domingo, 4 de outubro de 2026

No lugar onde a saudade mora

 A tarde caiu sobre meus ombros 
Com o peso das lembranças esquecidas. 
Teu nome atravessou o silêncio 
Como uma folha levada pelo vento, 
E meu coração compreendeu 
Que algumas despedidas 
Nunca terminam. 
 
A casa continua de pé, 
Mas há janelas que nunca mais se abriram. 
Os retratos envelheceram na parede, 
O relógio insiste em caminhar, 
E eu permaneço parado 
Na última palavra 
Que não consegui dizer. 
 
Às vezes converso com a ausência. 
Ela responde com ecos, 
Com o perfume distante de um tempo feliz, 
Com a sombra dos teus passos 
Atravessando os corredores da memória. 
Então descubro 
Que a saudade também tem voz. 
 
As noites tornaram-se longas, 
Feitas de estrelas que já não iluminam. 
O céu parece guardar segredos 
Que nunca serão revelados, 
Enquanto meus olhos procuram, em vão, 
O brilho que encontravam 
Nos teus. 
 
Se algum dia o vento te alcançar, 
Leva contigo este silêncio. 
Ele nasceu do amor, 
Cresceu na espera 
E amadureceu na dor. 
Pois há corações que continuam amando 
Mesmo quando aprenderam a viver sozinhos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A serenidade da noite

 É noite e o vento não consulta meus desejos antes de soprar. 
O rumor de germes insalubres atravessa a escuridão como um aviso da natureza. 
Meu coração aprende que nem toda batalha pode ser vencida pela força. 
Há acontecimentos que pertencem ao destino e outros que pertencem à escolha. 
Não posso governar o mundo, mas posso governar minha consciência. 
As pessoas não me escutam, e isso já não determina o valor da minha verdade. 
Basta-me permanecer íntegro diante do silêncio. 
 
A indiferença dos homens é semelhante à chuva que cai sobre justos e injustos. 
Quem espera reconhecimento torna-se prisioneiro das expectativas alheias. 
Quem cultiva a virtude encontra abrigo dentro de si mesmo. 
A noite não é inimiga daquele que conhece a própria luz. 
As palavras esquecidas pelo mundo ainda são testemunhas do caráter de quem as pronunciou. 
Aceito o que não posso mudar com a serenidade dos antigos sábios. 
E transformo cada dor em exercício de fortaleza. 
 
Quando a aurora vier, não pedirei que o universo seja diferente. 
Pedirei apenas que minha alma permaneça firme diante do que vier. 
Que a razão conduza meus passos antes que as emoções os precipitem. 
Que o coração devastado não se converta em coração amargo. 
Que eu saiba ouvir o silêncio sem me tornar vazio. 
Pois a verdadeira vitória não está em convencer os homens, mas em vencer a si mesmo. 
E essa conquista nenhuma noite poderá obscurecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 3 de outubro de 2026

A máscara do poder

 Antes da eleição, 
O candidato aperta mãos, abraça crianças, 
Entra em casas humildes 
E chama desconhecidos de amigos. 
Depois da eleição, 
Algumas portas se fecham, 
Alguns telefones deixam de atender 
E aqueles que eram chamados de “povo” 
Voltam a ser apenas números. 
O poder tem uma estranha capacidade, 
Revela aquilo que a campanha escondia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O Evangelho do último papel

 Depois do fim, 
Quando as cidades viraram poeira 
E o ar cheirava a ferrugem e cinza, 
Houve um instante em que tudo ficou quieto, 
Nenhum som de máquina, 
Nenhum pulso azul de tela. 
 
O mundo morreu com um estalo. 
O silício queimou em seu próprio brilho, 
E os servidores, como templos antigos, 
Desabaram sob o peso do esquecimento. 
A eletricidade evaporou-se 
Como a alma de um deus cansado. 
 
Mas algo ficou. 
Entre os escombros das bibliotecas digitais, 
Entre carcaças de plástico e vidro, 
Repousava um livro, 
Amarelado, ferido, 
Cheirando a tempo e chuva. 
 
E quando mãos humanas, já raras, 
O abriram, 
Um sopro levantou-se do papel, 
Como se o próprio mundo respirasse de novo. 
 
As palavras tremiam, 
Não de medo, mas de memória. 
Falavam de mares e crianças, 
De sol e esquecimento, 
De como o homem criou o fogo, 
E depois o fogo o consumiu. 
 
Não havia mais eletrônicos, 
Nem sinais, nem códigos. 
A linguagem voltou a ser carne, 
A escrita, sangue seco sobre a terra. 
 
E o livro, o último sobrevivente, 
Olhou o horizonte calcinado 
E sussurrou: 
“Eu avisei. 
Eu sempre avisei.” 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A ilusão de mil vidas

A dispersão chega cedo. 
Ela está no rádio ligado sem motivo, 
Na garrafa esquecida sobre a mesa, 
Nas manchetes que você lê 
E esquece cinco minutos depois. 
Ela gosta de apartamentos apertados, 
De noites mal dormidas, 
De gente que troca de sonho 
Como quem troca de camisa. 
 
A sabedoria não faz propaganda. 
Fica sentada num canto, 
Observando em silêncio, 
Esperando que você se canse 
De correr atrás de tudo. 
 
E você corre. 
Corre atrás de dinheiro, 
De elogios, 
De notícias, 
De rostos, 
De qualquer coisa que o impeça 
De ouvir o barulho dos próprios pensamentos. 
 
Uma hora a festa acaba. 
A tela escurece, 
O bar fecha, 
Os amigos vão embora, 
E sobra você 
Encarando a si mesmo 
Como um estranho no espelho. 
 
É aí que a sabedoria aparece. 
Não como uma santa, 
Não como uma professora, 
Não como uma voz vinda do céu. 
Aparece como um soco simples. 
Você passou anos olhando para todos os lados 
E nunca olhou direito para dentro. 
 
Então a resposta é revelada. 
Escolha uma coisa que importe. 
Fique com ela. 
Suporte o tédio. 
Suporte o silêncio. 
Porque a dispersão vende a ilusão de mil vidas, 
Mas a sabedoria nasce 
Quando você finalmente aprende 
A habitar a sua. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Te encontro onde não estás

 Ainda passo pelos lugares onde estavas 
Como quem espera um milagre cotidiano. 
Um vulto familiar na esquina, 
Um perfume antigo no vento, 
Um gesto teu em mãos estranhas. 
 
Mas tu não vens. 
E eu sei. 
Sempre soube. 
 
O tempo fechou a porta que eu deixei entreaberta, 
E agora ela range só por hábito, 
Como um coração que insiste 
Em bater por quem já partiu. 
 
Te procuro nas coisas pequenas. 
Numa música esquecida, 
Na sombra que o outono lança sobre a calçada, 
No silêncio exato entre duas palavras tristes. 
 
Às vezes sonho que volto a te ver, 
Mas é sempre de costas, 
Sempre indo, 
Sempre além do que posso tocar. 
 
Nos meus braços só o vazio. 
Na minha boca, o nome que não chamo mais. 
Mas que ainda sussurro, 
Como quem conversa com fantasmas 
E pede perdão por ter amado tarde. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Te vejo

 Te vejo, e o desejo se levanta, 
Feito chama que o olhar acende e guia; 
Na curva do teu gesto, a noite canta, 
E em teu silêncio arde a fantasia. 
 
Há nos teus olhos febre que me encanta, 
Um caos sereno em doce rebeldia; 
Loucura que seduz, que não se espanta, 
E em mim desperta a mesma ousadia. 
 
Eu sei do risco oculto no teu riso, 
Do abismo belo que me chama e quer, 
A queda suave em teu estranho aviso. 
 
Mas sigo, porque ao te ver, mulher, 
Prefiro o erro intenso e impreciso 
A nunca me perder no que tu és. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quando me olhas

Os teus olhos falam antes do som, 
Dizem o que o silêncio guarda, 
Revelam o que a boca teme. 
 
Neles, o tempo se curva, 
Há memórias que ainda respiram, 
Há segredos que ardem devagar. 
 
Quando me olhas, o mundo se desfaz 
Em um instante de verdade sem nome.  
Nenhuma palavra alcança 
O que o teu olhar confessa. 
 
Há universos inteiros 
Na distância entre um piscar e outro, 
E é lá, nesse breve abismo, 
Que eu aprendo o idioma do teu silêncio. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Pense antes de agir

 A verdade é que a maioria das dores 
Não chega montada num cavalo negro, 
Não arromba a porta, 
Não anuncia sua chegada. 
 
Ela começa pequena. 
Um copo a mais, 
Uma palavra cuspida na cara de alguém, 
Uma assinatura apressada, 
Um amor escolhido pela carência 
E não pela lucidez. 
 
Depois você acorda anos mais tarde 
Olhando para o teto, 
Perguntando ao ventilador, 
Às manchas da parede, 
Aos fantasmas do quarto: 
"Como fui parar aqui?" 
Mas a vida não responde. 
 
A vida apenas mostra os recibos. 
Cada escolha tem um preço, 
E o caixa está sempre aberto, 
Mesmo quando você finge 
Que não está comprando nada. 
 
Os velhos sabem disso. 
Não porque sejam santos, 
Nem porque tenham vencido, 
Mas porque carregam cicatrizes suficientes 
Para reconhecer uma faca antes do corte. 
 
Então sente-se por um momento. 
Abra um livro imaginário, 
Olhe pela janela, 
Deixe a pressa morrer um pouco. 
O amanhã já trará dores suficientes. 
Não convide outras desnecessárias 
Para entrar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O governo dos pensamentos

 Não escolho todos os pensamentos que me visitam, 
Mas escolho o lugar que lhes concedo em minha alma. 
A lembrança chega como o vento entre as árvores, 
E o sábio não discute com o vento. 
Observa sua passagem sem lhe oferecer morada. 
O que não depende de mim não me escraviza; 
O que depende de mim é permanecer em paz. 
 
Se o seu nome surge no silêncio da memória, 
Não o recebo como ordem, mas como acontecimento. 
As águas do rio não pedem licença para correr, 
E nem por isso alteram a firmeza das margens. 
Assim também deve ser o espírito: 
Sereno diante do que passa, 
Livre diante daquilo que não pode impedir. 
 
Não desejo esquecer à força, 
Pois toda violência contra si mesmo prolonga a dor. 
Prefiro cultivar a virtude da aceitação, 
Onde cada lembrança encontra seu tempo de partir. 
A paz não nasce da ausência dos pensamentos, 
Mas do domínio que exercemos sobre nossas escolhas. 
E nisso reside a verdadeira liberdade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A política e a verdade

 Quando a verdade perde espaço, 
A propaganda ocupa o palco. 
Quando a consciência se cala, 
O discurso manipula. 
 Quando o povo deixa de pensar, 
Qualquer promessa pode parecer esperança. 
E essa é a maior defesa contra a enganação política: 
Não acreditar simplesmente porque alguém fala bonito, 
Mas aprender a enxergar aquilo que existe 
Por trás das palavras. 
 Porque política sem verdade 
É apenas teatro. 
E quando o povo descobre 
Que comprou ingresso para assistir à própria decepção, 
Já é tarde demais para pedir o dinheiro de volta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Mistérios escondidos

 Há algo além daquilo que vejo agora, 
Além das ruas, muros, céu e chão, 
Mistérios escondidos na amplidão 
Que o tempo em silêncio guarda e devora. 
 
Enquanto a vida em mim desperta e chora, 
Outra existência pulsa na escuridão; 
Há mundos distantes fora da visão, 
E a alma inquieta por eles implora. 
 
Que sentido teria a breve existência 
Se tudo coubesse apenas no olhar, 
Na superfície fria da aparência? 
 
A vida é mais que o simples enxergar: 
É sede infinita, eterna consciência 
Do invisível que insiste em nos chamar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 27 de setembro de 2026

A poesia me encontrou

 Não confio muito 
Em quem diz que conhece o caminho. 
A cidade está cheia deles. 
Vendem mapas 
E nunca saem do lugar. 
 
Foi a poesia que me encontrou 
Quando tudo parecia enferrujado. 
Não prometeu salvação. 
Apenas disse de forma precisa: 
"Continue andando." 
 
Um poema não paga as contas. 
Não conserta o telhado. 
Não impede a chuva. 
Mas impede que você se transforme 
Em pedra. 
 
Há dias em que o mundo 
Faz questão de apagar qualquer horizonte. 
É então que um verso acende 
Uma luz pequena, quase ridícula, 
E isso basta. 
 
No fim das contas 
A poesia nunca quis ser destino. 
Ela só caminha alguns passos ao seu lado 
Até que você descubra 
Que a direção sempre esteve dentro de você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inventário de um ausente

 Havia um relógio parado na sala 
E ninguém perguntou a hora. 
Lá fora, os homens atravessavam a tarde 
Carregando seus nomes nos bolsos, 
Como moedas de um país extinto. 
 
Eu também tive um nome. 
Recordo vagamente seu peso 
Quando alguém o pronunciava à distância. 
Agora ele repousa sobre mim 
Como poeira nos móveis de uma casa vazia. 
 
Em que estação abandonei meu rosto? 
Talvez entre uma terça-feira e o inverno, 
Quando os pássaros discutiam nos fios 
E uma mulher fechou a janela 
Sem saber que encerrava uma época. 
 
Não houve anúncio. 
Nenhum sino atravessou a cidade. 
Apenas continuei existindo 
Com a disciplina absurda dos relógios 
Que medem aquilo que nos destrói. 
 
Eis-me aqui, se aqui significa alguma coisa, 
Reunindo fragmentos de antigas manhãs, 
Procurando entre eles aquele homem 
Que observava o mundo mudar 
Sem perceber que era ele quem desaparecia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Percorri ruas vazias

Nas noites escuras procurei por você, 
Entre estrelas que teimavam em esconder-se. 
O vento repetia o seu nome baixinho, 
Enquanto a saudade guiava meu caminho, 
E o silêncio respondia ao meu sofrer. 
 
Percorri ruas vazias e sonhos antigos, 
Abraçando lembranças como velhos amigos. 
Cada sombra guardava um pouco de esperança, 
Cada lágrima levava embora uma lembrança, 
Sem apagar os nossos tempos vividos. 
 
A lua testemunhava minha caminhada, 
Iluminando a alma cansada e calada. 
Busquei seu olhar em cada amanhecer, 
Mas encontrei apenas o aprender 
Que toda ausência deixa uma estrada. 
 
Então compreendi o mistério da vida:
 Nem toda despedida é uma causa perdida. 
Há amores que permanecem na memória, 
Escrevendo em silêncio a própria história, 
Mesmo quando a presença é esquecida. 
 
Hoje, nas noites escuras, já não temo andar. 
Aprendi que o amor também sabe transformar. 
Se você não voltou, ficou a lição: 
A esperança ainda habita o coração, 
E sempre haverá uma nova aurora para esperar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense