sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O labirinto e o espelho

 No princípio, o pensamento era vertigem. 
Um relâmpago sem forma, 
Ecoando no vazio anterior à linguagem. 
Então nasceu a disciplina, 
Não como muro, mas como espelho, 
Onde o caos aprendeu a reconhecer seu próprio rosto. 
 
Pensar é construir geometrias dentro da névoa. 
Cada conceito, um corredor; 
Cada dúvida, uma porta entreaberta. 
O intelecto avança tateando as paredes do invisível, 
Sabendo que toda clareza é apenas 
A sombra bem ordenada de uma escuridão mais funda. 
 
A disciplina intelectual é o fio de Ariadne 
Que impede a mente de perder-se 
No labirinto de si mesma. 
Ela não suprime o mistério, 
Apenas lhe dá contorno, 
Para que o indizível possa respirar. 
 
Há uma constelação secreta no pensamento rigoroso, 
Ideias orbitam como astros em gravitação silenciosa, 
Mantidas por uma força que é metade razão, metade fé. 
 
O verdadeiro ato de pensar é 
Aceitar que a mente é um espelho frágil 
Onde o universo se contempla por instantes, 
Antes de estilhaçar-se novamente 
Em mil perguntas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Então vem a loucura

Quando te vejo, o mundo perde a lógica. 
As coisas deixam de ter nome, peso, sentido. 
Só existe essa vertigem, 
Esse chamado silencioso que o seu corpo faz 
Sem dizer uma única palavra. 
 
E então vem a loucura. 
Não a que assusta, 
Mas a que seduz, arrasta, desarma. 
A loucura que mora nos seus olhos 
Como um abismo bonito demais para evitar. 
 
Há algo ali que promete e ameaça 
Ao mesmo tempo. 
Um brilho que não pede permissão, 
Que invade, que toma, que domina. 
E eu, tolo ou entregue, já não sei, 
Me deixo perder. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Os dias com esperança

 Depois de tantos dias imóveis e cinzentos, 
Comecei a ouvir novamente o vento nas árvores. 
Havia ainda um rumor de vida escondido 
Entre as rachaduras profundas do meu silêncio. 
Percebi que até a noite mais longa do mundo 
Guarda, em algum lugar secreto do horizonte, 
A lenta e inevitável chegada da manhã. 
 
Eu, que já havia desistido dos caminhos, 
Voltei a recolher pequenos sinais da existência: 
Um pássaro atravessando o céu sem medo, 
A chuva lavando antigas dores da janela, 
O sorriso simples de alguém na rua vazia. 
Descobri que a esperança não faz barulho; 
Ela apenas permanece, mesmo ferida. 
 
Agora caminho devagar, mas caminho. 
Trago cicatrizes onde antes havia abismos, 
E já não temo tanto os invernos da alma. 
Aprendi que sobreviver também é florescer, 
Mesmo quando o coração renasce em ruínas. 
Porque dentro de cada ser perdido no escuro 
Há sempre uma luz esperando ser encontrada. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Educar é abrir portas

 Educar é abrir a porta da manhã incerta, 
E caminhar por caminhos sem mapa nem muralha; 
É permitir que o vento das perguntas atravesse a sala, 
Desarrume papéis, conceitos e certezas antigas. 
Cada palavra ensinada carrega uma travessia, 
Cada dúvida acesa ilumina um novo horizonte, 
E cada resposta é apenas um porto provisório. 
 
O pensamento sopra onde deseja e não pede licença; 
Ergue poeiras sobre verdades acomodadas, 
Balança os galhos das convicções mais rígidas, 
E revela frutos escondidos entre as folhas do hábito. 
Quem educa aprende a escutar esse movimento, 
Pois o conhecimento não floresce na estagnação, 
Mas no diálogo constante entre o saber e o mistério. 
 
Ensinar é aceitar a vulnerabilidade do vento, 
É deixar que ele toque também o coração do mestre; 
É reconhecer que toda lição transforma quem a oferece. 
Entre livros, vozes e silêncios compartilhados, 
Crescem juntos aqueles que ensinam e aprendem. 
E o que permanece após a passagem dos anos 
Não são as respostas, mas a coragem de continuar perguntando. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A História como presença inominável

 Tem algo na História 
Que não pertence apenas aos homens. 
Algo que se move por baixo das datas, 
Um organismo silencioso que cresce nas frestas do tempo, 
Alimentando-se de nossos erros, de nossas repetições, 
De tudo aquilo que insistimos em chamar de “progresso”. 
 
A História é mais antiga que o passado. 
Ela é uma força que antecede a própria memória, 
Um labirinto onde as paredes mudam conforme olhamos, 
Como se o tempo fosse uma criatura 
Que reorganiza seus ossos para nos confundir. 
E nós, ao estudá-la, encostamos a mão 
No corpo frio dessa entidade invisível. 
A sensação é de que algo nos observa de volta. 
 
A História não é apenas uma narrativa, 
É um campo de presença. 
Um lugar onde consciências extintas 
Permaneçam vibrando numa frequência imperceptível, 
Como ecos que nunca se dissolvem. 
 
Estudar a História é aproximar-se demais desse sussurro. 
É entrar numa sala onde o passado não morreu, 
Apenas mudou de forma. 
Às vezes, parece que a História respira. 
E seu hálito é feito de séculos 
Que ainda não desistiram de existir. 
 
Há um horror em perceber 
Que o que chamamos “humanidade” 
Não é o centro da História. 
É apenas uma de suas manifestações. 
Um sintoma. 
Um estágio passageiro 
Dessa inteligência impessoal 
Que registra, reorganiza e repercute 
Cada gesto que pensamos pertencer apenas a nós. 
 
A História é uma consciência sem rosto. 
Um olho que se abre no interior do tempo 
E vê tudo, Inclusive aquilo que tentamos esconder 
De nós mesmos. 
Por isso ela inquieta muita gente. 
Não porque nos lembra do que fomos, 
Mas porque revela o que ainda somos capazes de ser. 
 
O verdadeiro terror não está no passado, 
Mas na sua insistência em retornar. 
Como se cada era fosse uma porta 
Que pensamos ter fechado 
Mas que continua rangendo na madrugada, 
Soprando, do outro lado: 
“Eu ainda estou aqui.” 
 
Compreender a História é fazer vigília 
Diante dessa presença que nunca dorme. 
É reconhecer que o fluxo do tempo 
Talvez não seja linear, 
Mas um circuito fechado, 
Um anel onde tudo se repete 
Até aprendermos lições que não queremos aprender. 
E, ainda assim, a História nos convoca. 
Porque ignorá-la 
É entregar-se ao escuro absoluto. 
 
Estudá-la, por sua vez, 
É acender uma chama frágil 
No centro desse círculo infinito. 
Não para espantar a escuridão, 
Mas para provar ao tempo 
Que ainda há alguém capaz de olhar para ele 
Sem desviar os olhos. 
 
A História é o horror tranquilo 
De saber que ninguém caminha sozinho no tempo. 
Tem sempre algo caminhando conosco. 
Algo que não entendemos 
E que, talvez, nunca entenderemos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Ninguém sangra por mim

 A vida me chama com urgência, 
Como um sino que ecoa no vazio da noite. 
Não há ensaio, não há retorno, 
Apenas este instante que se desfaz 
Como fumaça entre as mãos. 
 
Ninguém sangra por mim, 
Ninguém respira em meu peito, 
Ninguém caminha minhas veredas. 
Sou eu quem deve beber o fel e o vinho, 
Sou eu quem deve dançar no abismo 
Ou silenciar diante dele. 
 
Viver intensamente é aceitar o risco, 
É abraçar a ferida e o êxtase, 
É queimar sem medo da cinza. 
A vida é única, cruel em sua brevidade, 
Implacável em sua verdade. 
Ou a devoras com fome insaciável, 
Ou serás devorado pelo tédio que apodrece. 
 
E quando o fim chegar, 
Não haverá desculpas, 
Não haverá testemunhas, 
Apenas o eco daquilo que ousaste viver 
Ou daquilo que deixaste escapar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Livros não se desesperam

 Quando ninguém mais deseja o que os livros oferecem, 
As estantes tornam-se jardins sem visitantes, 
E a poeira aprende os nomes dos autores esquecidos. 
As páginas permanecem abertas para o impossível, 
Mas os olhos passam apressados diante dos milagres. 
O mundo continua falando sem cessar, 
Enquanto a sabedoria aguarda em silêncio. 
 
Os livros guardam o fogo de muitas gerações, 
Vozes que atravessaram séculos para nos alcançar. 
Mas quem escuta apenas o ruído do instante 
Já não percebe o sussurro dos antigos viajantes. 
Assim, as perguntas tornam-se menores que os medos, 
E os horizontes encolhem sem que ninguém perceba, 
Como um rio que seca lentamente sob o sol. 
 
Ainda assim, os livros não se desesperam. 
Permanecem imóveis como velhas árvores, 
Oferecendo sombra a quem desejar repouso. 
Sabem que toda época produz seu próprio cansaço, 
E que toda alma, um dia, procura profundidade. 
Então aguardam, pacientes como as estrelas, 
O retorno daqueles que aprenderão novamente a ler. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Algo inevitável

 Pense em mim como a noite fria sem lua, 
Quando a cidade contêm a respiração 
E o vazio se torna decreto. 
Pois é nesse deserto de luz que os signos se revelam 
E o coração aprende a temer o que deseja. 
 
Pense em mim como a noite em que o céu se negou ao brilho, 
E as ruas, abandonadas pelo tempo, aguardaram um sinal. 
Não houve estrelas, nem passos, nem cânticos; 
Houve apenas o aviso sutil de que tudo mudaria 
Antes mesmo da aurora despertar. 
 
Pense em mim como o inverno sem testemunhas, 
Quando o silêncio se torna sentença 
E o escuro reclama sua herança. 
Pois é na ausência de luz que a verdade desce, 
Como quem anuncia o preço da lembrança. 
 
Pense em mim como a vigília sem profetas, 
Quando os portões permanecem abertos 
Mas ninguém ousa atravessar. 
Então saberás que há mistérios que só respiram 
Na escuridão que não pede licença. 
 
Pense em mim como a noite que antecede o presságio, 
Quando a lua se esconde e o frio sela o pacto. 
E entenderás que algumas presenças 
Nascem justamente do que falta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Cáceres, meu lugar no mundo

 Nasci onde o tempo parece conversar com as águas, 
Onde o Rio Paraguai leva histórias em seu silêncio, 
Onde cada rua guarda um pedaço da minha infância, 
E cada esquina conhece um pouco dos meus sonhos. 
Cáceres não foi apenas o lugar onde cheguei ao mundo, 
Foi o mundo que aprendi primeiro a amar. 
 
Amo suas manhãs, mesmo quando o sol se demora, 
Suas praças, suas casas antigas, suas lembranças, 
O cheiro das tardes que ficaram presas na memória, 
As vozes que o tempo levou, mas nunca apagou. 
Há uma cidade dentro de mim que não envelhece, 
E ela tem o nome bonito de Cáceres. 
 
Posso partir, conhecer estradas desconhecidas, 
Deixar meus passos encontrarem outras paisagens, 
Mas nenhuma distância consegue levar de mim 
Aquilo que nasceu junto com os meus primeiros dias. 
Porque há lugares que pertencem à geografia, 
E há lugares que pertencem para sempre à alma. 
 
Se um dia perguntarem de onde vem meu amor, 
Não precisarei procurar palavras complicadas: 
Direi apenas que nasci em Cáceres, 
E algumas raízes não aceitam ser arrancadas. 
Enquanto houver memória e poesia em meus olhos, 
Cáceres será sempre meu lugar no mundo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense 
Homenagem aos 248 anos de Cáceres, MT

Neste século de pomposa fantasia

 Neste século de pomposa fantasia, 
Onde tudo tem preço e locação, 
Vende-se a honra, aluga-se a opinião, 
Troca-se a alma por breve regalia; 
E o homem, que se julga em soberania, 
Vive preso à dourada servidão, 
Fazendo da cobiça sua religião. 
 
Já não se busca o bem, mas a aparência, 
Já não se estima a virtude constante; 
Vale mais o brilho falso e cintilante 
Que o suor da honrada consciência. 
Ó mundo! Que tamanha decadência, 
Que faz do vício um trono triunfante 
E do sensato um pobre caminhante. 
 
Alugam-se os afetos mais profundos, 
Os sorrisos, os gestos e a atenção; 
Cada qual traz à mostra o coração, 
Mas o guarda distante dos segundos. 
São ricos de aparências estes mundos, 
Porém pobres de fé e convicção; 
Muito rumor e pouca comunhão. 
 
Mas que importa ao sábio tal costume? 
Se tudo passa, passe a ilusão; 
Não se prende à fumaça sua mão, 
Nem se curva ao capricho que presume. 
Busca em si uma luz que não se consume, 
Faz da prudência sua habitação 
E da verdade a sua possessão. 
 
Assim concluo, em verso desabrido: 
Quem faz do efêmero seu fundamento, 
Encontrará no tempo o esquecimento; 
Quem vive apenas para ser servido, 
Partirá deste mundo tão despido 
Quanto chegou ao breve alojamento, 
Levando só seu ato e pensamento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Ninguém vai dizer ao coração

 Ninguém vai dizer ao coração 
Que a paixão não passa de um truque barato. 
Ele já ouviu isso antes, 
Em bares esfumaçados, 
Em apartamentos vazios, 
Na voz rouca de amigos derrotados 
Que confundiam cicatrizes com sabedoria. 
 
O coração escuta, 
Mas raramente aprende. 
Ele vê uma pessoa, 
Um sorriso, 
Um gesto qualquer numa tarde comum, 
E de repente transforma aquilo 
Numa razão para continuar respirando. 
 
É ridículo. 
E é exatamente por isso 
Que seja tão humano. 
Os sensatos fazem listas, 
Calculam probabilidades, 
Levantam muralhas ao redor de si. 
Depois envelhecem. 
E um dia descobrem 
Que sobreviveram a todos os riscos, 
Mas também sobreviveram 
A quase toda a vida. 
 
O coração não quer saber dessas coisas. 
Ele prefere perder. 
Prefere cair de cara no chão. 
Prefere passar noites acordado 
Olhando para o teto 
E inventando futuros impossíveis. 
Porque existe algo pior 
Do que ser chamado de louco. 
É nunca ter acreditado em nada. 
 
É passar pela vida 
Como quem atravessa uma estação de trem 
Sem comprar passagem, 
Sem embarcar, 
Sem se despedir de ninguém. 
 
Então deixe o coração em paz. 
Ele sabe que pode quebrar. 
Sabe que provavelmente vai. 
Mas continua apostando suas últimas moedas 
Na mesa do amor, 
E há uma estranha dignidade nisso. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Palavras que a alma escreve em silêncio

 Há poemas que não nascem para serem lidos, 
Mas para serem sobrevividos. 
São palavras que a alma escreve em silêncio, 
Não porque queira mostrar suas feridas, 
Mas porque precisa impedir que elas apodreçam por dentro. 
 
Às vezes escrevo poemas sombrios 
Que não desejo dividir com ninguém. 
Não porque sejam vergonhosos, 
Mas porque existem sentimentos 
Que perdem a proteção quando ganham testemunhas. 
 
Escrevo aquilo que preciso escrever, 
Mesmo aquilo que não gostaria de sentir. 
Talvez porque o papel seja mais paciente que o coração 
E aceite aquilo que a boca jamais confessaria. 
 
Há versos que são quartos escuros 
Onde escondo pensamentos que não quero encontrar. 
Entro neles apenas para escrever, 
Deixo algumas palavras sobre a mesa 
E saio antes que a tristeza descubra meu nome. 
 
Meu poema nem sempre é aquilo que sou; 
Às vezes é aquilo que temo ser, 
Aquilo que poderia sentir, 
Aquilo que passou por mim como uma sombra 
E deixou sua marca antes de desaparecer. 
 
Por isso nem todo poema pede leitores. 
Alguns pedem apenas silêncio. 
São escritos para que a dor tenha uma saída, 
Para que o pensamento não se transforme em prisão 
E para que o poeta consiga continuar respirando. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O que existe nesse olhar?

Na hora indecisa entre a tarde e a noite, 
Quando as sombras se acumulam nos cantos da memória 
E os relógios repetem suas pequenas eternidades mecânicas, 
Teu olhar atravessa a sala como uma pergunta antiga. 
Não uma pergunta que exige resposta, 
Mas uma que permanece suspensa 
Entre o que fomos e o que jamais seremos. 
 
As ruas continuam seu murmúrio de passos anônimos, 
Os postes acendem sua luz fatigada sobre o asfalto, 
E eu caminho entre vitrines, notícias e calendários. 
Contudo, algo me acompanha: 
A lembrança daquele olhar simples, 
Mais persistente que os sinos distantes 
E mais silencioso que a poeira sobre os livros esquecidos. 
 
O mundo fragmenta-se em imagens dispersas: 
Uma janela iluminada, um banco vazio, 
O eco de uma conversa perdida no vento. 
Mas teus olhos reaparecem entre os fragmentos, 
Como um verso incompleto encontrado 
Nas margens de um manuscrito envelhecido, 
Insistindo em sobreviver ao esquecimento. 
 
E pergunto, como quem interroga as ruínas: 
O que existe nesse olhar tão desarmado? 
Que estranha gravidade habita sua doçura? 
Pois não há promessa, nem juramento, nem destino, 
Apenas a delicada evidência de uma presença 
Que transforma o instante mais comum 
Num corredor aberto para o infinito. 
 
Permaneço, entre o tempo e sua erosão, 
Escutando o rumor das horas que passam. 
E enquanto a noite fecha suas portas sobre a cidade, 
Teu olhar continua aceso na memória, 
Como uma pequena chama guardada entre destroços, 
Iluminando por um momento 
A vastidão silenciosa da existência. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Onde tudo é agora

 Há olhares cansados que contam os dias como moedas gastas, 
E acreditam que o tempo é um senhor de verdades absolutas, 
Mas apenas repetem o eco de uma mentira bem vestida. 
Veem rugas onde há histórias, 
Veem fim onde há transformação, 
Veem atraso onde há silêncio fecundo, 
E assim se perdem na superfície dos instantes. 
 
O tempo passa, dizem, como se fosse um rio inevitável, 
Mas esquecem que também somos água que sente o curso, 
E não apenas margem que observa a fuga das horas. 
Há quem viva aprisionado em calendários, 
Como se a vida fosse uma soma de datas alinhadas, 
E não um incêndio secreto ardendo fora da contagem, 
Um sopro eterno escondido no breve. 
 
Quem sabe seja preciso trair o tempo com delicadeza, 
Fechar os olhos ao seu império de números e ciclos, 
E reaprender a ver com a alma despida de pressa. 
Pois o instante verdadeiro não se mede, 
Ele se revela como um abismo luminoso, 
Onde tudo é agora e nada se perde, 
E o olhar, enfim, deixa de mentir para si mesmo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 4 de outubro de 2026

No lugar onde a saudade mora

 A tarde caiu sobre meus ombros 
Com o peso das lembranças esquecidas. 
Teu nome atravessou o silêncio 
Como uma folha levada pelo vento, 
E meu coração compreendeu 
Que algumas despedidas 
Nunca terminam. 
 
A casa continua de pé, 
Mas há janelas que nunca mais se abriram. 
Os retratos envelheceram na parede, 
O relógio insiste em caminhar, 
E eu permaneço parado 
Na última palavra 
Que não consegui dizer. 
 
Às vezes converso com a ausência. 
Ela responde com ecos, 
Com o perfume distante de um tempo feliz, 
Com a sombra dos teus passos 
Atravessando os corredores da memória. 
Então descubro 
Que a saudade também tem voz. 
 
As noites tornaram-se longas, 
Feitas de estrelas que já não iluminam. 
O céu parece guardar segredos 
Que nunca serão revelados, 
Enquanto meus olhos procuram, em vão, 
O brilho que encontravam 
Nos teus. 
 
Se algum dia o vento te alcançar, 
Leva contigo este silêncio. 
Ele nasceu do amor, 
Cresceu na espera 
E amadureceu na dor. 
Pois há corações que continuam amando 
Mesmo quando aprenderam a viver sozinhos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense