sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O olhar escondido

 Há beleza no olhar que se esconde, 
Como a lua atrás das nuvens 
Que não deseja desaparecer, 
Apenas guardar por mais um instante 
A luz que carrega dentro de si. 
 
Teus olhos fogem dos meus, 
Mas deixam no caminho 
Um rastro silencioso de desejo, 
Como se cada desvio 
Fosse uma palavra não pronunciada. 
 
Talvez tenhas medo de que eu descubra 
O que teus lábios insistem em calar, 
Mas os olhos são frágeis guardiões 
E sempre deixam escapar 
Aquilo que o coração tenta esconder. 
 
Eu percebo quando me olhas 
Mesmo quando finges não olhar, 
Porque existe uma ternura diferente 
Naquele breve instante 
Em que teu silêncio encontra o meu. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A solidão não faz barulho

 A madrugada não tem pena de ninguém. 
Ela entra pela janela, abre um livro imaginário 
E ri da minha cara. 
O café esfria antes de mim. 
Os livros fingem que ainda têm alguma resposta, 
O relógio insiste no mesmo truque barato: 
Empurrar minutos sobre um homem 
Que já desistiu de contá-los. 
 
Você foi embora. 
O resto é mobília. 
Há uma cadeira vazia na cozinha, 
E às vezes olho para ela 
Como quem espera 
Um milagre de um pedaço de madeira. 
Milagres são péssimos inquilinos: 
Nunca pagam aluguel, nunca aparecem. 
 
Aprendi que a solidão 
Não faz barulho quando chega. 
Ela apenas ocupa o seu lugar na cama, 
Bebe o último gole da garrafa 
E me convence de que amanhã será igual a hoje. 
 
Mesmo assim, escrevo. 
Não porque a poesia salve alguém, 
Mas porque o papel é o único sujeito 
Que ainda suporta ouvir 
O que nem eu tenho coragem de admitir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O coração é mais sábio

 Talvez o excesso de pensamento 
Seja uma prisão invisível, 
Grades feitas de raciocínios repetidos, 
De cálculos sobre o que poderia ser. 
 
Enquanto isso, o sentir, simples e vasto, 
Passa diante de nós 
Como um rio que não se deixa conter. 
 
Pensamos em como amar, 
Em como sorrir, 
Em como viver, 
Mas o sentir não pede instruções. 
 Ele acontece. 
Ele é. 
 
O coração é mais sábio 
Que a mente cansada de hipóteses, 
Pois não teme se lançar no abismo da experiência. 
 
Talvez devêssemos pensar menos, 
Para que a vida 
Não escorresse por entre dedos analíticos. 
Sentir mais é a única forma de existir inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O eco do que vivemos

 Tem instantes contigo que não se deixam nomear, 
Como se o tempo se recusasse a seguir adiante, 
E o mundo, por um segundo, desaprendesse a existir. 
Tudo se torna suspenso, leve, quase sagrado, 
E eu, diante disso, desaprendo as palavras. 
O que sinto não cabe em frases nem promessas, 
É maior do que qualquer tentativa de dizer. 
 
Procuro nos dicionários algum eco do que vivemos, 
Mas encontro apenas sombras do que é verdadeiro. 
As palavras são rasas diante do nosso abismo doce, 
E cada definição parece um erro necessário. 
Como traduzir o infinito em letras alinhadas? 
Como prender o indizível em linhas obedientes? 
Não há verbo que suporte o peso do que sinto. 
 
Escolho o silêncio como linguagem mais pura, 
Não por falta, mas por excesso de verdade. 
Prefiro calar a mentir em versos frágeis, 
Prefiro sentir a reduzir ao dizível. 
Se me perguntarem, nada saberei explicar, 
Mas no olhar haverá tudo o que importa, 
Porque o essencial não se escreve, apenas se vive. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A poesia que habita a alma

A poesia nasce no silêncio da alma, 
Onde os sentimentos aprendem a florescer, 
É brisa suave que devolve a calma, 
É luz que nos ensina novamente a ver, 
A beleza escondida nas pequenas coisas, 
E a doce eternidade de um simples viver. 
 
Há poesia no olhar de quem ama, 
Na saudade que insiste em permanecer, 
Na lágrima que o coração derrama, 
E nos sonhos que se recusam a morrer, 
Pois sentir é dar sentido à existência, 
É permitir que a alma possa florescer. 
 
Que seria da vida sem sentimentos, 
Sem o encanto de amar e recordar? 
Seríamos apenas folhas ao vento, 
Sem raízes, sem motivos para sonhar, 
Pois é o coração que dá à vida 
A beleza que as palavras vêm revelar. 
 
Por isso, deixo a poesia em meu caminho, 
Como quem semeia flores pelo chão, 
Para que ninguém caminhe tão sozinho, 
Sem encontrar abrigo na emoção, 
Pois enquanto houver sentimento na alma, 
Haverá poesia pulsando no coração. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Quietude

 Existe uma alegria que não pede testemunhas. 
Ela cresce como a luz da manhã 
Que toca a janela sem exigir aplausos. 
Quem a acolhe descobre que o coração 
Floresce primeiro no invisível. 
 
Não temas a simplicidade. 
As árvores jamais se envergonham de seus frutos, 
Nem os rios da humildade de seu caminho. 
Somente o homem, seduzido pelos espelhos, 
Esquece a voz silenciosa da própria alma. 
 
As aparências são folhas levadas pelo vento. 
Hoje brilham, amanhã desaparecem. 
Mas aquilo que amadurece no íntimo 
Permanece como uma estrela 
Que ninguém vê durante o dia, 
Embora jamais deixe de iluminar o céu. 
 
Se precisas escolher entre o brilho e a verdade, 
Fica com a verdade. 
Ela talvez caminhe descalça, 
Talvez conheça a solidão, 
Mas reconhecerá teu nome 
Quando todas as máscaras tiverem caído. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O estranho que sou

 Acordei dentro de uma vida conhecida 
Mas alguma coisa já não estava lá 
Talvez o homem que fui tenha partido 
Enquanto eu contava os dias 
E chamava de existência o meu hábito. 
 
Procuro em mim uma origem 
Um ponto anterior a todas as perdas 
Mas encontro corredores sem portas 
Memórias que não sabem meu nome 
E silêncios ocupando antigos lugares. 
 
Não sei quando me tornei este outro 
Que observa o mundo com distância 
Talvez mudar seja uma morte lenta 
Da qual ninguém escreve o luto 
Porque o morto continua caminhando. 
 
Carrego meu rosto como uma pergunta 
E meu nome parece uma coincidência 
Existir tornou-se esse estranho exercício 
De permanecer onde tudo desaparece 
Inclusive aquilo que penso ser. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Noites escuras

 Nas noites escuras procurei por você, 
Mas encontrei o silêncio diante de mim. 
Compreendi que nem tudo pertence ao meu querer, 
E que a dor também é mestra do caminho. 
Não governa o sábio aquilo que perdeu, 
Mas a maneira como enfrenta a ausência. 
Foi então que comecei a encontrar a mim mesmo. 
 
A lua não prometeu encurtar a noite, 
Nem as estrelas desfizeram minha saudade. 
Ainda assim, o universo seguiu sua ordem, 
Indiferente aos lamentos do coração. 
Aprendi a aceitar o que não posso mudar 
E a fortalecer aquilo que depende de mim: 
Minha razão, minha coragem e minha paz. 
 
Se um dia você voltar, serei grato. 
Se nunca voltar, também seguirei em frente. 
A felicidade não mora na posse, mas na virtude. 
Quem domina a si mesmo jamais caminha sozinho. 
As noites continuarão escuras para muitos, 
Mas aquele que acende a própria consciência 
Leva consigo um amanhecer que ninguém pode apagar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Ainda me lembro de você

 Ainda me lembro de você 
Quando a noite se recolhe em silêncio 
E o pensamento, sem pedir licença, 
Refaz os caminhos do passado, 
Como quem procura entre as sombras 
Um instante que o tempo não levou. 
 
Ainda me lembro de você 
Nas pequenas coisas do cotidiano, 
Numa música, num perfume, numa palavra, 
Num lugar onde o vento parece 
Sussurrar histórias que ficaram 
Guardadas entre o ontem e o agora. 
 
Ainda me lembro de você 
Não porque queira prender o passado, 
Nem porque espere que você volte, 
Mas porque houve verdade entre nós, 
E algumas verdades permanecem 
Mesmo depois que tudo muda. 
 
Ainda me lembro de você 
Porque certas pessoas não desaparecem, 
Apenas mudam de lugar dentro da gente; 
Deixam de ser presença e tornam-se memória, 
Deixam de ser caminho e tornam-se saudade, 
E continuam vivendo onde o coração se recorda. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Conhecimento e sabedoria

 Conhecer é acender uma luz na escuridão, 
É abrir janelas para o desconhecido, 
É descobrir caminhos onde havia silêncio, 
É perguntar ao mundo o nome das coisas, 
É reunir estrelas na memória, 
Sem ainda saber para onde caminhar. 
 
A sabedoria nasce depois da descoberta, 
Quando o saber encontra a experiência, 
Quando a razão aprende a ouvir o coração, 
Quando compreendemos que nem toda resposta 
Merece ser pronunciada, 
E nem todo caminho precisa ser seguido. 
 
Conhecimento pode encher páginas, 
Sabedoria transforma aquilo que lemos, 
Faz do erro uma lição silenciosa, 
Da dor, uma ponte para compreender, 
Do tempo, um mestre paciente, 
E da humildade, uma forma de grandeza. 
 
Porque saber muito é uma riqueza, 
Mas saber viver é uma arte. 
Pois a maior aprendizagem da existência 
É descobrir o que realmente importa, 
Usando a luz que conquistamos 
Para não nos perdermos de nós mesmos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Insistir é vão combate

 Voltei ao chão que um dia foi morada, 
Buscando o fogo de um antigo ardor; 
Encontrei só a memória fatigada 
Guardando as cinzas de um distante amor. 
 
O tempo, em seu silêncio, não recua, 
Nem torna viva a flor que já morreu; 
A mesma estrada, agora, não é tua, 
Nem o meu peito é o mesmo que sofreu. 
 
Compreendi que insistir é vão combate, 
Contra a razão que o próprio tempo ensina; 
Nenhum desejo vence o que se abate. 
 
E sendo assim, deixei o ontem na colina, 
Pois quem abraça a paz jamais debate 
Com a saudade que o passado domina. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Vencer nem sempre basta

 Não nasce a luz no brilho da aparência, 
Mas no silêncio antigo da razão; 
O tempo vai lapidando a consciência 
Como o rio esculpe a pedra com a mão. 
 
Quem busca apenas glória ou recompensa 
Encontra o pó das ilusões no chão; 
A alma se fortalece na presença 
Da dor que educa o frágil coração. 
 
Aprendi que vencer nem sempre basta, 
Que a paz não mora onde o orgulho impera, 
Nem o destino cede ao nosso intento. 
 
Feliz aquele que de si se afasta 
Para encontrar, na verdade que o espera, 
A eternidade oculta no momento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O banal também será história

 Olho para a xícara esquecida sobre a mesa, 
Para o relógio que insiste em devorar as horas, 
Para a fotografia guardada numa gaveta, 
E encontro, nas coisas simples, 
Os vestígios silenciosos de quem somos. 
O presente passa sem anunciar sua partida, 
Enquanto o cotidiano escreve a própria história. 
 
A música que toca hoje nas esquinas, 
As palavras perdidas nas conversas de amigos, 
O celular que ilumina os rostos à noite, 
Tudo parece comum aos nossos olhos, 
Mas o tempo recolhe cada pequeno detalhe. 
Amanhã, alguém procurará nesses sinais 
A maneira como vivemos e sonhamos. 
 
Por isso, contemplo o agora com outros olhos, 
Como quem visita um museu ainda em construção, 
Onde cada gesto guarda um pouco de eternidade. 
Pode ser que sejamos lembrados por coisas tão pequenas 
Que hoje nem sequer merecem nossa atenção. 
Pois a história não nasce apenas dos grandes feitos, 
Também nasce da vida que passa despercebida. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 18 de outubro de 2026

Domesticar o caos

 Tudo o que se espera já pertence ao abismo. 
O tempo não concede, apenas adia. 
E enquanto adia, nos obriga a inventar sentido 
Para que o vazio não nos engula vivos. 
O poeta descobre cedo demais 
Que imaginar não é luxo, é defesa. 
Pois o real é sempre insuficiente 
Para quem percebe demais. 
 
Há um momento em que o olhar pensa, 
E ao pensar, se condena. 
Porque ver é assumir o peso da existência, 
E pensar o que se vê é tocar o limite do ser. 
Na espera, o desejo se torna pergunta: 
“Por que algo ao invés de nada?” 
E cada resposta nasce falha, 
Como se o pensamento soubesse 
Que não há justificativa para existir, 
Apenas hábito. 
 
O limite da imaginação não é o impossível, 
Mas a consciência. 
Pois a consciência quer forma, 
Enquanto o mundo é fluxo. 
Tudo o que se sonha 
É uma tentativa de domesticar o caos. 
E tudo o que se teme 
É uma tentativa de não ter de habitá-lo. 
 
Esperar é ser lançado ao tempo; 
Imaginar, ao contrário, 
É tentar roubá-lo. 
O poeta reconhece, no fim, 
Que não há triunfo em criar abismos, 
Apenas o direito de não ser devorado por eles. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Apocalipse digital

 Um dia, o mundo inteiro piscará ao mesmo tempo. 
Milhões de olhos de vidro se apagarão, 
E o último ruído do tempo será um estalo elétrico. 
Então, o futuro morrerá de sede 
Dentro dos próprios cabos. 
 
Os eletrônicos não envelhecem, 
Apodrecem em silêncio. 
Dez anos bastam para que esqueçam 
Porque nasceram. 
As telas, órfãs de energia, 
Serão espelhos sem rosto. 
E no meio das ruínas digitais, 
Alguém ainda folheará um livro 
Como quem acende uma fogueira com as mãos. 
 
As páginas resistirão ao colapso da luz. 
Enquanto os servidores desabam como torres de areia, 
Os livros, feridos, mas de pé, 
Continuarão sussurrando 
As palavras de um mundo que já foi. 
 
O papel não teme o fim. 
Ele o conhece desde o início, 
É feito de árvores mortas e lembranças vivas. 
Cada letra é uma cicatriz do tempo, 
Cada capítulo, uma profecia que sobreviveu ao fogo. 
 
Quando o último código for indecifrável, 
E o último circuito, cinza, 
Restará o murmúrio de um poema 
Guardado entre capas gastas, 
Falando de eras que duravam séculos, 
Não segundos. 
E nesse silêncio pós elétrico, 
O livro reinará outra vez, 
Como um deus esquecido 
Que nunca precisou de bateria. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense