Entram pelos ouvidos como fumaça invisível
E se alojam nos corredores úmidos da consciência.
A linguagem, às vezes, não nasce para aproximar homens,
Mas para contaminá-los lentamente com versões da realidade.
Existem atalhos perigosos entre a boca e o abismo.
Frases prontas economizam pensamento
Como remédios vencidos aliviam a dor por alguns minutos.
E assim seguimos repetindo slogans, dogmas e promessas
Como doentes beijando a febre que os consome.
Toda palavra carrega uma febre secreta.
Algumas abrem janelas;
Outras fecham o céu sobre nossas cabeças.
Há discursos que se espalham como epidemias silenciosas,
Infectando ruas, altares, telas e parlamentos.
Talvez a linguagem seja o vírus mais antigo da humanidade:
Muda, adapta-se, atravessa gerações
E aprende a sobreviver dentro do medo coletivo.
Nenhum corpo escapa totalmente dela,
Porque até o silêncio já nasce contaminado.
Mas ainda existem palavras raras
Que recusam o contágio da mentira.
Elas caminham devagar, sem propaganda, sem aplauso,
Como quem carrega uma vela acesa em meio à tempestade
E insiste em lembrar que pensar ainda pode ser cura.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense














