23 de junho de 2026

Presságios

Pense em mim como a noite sem lua 
Que precede a queda dos relógios. 
As ruas, vazias, aguardam o estrondo 
Que fará o mundo esquecer seu próprio nome. 
Pois quando o silêncio falar, 
Não haverá abrigo nem testemunha. 

Pense em mim como o frio que chega 
Antes do último eclipse. 
Os lampiões tremem, as janelas se trancam, 
E o vento anuncia o colapso dos destinos. 
Nada floresce quando a luz se recolhe, 
Somente o desfecho. 

Pense em mim como a ausência de estrelas 
Quando a cidade conta suas culpas. 
Os passos cessam, os cães calam, 
E o asfalto se prepara para o juízo. 
Toda noite assim traz um decreto, 
E este não terá misericórdia. 

Pense em mim como a vigília final, 
Quando o céu perde o fôlego 
E o horizonte racha em silêncio. 
Não haverá amanhecer que redima, 
Pois algumas noites são sentenças 
Que nem o sol ousa contradizer. 

Pense em mim como o presságio que avança, 
Sem lua, sem voz, sem retorno. 
As ruas desertas são a escritura 
De um pacto antigo demais para ser revertido. 
Quem o lê, entende: o fim nunca chega de súbito; 
Ele apenas escolhe uma noite. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cartas para Ninguém

Faço longas cartas para ninguém. 
O envelope conhece apenas o vazio. 
As palavras caminham sem promessa de chegada. 
Ainda assim, insistem em nascer. 
Talvez escrever seja uma forma de existir. 

Não espero respostas do mundo. 
O silêncio também possui uma linguagem. 
Cada página revela uma pergunta. 
Cada pergunta abre outra ausência. 
E sigo habitando esse intervalo. 

Há dias em que o sentido parece distante. 
Como uma estrada coberta pela neblina. 
Então escrevo sem procurar certezas. 
A dúvida também é um caminho. 
E o caminho transforma quem o percorre. 

Se ninguém ler estas cartas. 
Nada será retirado do que vivi. 
A existência não pede testemunhas. 
Ela apenas exige coragem para continuar. 
Mesmo quando tudo parece suspenso. 

Talvez o destinatário nunca tenha existido. 
Talvez eu o tenha inventado para conversar com o infinito. 
Cada palavra devolve um fragmento de mim. 
Cada silêncio me devolve outro. 
E entre ambos continuo escrevendo. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não volte

Se um dia a vida quebrar teu coração, não volte, 
Não traga ao meu jardim as flores já sem cor. 
Meu afeto não existe para remendar ruínas, 
Nem para apagar as marcas da tua dor. 
Quem parte levando a primavera consigo 
Não pode exigir abrigo quando chega o inverno. 
Há despedidas que ensinam a caminhar sem retorno. 

Não recolherei os pedaços do que outro destruiu, 
Nem costurarei promessas rasgadas pelo tempo. 
O amor não é oficina de arrependimentos, 
Nem porto seguro para um coração sem rumo. 
Mereço ser escolha antes da tempestade, 
E não a lembrança tardia de um caminho perdido. 
Há dignidade também na distância. 

Se um dia teus olhos procurarem os meus, 
Encontrarão apenas a serenidade de quem seguiu. 
Transformei a saudade em horizonte, 
E o silêncio em força para recomeçar. 
Alguns amores terminam antes de envelhecer, 
Porque o respeito por si mesmo também é amor. 
E quem aprende isso já não espera por ninguém. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Sozinho?

Às vezes me recolho, 
Não por desprezo, nem por ausência de afeto, 
Mas porque há um lugar em mim que só eu entendo, 
Uma sala sem porta, onde a alma senta no chão 
E conversa com o silêncio. 

Me deixe viver… 
Ou então, se quiser, 
Viva comigo nesse espaço sem nome, 
Onde o mundo lá fora faz barulho demais 
E tudo o que eu preciso é me ouvir. 

Tem dias que sou abrigo, 
Tem dias que sou abismo. 
Não é fuga, é cuidado. 
Me recolho para me encontrar inteiro. 
Quem quiser me amar, que aprenda: 
O meu silêncio também é casa. 

Quando me isolo, 
Não é solidão, 
É um reencontro. 
Há um idioma que só eu falo 
E é nele que me reconstruo. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Os livros não fazem barulho

Os ditadores sempre pareceram fortes 
Atrás das mesas largas 
Dos discursos ensaiados 
Das bandeiras muito bem passadas 
E das botas brilhando. 

Mas eu nunca confiei em pessoas 
Que têm medo de uma biblioteca. 
Isso sempre me pareceu estranho. 
Você pode prender um corpo, 
Mas como prende uma ideia? 

Há quem troque um livro 
Por uma promessa fácil. 
É um mau negócio. 
Promessas envelhecem depressa. 
Palavras boas demoram mais. 

Já vi gente pobre 
Carregando um romance debaixo do braço 
Como quem levava um pedaço de pão. 
E talvez fosse isso mesmo. 
Há fomes que não aparecem nas fotografias. 

No fim das contas, 
Os livros continuam ali. 
Esperando outro par de olhos, 
Enquanto os retratos dos tiranos 
Apodrecem na parede da história. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A cultura e a liberdade

A cultura nasce onde alguém decide fazer uma pergunta. 
Ela atravessa o tempo carregando memórias e futuros. 
Os livros ensinam que nenhuma verdade deve ser aceita sem reflexão. 
Cada leitura amplia o horizonte de quem observa o mundo. 
Os ditadores reconhecem esse poder antes de muitos leitores. 
Por isso tentam calar as palavras e esconder as ideias. 
Sabem que o pensamento livre não se acomoda às correntes. 

Um povo que lê aprende a distinguir o medo da prudência. 
Descobre que a história guarda lições para cada geração. 
Encontra na literatura o rosto daqueles que resistiram. 
Percebe que a liberdade também se constrói com conhecimento. 
Nenhuma prisão consegue conter uma consciência desperta. 
Nenhuma censura apaga o desejo de compreender. 
A educação transforma o silêncio em voz. 

Quando a cultura floresce, a dignidade encontra abrigo. 
As bibliotecas tornam-se espaços de esperança coletiva. 
As palavras deixam de ser apenas palavras e tornam-se escolhas. 
Cada leitor acrescenta uma nova possibilidade ao mundo. 
A liberdade cresce junto com a capacidade de pensar. 
Os livros não derrubam muros com as mãos. 
Eles ensinam as pessoas a não aceitarem viver atrás deles. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 21 de junho de 2026

O menino e o tempo

Quando eu era pequeno, sonhava com o amanhã, 
Como quem contempla um rio antes da travessia. 
Não conhecia o peso das tempestades, 
Mas o sol já me ensinava, em silêncio, 
Que cada dia basta a si mesmo. 

Eu queria alcançar o mundo inteiro, 
Sem perceber que o maior reino é o domínio de si. 
O destino não pergunta pelos nossos desejos; 
Apenas oferece o caminho, 
E espera que caminhemos com firmeza. 

Vieram perdas, dúvidas e despedidas. 
O tempo levou o que não podia permanecer, 
Mas deixou aquilo que nenhuma força arranca: 
A virtude de recomeçar 
E a serenidade diante do inevitável. 

Hoje agradeço aos sonhos daquele menino, 
Não porque todos tenham florescido, 
Mas porque ensinaram meu coração 
A desejar com esperança 
E a aceitar com sabedoria. 

Se ainda caminho em direção ao futuro, 
Já não é para vencer o tempo, 
Mas para honrar cada passo que ele me concede. 
Quem aprende a governar a própria alma 
Descobre que sempre esteve em casa. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre a saudade e o silêncio

A saudade não pergunta se desejo sua companhia. 
Ela apenas ocupa a cadeira vazia da alma. 
Meu suspiro é um diálogo com o invisível, 
Como quem procura sentido no eco 
De um nome que o tempo não responde. 

A ausência tem o estranho hábito de permanecer. 
Não possui rosto, mas molda meus dias. 
Descubro que amar também é perder, 
E perder é reconhecer 
O quanto fomos verdadeiros. 

Caminho entre memórias como quem atravessa neblina. 
Cada passo desfaz uma certeza antiga. 
Talvez o amor nunca tenha sido posse, 
Mas a coragem de continuar existindo 
Mesmo quando tudo se torna distância. 

Pergunto ao silêncio por que ainda espero. 
Ele não oferece respostas, apenas espaço. 
Então compreendo que a vida 
É feita mais de perguntas persistentes 
Do que de respostas definitivas. 

Se um dia meus suspiros cessarem, 
Não será porque a saudade morreu. 
Será porque aprendi que o amor, quando autêntico, 
Não exige retorno para justificar sua existência; 
Basta permanecer como verdade no coração. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O campo secreto dos sonhos

O último pensamento da noite chega manso, sem aviso, 
Como um pássaro tardio pousando no silêncio. 
Traz nos olhos a poeira das horas vividas, 
E nas mãos, perguntas que o dia esqueceu. 
Paira entre a sombra do quarto e a luz da memória, 
Escutando o coração falar em voz baixa, 
Antes que o sono feche as portas do mundo. 

Então a escuridão o acolhe como um rio profundo, 
E ele navega por águas que não têm nome. 
Leva consigo fragmentos de saudade e desejo, 
Constelações íntimas que ninguém vê. 
Cada lembrança se torna uma estrela distante, 
Cada esperança, uma chama escondida, 
Ardendo sob o véu tranquilo da madrugada. 

Quando a manhã enfim desperta as janelas, 
Algo daquele pensamento permanece aceso. 
Não como resposta, mas como semente, 
Guardada no campo secreto dos sonhos. 
E o dia, sem perceber sua origem, floresce, 
Colorido por aquilo que a noite protegeu, 
No breve milagre entre o adeus e o recomeço. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense