quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O sonho que não se cumpriu

 O sonho que não se cumpriu 
É uma casa erguida no vazio. 
Tem janelas abertas, 
Mas nenhum olhar as atravessa. 
As portas rangem em silêncio, 
Como se esperassem um passo 
Que jamais se aproxima. 
 
É um lugar que existe 
Apenas no intervalo entre a memória e o desejo. 
Paredes de sombra sustentam um teto de silêncio, 
E dentro dele repousa a ausência, 
Como um hóspede fiel. 
 
Não há móveis, não há vozes, 
Não há cheiro de vida. 
Somente a promessa de um lar 
Que nunca se tornou abrigo. 
E, no entanto, ali está: 
Firme, intocado, resistente ao tempo, 
Como se lembrasse que até o que não se cumpre 
Tem a dignidade de sua forma imaginada. 
 
O sonho não realizado não morre, 
Ele persiste como casa vazia no meio do campo, 
Como paisagem que o coração insiste em visitar, 
Mesmo sabendo que ali não encontrará ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Porque já foi feito

 Não, Deus não está salvando o mundo agora. 
Não porque desistiu. 
Mas porque já salvou. 
No silêncio da cruz, na escuridão de um madeiro, 
A luz venceu. 
E o grito final
Está consumado!
Ecoa até hoje 
Em cada canto do coração humano. 
 
Esperamos que Deus se mova, 
Mas talvez Ele espere que nós nos movamos. 
Esperamos que Ele impeça as guerras, 
Mas esquecemos que Ele já nos deu o caminho da paz. 
Esperamos milagres visíveis, 
Mas ignoramos os pequenos milagres 
Que nascem toda vez que alguém ama, 
Perdoa ou recomeça. 
 
Deus não está ausente. 
Está no meio da sala, 
Na ferida que cura, no perdão que liberta, 
Na decisão de agir apesar do medo. 
 
A salvação não é promessa futura, 
É realidade presente. 
É uma porta aberta, não uma jaula trancada. 
É um "sim" que ecoa eternamente, 
Aguardando o nosso próprio "sim". 
 
Não precisamos convencer Deus a nos amar. 
Já somos amados. 
Não precisamos esperar que Ele aja. 
Ele já agiu. 
Agora, somos nós. 
Agora, é a nossa vez de viver como quem crê. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Onde os anjos temem caminhar

 Existem caminhos que pedem silêncio, 
Portas que exigem oração, 
Abismos cobertos de flores 
Onde o tolo corre sem olhar, 
E o sábio aprende a esperar. 
 
O tolo chama coragem à pressa, 
Confunde fé com precipitação, 
Atira-se ao desconhecido 
Como quem desafia o próprio céu, 
Sem perceber que o abismo também responde. 
 
Mas o prudente contempla a estrada, 
Mede a sombra antes de avançar, 
Escuta a voz que nasce no silêncio 
E prefere os joelhos ao orgulho, 
Quando o perigo se aproxima. 
 
Deus não nos chama a tentar Seus caminhos, 
Nem a saltar para provar que temos fé; 
Há uma sabedoria santa em recuar, 
Há uma graça escondida no silêncio, 
E há vitórias que começam quando paramos. 
 
Senhor, dá-me olhos para discernir, 
Humildade para não correr, 
Coragem para permanecer quando for preciso, 
Sabedoria para reconhecer o precipício, 
E fé para seguir somente onde Tu fores. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não lamento o desejo

 Não lamento o desejo que não se cumpriu, 
Nem a porta que permaneceu fechada; 
Aprendi que nem todo caminho perdido 
É uma derrota contra o destino, 
Às vezes, é o destino poupando meus passos. 
 
Quis o que não veio, e sobrevivi; 
Esperei o que não chegou, e amadureci; 
Pois aquele que domina o próprio querer 
Não se torna escravo daquilo que deseja, 
Nem chama de tragédia aquilo que não possui. 
 
Melhor a ausência que preserva a paz 
Que a presença que alimenta uma ilusão; 
Melhor perder um sonho antes de vivê-lo 
Que ganhar o mundo imaginado 
E perder a serenidade dentro de si. 
 
Não exigirei da vida aquilo que ela nega, 
Nem perguntarei por que fechou seus caminhos; 
Aceitarei o que não posso mudar 
E guardarei minhas forças para aquilo 
Que ainda depende da minha escolha. 
 
Hoje desejo menos e compreendo mais; 
Não porque tenha deixado de sonhar, 
Mas porque aprendi a não sofrer pelo impossível; 
Se vier, receberei com gratidão, 
Se não vier, permanecerei inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Os sonhos que deixei

 Houve um jardim dentro de mim. 
Nele floresciam os sonhos mais belos. 
Eu os regava com esperança. 
Cada amanhecer renovava a expectativa. 
Nada parecia impossível. 
 
Então vieram os dias silenciosos. 
O vento mudou o rumo das estações. 
As flores perderam o perfume. 
A paisagem tornou-se distante. 
Meu coração aprendeu a esperar menos. 
 
Não renunciei por falta de coragem. 
Renunciei porque a vida exigiu maturidade. 
Algumas portas permaneceram fechadas. 
Alguns caminhos não eram meus. 
Aceitei o que não podia mudar. 
 
Ainda recordo aqueles antigos sonhos. 
Eles visitam minha memória sem fazer ruído. 
Não despertam revolta nem arrependimento. 
São páginas de uma história verdadeira. 
Continuam fazendo parte de quem sou. 
 
Hoje caminho com as mãos livres. 
Levo comigo apenas o essencial. 
A esperança já não depende das antigas promessas. 
Ela nasce da força de recomeçar. 
E segue comigo para onde a vida me levar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Braços invisíveis

 Às vezes contemplo o horizonte 
Como quem procura o próprio nome no vazio. 
Há uma distância entre o que vejo 
E aquilo que imagino existir, 
E nela construo minha morada provisória. 
 
O futuro estende seus braços invisíveis, 
Mas não revela o que guarda em suas mãos. 
Caminho em sua direção mesmo assim, 
Sabendo que cada resposta encontrada 
Gera uma pergunta ainda mais profunda. 
 
Talvez existam dimensões além da matéria, 
Ou talvez apenas inventemos abismos para atravessar. 
O universo permanece em silêncio, 
Enquanto nós, frágeis viajantes, 
Preenchemos a escuridão com significado. 
 
Um único olhar alcança muito longe, 
Mas nunca consegue alcançar a si mesmo por inteiro. 
Há sempre um território desconhecido 
Entre quem observa o mundo 
E quem tenta compreender sua existência. 
 
No fim, o horizonte não é um lugar. 
É a consciência de que jamais chegaremos ao fim da busca. 
Ainda assim seguimos adiante, 
Não porque conhecemos o caminho, 
Mas porque caminhar é a nossa forma de existir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A luta diária contra a ignorância

Caminho contra vozes que celebram a cegueira, 
Como quem atravessa um mercado de espelhos rachados. 
Carrego perguntas onde exigem certezas, 
E por isso me olham como um corpo estranho 
Entre os devotos do conforto fácil. 
 
Muitas vezes a ignorância veste armaduras douradas, 
Fala alto diante das multidões fatigadas 
E transforma medo em verdade absoluta. 
Eu sigo em silêncio, reunindo fragmentos de lucidez 
Como quem recolhe brasas antes do inverno. 
 
Há noites em que quase cedo ao cansaço, 
Porque pensar também sangra por dentro. 
A razão nem sempre consola, 
E enxergar demais pode ser uma forma de exílio 
Num mundo apaixonado pela superfície. 
 
Ainda assim continuo atravessando a névoa, 
Recusando os profetas de desejos vazios. 
Não quero promessas feitas para adormecer consciências, 
Nem paraísos erguidos sobre mentiras repetidas. 
Prefiro a dúvida honesta ao delírio confortável. 
 
Pode ser que minha luta nunca termine completamente, 
Mas há dignidade em resistir ao escuro. 
Mesmo sozinho diante do rumor das multidões, 
Continuo protegendo essa pequena chama interior 
Que insiste em não se ajoelhar diante da ignorância. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Contra a corrente

 Não sigo o rio quando ele escolhe por mim. 
Prefiro o rumor das águas desafiadas, 
O horizonte que ninguém ainda alcançou, 
A incerteza que desperta a esperança, 
E o vento que convida à descoberta. 
 
Remar exige mais que força. 
Exige coragem para enfrentar o silêncio, 
Quando todos apontam outra direção, 
E confiança para acreditar 
Que o impossível também pode ter um porto. 
 
Cada onda tenta convencer-me a voltar. 
Cada pedra anuncia um fracasso. 
Mas a perseverança conhece 
Segredos que a pressa jamais aprende: 
Os grandes destinos nascem da constância. 
 
Levo comigo a paixão como bússola. 
Ela ilumina as noites mais escuras, 
Transforma o cansaço em motivo, 
O sacrifício em caminho, 
E o sonho em horizonte permanente. 
 
Quando enfim alcançar a outra margem, 
Não será a vitória que importará. 
Importará saber que vivi sem me render, 
Que enfrentei a corrente com dignidade 
E fiz da minha travessia um testemunho de liberdade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Lâmina fria

 Há um amor que não morre, apenas se esconde, 
Como lâmina fria guardada no silêncio. 
Ele não grita, não sangra de imediato, 
Mas atravessa o peito com paciência cruel, 
E se alimenta do que ainda sinto por você. 
 
Carrego teu nome como quem carrega um peso, 
Invisível aos olhos, insuportável à alma. 
Nos cantos da noite, ele volta a me chamar, 
Não como esperança, mas como ausência viva, 
Um eco que nunca aprende a se calar. 
 
Teu toque ainda existe onde não estás mais, 
Um fantasma quente sobre a pele da memória. 
E eu, refém desse gesto que não se repete, 
Aprendo a conviver com o impossível, 
Como quem respira dentro de um adeus. 
 
Há dias em que a dor se veste de ternura, 
E me engana com lembranças suaves demais. 
Quase acredito que ainda há um nós escondido, 
Mas é só o amor brincando de permanência, 
Num corpo onde já não habita verdade. 
 
Caminho entre o que foi e o que não volta, 
Aprisionado na delicadeza da perda. 
Porque amar, às vezes, é não ter saída, 
É viver na fronteira entre o sonho e o fim, 
Onde o coração insiste em não se libertar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 9 de agosto de 2026

Você prometeu voltar

 Você prometeu voltar 
E permanecer ao meu lado. 
Acreditei na simplicidade dessas palavras 
Como quem confia no amanhecer 
Sem imaginar que a espera seria tão longa. 
 
Os dias continuaram passando, 
E eu aprendi a reconhecer o silêncio. 
Cada lembrança ocupou o lugar da sua voz, 
E a saudade fez da memória 
A sua morada permanente. 
 
Às vezes me pergunto onde você está. 
Se ainda se lembra do que vivemos 
Ou se o tempo apagou aquilo 
Que para mim continua tão vivo 
Quanto no último instante em que nos vimos. 
 
Não espero mais explicações. 
A vida segue escrevendo capítulos 
Que nem sempre escolhemos viver. 
Algumas promessas ficam pelo caminho, 
Como folhas levadas pelo vento. 
 
Ainda existe um espaço dentro de mim 
Onde sua promessa permanece intacta. 
Não porque eu espere sua volta, 
Mas porque certos sentimentos 
Nunca aprendem completamente a partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 8 de agosto de 2026

Mil poemas de amor

 Mil poemas escreveria 
Tentando definir o amor, 
E mais dez mil poderia desenvolver 
Se ainda tivesse vigor. 
 
Escreveria sobre o silêncio 
Que diz mais que qualquer palavra, 
Sobre o olhar que encontra outro olhar 
E, sem perceber, o coração destrava. 
 
Escreveria sobre a saudade, 
Essa presença que dói na ausência, 
Sobre a lembrança que permanece 
Quando o tempo apaga a aparência. 
 
Escreveria sobre o abraço 
Que transforma distância em abrigo, 
Sobre duas almas que, por um instante, 
Fazem do mundo um lugar mais antigo. 
 
Escreveria sobre o medo 
De amar e não ser correspondido, 
Sobre a coragem de permanecer 
Mesmo quando o amor parece perdido. 
 
E depois de tantos poemas, 
De tantas metáforas e versos, 
Talvez eu finalmente compreendesse 
Que o amor não cabe em nenhum universo. 
 
Porque o amor não se explica: 
Acontece, invade e permanece. 
É palavra que nunca termina, 
É pergunta que nunca envelhece. 
 
Por isso, mil poemas escreveria 
E outros tantos escreveria depois; 
Pois quanto mais tento definir o amor, 
Mais descubro que ele começa em nós dois. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Meu coração distraído

Quando penso em você, o tempo desacelera, 
Como se cada segundo aprendesse a respirar. 
Meu olhar se perde em horizontes invisíveis, 
E meu coração, distraído de si mesmo, 
Esquece o caminho de volta. 
 
Pergunto a mim mesmo por que penso tanto, 
Mas nenhuma resposta é suficiente. 
Talvez porque existam presenças 
Que permanecem mesmo quando estão distantes, 
Como a luz que insiste depois do pôr do sol. 
 
Meu coração já não me pertence direito. 
Entregou-se em silêncio, 
Sem contratos, promessas ou testemunhas, 
Apenas levado pela delicadeza 
De um sentimento que não soube resistir. 
 
Agora ele bate em outro compasso, 
Aprendeu um idioma que só pronuncia seu nome, 
E faz de cada lembrança 
Um jardim onde florescem esperanças 
Que nem o vento consegue desfazer. 
 
Se um dia me perguntarem quem o levou, 
Responderei com a serenidade dos apaixonados. 
Não foi o destino, nem o acaso, 
Foi apenas você, 
Quando entrou em meus pensamentos e ficou. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Elogio moderno à ignorância

 Na praça dos gritos, coroaram o vazio, 
Deram medalhas ao palpite apressado; 
O livro virou suspeito, quase um desvio, 
E o sábio foi chamado de complicado. 
Quem pensa demais, dizem, perdeu o juízo; 
Melhor repetir o refrão mais conveniente. 
A multidão aplaude o eco e despreza o sentido. 
 
Os mercadores de certezas montam seus palanques, 
Vendem respostas antes mesmo das perguntas; 
Distribuem sombras embrulhadas como diamantes 
E colecionam seguidores, almas e escutas. 
A verdade, cansada, espera na esquina, 
Enquanto a mentira desfila vestida de rainha, 
Recebendo flores daqueles que ajuda a enganar. 
 
E assim segue a festa da santa superficialidade, 
Onde a dúvida é pecado e a reflexão, afronta; 
Celebra-se a preguiça travestida de sinceridade, 
E a ignorância, vaidosa, sobe ao palco e aponta. 
Mas o tempo, velho juiz de fala contida, 
Cobra caro por cada mentira convertida em vida: 
Nenhuma civilização sobrevive muito tempo 
Zombando da própria razão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O desejo é um ensaio silencioso

O desejo começa sempre no pensamento. 
Antes da pele, há a hipótese. 
Antes do toque, há o mapa. 
O poeta olha, e ao olhar, inventa. 
Projeta no outro possibilidades de intimidade, 
Como se cada gesto contido fosse promessa. 

Nada acontece, mas tudo acontece. 
Porque o corpo imagina com precisão: 
A curva do ombro, 
O calor escondido na nuca, 
O contorno que a roupa esconde 
De propósito. 

O desejo é um ensaio silencioso: 
A mente reencena o encontro, 
Aproxima o rosto, 
Prolonga a respiração, 
Permite que a pele sinta sem sentir. 

Às vezes basta imaginar a voz, 
O timbre sussurrado, 
Para que o corpo responda 
Em segredo. 

No fundo, a fantasia não é ilusão, 
É uma pergunta: 
“O que aconteceria 
Se o impossível consentisse?” 

O real não responde, 
E por isso o desejo cresce. 
Ele vive do intervalo entre intenção e acontecimento, 
Entre o impulso e a contenção. 

E é nesse intervalo 
Que o poeta descobre 
Que desejar não é possuir, 
É imaginar até que a imaginação trema. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

No silêncio do pensamento

O pensamento não nasce do grito, 
Nem da pressa que atropela os dias. 
Ele desperta onde o silêncio respira, 
Como um rio que corre sem alarde 
Pelos vales ocultos da alma. 
 
É no recolhimento que a mente floresce, 
Despindo-se das máscaras do ruído. 
Cada pausa torna-se um espelho, 
Onde a verdade, antes dispersa, 
Reaprende o próprio nome. 
 
O mundo celebra a velocidade, 
Mas a sabedoria prefere o compasso lento. 
Ela caminha descalça entre as horas, 
Colhendo as sementes invisíveis 
Que o barulho jamais percebe. 
 
Quem aprende a conversar com o silêncio 
Descobre que ele nunca está vazio. 
Há memórias, esperanças e perguntas, 
Há respostas amadurecendo em segredo, 
Como frutos escondidos entre as folhas. 
 
Quando a palavra finalmente surge, 
Já não é apenas som, mas essência. 
Traz consigo a paz do recolhimento, 
A força discreta da contemplação 
E a luz serena de um pensamento profundo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense