domingo, 18 de janeiro de 2026

O poeta espera

 Em tudo o que se espera, há uma fome. 
E quem espera demais inventa mundos, 
Não para preenchê-los, 
Mas para não cair neles. 
 
A imaginação nunca pede licença: ela grita. 
Não fala para o ouvido, fala para os olhos. 
É por isso que alguns olhares sangram ideias. 
 
O poeta espera — mas o tempo não. 
E no atraso do mundo 
Surgem criaturas que só ele vê, 
Nascidas de um medo tímido 
E de uma coragem clandestina. 
 
Há limites que só existem 
Para quem não os encontra. 
O poeta encontra, 
E por isso volta ferido. 
Mas volta. 
 
Quando nada acontece, a mente inventa. 
Quando tudo acontece de uma vez, a mente ri. 
O poeta é o único que se assusta com os dois. 
 
O limite da imaginação é o corpo: 
Ela quer se estender 
Até onde o sangue não chega. 
O resto é vertigem. 
 
Quem espera demais aprende a ver no escuro. 
E ver no escuro é um tipo de destino. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 17 de janeiro de 2026

Discreto carrasco

 Não é o tempo que me assombra, 
Mas o vazio de quem o atravessa. 
A temporalidade do instante é clara, 
Transparente como um vidro frágil 
No qual a eternidade apenas encosta a testa. 
 
O que me fere é a mediocridade dos afetos, 
Os sentimentos mornos, 
Aquela indiferença que se veste de prudência 
Mas carrega o mesmo tédio dos mortos. 
 
Pois todos caminhamos para um destino comum, 
Um fim que não barganha 
Nem mede esforços 
Para nivelar todas as vaidades no mesmo chão. 
 
E, ainda assim, há quem viva como se não soubesse, 
Como se o tempo fosse um privilégio privado, 
Como se o coração pudesse 
Adiar a própria chama. 
 
Não temo a brevidade — ela é justa. 
Assusta-me o que não arde, 
Assusta-me o que não sente, 
Pois pouco importa o tamanho do relógio 
Se a alma permanece imóvel. 
 
Afinal, não há diferença entre o homem 
Que se atira ao seu destino 
E o que ali chega arrastado: 
A mesma porta se abre, 
A mesma poeira se recolhe, 
O mesmo silêncio testemunha. 
 
O tempo, este discreto carrasco, 
Não mata ninguém duas vezes. 
Quem o desperdiça, faz o serviço por ele. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quem controla quem?

 Eu já não sei 
Se é o mercado que controla o Estado 
Ou se é o Estado que controla o mercado. 
Às vezes parecem dois cães rondando o mesmo osso, 
Ou duas mãos dentro do mesmo bolso — o nosso. 
 
O que sei é que estamos todos no tabuleiro, 
Movidos por forças que ninguém assinou; 
Pedaços de estatística, votos, boletos, 
Alimentando máquinas que fingem neutralidade. 
 
O mercado diz que é liberdade, 
O Estado diz que é proteção. 
E nós, no meio, confundimos algemas com escolhas, 
E chamamos o labirinto de “progresso”. 
 
Há dias em que tudo parece um grande leilão, 
Quem dá mais pela esperança, 
Quem compra o silêncio, 
Quem vende o futuro a juros compostos. 
 
E há noites em que o Estado e o mercado 
Se recolhem atrás da cortina, 
E só escutamos o ranger das dobradiças do mundo, 
Lembrando que a engrenagem gira 
Mesmo quando ninguém sabe quem deu a ordem. 
 
No fim, talvez não importe 
Quem segura as rédeas 
Se todos já estão dentro da carroça. 
 
O poder não precisa de rosto 
Para apertar o gatilho, 
Nem de ideologia para cobrar seu preço. 
 
A verdade é simples e cruel: 
Não sabemos quem governa, 
Mas sabemos que obedecemos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Confissão silenciosa

Não disse palavra. 
Mas o mundo inteiro ouviu. 
 
Havia um rumor antigo na minha alma, 
Como quem empurra portas fechadas 
E encontra apenas o eco da própria respiração. 
 
A ilusão era minha — sempre foi. 
Nenhuma voz me enganou, 
Nenhum olhar prometeu o que não podia cumprir. 
Fui eu quem enfeitou o abismo, 
Pintou pontes onde só havia precipício, 
E chamou de caminho aquilo que era só vertigem. 
 
Quantas vezes o desejo costurou milagres 
Com linhas que não existiam? 
Quantas manhãs acordei jurando 
Que o impossível cedo ou tarde iria ceder? 
 
Não cedeu. 
Eu cedi. 
 
E na hora em que a verdade finalmente chegou, 
Não houve gritos, nem tempestades, 
Apenas um leve estremecer, 
A nudez de um pensamento cansado, 
E um silêncio tão pesado 
Que quase fazia barulho. 
 
Minha confissão não coube na voz. 
Coube apenas em mim: 
O reconhecimento de que a fantasia era obra-prima, 
Mas o artista era cego. 
 
E foi assim que aprendi, tarde, mas inteiro, 
Que às vezes a mentira mais cruel 
Não vem do outro, 
Vem do amor que inventamos 
Para não morrer de falta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Ouse gritar

A desigualdade não é acaso, 
É projeto. 
É a engrenagem que gira 
Quando poucos se alimentam de muitos. 
 
As vidas sofridas não são invisíveis, 
São apagadas de propósito. 
É mais fácil governar 
Quando a fome cala, 
Quando a miséria curva a espinha, 
Quando a esperança se torna esmola. 
 
Enquanto isso, 
Os que lucram erguem prédios de vidro, 
Bebem champanhe sobre o suor alheio 
E chamam isso de mérito. 
 
Não é destino, 
É escolha política: 
Pão negado, teto arrancado, 
Direitos transformados em favores. 
 
E nós? 
Não podemos apenas assistir. 
A poesia não basta,
Ela precisa arder como palavra de ordem, 
Precisa soprar brasas em corações cansados, 
Precisa lembrar: 
Ninguém se liberta sozinho. 
 
Ou se levanta a voz, 
Ou se abaixa a cabeça. 
E a história tem sede 
De quem ousa gritar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Embebecido pelo teu olhar

 Embebecido pelo teu olhar, 
Fui buscar uma melodia 
Que se insinuava tímida, 
E quando a encontrei, descobri que seu fim 
Era sempre poesia, 
Pois certas músicas só existem 
Quando alguém as olha. 
 
Teu olhar me encharcou de silêncio, 
E nesse silêncio encontrei uma canção. 
Ela não terminava em notas, 
Mas em versos, 
Porque a poesia sabe onde a música descansa. 
 
Embriagado de ti, 
Fui atrás de um som que não sabia seu nome. 
Veio leve, veio lento, 
E pousou na minha mente 
Como um pássaro que declama 
Ao invés de cantar. 
 
Do teu olhar bebi um acorde, 
E desse acorde nasceu um poema. 
Que música estranha é essa 
Que sempre termina em palavras? 
 
Fui além do teu olhar, 
Onde o desejo vira som 
E o som vira verso. 
Ali percebi: 
O que me atravessa é música, 
O que me resta é poesia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Morrerei incompreendido

 Morrerei incompreendido, mas fiel a mim. 
E talvez seja isso o máximo de coerência 
Que um indivíduo pode oferecer ao mundo: 
Ser inteiro 
Onde ninguém quis compreender a metade. 
 
Há quem negocie a alma em busca de aplausos, 
Eu só negocio o silêncio, 
Pois ali, pelo menos, não me traio. 
 
Os que se ajoelham por aprovação 
Nunca saberão o gosto de caminhar ereto 
Mesmo sob o peso da solidão. 
 
Se falarem de mim após o fim, 
Que digam apenas: 
“Não foi possível domesticá-lo”. 
Talvez assim entendam 
Que algumas vidas são tempestades, 
Não jardins. 
 
Quem nasce para estilhaço 
Não aceita molduras. 
 
E se me chamarem de teimoso, 
Que seja, 
Prefiro a teimosia da autenticidade 
Ao conforto da imitação. 
 
Pois morrer incompreendido 
É só o preço de ter vivido verdadeiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Fragmentos de névoa

 A razão... 
Um rio que não sabe seu leito, 
Mas corre sem pressa, sem pausa, 
Entre espelhos partidos 
E sombras que não se reconhecem. 
 
É um sussurro geométrico 
Num salão de ecos líquidos, 
Onde cada passo é um risco 
E cada linha, um voo contido. 
 
Anda com asas feitas de vidro, 
Tateia o invisível com dedos de ideia, 
E desconfia das certezas 
Como quem desconfia da luz: 
Tão clara… que cega. 
 
Ela gira no eixo do indizível, 
Fala em silêncios polidos, 
E escolhe o rumo 
Com bússolas que flutuam 
Num mar sem Norte. 
 
Às vezes, 
É só um ponto imóvel no centro da vertigem 
Não sente, mas pressente. 
Não sonha, mas desenha o contorno do sonho 
Com régua de névoa. 
 
E segue, 
Mesmo sem saber se existe 
Além do pensamento que a pensa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Rock'n roll

 Os herdeiros dos tormentos 
Carregam nos bolsos guitarras quebradas 
E na língua ecos de um grito antigo. 
Gritam rock’n roll porque o silêncio dói demais, 
E declamam segredos para ouvidos atentos 
Que sabem: a dor também é música. 
 
Todo tormento tem um herdeiro, 
Alguém que nasce para transformar o grito 
Em melodia, 
A queda em poesia, 
A fúria em compasso. 
Assim, o rock não é rebeldia: 
É um modo de costurar feridas 
Com fios elétricos. 
 
Filhos de tempestade e madrugada, 
Esses herdeiros cantam como quem exorciza. 
O mundo escuta, 
Não para entender, 
Mas para sobreviver também. 
 
Os tormentos que se acumulam nas veias 
Encontram vazão na guitarra: 
Uma confissão amplificada, 
Uma oração em feedback, 
Um segredo que não pode ser dito em voz baixa. 
 
Ouvidos atentos sabem 
Que nesse coro há mais que ruído: 
Há um pacto invisível 
Entre quem sofre e quem escuta, 
Entre quem declama e quem finalmente entende 
Que toda dor, quando dita, ilumina. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 11 de janeiro de 2026

Onde jaz um amor tão bonito

 Existe um lugar 
Próximo do infinito, 
Longe da imaginação, 
Onde jaz um amor tão bonito 
Que nem o tempo ousa tocar. 
 
Suas fúlgidas memórias 
Descem como estrelas antigas, 
Ecoando num coração 
Que aprende a amar no escuro. 
 
Ali, onde o cálculo falha 
E a mente não alcança, 
O amor descansa 
Como segredo de constelações. 
 
E o coração, 
Que é feito de cicatrizes e auroras, 
Ergue-se paciente, 
Sabendo que certas belezas 
Não se explicam — apenas permanecem. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A verdade cruel da noite

 O dia mente, sempre mente, 
Antes que a noite 
Faça o corte profundo 
Na superfície de um coração carente. 
Mente com claridade, 
Como se a luz pudesse curar o que não tem nome. 
Mente prometendo que houve sentido, 
Que houve reciprocidade, 
Que houve lugar seguro. 
 
Mas o dia é mestre em pequenas ilusões: 
Tapeia a tristeza com cores quentes, 
Distrai a solidão com o trabalho, 
Disfarça a saudade com tarefas, 
Embelezando a ferida 
Para que ninguém veja o pus da ausência. 
 
A noite não. 
A noite não se ocupa de maquiar. 
Ela entra com bisturi fino, frio, silencioso, 
E corta onde o dia apenas cobriu com gaze. 
Nela, o coração carente 
Escuta o eco do que não foi dito, 
O peso do que não foi sentido, 
E o perfume do que se perdeu antes de florescer. 
 
O dia mente porque precisa que sobrevivamos. 
A noite fere porque quer que aprendamos. 
Entre os dois, 
O coração aprende a pulsar nas frestas, 
A amar no intervalo dos enganos, 
A se reinventar na língua das cicatrizes. 
 
E assim seguimos: 
Vivendo do engano do dia, 
E da verdade cruel da noite. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 10 de janeiro de 2026

Pense em mim

 Pense em mim como a noite sem lua 
Que antecede a ruína dos impérios. 
As ruas estão vazias, 
Mas o coração ainda pulsa, 
E é por esse último pulso 
Que o mundo decide adiar o colapso. 
 
Pense em mim como o frio que visita a cidade 
Antes do grande desfecho. 
Tudo perece — menos o desejo. 
É ele quem, teimoso, ilumina o apocalipse 
Com um resto de esperança. 
 
Pense em mim como o eclipse do amor, 
Quando o céu se parte e o tempo falha. 
As janelas se trancam, os passos cessam, 
Mas um perfume insiste na madrugada, 
Como se até o fim do mundo precisasse ser amado. 
 
Pense em mim como o último inverno, 
Aquele que os profetas esqueceram de anunciar. 
As ruas vazias testemunham a queda das eras, 
E, ainda assim, o calor da tua lembrança 
Faz o cataclismo tremer. 
 
Pense em mim como o apocalipse das flores, 
Que murcham sem drama, 
Mas perfumam o abismo. 
Pois mesmo quando tudo termina, 
O amor exige um cenário digno. 
 
Pense em mim como a noite que devora o sol, 
Não por ódio, mas por saudade. 
E quando a luz desaparecer, 
Tu saberás: há fins que só acontecem 
Porque alguém amou demais. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

No íntimo silêncio do intelecto

 Só a tua consciência intelectual 
É um sol que incide sem piedade 
Sobre as penumbras do meu saber; 
E quando tento argumentar, 
Descubro-me réu de uma ignorância 
Que eu mesmo nunca soube nomear. 
 
Porque há desconhecimentos que dormem 
Como pedras submersas, 
Não fazem barulho, mas afundam almas. 
E tua lucidez, essa lâmina, 
Persuade-me sem ameaças: 
Não sou quem imagino saber que sou. 
 
Há quem tema o erro, 
Eu temo o desconhecer. 
Pois o erro ainda é filho do saber, 
Enquanto o desconhecer é o abismo 
Onde o pensamento não chega 
E a vaidade se esconde. 
 
E no íntimo silêncio do intelecto, 
Onde até o orgulho se cala, 
O que me convence não é a retórica, 
Nem a eloquência, 
Mas a simples e feroz verdade 
De que nada sei do que penso saber. 
 
Assim, a tua consciência ilumina 
O meu inconsciente. 
E se há persuasão em ti, 
É porque não disputas vitória, 
Disputas clareza. 
E a clareza vence tudo — até a soberba. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O lado oposto

É na transparência do lado oposto 
Que se descobre o avesso da alma; 
O vidro que separa não protege, 
Apenas denuncia o que já sabíamos sentir. 
 
A verdade não se revela na lucidez das palavras, 
Mas no reflexo que elas deixam nas pupilas; 
Lá onde o desgosto se aloja 
Como sombra que não se quer nomear. 
 
Diante do espelho do outro, 
Somos flagrados pelo que negamos ser; 
A transparência não consola, 
Mas esclarece, 
E tudo que se esclarece, dói. 
 
Há uma franqueza silenciosa 
No reflexo que nos devolve o mundo: 
Ele não mente, não poupa, não adorna. 
Apenas mostra, em traços de luz, 
O que tentamos ocultar na penumbra da aparência. 
 
O inconsolável se anuncia no rosto, 
Como um suspiro que se derrama pelos olhos. 
E é nesse gesto involuntário 
Que a verdade encontra passagem 
E se revela — sem pedir licença. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Aos miseráveis

 O tempo é curto — um fósforo aceso no vento. 
As circunstâncias, esses algozes invisíveis, 
Apertam o passo antes que o passo exista. 
 
Aos miseráveis, o mundo oferece túneis 
Que não levam a estações, 
Apenas curvas, 
E curvas, 
E curvas, 
Onde as lanternas queimam cedo 
E o amanhã tem o hábito de não chegar. 
 
O futuro, esse animal esquivo, 
Não entra nos becos, 
Não visita os porões, 
Não conhece a fome que morde a carne 
E a esperança que se cala por vergonha. 
 
Há quem diga que tudo passa, 
Mas há também aquilo que fica: 
O medo enterrado nos ossos, 
A dúvida que dorme na sola dos pés, 
O sonho que ainda respira, 
Mesmo que baixo, 
Mesmo que torto. 
 
E quando o relógio sangra 
E o túnel promete nunca se abrir, 
Resta apenas o frágil milagre 
De continuar, 
Porque continuar também é poesia, 
Mesmo quando o tempo é curto 
E o mundo é cruel. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense