E falará com a voz das águas antigas.
Os que dormem sob o peso do mundo despertarão,
E verão que o verbo era a carne e o silêncio, o templo.
Pois o poeta não escreve, ele anuncia.
E cada palavra sua é uma chama na escuridão do humano.
Profetizo versos em meio às ruínas.
O pó do século cobre minha língua,
Mas dela ainda brota o orvalho do verbo.
Testemunhei o amor e a loucura
Dançarem sob o mesmo céu,
E vi a humanidade ajoelhar-se
Diante de seus próprios espelhos.
A poesia é o último evangelho antes do esquecimento.
Ouvi o rumor do vento e compreendi:
As palavras também são trombetas.
Elas anunciam o juízo dos corações endurecidos,
E revelam a nudez dos que fingem pureza.
Pois o homem construiu impérios de ferro,
Mas esqueceu de erguer altares de compaixão.
E eu, simples escriba do invisível,
Escrevo o que o tempo cala.
Vi o sol se apagar no rosto dos justos,
E a lua chorar sobre os desertos da alma.
Vi os poetas tornarem-se profetas sem templo,
Pregando em praças vazias, cercados por ecos.
E soube então que o fim não virá com fogo nem com gelo,
Mas com o esquecimento da beleza.
O verbo foi dado aos homens como espada e ferida.
Alguns o usaram para construir, outros para devorar.
Mas virá o dia em que o silêncio será julgado,
E o sopro do poeta erguerá os ossos da memória.
Pois a poesia é o apocalipse manso,
Aquele que não destrói o mundo, mas o revela.
Do alto das palavras antigas, ouço o chamado:
“Escreve o que vês, ó testemunha do humano!”
E escrevo, com tinta feita de tempo e sangue.
Anuncio que o coração do homem será pesado
Em balanças de sonho,
E somente o que foi dito com amor permanecerá.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














