domingo, 27 de setembro de 2026

A poesia me encontrou

 Não confio muito 
Em quem diz que conhece o caminho. 
A cidade está cheia deles. 
Vendem mapas 
E nunca saem do lugar. 
 
Foi a poesia que me encontrou 
Quando tudo parecia enferrujado. 
Não prometeu salvação. 
Apenas disse de forma precisa: 
"Continue andando." 
 
Um poema não paga as contas. 
Não conserta o telhado. 
Não impede a chuva. 
Mas impede que você se transforme 
Em pedra. 
 
Há dias em que o mundo 
Faz questão de apagar qualquer horizonte. 
É então que um verso acende 
Uma luz pequena, quase ridícula, 
E isso basta. 
 
No fim das contas 
A poesia nunca quis ser destino. 
Ela só caminha alguns passos ao seu lado 
Até que você descubra 
Que a direção sempre esteve dentro de você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inventário de um ausente

 Havia um relógio parado na sala 
E ninguém perguntou a hora. 
Lá fora, os homens atravessavam a tarde 
Carregando seus nomes nos bolsos, 
Como moedas de um país extinto. 
 
Eu também tive um nome. 
Recordo vagamente seu peso 
Quando alguém o pronunciava à distância. 
Agora ele repousa sobre mim 
Como poeira nos móveis de uma casa vazia. 
 
Em que estação abandonei meu rosto? 
Talvez entre uma terça-feira e o inverno, 
Quando os pássaros discutiam nos fios 
E uma mulher fechou a janela 
Sem saber que encerrava uma época. 
 
Não houve anúncio. 
Nenhum sino atravessou a cidade. 
Apenas continuei existindo 
Com a disciplina absurda dos relógios 
Que medem aquilo que nos destrói. 
 
Eis-me aqui, se aqui significa alguma coisa, 
Reunindo fragmentos de antigas manhãs, 
Procurando entre eles aquele homem 
Que observava o mundo mudar 
Sem perceber que era ele quem desaparecia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Percorri ruas vazias

Nas noites escuras procurei por você, 
Entre estrelas que teimavam em esconder-se. 
O vento repetia o seu nome baixinho, 
Enquanto a saudade guiava meu caminho, 
E o silêncio respondia ao meu sofrer. 
 
Percorri ruas vazias e sonhos antigos, 
Abraçando lembranças como velhos amigos. 
Cada sombra guardava um pouco de esperança, 
Cada lágrima levava embora uma lembrança, 
Sem apagar os nossos tempos vividos. 
 
A lua testemunhava minha caminhada, 
Iluminando a alma cansada e calada. 
Busquei seu olhar em cada amanhecer, 
Mas encontrei apenas o aprender 
Que toda ausência deixa uma estrada. 
 
Então compreendi o mistério da vida:
 Nem toda despedida é uma causa perdida. 
Há amores que permanecem na memória, 
Escrevendo em silêncio a própria história, 
Mesmo quando a presença é esquecida. 
 
Hoje, nas noites escuras, já não temo andar. 
Aprendi que o amor também sabe transformar. 
Se você não voltou, ficou a lição: 
A esperança ainda habita o coração, 
E sempre haverá uma nova aurora para esperar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 26 de setembro de 2026

Antes mesmo do amanhecer

 A noite levou meus olhos ao descanso, 
Deitou sobre mim o silêncio das estrelas 
E fechou, delicadamente, as janelas do mundo. 
Mas não conseguiu levar você 
Para longe dos meus pensamentos. 
 
Enquanto o sono caminhava 
Pelos corredores da minha alma, 
Seu rosto permanecia aceso 
Como uma pequena luz 
Que a escuridão não sabia apagar. 
 
E então veio o amanhecer, 
Devagar, tocando as sombras, 
Despertando os pássaros 
E espalhando claridade pelas coisas. 
Mas você já estava aqui. 
 
Antes mesmo que o dia dissesse seu nome, 
Antes que o sol beijasse as montanhas, 
Antes que o vento acordasse as flores, 
Meu coração já havia pronunciado você 
Na linguagem silenciosa da saudade. 
 
Amar tanto assim é isso, 
Adormecer com alguém nos pensamentos 
E despertar com essa mesma presença, 
Como se a distância fosse apenas um sonho 
E o sentimento, a verdadeira realidade. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O menino que ainda olha para mim

 Quando eu era pequeno, 
Achava que o futuro era uma rua sem buracos. 
Os adultos pareciam saber para onde iam. 
Eu acreditava neles. 
A infância tem esse defeito bonito. 
 
Depois você cresce. 
Descobre que todo mundo improvisa, 
Que o medo usa gravata, uniforme, aliança, diploma. 
Ninguém recebe um mapa. 
Só aprendemos a fingir que sabemos o caminho. 
 
Os sonhos não morrem de uma vez. 
Perdem pedaços no aluguel, 
No relógio, 
Nas contas sobre a mesa, 
Nas despedidas que ninguém ensina. 
 
Às vezes encontro aquele menino 
Escondido em alguma fotografia amarelada. 
Ele ainda olha para mim 
Como quem espera um herói. 
E eu abaixo os olhos por um instante. 
 
Mas sigo andando. 
Não porque a vida tenha melhorado, 
Nem porque finalmente entendi alguma coisa. 
Sigo porque ainda existe um resto de esperança, 
E esse resto, por menor que seja, recusa-se a morrer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cáceres, entre o ontem e o hoje

 Tenho saudade da Cáceres de antigamente, 
Das ruas que guardavam passos conhecidos, 
Das casas antigas, das janelas abertas, 
Das tardes lentas à margem do Paraguai, 
E do tempo que parecia não ter pressa. 
 
Hoje a cidade veste outras paisagens, 
Novas construções ocupam velhos espaços, 
O movimento cresceu, os costumes mudaram, 
E aquilo que ontem parecia eterno 
Agora repousa apenas na memória. 
 
Mas há uma Cáceres que o tempo não derruba, 
Escondida nas fotografias amareladas, 
Nas histórias contadas pelos mais velhos, 
Nos nomes esquecidos de antigas esquinas, 
E no coração de quem viveu aquele tempo. 
 
Às vezes caminho pelas ruas de hoje 
E encontro, entre prédios e mudanças, 
O eco de uma infância distante, 
Um rosto que já não está, uma voz que se foi, 
Uma cidade que ainda mora em mim. 
 
 Não quero que o presente apague o passado, 
Nem que a modernidade destrua a memória; 
Que Cáceres cresça sem perder suas raízes, 
Que cada mudança carregue uma lembrança, 
E cada futuro saiba de onde veio. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Porque só os teus olhos

 Só os teus olhos ainda me alcançam, 
Quando tudo em mim já se perdeu na penumbra. 
Eles rasgam o breu do meu peito, 
Luz ferida, última promessa de salvação. 
 
Há dias em que vivo apenas para lembrar 
A cor com que me olhavas antes do abismo. 
O resto é ruína. 
Voz que se cala, corpo que vaga, 
Alma que sangra em silêncio. 
 
Se há paz neste existir cansado, 
Ela mora no instante em que teus olhos me tocam, 
Não como quem ama, 
Mas como quem reconhece um condenado à distância. 
 
Porque só os teus olhos, 
Negros e infinitos como a noite sem perdão, 
Podem salvar-me daquilo em que me tornei. 
Um eco do que um dia quis viver. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O instante e a sombra

 A tarde recolhe seus próprios ecos, 
E as janelas devolvem um céu que já não existe. 
Quando te vejo, não é apenas teu rosto, 
Mas todas as perguntas que caminham atrás dele, 
Como relógios que continuam marcando um tempo esquecido. 
 
O desejo não fala; organiza ruínas. 
Há uma cidade inteira dentro do coração, 
Onde as ruas conhecem o peso dos passos, 
E cada silêncio é uma ponte suspensa 
Sobre o rio invisível das possibilidades. 
 
Procuro um sentido entre os gestos comuns: 
Uma folha levada pelo vento, 
O reflexo quebrado de uma lâmpada na chuva, 
A sombra que insiste em acompanhar o viajante 
Mesmo quando ele duvida da própria direção. 
 
Amar é atravessar corredores vazios 
Sem esperar que todas as portas se abram. 
A esperança não elimina a ausência; 
Apenas ensina a caminhar ao lado dela, 
Como quem aprende o idioma discreto da noite. 
 
E quando teu olhar encontra o meu, 
O mundo não se resolve nem se explica. 
Apenas permanece suspenso por um instante, 
Entre aquilo que poderia ter sido 
E aquilo que, silenciosamente, continua sendo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Manter o amor no peito

 O mundo acorda cedo para ensinar 
Que o cinismo é mais barato que a ternura. 
Vendem dureza como se fosse sabedoria. 
Compram máscaras para esconder o cansaço. 
Eu não. 
 
Já conheci portas fechadas, 
Rostos que sorriam apenas para si mesmos, 
Silêncios que pesavam mais do que insultos. 
Isso não fez de mim um santo. 
Apenas alguém que ainda se recusa a endurecer. 
 
Manter o amor no peito 
Não é escrever frases bonitas na parede. 
É voltar para casa depois de um dia ruim 
E não deixar que a amargura escolha o lugar da minha voz. 
Isso exige mais força do que parece. 
 
Ninguém ganha medalhas por continuar acreditando. 
Na maioria das vezes, ninguém percebe. 
O mundo segue apressado, distraído, indiferente. 
Mas algumas derrotas escondem uma estranha dignidade. 
Essa me interessa. 
 
Então que seja assim. 
 Custe o que custar, continuo carregando o amor. 
Não porque espero recompensa, 
Mas porque perder isso seria a única derrota 
Da qual eu realmente não conseguiria voltar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O barulho não define a queda

 Ser forte não significa nunca cair, 
Mas sustentar quedas que o mundo não ouve. 
O colapso, quando silencioso, 
É uma forma de resistência: 
Não pela ausência de dor, 
Mas pela dignidade de não transformá-la em espetáculo. 
 
Há quem grite para existir. 
Outros se desfazem em silêncio, 
Como galhos que se quebram na mata profunda, 
Ninguém presencia, mas a floresta sente. 
 
O barulho não define a queda, 
Assim como o silêncio não anula a dor. 
A diferença está em compreender 
Que a força não é o contrário do colapso, 
Mas a capacidade de renascer dele, 
Mesmo quando ninguém percebeu que estivemos ausentes. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Escrevo com mãos tranquilas

 Não escrevo para vencer o tempo, 
Pois sei que tudo passa e se transforma. 
Escrevo para ordenar a alma inquieta, 
E aprender, entre as palavras, a aceitar 
Aquilo que não está sob meu domínio. 
 
Quando a tempestade visita meus dias, 
Procuro não maldizer os ventos que sopram. 
Faço da escrita um exercício de clareza, 
Onde os fatos encontram seu lugar 
E as emoções aprendem a obedecer à razão. 
 
Não escolho os caminhos que o mundo oferece, 
Mas escolho os passos com que os percorro. 
Cada linha que escrevo me recorda 
Que a virtude vale mais que os aplausos 
E a serenidade mais que a vitória. 
 
Se a dor chega, recebe-a como mestra; 
Se a alegria vem, acolhe-a sem apego. 
Nenhuma delas permanece para sempre. 
Como as estações que sucedem umas às outras, 
Tudo cumpre seu tempo e segue adiante. 
 
Por isso escrevo com mão tranquila, 
Sem exigir da vida aquilo que ela não promete. 
Basta-me cultivar um espírito firme, 
Habitar o presente com dignidade 
E permanecer inteiro diante do destino. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Incompleto e mortal

 Caminho por estradas que não escolhi, 
Entre sombras que também me habitam; 
Procuro um sentido além de mim, 
Mas encontro apenas perguntas 
Sentadas à beira do caminho. 
 
O céu permanece em silêncio, 
Indiferente às minhas inquietações; 
E, no entanto, algo me chama 
Das profundezas do vazio 
Que carrego sob o peito. 
 
Quem sabe Deus não esteja nas respostas, 
Mas na sede que nunca se apaga; 
Na busca que desafia a noite, 
Na dúvida que persiste 
Quando todas as certezas ruem. 
 
Vejo revelações dispersas no mundo, 
Mas nenhuma se deixa possuir; 
São lampejos breves de significado 
Que surgem e desaparecem 
Como reflexos sobre a água. 
 
E sigo adiante, incompleto e mortal, 
Sem alcançar o segredo definitivo; 
O mistério é justamente este 
Continuar procurando sentido 
Em um universo que permanece aberto. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Não amaldiçoo o destino

 Foi acabar bem na nossa vez. 
Não discuto o veredito do tempo. 
O que veio, veio por sua natureza; 
O que partiu, partiu pelo mesmo caminho. 
Aceitar também é uma forma de vencer. 
 
Nada nos pertenceu de fato. 
Nem os dias, nem os abraços, nem as promessas. 
Somos hóspedes de instantes passageiros, 
E a sabedoria começa 
Quando deixamos de exigir permanências. 
 
A perda não diminui o vivido. 
Apenas revela a medida das coisas. 
Quem aprende a agradecer o percurso 
Não se revolta com o ponto final; 
Compreende que tudo cumpre seu ciclo. 
 
Não amaldiçoo o destino. 
Faço da serenidade a minha resposta. 
O coração encontra paz 
Quando deseja apenas o que depende de si 
E entrega o restante ao curso da vida. 
 
Foi acabar bem na nossa vez. 
Que assim seja. 
Levo comigo o que me tornou melhor, 
E deixo para o vento o que não posso guardar. 
A virtude permanece quando tudo o mais passa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Diante do infinito

 Caminho só entre a terra e o céu, 
Com perguntas maiores que minha voz. 
A multidão me oferece um papel, 
Mas minha alma procura outro algoz: 
O silêncio que revela quem sou. 
 
A angústia não é sombra que condena; 
É a porta estreita da liberdade. 
Cada escolha rompe uma corrente, 
E faz nascer, na eternidade, 
O homem que decido ser. 
 
Não encontro repouso nas certezas, 
Nem na razão que tudo quer medir. 
Há um abismo entre minhas fraquezas 
E o infinito que insiste em me seguir, 
Chamando-me para além de mim. 
 
A fé não dissolve meus temores, 
Nem transforma a noite em pleno dia. 
Ela sustenta meus passos vacilantes, 
Quando a esperança desafia 
O que meus olhos não conseguem ver. 
 
Peregrino sou, sem fugir de mim, 
Entre o tempo e o eterno a me buscar. 
Se cair, recomeço até o fim, 
Pois viver é ousar acreditar 
Quando somente Deus pode responder. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Entre o silêncio e o caminho

 Nasci sem mapa para a travessia, 
Com o vazio a me interrogar. 
Cada manhã inventa um novo dia, 
E sou eu quem decide caminhar, 
Mesmo sem saber onde vou chegar. 
 
O mundo não responde às minhas perguntas, 
Guarda um silêncio antigo e profundo. 
As certezas desmancham-se todas juntas, 
E descubro, diante do mundo, 
Que viver é criar um segundo. 
 
Carrego o peso das minhas escolhas, 
Sem outro culpado além de mim. 
O destino não escreve minhas folhas; 
Sou autor do meu próprio jardim, 
Ainda que floresça sem fim. 
 
Às vezes a noite parece infinita, 
E a esperança aprende a vacilar. 
Mas a consciência jamais se evita: 
Quem foge de si torna a encontrar 
A mesma pergunta em qualquer lugar. 
 
Se a vida não traz um sentido pronto, 
Cabe ao coração fazê-lo nascer. 
Cada passo transforma o horizonte em ponto, 
E, enquanto escolho permanecer, 
Descubro que existir é sempre renascer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense