Ao cair da tarde, entre relógios fatigados
E o rumor distante dos ônibus sob a chuva,
Havia uma luz amarela repousando sobre os móveis,
Uma luz que não prometia redenção,
Apenas a continuação das horas.
Em seus braços, lentamente me desdobrei
Como um bilhete esquecido numa gaveta antiga,
Entre recibos, retratos e datas apagadas.
As palavras emergiam sem triunfo,
Como fragmentos resgatados de uma cidade submersa.
Abril já não era o mês mais cruel.
Cruel era o acúmulo dos dias idênticos,
As xícaras vazias alinhadas na cozinha,
Os jornais envelhecendo sobre a mesa,
E a poeira aprendendo os nomes dos ausentes.
Que voz falava através de nós?
A voz dos corredores desertos ao entardecer?
A voz dos livros que ninguém termina?
Ou apenas o murmúrio do tempo,
Costurando perdas na bainha da memória?
E enquanto a noite descia sobre os telhados,
Não encontrei revelações nem respostas.
Apenas o som de uma respiração próxima,
E um bilhete aberto sobre o abismo das coisas,
Lido em segredo por dois viajantes do mesmo silêncio.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














