quinta-feira, 7 de maio de 2026

Mundos invisíveis

Existem coisas acontecendo além da minha janela, 
Mares que se revoltam sem que eu os veja, 
Rostos desconhecidos chorando em silêncio, 
Cidades acesas na distância da noite, 
E um mundo inteiro respirando longe de mim. 
 
Enquanto caminho entre ruas familiares, 
Outros caminhos se abrem no invisível, 
Alguém nasce sob um céu tempestuoso, 
Alguém perde a esperança lentamente, 
E eu sequer conheço seus nomes. 
 
Às vezes penso se a vida termina 
Naquilo que meus olhos podem alcançar, 
Mas há estrelas ocultas pelas nuvens 
Continuando a arder no escuro eterno, 
Como verdades escondidas do coração humano. 
 
Quem sabe existir seja justamente isso. 
Sentir o peso do que não compreendemos, 
Pressentir universos atrás do silêncio, 
Buscar sentido no desconhecido infinito 
E continuar caminhando mesmo sem respostas. 
 
Porque a vida é maior do que as paredes, 
Maior que os dias comuns e repetidos, 
Há um mistério pulsando além da matéria, 
Um rumor distante chamando nossa alma 
Para enxergar além daquilo que vemos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Caminhando sobre o abismo

Caminho sobre pontes feitas de silêncio, 
Entre homens que abraçam e homens que ferem, 
O mundo dividido em lâminas e flores, 
Uns acendem estrelas nas noites dos outros, 
Outros transformam jardins em ruínas frias. 
 
Há mãos que repartem o pouco que possuem, 
Como velas acesas contra a tempestade, 
Olhares mansos que ainda reconhecem a dor, 
Corações que se recusam a virar pedra, 
Mesmo ouvindo o grito cruel do mundo. 
 
Mas também existem os senhores da sombra, 
Que bebem do medo e da miséria humana, 
Erguem tronos sobre ossos esquecidos, 
E confundem poder com eternidade, 
Enquanto espalham cinzas pelos caminhos. 
 
E nós seguimos entre extremos invisíveis, 
Carregando esperança como chama frágil, 
Tentando salvar o que ainda é humano, 
Sobre o abismo aberto da própria existência, 
Sem deixar a alma cair no vazio. 
 
Quem sabe viver seja uma escolha diária. 
Não permitir que a crueldade nos domine, 
Guardar compaixão em meio às guerras, 
E permanecer inteiro entre os destroços, 
Como quem protege luz no coração da noite. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sangrar em segredos

O escritor carrega um mundo nos olhos, 
Mas ninguém vê o peso que ele sustenta, 
Sorri enquanto a alma se rasga, 
Pois sente demais o que é de todos, 
E sofre em silêncio o que não lhe pertence. 
 
Há dores que não são suas, mas ardem, 
Como feridas abertas no tempo alheio, 
Crianças chorando em ruas distantes, 
Injustiças sussurradas na noite, 
E tudo encontra morada em seu peito. 
 
Ele escreve para não sucumbir, 
Cada palavra é um grito contido, 
Cada verso, um pedido de respiro, 
Pois o mundo invade sua carne, 
E não há portas que o protejam. 
 
Ser escritor é sangrar em segredo, 
É sentir o invisível do sofrimento, 
É traduzir a dor que não tem voz, 
E oferecer ao papel a própria alma, 
Como quem tenta salvar o indizível. 
 
Mesmo assim ele permanece, 
Teimoso diante do caos humano, 
Pois acredita, mesmo ferido, 
Que dar forma à dor do mundo,
É um modo de não deixá-la vencer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O silêncio depois do encantamento

Depois do teu sorriso, 
Tudo ficou quieto demais. 
Como se o mundo tivesse esquecido 
O som de existir. 
 
As sombras voltaram, 
Mas vieram mansas, 
Carregando o perfume 
Do que já não volta. 
 
Ainda há luz 
No lugar onde teus lábios passaram, 
Uma cicatriz que brilha 
Quando fecho os olhos. 
 
Descobri que o amor 
Não termina com o toque, 
Ele persiste nas frestas, 
Nas pausas, 
No quase. 
 
E se o teu feitiço me deixou vazio, 
Foi um vazio santo, 
Feito de calma e vertigem, 
Onde aprendi que há beleza 
Também em se perder. 
 
Agora, o silêncio é meu abrigo. 
E nele ainda ouço, 
Muito ao longe, 
O eco do teu sorriso 
Me desarmando outra vez. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 5 de maio de 2026

O longo tempo da escravidão

No ventre escuro da terra roubada, 
Ecoam passos que o tempo não calou, 
Grilhões ainda rangem na madrugada, 
Como um lamento que nunca cessou, 
Memória ferida que o vento guardou. 
 
Braços que ergueram um país inteiro, 
Sem nunca provar o gosto do pão, 
Foram raízes de um chão brasileiro, 
Regadas à dor, à força e à opressão, 
Durante o longo tempo da escravidão. 
 
Libertos no papel, mas não na vida, 
Caminharam sem rumo, sem direção, 
A liberdade chegou tardia e ferida, 
Sem terra, sem voz, sem reparação, 
Como um grito preso na imensidão. 
 
Hoje o passado respira no agora, 
Nos rostos marcados pela exclusão, 
Mas há uma chama que insiste e aflora, 
Na luta, na arte, na poesia de reconstrução, 
Um futuro que nasce da resistência em ação. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Sabedoria

A sabedoria não grita, ela sussurra. 
Está nas frestas do silêncio, 
Nos intervalos entre uma certeza e outra. 
Quem a busca precisa desaprender o ruído do mundo, 
Pois a ignorância não é ausência de saber, 
Mas o excesso de convicções vazias. 
 
Há um perigo sutil em viver sem questionar: 
A alma endurece, o olhar empobrece, 
O pensamento passa a repetir, como eco cansado, 
As vozes de outros que também nunca ousaram ver. 
 
Buscar sabedoria é um ato de resistência. 
É remar contra a corrente das opiniões prontas, 
É desconfiar do fácil, do imediato, do confortável. 
É aceitar a inquietação como companhia 
E a dúvida como ferramenta. 
 
Porque o mundo, muitas vezes, 
Seduz pela superficialidade, 
Oferece respostas rápidas para perguntas profundas, 
E transforma a ignorância em abrigo coletivo. 
Mas quem deseja não ser tragado 
Precisa aprender a caminhar só, 
Ou melhor, a caminhar consigo. 
 
A sabedoria, no fim, não é um destino. 
É um estado de vigília permanente, 
Um modo de estar no mundo sem ser consumido por ele. 
É enxergar além da aparência das coisas 
E, ainda assim, manter a humildade de quem sabe 
Que há sempre mais a compreender. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Caminho em tua direção

 Te vejo, e o ar se torna denso, 
Como se o mundo prendesse a respiração. 
Há um incêndio manso no meu peito, 
Um querer que cresce em silêncio, 
E explode no instante do teu olhar. 
 
Teus olhos carregam um desvio, 
Uma loucura doce, quase febril, 
Que me chama sem dizer palavra, 
Que me puxa para dentro de um mistério 
Onde razão alguma sobrevive. 
 
Caminho em tua direção como quem cede, 
Não por fraqueza, mas por fascínio. 
Há perigos no brilho que me ofereces, 
E ainda assim, eu me aproximo, 
Como quem deseja se perder. 
 
E se perder em você não é queda, 
É um tipo raro de encontro profundo. 
Porque no caos que mora em teus olhos, 
Descubro algo que me reconhece, 
A mesma loucura que me habita. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Manifesto poético sobre a escrita

A escrita não é mero registro, 
Não é sombra do que já passou, 
É incêndio contido em símbolos, 
É rio subterrâneo que insiste em romper a pedra. 
Escrever é conspirar contra o esquecimento. 
É desafiar a rotina, que nos quer dóceis, 
Presas da repetição diária. 
 
A palavra, quando ousada, abre fissuras: 
Transforma o instante em eternidade, 
O banal em revelação, 
O silêncio em claridade. 
 
Cada letra é um gesto de resistência. 
Cada frase, uma passagem secreta 
Que o olhar distraído não percebe, 
Mas que o espírito inquieto atravessa 
Como quem descobre uma escada escondida 
Na casa em ruínas do tempo. 
 
Escrever é ferir o chão 
Para que dele surjam flores impossíveis. 
É aceitar que dentro de nós habitam vozes 
Que não se calam até encontrarem corpo no papel. 
É invocar fantasmas, deuses, memórias 
E oferecer-lhes abrigo em linhas tortas, 
Sabendo que nunca mais serão apenas nossas. 
 
Eis o manifesto: 
A escrita é ato de insubmissão, 
É o mapa de territórios que não cabem no mundo, 
É o risco de se perder para, enfim, encontrar-se. 
Quem escreve não obedece à rotina, 
Quem escreve fabrica portais 
E atravessa o invisível 
Para deixar rastros de eternidade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 2 de maio de 2026

Um segredo que escolheu existir

Nos teus olhos encontrei um abrigo antigo, 
Como se já os tivesse visto em outra vida, 
Havia neles um silêncio cheio de sentido, 
Uma calma que não se explica, apenas habita, 
E um amor que não precisava dizer seu nome. 
 
E quando teus olhos pousaram sobre mim, 
O mundo perdeu o peso e a pressa, 
As horas se dobraram como folhas ao vento, 
E tudo o que era ruído se tornou ausência, 
Restando apenas o que pulsa e permanece. 
 
Teus olhos eram mais que luz, eram promessa, 
Um horizonte que não se mede em distância, 
Neles havia a ternura dos começos, 
E também a coragem dos que permanecem, 
Mesmo quando o amor pede mais do que temos. 
 
Vi em teu olhar a beleza que não se desfaz, 
Aquela que resiste ao tempo e ao esquecimento, 
Não era brilho passageiro ou encanto frágil, 
Era algo profundo, quase eterno, 
Como um segredo que escolheu existir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Onde vejo poesia

Tem quem caminhe apenas para chegar. 
Mas há quem caminhe para ver. 
E ver, no meu caso, não é apenas olhar. 
É recolher o invisível 
Que escorre pelas margens do mundo. 
 
Eu passo pelas ruas 
Como quem lê um livro que ninguém escreveu, 
E ainda assim entende cada linha. 
O vendedor cansado que sorri por necessidade, 
A janela entreaberta que guarda segredos, 
O silêncio pesado 
Entre duas pessoas que já se disseram tudo. 
 
Vejo poesia nisso, mas não pronta. 
Ela não se oferece. 
Ela se esconde nas frestas do cotidiano, 
Nos gestos mínimos, 
Nos detalhes que a pressa abandona. 
E eu, ao invés de atravessar o mundo, 
Permito que o mundo me atravesse. 
 
Transformar o que acontece em poesia 
É um tipo raro de coragem, 
Porque exige sentir sem anestesia, 
Perceber sem filtro, 
E aceitar que nem tudo que se vê 
Cabe inteiro em palavras. 
Mesmo assim eu tento. 
 
Nesse esforço, algo extraordinário acontece. 
O comum deixa de ser comum. 
O instante ganha eternidade. 
E aquilo que passaria despercebido 
Encontra, enfim, um lugar para existir. 
 
Ser poeta não é só escrever. 
É andar por aí, 
Recolhendo pedaços do mundo, 
E devolvê-los com alma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 30 de abril de 2026

O olhar do escritor

 O olhar do escritor não se distrai, 
Ele repousa onde o mundo não para, 
Colhe o silêncio entre os gestos, 
Escuta o que ninguém escutou, 
E vê nascer sentido no nada. 
 
Na esquina esquecida da tarde, 
Há histórias pedindo abrigo, 
Um riso breve guarda segredos, 
Um adeus carrega universos, 
E tudo pulsa além do visível. 
 
Cada cena é um convite oculto, 
Um sussurro vestido de acaso, 
O banal se veste de mistério, 
Quando tocado por olhos atentos, 
Que leem o invisível do instante. 
 
O escritor não espera o extraordinário, 
Ele o inventa no cotidiano, 
Faz da poeira memória viva, 
Da rotina um campo de descobertas, 
E do instante, eternidade breve. 
 
Ele caminha entre mundos sobrepostos, 
Tecendo sentidos no que passa, 
Transformando o efêmero em palavra, 
E a vida, antes dispersa e muda, 
Em poesia que insiste em ficar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Toda vez que você passa

Só de ver você andar, 
O tempo desacelera sem aviso, 
Como se o mundo prendesse o fôlego 
Para não perder teu movimento, 
Tão leve, tão inevitável. 
 
Teu olhar iluminado me atravessa, 
Feito manhã rompendo a escuridão, 
Há nele uma promessa silenciosa 
De que a vida pode ser mais bela, 
Mesmo nos dias mais comuns. 
 
E o teu sorriso, tão gracioso, 
É um abrigo contra qualquer frio, 
Um gesto simples que desarma o caos, 
Como se a paz tivesse encontrado forma 
No desenho delicado dos teus lábios. 
 
Estou tão apaixonado que me perco, 
Não em dúvida, mas em encantamento, 
Como quem aceita o doce risco 
De viver dentro de um sentimento 
Que cresce além de si. 
 
E se amar é se transformar, 
Então já não sou o mesmo de antes, 
Carrego em mim tua presença viva, 
Como um verso que insiste em nascer, 
Toda vez que você passa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Ato revolucionário

Ler é revolução. 
Não de fuzis ou bandeiras, 
Mas de olhos que se recusam a ser cativos. 
 
Num tempo em que a televisão dita a verdade, 
E as redes sociais constroem prisões douradas, 
Ler é arrancar as correntes invisíveis. 
 
É fazer silêncio onde só há barulho. 
É abrir clareira na floresta de mentiras. 
É plantar perguntas em solo de certezas fabricadas. 
 
Cada página é um ato de insubmissão, 
Cada palavra é pólvora contra a anestesia, 
Cada leitura é um levante do espírito. 
 
Porque o leitor não consome, recria. 
Não engole, mastiga. 
Não repete, pensa. 
 
E enquanto houver quem leia, 
Não terão vencido as máquinas de ilusão. 
Enquanto houver quem leia, 
Haverá olhos que enxergam além das sombras. 
 
Ler é ato revolucionário, 
E o livro, uma arma secreta 
Guardada no coração do humano 
Contra o império da manipulação. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Um eco antigo nas dobras do instante

Perdido nas vertigens do tempo, caminho sem trilha, 
Os ponteiros giram, mas não me alcançam. 
Há um eco antigo nas dobras do instante, 
Como se eu fosse atraso de mim mesmo, 
Um desencontro que insiste em permanecer. 
 
O passado me toca com dedos de ausência, 
O futuro me observa com olhos de dúvida. 
Entre ambos, me desfaço em silêncio, 
Feito areia atravessando as mãos do agora, 
Sem jamais saber onde realmente estou. 
 
Gosto, mas não amo, e nisso me protejo, 
Como quem contempla o fogo sem se queimar. 
Há ternura nas bordas, mas não no centro, 
Há presença sem entrega, gesto sem raiz, 
Um quase que nunca se completa. 
 
E então me volto para dentro, inevitável, 
Como quem despenca em um poço sem fundo. 
Encontro-me disperso, múltiplo, estranho, 
Um eu que me olha e não me reconhece, 
Um rosto que já não sabe seu nome. 
 
E fico só, nesse território sem mapas, 
Onde o silêncio fala mais que qualquer voz. 
Talvez seja aqui o início de algo, 
Ou apenas o fim que se alonga em mim, 
Como um tempo que nunca termina de cair. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 28 de abril de 2026

Corrosivo

O incômodo da poesia e da filosofia não é delicado 
É um corte de vidro enfiado na carne dos dias. 
Elas arrancam a pele fina do óbvio, 
Deixam à mostra nervos que tremem, 
Verdades que apodrecem sob a luz. 
 
A poesia vem como febre: 
Faz arder o que antes parecia inofensivo, 
Desfigura o belo até que ele mostre 
Sua podridão escondida. 
 
A filosofia é um martelo cego: 
Esmaga certezas, 
Reduz ideias a pó, 
E sopra o pó nos olhos 
Até que enxerguemos o que não queríamos ver. 
 
O que chamávamos de “óbvio” 
Era apenas uma máscara frouxa, 
Colada ao rosto por medo. 
Ao ser arrancada, 
O rosto revela feridas, 
Cicatrizes que fingíamos não carregar. 
 
É por isso que poesia e filosofia incomodam. 
Não consolam, não adornam. 
Elas corroem. 
São venenos que acordam o espírito, 
E uma vez bebidos, 
Já não há retorno para a paz dos cegos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense