quinta-feira, 14 de maio de 2026

Alguém dentro do peito

Carrego pensamentos pelas noites vazias. 
Eles surgem devagar, 
Ocupando os espaços silenciosos do meu quarto 
E atravessando minha mente como pássaros sem destino. 
Quando não estou com você, 
O tempo parece observar minha solidão 
Com olhos demorados e frios. 
 
Há dias em que o mundo inteiro perde o sentido. 
As ruas, as vozes, 
Os relógios e os movimentos das pessoas 
Parecem existir muito longe de mim. 
Mesmo assim, continuo imaginando o instante 
Em que nossos caminhos finalmente irão se encontrar. 
 
Às vezes converso com a sua ausência. 
Não como alguém que desistiu, 
Mas como quem mantém 
Uma janela aberta durante a tempestade. 
Sua lembrança permanece acesa dentro de mim 
Mesmo quando a distância tenta apagar tudo. 
 
A esperança se tornou uma espécie de abrigo. 
Ela me acompanha nas madrugadas silenciosas 
E nos dias em que o coração parece cansado da espera. 
É ela que impede meus pensamentos 
De se perderem completamente na escuridão. 
 
Pode ser que o amor seja exatamente isso. 
Continuar acreditando no encontro 
Mesmo quando a vida parece seguir por outros caminhos. 
Continuar guardando alguém dentro do peito 
Como quem protege uma última chama contra o vento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O sol virou o rosto

Eu vi o sol virar o rosto da cidade, 
Cansado dos homens vendendo dignidade. 
Nas vitrines, sorridentes cadáveres modernos 
Compravam migalhas em suaves prestações, 
Enquanto chamavam isso de liberdade. 

Caminhei entre profetas de concreto e fumaça, 
Cada um carregando sua fome disfarçada. 
Os ricos falavam de paz nos jornais, 
E os pobres aprendiam silêncio nas filas 
Como quem herda correntes enferrujadas. 

Eu também fui parte desse teatro podre, 
Vesti mentiras para não morrer de frio. 
Sorri em mesas cercadas de hipocrisia 
Enquanto minha alma mastigava ferrugem 
E meu coração apodrecia devagar. 

O sol entorpecido fugiu das avenidas 
Porque até a luz sente náusea do mundo. 
Há crianças dormindo sob pontes esquecidas 
E homens discutindo moral em palácios 
Erguidos sobre ossos e impostos. 

Agora escrevo como quem cospe incêndios. 
Não espero salvação dos céus cansados. 
Aprendi que a sociedade devora os sensíveis 
E transforma sonhos em números sem rosto 
Antes de chamar isso de progresso. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Tormento

 Carrego em mim a dor como verdade, 
Um credo escuro que aprendi sozinho, 
Pois toda perda abriu em meu caminho 
A fria câmara eterna da saudade. 
 
Não tive mãos, nem voz, nem claridade, 
Somente o eco triste do vazio, 
E fiz da solidão meu desafio, 
Bebendo o fel cruel da realidade. 
 
Há uma ideologia no sofrimento, 
Quem sofre vê mais fundo a condição 
Dos sonhos que é levado pelo vento. 
 
Por isso guardo em meu próprio coração 
A fé amarga e muda do tormento, 
Como quem fez da dor sua oração. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um papel em branco

Estou diante de um papel em branco 
Esse deserto silencioso 
 Onde a alma hesita antes do primeiro passo. 
Minhas mãos desejam escrever, 
Mas não procuram palavras. 
Procuram vestígios teus. 

Minha mente vagueia pelos corredores da memória 
Tentando reencontrar os olhos 
Daquela que me faz viver 
Mesmo quando a noite pesa sobre meus ombros 
Como um inverno sem fim. 

Há amores que se tornam linguagem. 
Basta pensar neles 
E os versos começam a respirar sozinhos, 
Como se o coração abrisse lentamente 
Uma janela voltada para o infinito. 

É aí então que percebo. 
O papel nunca esteve vazio. 
Nele já existia tua ausência, 
Teu nome escondido entre silêncios, 
E essa saudade luminosa 
 Que insiste em florescer dentro de mim. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 12 de maio de 2026

A solidão possui música secreta

Existe uma canção perdida no escuro, 
Presa entre paredes e fotografias, 
Cantada por relógios sem futuro 
E por noites longas, frias e vazias, 
Onde o silêncio aprende a ser murmúrio. 
 
Ela não fala de amantes abraçados, 
Nem de promessas feitas ao luar, 
Mas de caminhos nunca atravessados, 
De mãos suspensas antes de tocar 
E de afetos calados, sepultados. 
 
Há nomes que morreram sem ternura, 
Sem o calor de uma voz a florescer, 
Ficaram como sombras na moldura 
De um coração cansado de esquecer, 
Guardando ausências como quem procura. 
 
A solidão possui música secreta, 
Feita de ecos, vento e despedida, 
Uma melodia lenta e incompleta 
Que atravessa as janelas desta vida 
Como chuva antiga sobre um poeta. 
 
E mesmo sem encontros ou chegada, 
Essa canção insiste em permanecer, 
Pois toda alma que sofreu calada 
Transforma o próprio vazio em viver 
E faz da dor uma estrela iluminada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O poeta sente

 O poeta não escreve, é escrito. 
Uma brisa antiga sopra por sua alma, 
E as palavras nascem como ondas 
Que não pertencem ao mar, 
Mas ao mistério que o move. 
 
As Musas não falam em voz alta. 
Sussurram no instante em que o silêncio se inclina. 
É preciso morrer um pouco de si mesmo 
Para ouvi-las viver dentro do verso. 
 
Homero abriu os olhos e viu o mundo em canto; 
Hesíodo ouviu nas colinas 
A respiração das nove irmãs. 
Desde então, todo poeta 
É apenas um eco do divino desejo de dizer. 
 
A inspiração é um véu que toca o rosto da mente. 
O poeta sente, e não entende. 
As Musas passam, e o poema permanece, 
Como um perfume esquecido no ar. 
 
Ser poeta é lembrar-se do que nunca se viveu. 
As Musas entregam memórias que não são nossas, 
Para que o homem se reconheça 
No espelho da eternidade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Eu me recuso a aceitar

Não podemos continuar fingindo que o céu está limpo 
Enquanto o sol vira o rosto para nossa covardia. 
Há fome escondida atrás dos outdoors luminosos, 
Há crianças aprendendo cedo demais o gosto da ausência, 
Há velhos esquecidos nas calçadas da pressa, 
E nós seguimos contando moedas e curtidas 
Como se isso bastasse para salvar o mundo. 

Eu me recuso a aceitar essa anestesia coletiva. 
Quero rasgar o silêncio confortável das salas fechadas, 
Quero devolver nomes aos que viraram estatística, 
Acender consciência onde só existe indiferença, 
Porque toda cidade que abandona os seus frágeis 
Apodrece lentamente por dentro, 
Mesmo quando suas luzes continuam brilhando. 

Ainda há tempo de interromper a queda. 
O sol talvez volte a olhar para nós 
Se aprendermos a repartir o pão e a escuta, 
Se trocarmos o egoísmo por presença verdadeira, 
Se entendermos que ninguém se salva sozinho. 
Toda mudança começa quando alguém decide 
Não ser mais cúmplice da própria omissão. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A vontade de tocar o intocável

Toda vez que te vejo, 
Eu me perco dentro de mim. 
Há um fogo que nasce no peito, 
Silencioso, mas incontrolável, 
Como se minha alma inteira ardesse 
Só para confessar o quanto te deseja. 
 
Não é apenas atração, 
É um chamado que me arranca do mundo, 
Que me deixa febril diante da sua presença. 
Eu tento disfarçar, 
Sorrir sem revelar, 
Mas dentro de mim há um tumulto de chamas 
Implorando por você. 
 
Queria que soubesse 
Quando seu olhar cruza o meu, 
Meu corpo inteiro se acende, 
Minhas mãos tremem 
Com a vontade de tocar o intocável. 
É como se a vida fosse breve demais 
Para guardar tanto fogo em silêncio. 
 
Não sei se um dia terei coragem 
De dizer isso diante dos seus olhos, 
Mas aqui, nestas palavras escondidas, 
Posso confessar. 
Você é a chama que me consome 
E, ao mesmo tempo, 
A única razão de eu ainda querer arder. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Eu poderia ser outra pessoa

Eu poderia ser outra pessoa, 
Com outro nome, outro olhar, 
Ter passos que não são os meus 
E um jeito estranho de amar. 
 
Eu poderia ser diferente, 
Menos medo, mais razão, 
Falar sem tanto receio 
E não calar o coração. 
 
Eu poderia ter escolhido 
Outros rumos para seguir, 
Mas sou feito de escolhas 
Que nem sempre pude decidir. 
 
Eu poderia, quem sabe, 
Ser alguém que não sou, 
Mas então perderia 
O que em mim já restou. 
 
E se eu fosse outra pessoa, 
Seria mais feliz ou menos real? 
Prefiro ser quem sou agora, 
Mesmo sem saber se sou ideal. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 10 de maio de 2026

Não quero ser escravo das mentiras

Eu vejo pessoas dançando ao som das próprias correntes, 
Orgulhosas da mentira que lhes cobre os olhos cansados. 
Andam pelas ruas como folhas mortas no vendaval do mundo, 
Sem raízes, sem memória, sem coragem de permanecer. 
Falam alto para esconder o vazio que carregam no peito, 
E chamam de liberdade a prisão construída pelo medo. 
Às vezes sinto que sou estrangeiro entre esses rostos sem verdade. 

Eu já ouvi o riso daqueles que zombam da lucidez, 
Como se pensar fosse um pecado imperdoável nestes tempos. 
Preferem a fumaça confortável das ilusões repetidas 
Ao peso difícil e solitário de enxergar além das máscaras. 
Vejo-os venderem a alma por aplausos passageiros, 
Ajoelhados diante do vento que muda conforme a conveniência, 
Enquanto eu recolho no silêncio os restos da dignidade perdida. 

Eu caminho contra a corrente dessas sombras satisfeitas, 
Mesmo sabendo que a verdade também fere quem a abraça. 
Carrego nos olhos o cansaço de quem ainda procura sentido 
Num mundo que celebra o ruído e crucifica a consciência. 
Mas não quero ser escravo das mentiras que anestesiam a alma, 
Nem deixar que o vento decida o rumo dos meus passos. 
Prefiro a solidão da verdade ao conforto podre da cegueira. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nesta noite fria

Nesta noite fria, escuto o vento 
Arranhando devagar minha janela, 
Como se trouxesse tua voz cansada 
Das distâncias que o tempo construiu. 
E eu permaneço aqui, acordado. 

Acendo lembranças como quem acende 
Uma vela pequena contra o inverno. 
Teu nome ainda aquece meus silêncios, 
Mesmo perdido entre anos e ausências. 
Há amores que nunca vão embora. 

Às vezes fecho os olhos e imagino 
Teus passos vindo pela rua vazia, 
O casaco escuro, o olhar tranquilo, 
E minhas mãos procurando as tuas 
Como quem procura abrigo na neve. 

Minha imaginação voa sem descanso, 
Feito pássaro ferido no inverno. 
Ela atravessa noites e estações, 
Retorna aos lugares onde fomos felizes 
E pousa cansada dentro do meu peito. 

Quando a madrugada se torna mais fria, 
Eu converso baixinho com tua lembrança. 
Não peço retorno, nem milagres. 
Só deixo meu coração te visitar 
Antes que o amanhecer me esqueça. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 9 de maio de 2026

Os pequenos vultos

Nas esquinas da cidade deixei pedaços meus, 
Rostos que fui sem jamais permanecer. 
Os semáforos piscavam como dúvidas eternas, 
E cada avenida parecia fugir de si mesma. 
Há uma solidão que nasce do excesso de vozes, 
Um silêncio escondido dentro do concreto, 
Como se viver fosse apenas atravessar neblinas. 

Os prédios observam tudo com olhos de vidro, 
Guardando destinos que nunca se encontram. 
Homens caminham apressados para lugar nenhum, 
Carregando relógios cheios de ausências. 
A madrugada recolhe os sonhos abandonados 
Junto aos jornais molhados pela chuva fina, 
E os devolve ao vento como memórias sem dono. 

Às vezes penso que a cidade também sofre, 
Presa em suas ruas longas e intermináveis. 
Talvez ela conheça o peso de existir sem descanso, 
Esse cansaço antigo de continuar pulsando. 
E nós, pequenos vultos sob luzes artificiais, 
Seguimos procurando sentido nas esquinas, 
Como quem procura a si mesmo no fim da noite. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Se atravesso as noites sozinho

Nas noites longas, os pensamentos vagam, 
Como pássaros perdidos sem direção. 
A lua observa meus passos cansados, 
Enquanto o silêncio invade o coração 
E tua ausência pesa sobre minhas mãos. 

Há um frio escondido na madrugada, 
Um vazio que não aprende a partir. 
As estrelas parecem tão distantes, 
Como os sonhos que deixei de seguir 
Desde o dia em que vi você partir. 

Procuro sentido nas ruas desertas, 
Nos relógios que insistem em correr. 
Mas a vida se torna tão confusa 
Quando tudo me leva a compreender 
Que viver sem você é sobreviver. 

Às vezes penso que amar é castigo, 
Uma chama que arde sem descansar. 
Outras vezes, vejo na saudade 
A última esperança de encontrar 
Um motivo para continuar. 

Então atravesso as noites sozinho, 
Carregando lembranças no olhar. 
Talvez exista um sentido escondido 
Nesse amor que se recusa a acabar, 
Mesmo tão longe do teu respirar. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Cada vez que vejo você

 O desejo que queima em mim 
Não é chama branda, 
É incêndio noturno, 
Fagulha que se arrasta como serpente de fogo 
Pelas entranhas da minha sombra. 
 
Cada vez que vejo você, 
O ar rarefeito se envenena, 
Meu corpo se torna cárcere em chamas, 
E a carne grita silenciosa 
Pela perdição de um toque. 
 
É febre que não recua, 
É maldição que arde sem cura, 
Um tormento que se alimenta do próprio vazio. 
 
Você passa, e eu me consumo, 
Sou vela sem fim, 
Sou pira condenada, 
Ardendo por um desejo 
Que nunca se extingue, 
E que talvez só encontre paz 
Na ruína final das cinzas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O perigo das pessoas ruins

Tem pessoas que não chegam para caminhar conosco, 
Mas para testar o peso da nossa alma. 
Sorriem perto demais, 
Aprendem nossos passos, 
E silenciosamente espalham pedras no caminho. 

O perigo das pessoas ruins 
Não está apenas na maldade evidente, 
Mas na intimidade que concedemos a elas. 
Algumas sombras entram em nossa vida 
Disfarçadas de companhia. 

Existem presenças que cansam a esperança, 
Que diminuem sonhos, 
Que transformam confiança em vigilância constante. 
E, sem perceber, começamos a tropeçar 
Em obstáculos que não estavam ali antes. 

Nem todo inimigo levanta a voz. 
Há quem destrua devagar, 
Com inveja escondida, 
Com palavras sutis, 
Com o prazer secreto de ver alguém parar. 

A sabedoria também consiste em escolher distâncias. 
Nem todos merecem conhecer nossos planos, 
Nossas fragilidades 
Ou os caminhos que desejamos seguir. 
Há portas que precisam permanecer fechadas. 

Porque a alma, quando cercada de veneno, 
Aprende a adoecer em silêncio. 
E há caminhos que só florescem 
Quando certas presenças 
Ficam para trás. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense