domingo, 1 de fevereiro de 2026

Um amor que nasce no teu olhar

 Sinto em ti um silêncio que acolhe, 
Como se o mundo aprendesse a parar. 
Teu nome em mim nunca ecoa em voz alta, 
Ele mora onde só eu sei estar. 
 
Há um amor que nasce no teu olhar, 
Não pede promessas nem juras ao vento. 
Ele existe simples, inteiro, presente, 
Como quem ama sem medo do tempo. 
 
Quando me olhas, algo em mim se revela, 
Não sou mais o mesmo que fui até então. 
Teus olhos me leem sem pedir palavras, 
Traduzem meus vazios em compreensão. 
 
Te amar não é urgência, é permanência, 
É ficar mesmo quando tudo quer ir. 
É reconhecer no brilho do teu rosto 
Um lugar possível de existir. 
 
Por ti, o amor não grita, respira, 
Não prende, não pesa, não fere, não dói. 
Ele apenas acontece no encontro dos olhos, 
E, acontecendo, em mim se constrói. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Luta silenciosa

 Esquecer quem precisamos esquecer 
Não é um ato de vontade, 
É uma luta silenciosa entre a memória, 
Que insiste em sobreviver, 
E a lucidez que tenta nos salvar. 
 
Há pessoas que não ficam pelo amor, 
Mas pelo hábito de terem sido abrigo 
Quando tudo doía. 
E o coração, confuso, 
Chama de saudade o que já é ausência. 
 
Esquecer dói porque exige aceitar 
Que o que existiu não voltará a existir 
Do mesmo modo. 
É enterrar alguém vivo dentro da gente 
Sem direito a velório. 
 
A mente entende o adeus antes do peito. 
O peito, atrasado, continua 
Batendo nomes proibidos, 
Recriando cenas que já perderam o chão, 
Como quem se agarra ao ar. 
 
Há quem precise esquecer 
Não por falta de amor, 
Mas por excesso de ferida. 
Porque permanecer lembrando 
É continuar sangrando sem corte novo. 
 
O mais difícil não é apagar o rosto, 
É desmontar a versão de nós 
Que só existia ao lado daquela pessoa. 
Esquecer alguém, às vezes, 
É reaprender a ser inteiro sozinho. 
 
E quando finalmente começa o esquecimento, 
Ele não vem como alívio, 
Vem como um silêncio estranho, 
Quase uma traição à própria história. 
Mas é nesse vazio que a vida, 
Devagar, aprende a caber de novo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 31 de janeiro de 2026

A solidão não grita

 Desejei escrever mais um poema 
Sobre a solidão, 
Mas as palavras chegaram em silêncio, 
Sentaram-se ao meu lado 
E não disseram nada. 
 
Talvez porque a solidão verdadeira 
Não pede descrição, 
Ela se reconhece 
No espaço entre uma frase e outra, 
No verso que não se completa. 
 
As palavras, 
Cansadas de explicar o indizível, 
Preferiram calar. 
E nesse silêncio, disseram mais 
Do que qualquer metáfora ousaria. 
 
Percebi então 
Que há momentos em que escrever 
É apenas aceitar 
Que o poema não quer nascer em voz alta, 
Mas permanecer como ausência, 
Eco interno, 
Respiração contida. 
 
A solidão não grita. 
Ela sussurra tão baixo 
Que só quem já ficou sozinho demais 
Aprende a escutá-la 
No silêncio das palavras. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

E amo em silêncio

Há momentos em que eu 
Não faço nada além de te observar. 
Não por ausência de coragem, 
Mas porque há amores que pedem silêncio 
Como quem pede fôlego antes do mergulho. 
 
Eu te olho maravilhado, 
Como quem encara algo belo demais para tocar, 
Com medo de que o simples gesto de alcançar 
Quebre o encanto que ainda respira intacto. 
 
O amor, nesses instantes, não é posse, 
É contemplação. 
É aceitar que sentir já é um risco suficiente, 
E que amar também pode ser ficar à margem, 
Tremendo de alegria e receio ao mesmo tempo. 
 
Há medo porque há valor. 
Não temo te perder por fraqueza, 
Temo te perder por excesso de presença, 
Por não saber a medida exata 
Entre o desejo de estar 
E o respeito pelo mistério que você é. 
 
Então eu fico. 
E olho. 
E amo em silêncio. 
Com o coração aberto demais 
Para fingir indiferença 
E cauteloso demais 
Para chamar isso de coragem. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quando acordo antes de ti

 Acordo antes de ti — o mundo ainda hesita, 
A luz ensaia entrar, discreta, pela fresta; 
Teu sono é um encanto que o tempo respeita, 
E eu caminho em silêncio pela casa em festa. 
 
O café aprende o peso da espera infinita, 
O relógio suspira e desacelera a pressa; 
Te observo: tua paz o dia acredita, 
Como se em ti dormisse a própria promessa. 
 
Sou vigia do instante em que tudo é cuidado, 
Antes que a fala rompa o fio do encanto; 
Amar é este zelo quase calado. 
 
Quando acordas, o dia já nasce em pranto 
Por perder o segredo que foi guardado: 
O amor que te vela — e não diz quanto. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Mesmo depois do adeus

Se eu soubesse que dói, 
Não me despedia. 
 
Ficaria mais um segundo, 
Como quem segura o tempo pela manga, 
Como quem desconfia que o adeus 
Não é palavra, 
É ferida. 
 
Se eu soubesse, 
Teria guardado o olhar por mais tempo, 
Decorado o som da voz, 
O jeito distraído de existir 
Ao meu lado. 
 
Porque a despedida engana: 
Ela parece um gesto simples, 
Mas cobra depois, 
Em silêncio, 
Com juros de saudade. 
 
Se eu soubesse que dói, 
Não teria ido embora tão inteiro. 
Teria deixado um pedaço ali, 
Para que a ausência 
Não levasse tudo. 
 
Hoje entendo: 
A dor não vem do fim, 
Vem do que continua vivo 
Mesmo depois do adeus. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O coração hesitou

 Quem foi que perdeu a direção? 
Não foi por falta de mapas, 
Foi por excesso de medo. 
Havia caminhos, havia sinais, 
Mas o coração hesitou 
Como quem pisa na beira do abismo 
E chama isso de prudência. 
 
Ficou no impasse 
Porque amar exige decisão, 
E decidir dói mais do que esperar. 
Quis amar, 
E isso já era um gesto quase inteiro, 
Mas não amou 
Porque amar não aceita ensaio, 
Nem admite meia-coragem. 
 
Perder o norte, às vezes, 
É ouvir demais o ruído do mundo 
E de menos o sussurro interno. 
É confundir cautela com verdade, 
E silêncio com maturidade. 
 
Não foi o amor que faltou, 
Foi o passo seguinte. 
E quem não atravessa, 
Passa a vida inteira 
Chamando margem de destino. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Não será apenas um sorriso

Sempre fico imaginando o dia 
Em que o teu sorriso vai pousar em mim 
Como quem não tem pressa, 
Como quem escolhe ficar. 
 
Imagino esse instante simples, 
Quase banal para o mundo, 
Mas capaz de reorganizar meus silêncios, 
De dar sentido às esperas que finjo não contar. 
 
Talvez seja um sorriso distraído, 
Talvez nem saiba o peso que carrega. 
Mas em mim ele chega como um acontecimento, 
Uma pequena revolução no peito. 
 
Enquanto isso, sigo ensaiando a espera: 
Não como quem exige, 
Mas como quem acredita 
Que alguns sorrisos não se pedem, 
Acontecem. 
 
E quando acontecer, 
Sei que não será apenas um sorriso. 
Será a confirmação 
De que imaginar também é uma forma 
De permanecer perto. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O que quero e não consigo dizer

Há dias em que o coração parece escrever cartas 
Que minha boca não consegue ler. 
Ficam lá, dobradas dentro de mim, 
Como papéis que não ousam ver a luz, 
Com medo de que, ao serem abertos, 
Percam o perfume que só existe no segredo. 
 
Eu tento falar — tento mesmo, 
Mas as palavras tropeçam umas nas outras, 
Disputando quem vai sair primeiro 
E no fim se calam, envergonhadas, 
Como se sentissem que são pequenas demais 
Para o tamanho do que carrego. 
 
Talvez por isso meus gestos se alonguem, 
Meus olhares demorem mais do que o necessário, 
E minha respiração mude de ritmo 
Quando você está por perto. 
É a linguagem subterrânea, 
Essa língua que não se aprende em livros, 
Mas no choque 
Entre querer dizer e temer ser ouvido. 
 
Eu penso em te contar, 
E quase sempre penso forte demais, 
Mas então me assusto com a ideia 
De que, ao traduzir o sentimento, 
Ele se desfaça, 
Como uma estrela cadente 
Que só brilha enquanto cai. 
 
Então sigo guardando, 
Como quem cultiva 
Uma chama pequena dentro do peito, 
Aquecendo-me com o calor secreto dela, 
Esperando que um dia você perceba 
Que até o meu silêncio é todo sobre você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Mudar não é incoerência

 Tenha diferentes estilos. 
Não por vaidade, mas por sobrevivência. 
 
Quem revela sempre o mesmo gesto 
Ensina o mundo a antecipá-lo. 
Quem caminha em linha reta 
Oferece o próprio peito à mira. 
 A ave que não muda o voo 
Vira alvo fácil no céu, 
E o alvo fácil é um convite ao disparo. 
 
Mudar não é incoerência. 
É leitura do vento. 
É escuta do perigo. 
É sabedoria antiga 
Que entende que previsibilidade mata. 
 
Há dias de silêncio e dias de riso. 
Há passos lentos, outros abruptos. 
Há momentos de sombra, outros de luz. 
Cada estilo é uma rota alternativa 
Quando o céu se torna hostil. 
 
Não deixem saber qual será seu próximo passo. 
Não por medo, mas por lucidez. 
Quem se reinventa desarma o caçador, 
Confunde o olhar que vigia, 
E permanece vivo, 
Não por força, 
Mas por saber desviar do perigo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quem não tem asas

 Quem não tem asas 
Costuma chamar o céu de exagero. 
Aponta as nuvens como armadilhas, 
O vento como inimigo, 
E transforma o próprio medo em conselho. 
 
Diz que voar é perigoso 
Porque nunca sentiu o chão desaparecer. 
Porque nunca confiou no vazio. 
Porque confunde prudência com prisão. 
 
Quem anda sempre rente ao chão 
Aprendeu a medir a vida em passos curtos 
E estranha quem ousa saltar. 
Não por maldade, 
Mas porque o voo 
Revela aquilo que lhes falta. 
 
Eles vão te oferecer gaiolas bem pintadas, 
Nomes bonitos para a desistência, 
Elogios à segurança do nunca. 
Vão chamar de maturidade o cansaço, 
De realidade o medo herdado. 
 
Mas quem nasce com asas 
Sente dor se não tenta voar. 
O perigo maior não está em cair, 
E sim em passar a vida inteira acreditando 
Que o céu era só um mito inventado 
Por quem se recusou a rastejar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inteiro no mesmo desejo

Meus pensamentos caminham intactos: 
O desejo não mudou de endereço, 
A afeição não perdeu o nome. 
Eles continuam onde sempre estiveram, 
Em vigília silenciosa dentro de mim. 
 
Há algo em você que não pede licença. 
Entra devagar, como quem prende o corpo pelo eco, 
E quando percebo, já não é só presença: 
É feitiço. 
 
Você tocou não apenas a pele, 
Mas o lugar onde a pele começa a sentir falta. 
Encantou o corpo, sim, 
Mas foi a alma que primeiro se rendeu, 
Como se já o conhecesse de antes. 
 
Sigo dessa forma: 
Inteiro no mesmo desejo, 
Fiel à mesma afeição, 
Sabendo que algumas mudanças não são rupturas, 
São aprofundamentos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 25 de janeiro de 2026

Segredos da consciência

 Havia segredos em mim 
Que não se escondiam por medo, 
Mas por delicadeza. 
Esperavam o instante exato 
Em que a consciência, cansada de correr, 
Pararia para ouvi-los. 
 
Eles não chegaram como revelações grandiosas, 
Vieram como um arrepio breve, 
Um pensamento que não pedi, 
Uma lembrança sem endereço. 
De repente, eu sabia, 
E não havia como fingir que não. 
 
Descobri que alguns segredos não são fatos, 
São estados de espírito. 
Eles não dizem o que aconteceu, 
Mas quem eu sou quando ninguém está olhando. 
 
A súbita consciência não grita. 
Ela sussurra, 
E o susto vem justamente disso: 
Do reconhecimento silencioso. 
É quando a mente percebe 
Que sempre soube, 
Mas ainda não tinha coragem de nomear. 
 
Há segredos que não querem ser resolvidos, 
Apenas aceitos. 
Eles surgem para redesenhar o mapa interno, 
Mudar a rota das escolhas, 
Deslocar o centro do que chamávamos de certeza. 
 
E então sigo, 
Um pouco diferente, 
Carregando agora o peso leve 
De saber algo que não me destrói, 
Mas também não me deixa voltar 
A ser quem eu era antes de perceber. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 24 de janeiro de 2026

O encanto dela

 O encanto dela não vinha de artifícios, 
Vinha dela mesma, 
Como quem existe 
Sem pedir licença ao mundo. 
 
Era a curva discreta dos ombros, 
Um desenho quase invisível, 
Mas capaz de sustentar silêncios inteiros. 
Não havia pose ali, apenas verdade, 
E a verdade, quando se mostra, 
Seduz sem esforço. 
 
Seu olhar nunca repousava por completo. 
Havia nele uma inquietude bonita, 
Como se estivesse sempre prestes a partir 
Ou a descobrir algo que ninguém mais via. 
Olhos assim não observam: revelam. 
 
E o sorriso… 
Ah, o sorriso não se entregava inteiro. 
Guardava um segredo, 
Não por malícia, mas por delicadeza. 
Como quem sabe que certas coisas 
Só florescem quando permanecem escondidas. 
 
O encanto dela era isso: 
Não tentar ser inesquecível, 
E ainda assim permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O sorriso do gato invisível

 Há dias em que o céu não se abre em azul, 
Mas em ironia. 
Um arco invisível se desenha no alto, 
Não de luz, 
Mas de intenção. 
 
É o sorriso de um gato que não está, 
Mas observa. 
Não mia, não salta, não cai: 
Paira. 
Um riso suspenso, debochado, 
Como quem sabe algo 
E se recusa a explicar. 
 
O céu, então, deixa de ser abrigo 
E vira provocação. 
Parece dizer que a ordem é uma invenção humana, 
Que o acaso tem humor 
E que o absurdo sabe rir. 
 
Esse sorriso pintado no nada 
Zomba das nossas urgências, 
Das previsões do tempo, 
Das promessas de amanhã. 
Ele permanece, curvo e calmo, 
Enquanto tudo embaixo insiste em desmoronar. 
 
Talvez o céu seja isso: 
Uma tela onde o invisível ensaia gestos, 
E o gato — esse mestre do desprezo elegante, 
Nos lembra, sem palavras, 
Que nem tudo precisa fazer sentido 
Para continuar existindo. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense