Celebro as estradas abertas sob o céu imenso,
Os rios que seguem para o mar sem jamais perguntar por quê,
E celebro esta verdade que chegou tarde ao meu coração:
Não havia nada em mim que pudesse dizer sim ao que já estava morto.
Ó companheira de jornadas e de silêncios!
Caminhamos sob as mesmas luas, sob os mesmos ventos,
Compartilhamos o pão dos dias e a sombra das tardes,
Mas os nossos espíritos viajavam por continentes diferentes,
Como aves migratórias que jamais encontram o mesmo horizonte.
Eu vi as multidões passando pelas avenidas do tempo,
Os trabalhadores, os amantes, os sonhadores, os velhos,
Todos carregando suas alegrias e suas secretas ausências;
E percebi que a solidão não pertence apenas aos desertos,
Mas também às casas onde duas pessoas deixam de se encontrar.
Ainda assim, não amaldiçoo a memória nem a despedida,
Pois cada amor, mesmo incompleto, deixa sua marca na alma;
Cada encontro é uma estrela acrescentada à noite humana,
Cada adeus é uma lição escrita pelo vento sobre a areia,
Antes que a maré venha recolher as palavras.
E agora sigo adiante, de peito aberto para os caminhos,
Irmão das árvores, dos rios, das nuvens errantes,
Aceitando a vastidão do mundo e os seus mistérios;
Pois aprendi que estar contigo era viver só até o fim,
E aprendi também que partir é, às vezes, voltar para si mesmo.
Eu caminho, e o universo caminha comigo.
As manhãs continuam nascendo sobre os campos,
Os pássaros continuam escrevendo poemas no céu,
E meu coração, enfim reconciliado com sua própria voz,
Saúda a vida outra vez, livre sob o infinito.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense




.jpg)









