Como quem espera um milagre cotidiano.
Um vulto familiar na esquina,
Um perfume antigo no vento,
Um gesto teu em mãos estranhas.
Mas tu não vens.
E eu sei.
Sempre soube.
O tempo fechou a porta que eu deixei entreaberta,
E agora ela range só por hábito,
Como um coração que insiste
Em bater por quem já partiu.
Te procuro nas coisas pequenas.
Numa música esquecida,
Na sombra que o outono lança sobre a calçada,
No silêncio exato entre duas palavras tristes.
Às vezes sonho que volto a te ver,
Mas é sempre de costas,
Sempre indo,
Sempre além do que posso tocar.
Nos meus braços só o vazio.
Na minha boca, o nome que não chamo mais.
Mas que ainda sussurro,
Como quem conversa com fantasmas
E pede perdão por ter amado tarde.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














