Falava alto. Todos ouviam. Ninguém perguntava nada. Ele gostava disso.
Do outro lado da mesa havia um professor. Bebia devagar. Não falava muito. Sabia que certas perguntas estragam uma conversa.
O homem continuou falando. Tinha respostas para tudo. Para a política. Para a guerra. Para a fome. Para o futuro.
Os outros concordavam.
Era mais fácil concordar.
Lá fora, a noite caía sobre a cidade. As luzes acendiam. Os carros passavam. O mundo seguia complicado.
Mas dentro do bar tudo era simples.
Muito simples.
O professor olhou pela janela. Pensou nos livros que ninguém lia. Pensou nas histórias que ninguém queria ouvir. Pensou no trabalho que dá compreender a alguma coisa.
Terminou a bebida.
O homem ainda falava.
As pessoas ainda ouviam.
Ninguém parecia perceber a diferença entre uma opinião e um conhecimento.
Ninguém parecia se importar.
O professor levantou-se e saiu.
A rua estava silenciosa.
O ar da noite era frio.
Ele sabia que o mundo nunca pertenceu aos que fazem as perguntas. Pertenceu quase sempre aos que falam mais alto.
Mesmo assim, continuou caminhando.
Era a única coisa honesta que podia fazer.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














