quinta-feira, 30 de abril de 2026

Toda vez que você passa

Só de ver você andar, 
O tempo desacelera sem aviso, 
Como se o mundo prendesse o fôlego 
Para não perder teu movimento, 
Tão leve, tão inevitável. 
 
Teu olhar iluminado me atravessa, 
Feito manhã rompendo a escuridão, 
Há nele uma promessa silenciosa 
De que a vida pode ser mais bela, 
Mesmo nos dias mais comuns. 
 
E o teu sorriso, tão gracioso, 
É um abrigo contra qualquer frio, 
Um gesto simples que desarma o caos, 
Como se a paz tivesse encontrado forma 
No desenho delicado dos teus lábios. 
 
Estou tão apaixonado que me perco, 
Não em dúvida, mas em encantamento, 
Como quem aceita o doce risco 
De viver dentro de um sentimento 
Que cresce além de si. 
 
E se amar é se transformar, 
Então já não sou o mesmo de antes, 
Carrego em mim tua presença viva, 
Como um verso que insiste em nascer, 
Toda vez que você passa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Ato revolucionário

Ler é revolução. 
Não de fuzis ou bandeiras, 
Mas de olhos que se recusam a ser cativos. 
 
Num tempo em que a televisão dita a verdade, 
E as redes sociais constroem prisões douradas, 
Ler é arrancar as correntes invisíveis. 
 
É fazer silêncio onde só há barulho. 
É abrir clareira na floresta de mentiras. 
É plantar perguntas em solo de certezas fabricadas. 
 
Cada página é um ato de insubmissão, 
Cada palavra é pólvora contra a anestesia, 
Cada leitura é um levante do espírito. 
 
Porque o leitor não consome, recria. 
Não engole, mastiga. 
Não repete, pensa. 
 
E enquanto houver quem leia, 
Não terão vencido as máquinas de ilusão. 
Enquanto houver quem leia, 
Haverá olhos que enxergam além das sombras. 
 
Ler é ato revolucionário, 
E o livro, uma arma secreta 
Guardada no coração do humano 
Contra o império da manipulação. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um eco antigo nas dobras do instante

Perdido nas vertigens do tempo, caminho sem trilha, 
Os ponteiros giram, mas não me alcançam. 
Há um eco antigo nas dobras do instante, 
Como se eu fosse atraso de mim mesmo, 
Um desencontro que insiste em permanecer. 
 
O passado me toca com dedos de ausência, 
O futuro me observa com olhos de dúvida. 
Entre ambos, me desfaço em silêncio, 
Feito areia atravessando as mãos do agora, 
Sem jamais saber onde realmente estou. 
 
Gosto, mas não amo, e nisso me protejo, 
Como quem contempla o fogo sem se queimar. 
Há ternura nas bordas, mas não no centro, 
Há presença sem entrega, gesto sem raiz, 
Um quase que nunca se completa. 
 
E então me volto para dentro, inevitável, 
Como quem despenca em um poço sem fundo. 
Encontro-me disperso, múltiplo, estranho, 
Um eu que me olha e não me reconhece, 
Um rosto que já não sabe seu nome. 
 
E fico só, nesse território sem mapas, 
Onde o silêncio fala mais que qualquer voz. 
Talvez seja aqui o início de algo, 
Ou apenas o fim que se alonga em mim, 
Como um tempo que nunca termina de cair. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 28 de abril de 2026

Corrosivo

O incômodo da poesia e da filosofia não é delicado 
É um corte de vidro enfiado na carne dos dias. 
Elas arrancam a pele fina do óbvio, 
Deixam à mostra nervos que tremem, 
Verdades que apodrecem sob a luz. 
 
A poesia vem como febre: 
Faz arder o que antes parecia inofensivo, 
Desfigura o belo até que ele mostre 
Sua podridão escondida. 
 
A filosofia é um martelo cego: 
Esmaga certezas, 
Reduz ideias a pó, 
E sopra o pó nos olhos 
Até que enxerguemos o que não queríamos ver. 
 
O que chamávamos de “óbvio” 
Era apenas uma máscara frouxa, 
Colada ao rosto por medo. 
Ao ser arrancada, 
O rosto revela feridas, 
Cicatrizes que fingíamos não carregar. 
 
É por isso que poesia e filosofia incomodam. 
Não consolam, não adornam. 
Elas corroem. 
São venenos que acordam o espírito, 
E uma vez bebidos, 
Já não há retorno para a paz dos cegos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A chuva de ontem

 Bem que a chuva de ontem descesse como milagre, 
Lavando os rastros gastos da cidade cansada, 
Escorrendo pelas ruas como um pedido antigo, 
Afogando o pó das promessas nunca cumpridas, 
E devolvendo à pedra um pouco de dignidade. 
 
Mas ela veio apenas como água, e partiu, 
Sem tocar o fundo turvo das esquinas, 
Sem arrancar dos muros o grito endurecido, 
Sem dissolver o abandono acumulado, 
Como se a sujeira tivesse raízes na alma. 
 
As poças refletiam um céu quase inocente, 
Enquanto o chão guardava sua memória suja, 
Um espelho quebrado de dias repetidos, 
Onde o tempo passa, mas nada se transforma, 
E a esperança escorre pelos bueiros entupidos. 
 
Há uma poeira que não se rende à tempestade, 
Um peso invisível grudado nas horas, 
Feito de descuido, silêncio e costume, 
Que a água toca, mas não alcança, 
Como se fosse parte do próprio existir. 
 
E eu, olhando a chuva que já não cai, penso: 
Não era água que faltava à cidade, 
Mas mãos, olhos, vontade de recomeço, 
Porque há manchas que só cedem ao cuidado, 
E nenhuma chuva lava o que não se quer limpar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 27 de abril de 2026

É estranho amar assim

 Ela não vem, e ainda assim permanece, 
Como um eco que nunca pediu voz, 
Como um perfume guardado no ar do nada, 
Como um nome que não ouso dizer alto, 
Mas que insiste em nascer dentro de mim. 
 
É estranho amar o que não se alcança, 
Segurar o vazio como se fosse matéria, 
E encontrar nela, na falta, um abrigo, 
Como se a ausência tivesse mãos 
E me tocasse com mais força que a presença. 
 
Eu gosto dela até no que não existe, 
No que não veio, no que não será, 
Nos caminhos que nunca cruzamos, 
Nos gestos que nunca se fizeram, 
E ainda assim me atravessam como memória. 
 
E então não sei mais como desejar, 
Porque desejar é querer aproximar, 
E ela já está em tudo que me cerca, 
No silêncio, no tempo, no meu próprio peito, 
Como um mistério que não se resolve. 
 
Amar assim é aceitar o invisível, 
É ser casa de algo que não se possui, 
É ser campo onde a saudade floresce sem fim, 
E compreender, enfim, que há sentimentos 
Que não querem chegada, querem permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O caos na mente do poeta

 Os caminhos da mente do poeta 
Não são ruas, são vertigens, 
Um labirinto de vozes partidas 
Ecoando nomes que ninguém chamou. 
Há pensamentos que nascem quebrados, 
Como espelhos que recusam o rosto, 
E ainda assim refletem o infinito. 
 
Dentro dele, o caos respira lento, 
Como um animal antigo e invisível, 
Rasgando o silêncio com suas garras sutis. 
Ideias se chocam como tempestades, 
E do choque surge um clarão breve, 
Um verso, talvez, ou um suspiro torto 
Que insiste em sobreviver ao nada. 
 
O poeta caminha sem mapa algum, 
Pisando em memórias que nunca viveu, 
Bebendo do abismo como quem reza. 
Pois sabe que na desordem há sentido, 
Mesmo que ele doa, mesmo que arda, 
Mesmo que nunca se deixe compreender, 
É do caos que nasce aquilo que permanece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 26 de abril de 2026

Quando você vier

 Quando você vier, 
Não trarei perguntas, nem cobranças. 
Apenas um sorriso aberto, 
Como quem guarda o sol dentro do peito, 
Esperando por você. 
 
Estarei ali, 
Na linha tênue entre o sonho e o real, 
Com um sorriso que nasceu nos dias de espera 
E floresceu só para te ver chegar. 
 
Quando você vier, 
Meus olhos serão o caminho 
E meu sorriso, o abrigo. 
Porque há amores que se constroem 
Nas entrelinhas do tempo. 
 
Você nem saberá quantas manhãs amanheci 
Imaginando o som dos seus passos. 
Mas quando você vier, 
Me encontrará sorrindo, 
Como se todo esse tempo fosse só um breve intervalo. 
 
Guardei em mim um jardim de esperas. 
E quando você vier, 
As flores saberão que é hora de abrir. 
E eu… 
Eu estarei sorrindo, 
Como quem sempre soube que você viria. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Por que se importar?

 Por que um homem triste 
Deveria se importar com a mácula 
De uma geração que não pensa? 
 
Porque ele ainda sente. 
Porque apesar de toda a merda, 
Ele não conseguiu desligar o cérebro, 
Nem congelar o coração. 
Ele vê. 
Vê a fila de idiotas batendo palma para nada, 
Vê os olhos vazios brilhando nas vitrines, 
Vê os cães mijando nas mesmas ideias podres de sempre. 
E mesmo fodido, cansado, meio morto por dentro, 
Ele se importa. 
Não por esperança. 
Mas por raiva. 
Por orgulho. 
Por aquele resto de humanidade 
Que ainda não foi arrancado com alicate. 
Ele sabe que o mundo apodreceu porque ninguém pensa, 
Só consome, repete, morde, defeca. 
E ele não quer ser só mais um cadáver aceitando o cardápio. 
A tristeza dele não é covardia. 
É o preço de estar desperto num campo de zumbis sorridentes. 
Então ele se importa. 
Não para salvar ninguém. 
Mas para não ser engolido pela mesma lama. 
Às vezes, se importar é tudo o que resta 
Antes de virar pedra. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 25 de abril de 2026

A leitura é chama acesa

 A leitura é chama acesa no escuro do ser, 
Um sussurro antigo que insiste em crescer, 
Palavras que dançam na mente inquieta, 
Desatam os nós da razão mais secreta, 
E ensinam o mundo sempre se refazer. 
 
Em cada página, um universo respira, 
Um pensamento nasce, outro se inspira, 
Há vozes que ecoam além do papel, 
Rompendo os limites do próprio céu, 
E a mente, antes presa, agora delira. 
 
Ler é romper com o peso da ignorância, 
É ver o comum sob um prisma da vigilância, 
É dar ao silêncio um novo sentido, 
É nunca aceitar o saber reduzido, 
Mas ampliar o horizonte além da infância. 
 
A leitura cultiva perguntas no peito, 
Desfaz as certezas, refaz o conceito, 
Transforma o olhar, o sentir, o pensar, 
Ensina que o mundo é mais que enxergar, 
É gesto profundo, constante e perfeito. 
 
Quem lê já não volta ao início, 
Carrega na alma um leve artifício. 
O dom de pensar para além do que vê, 
De ser muitos outros sem deixar de ser, 
Um ser em eterno e belo exercício. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Pecado

 Meu maior pecado não foi te amar, 
Foi silenciar a voz lúcida que, em mim, 
Já te conhecia antes de você existir. 
A razão sussurrava como um vento antigo, 
Alertando sobre teus abismos 
Disfarçados de ternura, 
Mas eu, cego pela promessa do teu olhar, 
Escolhi o incêndio em vez da luz. 
 
Há um tipo de erro que não nasce da ignorância, 
Mas da escolha consciente de se perder. 
Eu sabia, eu sentia isso, 
E mesmo assim fui. 
Porque há amores que não pedem permissão, 
Invadem como tempestades em casas frágeis, 
E quando percebemos, 
Já estamos chamando de lar 
Aquilo que nos desmorona. 
 
Meu pecado foi esse. 
Trair a mim mesmo em nome de um sentimento 
Que não sabia permanecer. 
E agora, entre os destroços, 
É a razão, aquela antiga voz esquecida, 
Quem recolhe os pedaços que o amor deixou. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Impassível

Sou margem de um rio que nunca transborda, 
Onde o tempo encosta e desiste de ficar, 
As vozes do mundo chegam como ecos distantes, 
Quase lembranças de algo que nunca vivi. 
Não me comove o peso das horas caídas, 
Nem a pressa dos dias em ruína constante, 
Há em mim um silêncio que não se negocia. 
 
Os afetos passam como sombras indecisas, 
Tocam minha pele e retornam ao vazio, 
Não crio raízes no chão das emoções, 
Sou chão árido, intacto, sem promessa. 
O que em outros pulsa, em mim repousa, 
Como se sentir fosse um gesto esquecido, 
Um idioma antigo que deixei de falar. 
 
Ainda assim, algo vigia no fundo imóvel, 
Um ponto cego que observa sem julgar, 
Talvez o último vestígio do incêndio humano. 
Mas ele não cresce, nem pede passagem, 
Permanece suspenso entre o ser e o nada, 
Como uma chama que não aquece nem consome, 
Apenas existe, impassível, como eu. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Antes que nasça a poesia

 Sonhando, escrevo 
Como quem não segura 
A própria alma dentro do peito, 
Como quem deixa escapar, em palavras, 
Aquilo que a realidade não suporta dizer. 
 
Há uma espécie de verdade nos sonhos 
Que o dia insiste em negar. 
E é nesse território indeciso, 
Entre o que fui e o que ainda não sou, 
Que a poesia nasce, silenciosa e inevitável. 
 
Escrever sonhando é dissolver os limites: 
O tempo já não fere, 
A ausência já não pesa, 
E o amor, mesmo impossível, 
Ganha corpo de eternidade. 
 
Sou feito desses fragmentos oníricos, 
Dessas imagens que não pedem lógica, 
Mas imploram por sentido. 
E cada verso que surge 
É um vestígio de mim em estado de sonho. 
 
A verdade é que, no fundo, 
Não sou eu que escrevo a poesia, 
É ela que me conquista primeiro, 
E me transforma em palavra 
Antes mesmo que eu desperte. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Tronco oco de uma árvore

 Recosto o corpo ao tronco já vazio, 
E escuto o tempo oco a respirar; 
Há nele um velho e manso desafio: 
Existir é perder algo para durar. 
 
A seiva foi-se embora em seu desvio, 
Mas algo ali persiste a murmurar; 
Um resto de presença, quase um fio, 
Que insiste, mesmo em falta, em continuar. 
 
E eu, que penso a vida nesse instante, 
Me vejo feito uma árvore também: 
Por fora firme, por dentro vacilante. 
 
Mas há no tronco oco um modo de ir além, 
Pois ser não é ser pleno a todo instante, 
É ainda ser, mesmo sem ser ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Tortura

 Ficar sem você é um silêncio que grita. 
É como se o tempo continuasse andando, 
Mas sem destino certo, 
Apenas um arrastar cansado de horas vazias. 
 
Há uma espécie de tortura delicada nisso: 
Não é dor que explode, 
É dor que permanece. 
Ela se instala nos pequenos espaços, 
No intervalo entre um pensamento e outro, 
No instante em que o mundo 
Deveria fazer sentido, mas não faz. 
 
Tudo continua igual, 
E ainda assim tudo falta. 
As ruas, as vozes, os dias… 
Todos parecem cenários abandonados 
De algo que já foi vivo. 
 
O pior não é a ausência do seu corpo, 
É a ausência do que você despertava em mim. 
Sem você, sou menos inteiro. 
Menos som, menos cor, menos fogo. 
 
Então continuo meu caminho 
Carregando essa saudade que não grita alto, 
Mas corrói em silêncio, 
Como quem sabe que amar 
Também é aprender a suportar a falta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense