domingo, 4 de janeiro de 2026

Calmaria

 Há sol lá fora. 
Um sol que não pede licença, 
Que toca as calçadas, 
Que escorre pelos rostos apressados 
Como se tudo estivesse, de algum modo, 
No lugar certo. 
 
Há gente correndo. 
Pernas em fuga, em destino, em rotina. 
Há passos que sabem para onde vão, 
Mesmo quando não sabem por quê. 
O mundo segue, pontual e distraído. 
 
Há vida. 
Barulhenta, insistente, quase teimosa. 
Vida que não pergunta se pode existir, 
Apenas existe. 
 
Mas aqui dentro… 
Aqui dentro é outro clima. 
 
Uma calmaria estranha, 
Como um lago sem vento 
Que ainda assim dá medo de atravessar. 
Nada se move, 
E justamente por isso 
Tudo pesa. 
 
O silêncio não grita, 
Mas aperta. 
O descanso não acolhe, 
Mas inquieta. 
É paz sem alívio, 
É pausa sem repouso. 
 
Sinto como se o mundo 
Estivesse respirando fundo 
Enquanto eu prendo o ar. 
Como se lá fora tudo estivesse em expansão 
E aqui dentro, em suspensão. 
 
Não é tristeza, 
É um desconforto manso, educado, 
Que senta ao meu lado 
E não vai embora. 
 
Talvez seja isso: 
O corpo em calmaria, 
A alma em vigília. 
Esperando não sei o quê, 
Mas sabendo 
Que ainda não é agora. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Incertezas do amor

 Às vezes o amor não sofre por ausência, 
Mas por excesso de pergunta. 
Ele existe — e, ainda assim, duvida de si. 
 
Há amores que caminham 
Como sombras ao entardecer: 
Estão ali, alongados no chão da alma, 
Mas qualquer mudança de luz os faz desaparecer. 
E então o coração se pergunta 
Se ama alguém 
Ou se ama apenas a ideia de não estar sozinho. 
 
O amor incerto não grita, 
Ele cochicha. 
Não promete, 
Adianta-se em silêncios. 
É um sentimento que pede provas 
Do mesmo modo que a fé pede milagres: 
Com medo de não resistir à resposta. 
 
Há dias em que ele pulsa, 
Outros em que se esconde, 
Como se tivesse vergonha de existir sem garantias. 
Ama, mas teme estar enganado. 
Deseja, mas suspeita que o desejo 
Seja apenas um eco 
Batendo nas paredes da própria carência. 
 
Talvez o amor mais frágil 
Seja aquele que olha para dentro 
E não encontra certeza suficiente para permanecer. 
Não por falta de sentimento, 
Mas por medo de descobrir 
Que tudo o que sente 
Não passa de um ensaio para a perda. 
 
E ainda assim, mesmo duvidando, 
Ele fica. 
Porque até a incerteza 
É uma forma de amor 
Quando o coração prefere questionar 
A simplesmente partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 3 de janeiro de 2026

A ascensão dos idiotas

 A ignorância já não cochicha, 
Ela grita. 
E quem grita mais alto 
Passa a parecer convicto, 
Mesmo quando não pensa. 
 
Os idiotas não chegaram marchando, 
Vieram sorrindo, 
Pedindo likes, 
Confundindo opinião com verdade 
E barulho com razão. 
 
O saber cansou de explicar. 
O silêncio virou refúgio. 
Enquanto isso, 
A estupidez vestiu a fantasia da coragem 
E se autoproclamou líder. 
 
Vivemos a era em que 
Pensar dói 
E repetir anestesia. 
Quem questiona é suspeito, 
Quem reflete é inimigo, 
Quem duvida é fraco. 
 
A ascensão dos idiotas 
Não acontece porque são muitos, 
Mas porque os lúcidos 
Estão exaustos de lutar 
Contra moinhos de vento 
Que agora têm microfone. 
 
O idiota moderno não é vazio: 
Ele é cheio de certezas prontas, 
Opiniões herdadas, 
Ódios terceirizados 
E verdades embaladas a vácuo. 
 
Quando o senso crítico adoece, 
A mediocridade governa 
Como se fosse destino. 
E o futuro, 
Esse, aprende a tropeçar 
Antes mesmo de caminhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Vou te levar comigo

 Vou te levar comigo 
Como quem guarda um fósforo aceso no bolso, 
Não para incendiar o mundo, 
Mas para lembrar que o frio existe. 
 
Vou te levar protegida, 
Não do tempo, 
Mas do esquecimento descuidado, 
Aquele que deixa as coisas caírem no chão 
Sem perceber. 
 
Ninguém vai roubar você de mim, 
Porque não te carrego no corpo, 
Nem nas palavras ditas em voz alta. 
Te levo onde não há mãos, 
Onde não há comércio, 
Onde não há disputa. 
 
Você será a lembrança mais humana 
Porque falha, 
Porque treme, 
Porque às vezes dói sem saber por quê. 
 
E será completa 
Não por ser perfeita, 
Mas porque inclui o silêncio, 
O gesto que não aconteceu, 
O amor que não precisou se explicar. 
 
Vou te levar comigo 
Como quem leva uma casa invisível: 
Não pesa, 
Não aparece, 
Mas é onde eu descanso 
Quando o mundo se torna frio demais. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Não é o tempo que renova

 O novo não nasce à meia-noite, 
Não se revela no calendário virado, 
Nem chega embalado pelo nome do ano. 
Ele pede mãos sujas de tentativa 
E ouvidos cansados de escutar o que retorna. 
 
Aquilo que se repete não é erro: 
É mensagem insistente, 
Batendo à porta da consciência 
Até que tenhamos coragem 
De mudar o lugar da mobília interior. 
 
O novo acontece quando paramos de fugir do eco 
E passamos a dialogar com ele. 
Quando a ferida deixa de ser evitada 
E se transforma em passagem. 
 
Não é o tempo que renova, 
Somos nós, 
Quando ousamos escutar com mais profundidade 
E oferecer outro destino 
Àquilo que sempre volta pedindo sentido. 
 
O novo, afinal, 
É o antigo compreendido 
Pela primeira vez. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A vida é um sonho lírico

 O ser infinito, 
Causa primeira do universo, 
Não empurra o mundo: 
Ele o sonha na imaginação. 
 
E no sonho, 
As estrelas são sílabas antigas 
Escapando da boca do silêncio. 
 
Antes do tempo aprender a andar, 
Já havia um sopro, não de vento, 
Mas de intenção. 
Ali nasceu tudo 
Sem precisar nascer. 
 
A vida, então, 
É um sonho lírico 
Que se esqueceu de acordar. 
Somos versos provisórios 
Escritos na margem do eterno. 
 
Cada dor é metáfora, 
Cada amor, um eco 
Daquilo que não tem nome 
Mas insiste em ser sentido. 
 
O infinito não governa: 
Ele permite. 
E permitir é a forma mais pura 
De criar sem prender. 
 
Viver é recitar o universo 
Com a voz trêmula da carne, 
Sabendo que o poema não termina, 
Apenas muda de leitor. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Todos os dias observo meus sonhos

 Todos os dias observo meus sonhos 
Como quem vigia um fogo fraco 
No fundo da noite. 
Não para queimar o mundo, 
Mas para que o escuro não vença tudo. 
 
Eles respiram em silêncio, 
Frágeis como ideias que ainda não aprenderam 
A pedir abrigo. 
Se não os olho, 
Se não retorno a eles com alguma fidelidade, 
O tempo os cobre de poeira 
E os chama de ilusão. 
 
Aprendi que sonhos não se perdem de uma vez. 
Eles se afastam devagar, 
Quando a vida exige pressa, 
Quando a sobrevivência vira desculpa, 
Quando o cansaço começa a parecer verdade. 
 
Por isso observo. 
Não avanço, não conquisto, não prometo. 
Apenas permaneço. 
Porque existir, às vezes, 
É ficar de pé diante do que ainda não aconteceu 
E não desviar o olhar. 
 
Meus sonhos sabem que posso falhar, 
Sabem que o mundo é maior que minhas forças, 
Mas continuam ali 
Porque reconhecem em mim 
Alguém que não os troca por certezas. 
 
E enquanto eu os observo, 
Mesmo sem entendê-los, 
Eles não se perdem de vista, 
Sou eu 
Quem permanece inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Sua presença

 Sua presença chega antes de você. 
Ela atravessa o ar, desarruma o silêncio 
E faz meu coração esquecer o próprio ritmo. 
 
Quando você está perto, 
O tempo tropeça, 
E cada batida no peito é um aviso: 
Algo vivo acontece aqui. 
 
Não é alarde, é vertigem. 
Um susto doce, 
Como se o coração reconhecesse em você 
Um lugar onde já esteve 
E jamais esqueceu. 
 
Você não toca, 
Mas tudo em mim responde. 
E o coração, traidor da calma, 
Bate mais forte 
Toda vez que sua presença existe. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 28 de dezembro de 2025

Medo de transbordar

 Cresci como quem aprende 
A trancar portas por dentro. 
Guardei palavras no fundo do peito, 
Não por frieza, 
Mas por excesso. 
 
Havia sentimentos demais para o mundo, 
E eu aprendi cedo 
Que nem todo silêncio é ausência, 
Às vezes é cuidado, 
Às vezes é medo de transbordar. 
 
Se pareço não ligar, 
É porque aprendi a amar em voz baixa, 
A sofrer sem plateia, 
A sentir sem pedir socorro. 
 
Carrego tudo comigo: 
O que não disse, 
O que não chorei, 
O que não coube em gestos. 
E isso pesa, 
Mas também me fez inteiro de um jeito estranho. 
 
Então, desculpa… 
Não é indiferença. 
É só alguém que cresceu acreditando 
Que sentir demais 
Era algo que precisava ser escondido. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 27 de dezembro de 2025

Viva hoje

 Não há relógio mais severo do que o adiamento. 
Ele não faz barulho, 
Não ameaça — apenas rouba. 
Rouba dias inteiros 
Enquanto prometemos viver “depois”. 
 
Hoje é um corpo aberto, respirando. 
Não pede heroísmo, nem grandes decisões. 
Pede presença. 
Pede que você esteja inteiro onde pisa. 
 
Nada é mais urgente do que viver a própria vida 
Porque tudo o mais é substituível: 
As tarefas se repetem, 
As opiniões mudam, 
As cidades esquecem nossos nomes. 
Mas o dia de hoje, 
Este, não retorna nem para pedir desculpa. 
 
Viver agora é um gesto silencioso de rebeldia. 
É escolher sentir antes de explicar, 
Errar antes de paralisar, 
Amar antes que vire lembrança. 
 
Há quem passe a vida preparando-se para viver, 
Como se a existência fosse um ensaio interminável. 
Mas o palco já está iluminado. 
O público é o tempo. 
E o tempo não aplaude adiamentos. 
 
Viva hoje. 
Não como quem corre sem saber o caminho, 
Mas como quem finalmente sabe onde pisa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O que parecia amor

 Reinventar em mim o sorriso 
Não é apagar a cicatriz, 
É aprender a chamá-la de lembrança. 
 
Depois que perdi o que parecia amor, 
O riso virou ruína: 
Eco de algo que habitou o peito 
E partiu sem se despedir. 
Sorri por hábito, 
Por defesa, 
Por educação com o mundo 
Que não sabe lidar com o luto dos sentimentos. 
 
Mas o sorriso novo não nasce da pressa. 
Ele germina no silêncio, 
Quando aceito que aquilo não era infinito, 
Apenas intenso. 
Que amar, às vezes, 
É confundir abrigo com tempestade. 
 
Reinventar o sorriso 
É permitir que ele seja menor, 
Mais tímido, 
Menos espetáculo 
E mais verdade. 
É sorrir sem prometer eternidades, 
Sem pedir retorno, 
Sem fingir inteireza. 
 
Hoje, quando sorrio, 
Não é porque esqueci. 
É porque sobrevivi. 
Porque algo em mim, mesmo ferido, 
Decidiu continuar humano, 
Inteiro nas imperfeições, 
Aberto ao dia 
Como quem aprende a andar 
Depois da queda. 
 
E esse sorriso, 
Ainda em construção, 
Não nega a perda. 
Ele a carrega consigo 
Como quem diz em silêncio: 
Do que parecia amor, 
Restou a coragem de recomeçar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Pensar em você não é escolha

 A saudade não chega fazendo barulho. 
Ela entra devagar, como quem conhece a casa, 
Senta no canto da memória 
E começa a acender luzes que eu já tinha apagado. 
 
É ela que me faz pensar em você 
Quando o dia não pede lembranças, 
Quando uma música qualquer atravessa o ar 
E, sem permissão, ganha o seu rosto. 
 
Penso em você nos detalhes que ninguém nota: 
No cheiro da chuva, 
No silêncio entre duas palavras, 
Na pausa longa antes de dormir. 
A saudade tem esse vício cruel 
De transformar o cotidiano em lembrança. 
 
Às vezes, ela dói como ausência; 
Outras, aquece como se você ainda estivesse aqui, 
Morando num lugar indefinido entre o que foi 
E o que jamais deixou de ser. 
 
Pensar em você não é escolha, 
É consequência. 
A saudade decide por mim, 
E eu apenas aceito. 
Porque há amores que não se despedem, 
Apenas aprendem a existir 
Dentro do pensamento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A chave dos desejos

 Você é para mim a chave dos desejos, 
Não a que arromba, 
Mas a que gira devagar na fechadura da alma 
E ensina o silêncio a respirar. 
 
Você é a porta da fantasia, 
Entreaberta no fim da noite, 
Onde o real desaprende seus nomes 
E o impossível aprende a me tocar 
Sem mãos. 
 
Você é o caminho para o ardente prazer, 
Não a linha reta, 
Mas a curva quente do tempo, 
Onde o passo se perde, 
O corpo esquece o medo 
E o querer vira incêndio manso, 
Que não destrói, 
Ilumina. 
 
Em você, o desejo não grita: 
Ele chama. 
E eu sigo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O que o coração está sentindo

 Uma fogueira de pensamentos se acende em mim 
Toda vez que penso em você. 
Não queima para destruir, 
Arde para iluminar 
O que eu nunca soube dizer. 
 
As ideias chegam como faíscas, 
Uma após a outra, 
E cada frase tenta se organizar 
No meio do calor que o coração espalha. 
Nem todas viram palavras ditas, 
Algumas ficam em brasas, 
Silenciosas, esperando coragem. 
 
Penso em você 
E a mente vira lenha seca: 
Qualquer lembrança é suficiente 
Para o fogo crescer. 
Não é desespero, 
É presença desejada, 
Essa chama insistente 
Que não pede permissão para existir. 
 
As frases se constroem sozinhas, 
Como se o coração fosse um artesão antigo, 
Moldando sentimentos em silêncio, 
Gravando seu nome 
No calor de cada pensamento. 
 
E quando a fogueira enfim sossega, 
Restam cinzas quentes: 
Palavras que não foram ditas, 
Mas que ainda aquecem 
Tudo o que sou enquanto penso em você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Ser escravo do amor

 Às vezes me pergunto 
Por que ajoelhar o coração 
Diante de um sentimento 
Que exige correntes, 
Se a solidão me oferece 
O vasto campo onde posso respirar? 
 
O amor, quando não é encontro, 
Vira cela dourada: 
Promessas que vigiam, 
Silêncios que cobram, 
Esperas que nunca dormem. 
Nele, o eu se dissolve 
Até virar eco do outro. 
 
A solidão, ao contrário, 
Não me pede juras. 
Ela senta ao meu lado 
E me deixa inteiro. 
É um espaço vazio 
Que não machuca, 
Apenas me escuta. 
 
Ser escravo do amor 
É viver à mercê de gestos alheios, 
É medir o próprio valor 
Pelo olhar que não vem. 
Ser livre na solidão 
É aprender que o peito 
Também pode ser casa. 
 
Talvez o amor verdadeiro 
Não queira servos, 
Mas companheiros. 
E enquanto ele não chega, 
A solidão não é castigo: 
É território. 
É o lugar onde o coração 
Retira as algemas 
E reaprende a andar sozinho. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense