Acumulam-se nas bordas da xícara esquecida,
Entre o vidro da janela
E o rumor de uma rua que aprendeu
A repetir os mesmos passos.
Havia um relógio sobre a parede,
Mas ninguém lhe perguntava as respostas.
Os ponteiros apenas desenhavam círculos,
Como pássaros presos
À geometria do vento.
Recordamos o futuro
Com a mesma nostalgia
Com que esquecemos o passado.
Talvez o presente seja apenas
Uma porta entreaberta que evitamos atravessar.
Na praça, um homem alimenta os pombos.
Os pombos alimentam o silêncio.
O silêncio alimenta os edifícios,
E os edifícios, pedra sobre pedra,
Guardam nomes que já não encontram seus rostos.
Quem diz que lhe falta tempo
Talvez nunca tenha escutado
O lento trabalho da luz sobre as sombras,
Nem percebido que um minuto inteiro
Pode caber no intervalo de um olhar.
Quando a tarde recolhe seus espelhos,
Permanece apenas o eco
De tudo o que poderia ter sido vivido.
E a noite, paciente arquivista,
Fecha mais uma página sem fazer ruído.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














