quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O eco do que vivemos

 Tem instantes contigo que não se deixam nomear, 
Como se o tempo se recusasse a seguir adiante, 
E o mundo, por um segundo, desaprendesse a existir. 
Tudo se torna suspenso, leve, quase sagrado, 
E eu, diante disso, desaprendo as palavras. 
O que sinto não cabe em frases nem promessas, 
É maior do que qualquer tentativa de dizer. 
 
Procuro nos dicionários algum eco do que vivemos, 
Mas encontro apenas sombras do que é verdadeiro. 
As palavras são rasas diante do nosso abismo doce, 
E cada definição parece um erro necessário. 
Como traduzir o infinito em letras alinhadas? 
Como prender o indizível em linhas obedientes? 
Não há verbo que suporte o peso do que sinto. 
 
Escolho o silêncio como linguagem mais pura, 
Não por falta, mas por excesso de verdade. 
Prefiro calar a mentir em versos frágeis, 
Prefiro sentir a reduzir ao dizível. 
Se me perguntarem, nada saberei explicar, 
Mas no olhar haverá tudo o que importa, 
Porque o essencial não se escreve, apenas se vive. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A poesia que habita a alma

A poesia nasce no silêncio da alma, 
Onde os sentimentos aprendem a florescer, 
É brisa suave que devolve a calma, 
É luz que nos ensina novamente a ver, 
A beleza escondida nas pequenas coisas, 
E a doce eternidade de um simples viver. 
 
Há poesia no olhar de quem ama, 
Na saudade que insiste em permanecer, 
Na lágrima que o coração derrama, 
E nos sonhos que se recusam a morrer, 
Pois sentir é dar sentido à existência, 
É permitir que a alma possa florescer. 
 
Que seria da vida sem sentimentos, 
Sem o encanto de amar e recordar? 
Seríamos apenas folhas ao vento, 
Sem raízes, sem motivos para sonhar, 
Pois é o coração que dá à vida 
A beleza que as palavras vêm revelar. 
 
Por isso, deixo a poesia em meu caminho, 
Como quem semeia flores pelo chão, 
Para que ninguém caminhe tão sozinho, 
Sem encontrar abrigo na emoção, 
Pois enquanto houver sentimento na alma, 
Haverá poesia pulsando no coração. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Quietude

 Existe uma alegria que não pede testemunhas. 
Ela cresce como a luz da manhã 
Que toca a janela sem exigir aplausos. 
Quem a acolhe descobre que o coração 
Floresce primeiro no invisível. 
 
Não temas a simplicidade. 
As árvores jamais se envergonham de seus frutos, 
Nem os rios da humildade de seu caminho. 
Somente o homem, seduzido pelos espelhos, 
Esquece a voz silenciosa da própria alma. 
 
As aparências são folhas levadas pelo vento. 
Hoje brilham, amanhã desaparecem. 
Mas aquilo que amadurece no íntimo 
Permanece como uma estrela 
Que ninguém vê durante o dia, 
Embora jamais deixe de iluminar o céu. 
 
Se precisas escolher entre o brilho e a verdade, 
Fica com a verdade. 
Ela talvez caminhe descalça, 
Talvez conheça a solidão, 
Mas reconhecerá teu nome 
Quando todas as máscaras tiverem caído. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O estranho que sou

 Acordei dentro de uma vida conhecida 
Mas alguma coisa já não estava lá 
Talvez o homem que fui tenha partido 
Enquanto eu contava os dias 
E chamava de existência o meu hábito. 
 
Procuro em mim uma origem 
Um ponto anterior a todas as perdas 
Mas encontro corredores sem portas 
Memórias que não sabem meu nome 
E silêncios ocupando antigos lugares. 
 
Não sei quando me tornei este outro 
Que observa o mundo com distância 
Talvez mudar seja uma morte lenta 
Da qual ninguém escreve o luto 
Porque o morto continua caminhando. 
 
Carrego meu rosto como uma pergunta 
E meu nome parece uma coincidência 
Existir tornou-se esse estranho exercício 
De permanecer onde tudo desaparece 
Inclusive aquilo que penso ser. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Noites escuras

 Nas noites escuras procurei por você, 
Mas encontrei o silêncio diante de mim. 
Compreendi que nem tudo pertence ao meu querer, 
E que a dor também é mestra do caminho. 
Não governa o sábio aquilo que perdeu, 
Mas a maneira como enfrenta a ausência. 
Foi então que comecei a encontrar a mim mesmo. 
 
A lua não prometeu encurtar a noite, 
Nem as estrelas desfizeram minha saudade. 
Ainda assim, o universo seguiu sua ordem, 
Indiferente aos lamentos do coração. 
Aprendi a aceitar o que não posso mudar 
E a fortalecer aquilo que depende de mim: 
Minha razão, minha coragem e minha paz. 
 
Se um dia você voltar, serei grato. 
Se nunca voltar, também seguirei em frente. 
A felicidade não mora na posse, mas na virtude. 
Quem domina a si mesmo jamais caminha sozinho. 
As noites continuarão escuras para muitos, 
Mas aquele que acende a própria consciência 
Leva consigo um amanhecer que ninguém pode apagar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Ainda me lembro de você

 Ainda me lembro de você 
Quando a noite se recolhe em silêncio 
E o pensamento, sem pedir licença, 
Refaz os caminhos do passado, 
Como quem procura entre as sombras 
Um instante que o tempo não levou. 
 
Ainda me lembro de você 
Nas pequenas coisas do cotidiano, 
Numa música, num perfume, numa palavra, 
Num lugar onde o vento parece 
Sussurrar histórias que ficaram 
Guardadas entre o ontem e o agora. 
 
Ainda me lembro de você 
Não porque queira prender o passado, 
Nem porque espere que você volte, 
Mas porque houve verdade entre nós, 
E algumas verdades permanecem 
Mesmo depois que tudo muda. 
 
Ainda me lembro de você 
Porque certas pessoas não desaparecem, 
Apenas mudam de lugar dentro da gente; 
Deixam de ser presença e tornam-se memória, 
Deixam de ser caminho e tornam-se saudade, 
E continuam vivendo onde o coração se recorda. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Conhecimento e sabedoria

 Conhecer é acender uma luz na escuridão, 
É abrir janelas para o desconhecido, 
É descobrir caminhos onde havia silêncio, 
É perguntar ao mundo o nome das coisas, 
É reunir estrelas na memória, 
Sem ainda saber para onde caminhar. 
 
A sabedoria nasce depois da descoberta, 
Quando o saber encontra a experiência, 
Quando a razão aprende a ouvir o coração, 
Quando compreendemos que nem toda resposta 
Merece ser pronunciada, 
E nem todo caminho precisa ser seguido. 
 
Conhecimento pode encher páginas, 
Sabedoria transforma aquilo que lemos, 
Faz do erro uma lição silenciosa, 
Da dor, uma ponte para compreender, 
Do tempo, um mestre paciente, 
E da humildade, uma forma de grandeza. 
 
Porque saber muito é uma riqueza, 
Mas saber viver é uma arte. 
Pois a maior aprendizagem da existência 
É descobrir o que realmente importa, 
Usando a luz que conquistamos 
Para não nos perdermos de nós mesmos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Insistir é vão combate

 Voltei ao chão que um dia foi morada, 
Buscando o fogo de um antigo ardor; 
Encontrei só a memória fatigada 
Guardando as cinzas de um distante amor. 
 
O tempo, em seu silêncio, não recua, 
Nem torna viva a flor que já morreu; 
A mesma estrada, agora, não é tua, 
Nem o meu peito é o mesmo que sofreu. 
 
Compreendi que insistir é vão combate, 
Contra a razão que o próprio tempo ensina; 
Nenhum desejo vence o que se abate. 
 
E sendo assim, deixei o ontem na colina, 
Pois quem abraça a paz jamais debate 
Com a saudade que o passado domina. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Vencer nem sempre basta

 Não nasce a luz no brilho da aparência, 
Mas no silêncio antigo da razão; 
O tempo vai lapidando a consciência 
Como o rio esculpe a pedra com a mão. 
 
Quem busca apenas glória ou recompensa 
Encontra o pó das ilusões no chão; 
A alma se fortalece na presença 
Da dor que educa o frágil coração. 
 
Aprendi que vencer nem sempre basta, 
Que a paz não mora onde o orgulho impera, 
Nem o destino cede ao nosso intento. 
 
Feliz aquele que de si se afasta 
Para encontrar, na verdade que o espera, 
A eternidade oculta no momento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O banal também será história

 Olho para a xícara esquecida sobre a mesa, 
Para o relógio que insiste em devorar as horas, 
Para a fotografia guardada numa gaveta, 
E encontro, nas coisas simples, 
Os vestígios silenciosos de quem somos. 
O presente passa sem anunciar sua partida, 
Enquanto o cotidiano escreve a própria história. 
 
A música que toca hoje nas esquinas, 
As palavras perdidas nas conversas de amigos, 
O celular que ilumina os rostos à noite, 
Tudo parece comum aos nossos olhos, 
Mas o tempo recolhe cada pequeno detalhe. 
Amanhã, alguém procurará nesses sinais 
A maneira como vivemos e sonhamos. 
 
Por isso, contemplo o agora com outros olhos, 
Como quem visita um museu ainda em construção, 
Onde cada gesto guarda um pouco de eternidade. 
Pode ser que sejamos lembrados por coisas tão pequenas 
Que hoje nem sequer merecem nossa atenção. 
Pois a história não nasce apenas dos grandes feitos, 
Também nasce da vida que passa despercebida. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 18 de outubro de 2026

Domesticar o caos

 Tudo o que se espera já pertence ao abismo. 
O tempo não concede, apenas adia. 
E enquanto adia, nos obriga a inventar sentido 
Para que o vazio não nos engula vivos. 
O poeta descobre cedo demais 
Que imaginar não é luxo, é defesa. 
Pois o real é sempre insuficiente 
Para quem percebe demais. 
 
Há um momento em que o olhar pensa, 
E ao pensar, se condena. 
Porque ver é assumir o peso da existência, 
E pensar o que se vê é tocar o limite do ser. 
Na espera, o desejo se torna pergunta: 
“Por que algo ao invés de nada?” 
E cada resposta nasce falha, 
Como se o pensamento soubesse 
Que não há justificativa para existir, 
Apenas hábito. 
 
O limite da imaginação não é o impossível, 
Mas a consciência. 
Pois a consciência quer forma, 
Enquanto o mundo é fluxo. 
Tudo o que se sonha 
É uma tentativa de domesticar o caos. 
E tudo o que se teme 
É uma tentativa de não ter de habitá-lo. 
 
Esperar é ser lançado ao tempo; 
Imaginar, ao contrário, 
É tentar roubá-lo. 
O poeta reconhece, no fim, 
Que não há triunfo em criar abismos, 
Apenas o direito de não ser devorado por eles. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Apocalipse digital

 Um dia, o mundo inteiro piscará ao mesmo tempo. 
Milhões de olhos de vidro se apagarão, 
E o último ruído do tempo será um estalo elétrico. 
Então, o futuro morrerá de sede 
Dentro dos próprios cabos. 
 
Os eletrônicos não envelhecem, 
Apodrecem em silêncio. 
Dez anos bastam para que esqueçam 
Porque nasceram. 
As telas, órfãs de energia, 
Serão espelhos sem rosto. 
E no meio das ruínas digitais, 
Alguém ainda folheará um livro 
Como quem acende uma fogueira com as mãos. 
 
As páginas resistirão ao colapso da luz. 
Enquanto os servidores desabam como torres de areia, 
Os livros, feridos, mas de pé, 
Continuarão sussurrando 
As palavras de um mundo que já foi. 
 
O papel não teme o fim. 
Ele o conhece desde o início, 
É feito de árvores mortas e lembranças vivas. 
Cada letra é uma cicatriz do tempo, 
Cada capítulo, uma profecia que sobreviveu ao fogo. 
 
Quando o último código for indecifrável, 
E o último circuito, cinza, 
Restará o murmúrio de um poema 
Guardado entre capas gastas, 
Falando de eras que duravam séculos, 
Não segundos. 
E nesse silêncio pós elétrico, 
O livro reinará outra vez, 
Como um deus esquecido 
Que nunca precisou de bateria. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Incêndio do invisível

 Amo teus olhos que não posso ver, 
E talvez seja justamente essa escuridão 
Que me destranca. 
É como se teu olhar inexistente 
Me empurrasse contra algo que não tem nome, 
Algo quente demais para caber no peito. 
 
Tua ausência me toca. 
Sim, me toca. 
Sinto-a percorrendo meu corpo 
Como uma vertigem que sobe devagar, 
Um movimento interno que me toma de surpresa, 
Que me faz respirar curto 
E querer que a noite não acabe nunca. 
 
O desejo que não posso sentir 
É o que mais me atravessa. 
Ele chega sem pedir licença, 
Como um calor que se acende no centro de mim 
E se espalha, lento e violento, ocupando tudo. 
É quase cruel 
Como teu nada me inflama tanto. 
 
Às vezes imagino teu rosto próximo ao meu, 
Demais, perigoso, urgente. 
Imagino o instante antes, sempre antes, 
Em que tua boca não toca, 
Mas ameaça tocar. 
Esse espaço minúsculo entre nós 
É puro incêndio. 
É ali que meu corpo te reconhece 
Como se já tivesse sido teu em outra vida, 
Ou numa fantasia tão funda 
Que dói confessar. 
 
E eu cedo. 
Cedo ao que não existe, 
Ao que não tem forma, 
Ao que só me encontra por dentro. 
Teu invisível se deita sobre mim 
Como um peso quente, 
Um abraço que quase machuca de tão ansioso. 
E cada pensamento teu entra em mim 
Como se atravessasse todas as portas 
Que passei a vida inteira segurando fechadas. 
 
Eu te desejo tanto 
Porque não posso te tocar. 
Essa falta, 
Essa provocação constante, 
Torna tudo mais afiado, mais vivo, 
Mais perigoso. 
Há vontades que o corpo não admite em voz alta, 
Mas que gritam quando ninguém vê. 
 
E quando penso em você, 
Nesses olhos que nunca existiram, 
Algo em mim se curva, se abre, 
Se entrega ao impossível. 
O impossível, teu território favorito, 
Onde me queimo inteiro e volto pedindo mais. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 17 de outubro de 2026

Tecendo a poesia

 Sonhando, vou tecendo a poesia, 
Como quem molda o nada em emoção, 
E encontra, na mais profunda fantasia, 
Um eco oculto do próprio coração. 
 
No véu da noite, a alma principia 
Um canto feito de ilusão e chão, 
E cada verso, em doce alquimia, 
Transforma dor em breve redenção. 
 
Quando a aurora invade o pensamento, 
E rompe o frágil fio da criação, 
Resta em mim um vago sentimento 
 
De ter tocado a própria imensidão, 
Pois mesmo ao fim de todo encantamento, 
O sonho escreve em mim sua canção. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A felicidade da juventude

 Eu me lembro da felicidade leve da juventude, 
Dos dias que não pediam explicação, 
Do riso solto, quase infinito, 
Como se o mundo fosse apenas promessa, 
E o amanhã não tivesse peso algum. 
 
Havia um brilho simples nas pequenas coisas, 
Um encanto escondido em cada instante, 
O vento era canção, o silêncio era abrigo, 
E o tempo passava sem ser notado, 
Como um rio calmo que não teme o fim. 
 
Carrego essas lembranças como quem guarda luz, 
Um eco distante de quem eu fui, 
Há uma saudade que não fere, mas insiste, 
Feito sombra suave ao entardecer, 
Lembrando que a felicidade já teve nome: 
Juventude. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense