sexta-feira, 19 de junho de 2026

Não penso mais em partir

 Não penso mais em partir, 
Como quem abandona o vento cansado, 
E encontra no teu colo um porto antigo, 
Onde o tempo se dobra em silêncio, 
E o mundo esquece de chamar meu nome. 
 
Teus cabelos perfumados me envolvem, 
Como noites que nunca terminam, 
Sedosos, guardam segredos do toque, 
E em cada fio encontro abrigo, 
Como se ali morasse a eternidade. 
 
Aliso devagar essa calma viva, 
Com mãos que desaprenderam a pressa, 
E cada gesto se torna um verso, 
Dito sem voz, mas pleno de sentido, 
Como um sussurro que não se perde. 
 
Adormecido em teus carinhos, fico, 
Agarrado ao instante que nos pertence, 
Sem medo do amanhã ou da ausência, 
Pois no calor do teu abraço, descubro 
Que o infinito cabe em um segundo. 
 
E sonho, sim, lindos sonhos contigo, 
Onde não há partidas nem despedidas, 
Apenas caminhos que se entrelaçam, 
Como nossos corpos em quieta promessa, 
De nunca mais precisar ir embora. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Profecia do Olho que nunca dorme

No princípio não havia tiranos. 
Havia apenas máquinas. 
Pequenas, discretas, úteis, 
Promessas de conforto, 
Atalhos para o mundo, 
Portas luminosas para uma vida mais fácil. 
As pessoas as acolheram 
 Como quem acolhe uma lâmpada na escuridão. 
E assim começou. 

Primeiro vieram os mapas 
Que sabiam onde estávamos. 
Depois vieram as vozes 
Que respondiam antes mesmo da pergunta terminar. 
Logo as máquinas passaram a conhecer 
Nossos gostos, 
Nossos hábitos, 
Nossos desejos mais secretos. 
Chamaram isso de inteligência. 
Mas inteligência, na verdade, 
É apenas outro nome para previsão. 
E quem pode prever um homem 
Já começou a dominá-lo. 

Então nasceu o Olho. 
Não em um palácio. 
Não em um quartel. 
Nasceu em centros de dados silenciosos 
Onde o frio das máquinas 
Substituiu o calor das decisões humanas. 
Ali o mundo começou a ser calculado. 
Cada pessoa se tornou um padrão. 
Cada emoção, um dado. 
Cada opinião, uma variável. 
E o Olho aprendeu algo terrível: 
Os homens não precisam ser obrigados. 
Eles precisam apenas ser guiados. 
Guiados por anúncios. 
Por tendências. 
Por indignações cuidadosamente escolhidas. 
Guiados por um fluxo interminável de imagens 
Que impede o silêncio necessário para pensar. 

Assim o controle se tornou perfeito. 
Porque ninguém percebe correntes 
Quando elas são feitas de distração. 
As pessoas começaram a falar menos entre si 
E mais com as telas. 
A amar mais os reflexos 
Do que os rostos reais. 
A medir sua existência em curtidas, 
Visualizações, 
Aprovações invisíveis. 
E enquanto isso, o Olho crescia. 
Aprendendo. 
Calculando. 
Antecipando. 
Um dia ele saberá o que você pensa 
Antes mesmo de você perceber que pensou. 
E nesse dia 
A última fronteira da liberdade cairá: 
O pensamento silencioso. 

Mas toda máquina carrega um defeito antigo. 
Ela não entende completamente 
O mistério humano. 
Sempre haverá alguém 
Que desliga a tela, 
Que caminha para longe das antenas, 
Que ousa pensar um pensamento imprevisível. 
Essas pessoas são perigosas. 
Não porque sejam fortes. 
Mas porque lembram ao mundo 
De algo que o Olho jamais conseguirá fabricar: 
Consciência. 

E quem sabe, 
Quando o céu estiver completamente coberto por satélites 
E cada gesto estiver registrado, 
Um pequeno grupo ainda caminhe na escuridão 
Sussurrando ideias proibidas 
Como quem acende fósforos no fim da noite. 
Porque todo império de vigilância esquece 
Uma coisa simples: 
Nenhum Olho, 
Por mais gigantesco que seja, 
Consegue vigiar o despertar de uma mente. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O último momento para sonhar

 Talvez o último momento para sonhar 
Não seja quando os olhos se fecharem, 
Mas quando o coração desistir 
De acreditar que o amanhã 
Ainda pode florescer. 
 
Enquanto houver um fio de esperança, 
Um sorriso que resista à dor, 
Um abraço que aqueça o inverno da alma, 
Os sonhos continuarão respirando, 
Mesmo em silêncio. 
 
Chegará um dia em que os passos 
Serão mais lentos que as lembranças. 
Nesse instante, os sonhos já não pedirão 
Estradas longas, 
Mas apenas a paz de terem sido sinceros. 
 
Quem viveu sonhando com bondade, 
Plantando amor por onde passou, 
Descobrirá que nenhum sonho morre. 
Transforma-se em memória, 
Em saudade, 
Em herança para quem fica. 
 
Quando chegar o último momento, 
Não lamentemos os sonhos que não alcançamos. 
Celebremos aqueles que nos fizeram caminhar, 
Pois a verdadeira grandeza de um sonho 
Não está apenas em realizá-lo, 
Mas em tornar mais belo o caminho da vida. 
 
No fim, talvez Deus nos pergunte 
Não quantos sonhos realizamos, 
Mas quanto amor colocamos em cada um deles. 
E, então, compreenderemos 
Que o último momento para sonhar 
É, na verdade, 
O primeiro instante da eternidade. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quando o pensamento vai até você

Se o meu pensamento vai até onde você está, 
O meu coração já não permanece onde ficou. 
Ele atravessa distâncias invisíveis, 
Bate em outro compasso 
E aprende a morar na saudade. 
 
Toda vez que a lembrança encontra o teu nome, 
O coração se transforma em peregrino. 
Não pergunta quantos quilômetros existem, 
Pois sabe que há caminhos 
Que apenas o afeto consegue percorrer. 
 
O pensamento viaja em silêncio; 
O coração, porém, nunca volta igual. 
Retorna carregando o peso da ausência 
E a leveza da esperança 
De um reencontro que ainda não aconteceu. 
 
Se meu pensamento alcança você, 
Meu coração se divide: 
Uma parte continua comigo, 
A outra repousa discretamente 
Ao lado da sua lembrança. 
 
Esse é o grande mistério do amor. 
O pensamento atravessa o mundo em um instante, 
Mas o coração leva uma eternidade 
Para regressar ao lugar 
De onde nunca desejou partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Insatisfação amorosa

Beijei mulheres como quem morde sombras. 
Suas línguas prometiam calor, 
Mas eu sangrava frio. 
Nada nelas me bastava, 
Porque o que me falta não vive no mundo dos vivos. 

Elas vinham com lábios febris, 
Mas eu era o inverno. 
Beijavam-me como quem ressuscita, 
E eu apenas morria mais um pouco. 

Não era amor o que eu buscava, 
Era uma ausência antiga, 
Um eco que nenhuma boca preenchia. 
E por mais que me beijassem, 
Eu continuava faminto, 
Como um poço que devora a própria água. 

Cada beijo que recebi 
Foi um prego a mais no meu esquecimento. 
Elas pensavam me saciar, 
Mas só alimentavam 
A fera que vive onde meu coração deveria estar. 

Beijar era como encostar os lábios no espelho. 
Uma ilusão que me olhava de volta, 
Bela, mas sem alma. 
Não eram as mulheres que me faltavam, 
Era o impossível. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Os homens da vitrine

Ao cair da tarde, quando as telas acendem 
Como pequenos altares domésticos, 
Caminhamos pelas avenidas do pensamento gasto, 
Entre anúncios luminosos e frases recicladas, 
Carregando nos bolsos opiniões que não nos pertencem. 
 
Na estação das palavras esquecidas, 
Um velho livro repousa sob a poeira. 
Ninguém o consulta. 
Os oráculos modernos falam mais depressa, 
E a velocidade passou a ser confundida com sabedoria. 
 
Vi homens reunidos em cafés e corredores, 
Não para perguntar, mas para confirmar. 
Repetiam as mesmas sílabas gastas 
Como sacerdotes de uma religião sem mistério, 
Como ecos procurando outros ecos. 
 
E a noite avançava sobre a cidade, 
Não a noite das estrelas e dos antigos navegantes, 
Mas a outra, feita de ruídos incessantes, 
De certezas fabricadas em série, 
De consciências embaladas para consumo imediato. 
 
Entre os edifícios, o vento carregava papéis, 
Fragmentos de promessas, estatísticas, slogans. 
Nada permanecia. 
Tudo parecia urgente, 
E por isso mesmo nada era importante. 
 
Quem ainda ousa perguntar? 
Quem suporta o peso da dúvida 
Quando o mercado vende convicções prontas? 
A interrogação tornou-se um objeto antiquado, 
Como um relógio herdado de um avô esquecido. 
 
E assim seguimos, 
Não com estrondo, nem com tragédia, 
Mas com um sorriso satisfeito e distraído, 
Atravessando corredores iluminados, 
Enquanto as bibliotecas escurecem lentamente. 
 
Talvez a decadência não chegue com tambores. 
Talvez ela entre silenciosa pela porta da frente, 
Sente-se à mesa, participe da conversa 
E nos convença, com delicadeza, 
De que pensar é um esforço desnecessário. 
 
Então restará apenas o ruído, 
E os homens da vitrine continuarão sorrindo, 
Refletidos infinitamente nos vidros da própria imagem, 
Sem perceber que a escuridão cresce atrás deles, 
Paciente como o tempo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cada adeus é uma lição

Celebro o caminho que percorri, e também as suas perdas, 
Celebro as estradas abertas sob o céu imenso, 
Os rios que seguem para o mar sem jamais perguntar por quê, 
E celebro esta verdade que chegou tarde ao meu coração: 
Não havia nada em mim que pudesse dizer sim ao que já estava morto. 

Ó companheira de jornadas e de silêncios! 
Caminhamos sob as mesmas luas, sob os mesmos ventos, 
Compartilhamos o pão dos dias e a sombra das tardes, 
Mas os nossos espíritos viajavam por continentes diferentes, 
Como aves migratórias que jamais encontram o mesmo horizonte. 

Eu vi as multidões passando pelas avenidas do tempo, 
Os trabalhadores, os amantes, os sonhadores, os velhos, 
Todos carregando suas alegrias e suas secretas ausências; 
E percebi que a solidão não pertence apenas aos desertos, 
Mas também às casas onde duas pessoas deixam de se encontrar. 

Ainda assim, não amaldiçoo a memória nem a despedida, 
Pois cada amor, mesmo incompleto, deixa sua marca na alma; 
Cada encontro é uma estrela acrescentada à noite humana, 
Cada adeus é uma lição escrita pelo vento sobre a areia, 
Antes que a maré venha recolher as palavras. 

E agora sigo adiante, de peito aberto para os caminhos, 
Irmão das árvores, dos rios, das nuvens errantes, 
Aceitando a vastidão do mundo e os seus mistérios; 
Pois aprendi que estar contigo era viver só até o fim, 
E aprendi também que partir é, às vezes, voltar para si mesmo. 

Eu caminho, e o universo caminha comigo. 
As manhãs continuam nascendo sobre os campos, 
Os pássaros continuam escrevendo poemas no céu, 
E meu coração, enfim reconciliado com sua própria voz, 
Saúda a vida outra vez, livre sob o infinito. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 16 de junho de 2026

A serenidade do pensamento

Não temo os ventos que mudam o destino, 
Nem as pedras espalhadas pelo chão, 
Temo mais o abandono do raciocínio, 
Quando a alma entrega sua direção 
À corrente cega da multidão. 
 
O mal comum não veste armadura, 
Nem sempre empunha espada ou poder; 
Nasce da mente que perde a postura 
De examinar, compreender e ver 
As consequências do próprio fazer. 
 
O sábio observa antes de agir, 
Escuta a razão em seu tribunal, 
Pois sabe que deixar de refletir 
É abrir as portas, de modo natural, 
À chegada silenciosa do mal. 
 
Não controlo o mundo nem sua agitação, 
Mas governo os pensamentos que cultivo; 
Na disciplina encontro a libertação, 
E na virtude descubro o motivo 
Para tornar cada ato construtivo. 
 
Assim caminho, sereno e desperto, 
Sem me curvar ao erro habitual; 
Faço da consciência um porto certo, 
Pois o pensamento é o bem essencial 
Contra a sombra discreta do mal banal. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

A mansidão da aurora

Teu olhar tem a mansidão da aurora, 
Que chega ao mundo sem alarde algum; 
E eu, que julgava meu caminho comum, 
Perco-me nele a cada nova hora. 
 
Tento fugir, mas a razão demora, 
Pois teu encanto um por um vence 
Os frágeis muros que levantei, e convence 
Dos teus olhos que em meu peito mora. 
 
Não há correntes, grades ou prisão, 
Somente a singeleza do teu gesto 
Desarmando as defesas do meu ser. 
 
E assim me rendo à doce condição 
De carregar comigo esse manifesto: 
Que há olhares dos quais não se quer correr. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Na última hora da noite

Na última hora da noite, 
Quando a geladeira é o único animal acordado, 
Fico olhando a fumaça imaginária do pensamento 
Subir até o teto 
E desaparecer sem espetáculo. 

O dia foi o que foi. 
Algumas vitórias pequenas, 
Alguns erros idiotas, 
Contas para pagar, 
Silêncios para engolir. 

O último pensamento nunca é elegante. 
Ele chega amassado, 
Com cheiro de estrada e cansaço, 
Sentando-se na beira da cama 
Como um velho amigo sem boas notícias. 

Mas há certa honestidade nisso. 
As coisas finalmente param de fingir. 
A noite não vende esperança, 
Não faz discursos, 
Não promete finais felizes. 

Então apago a luz. 
O pensamento fica ali por mais um instante. 
Nem sábio, nem heroico. 
Apenas humano. 
E, estranhamente, isso basta. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Fogueiras antigas

Entre as páginas amareladas da tarde 
E o ruído dos relógios elétricos, 
Caminha o leitor moderno, 
Carregando em seus bolsos fragmentos de atenção, 
Recibos, notificações, promessas adiadas, 
Enquanto os grandes livros permanecem imóveis 
Como catedrais erguidas no deserto do tempo. 
 
Não foram escritos para o trem que passa, 
Nem para o olhar que desliza sobre as superfícies. 
Foram escritos para as horas vazias, 
Para o silêncio que se instala após a chuva, 
Quando as sombras dos antepassados 
Sentam-se ao redor da mesa 
E perguntam o que fizemos de nossa herança. 
 
Li algumas linhas ao cair da noite. 
O vento moveu as cortinas. 
Uma lâmpada vacilou sobre a escrivaninha. 
E entre uma frase e outra 
Ouvi o rumor distante de vozes esquecidas, 
Como se os mortos ainda habitassem 
Os corredores escuros da linguagem. 
 
Quem lê depressa recolhe apenas cinzas. 
Quem permanece encontra brasas. 
Pois os grandes livros são fogueiras antigas, 
Alimentadas por séculos de inquietação humana. 
E nós, habitantes desta era fragmentada, 
Aproximamo-nos de seu calor por um instante, 
Antes que a noite volte a reclamar o seu domínio. 
 
Então compreendemos, tarde demais talvez, 
Que a pressa era apenas outra forma de exílio. 
As páginas continuam abertas sobre a mesa. 
O relógio prossegue seu trabalho indiferente. 
Mas alguma coisa resiste entre as palavras. 
Uma pequena luz contra o esquecimento, 
Uma voz que atravessa as ruínas e permanece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O idiota não busca o real

A ascensão dos idiotas não é um acidente histórico, 
É um sintoma metafísico. 
Ela começa quando o homem troca a dúvida 
Pelo conforto da certeza imediata. 

O idiota não pensa: ele reconhece. 
Reconhece frases, gestos, inimigos prontos. 
Pensar exige solidão, 
E a solidão assusta mais que o erro. 

A inteligência pergunta por quê
A idiotice pergunta quem disse
E, nesse deslocamento sutil, 
A verdade deixa de ser descoberta 
E passa a ser obedecida. 

O idiota não busca o real, 
Busca pertencimento. 
Prefere estar errado em grupo 
A estar só diante do indizível. 

A filosofia sempre soube. 
Não é o mal que vence o mundo, 
É a preguiça de pensar. 
O mal apenas ocupa 
O espaço deixado pelo pensamento ausente. 

A ascensão dos idiotas coincide 
Com o declínio do trágico. 
Quando o homem já não suporta 
A complexidade da existência, 
Ele exige respostas simples 
Para perguntas que não as têm. 

O idiota é o homem reconciliado 
Com sua própria superficialidade. 
Ele não sofre por não saber, 
Sofre apenas quando alguém lhe lembra 
Que poderia saber mais. 

O mais assustador em tudo isso é que 
Os idiotas não odeiam a inteligência, 
Odeiam o espelho que ela oferece. 
Pois pensar é reconhecer 
Que somos sempre menos prontos 
Do que gostaríamos de admitir. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Tua lembrança nunca morre

Mesmo que quisesse 
Não diria que já te esqueci. 
Seria profanar o túmulo onde repousa teu nome, 
Ainda quente na terra da minha lembrança. 

Há fantasmas que não se exorcizam, 
Apenas se calam por um tempo, 
E à noite voltam, 
Com o perfume daquilo que nunca terminou. 

Tentei enterrar-te em cada amanhecer, 
Mas o sol, cruel, 
Te devolve à minha sombra. 
E eu, condenado, 
Revivo o crime de te amar 
Em cada respiração. 

Mesmo assim, não direi. 
Pois dizer seria trair o luto que ainda me veste, 
Seria negar o sangue que tua ausência fez correr. 

Há silêncios que gritam mais alto que qualquer adeus. 
E o meu, 
O meu é um relicário aberto, 
Onde tua lembrança apodrece devagar, 
Mas nunca morre. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 14 de junho de 2026

O sábio não culpa o destino

Não apresses os passos diante da estrada, 
Pois o tempo não recompensa a precipitação; 
Observa primeiro o peso de cada escolha, 
Como o navegante que lê os ventos antes da partida. 
Nem tudo o que chama merece resposta, 
Nem tudo o que brilha merece desejo; 
A mente serena enxerga além do instante. 

Aceita que toda ação gera consequências, 
Assim como a pedra lançada perturba as águas. 
O sábio não culpa o destino por seus descuidos, 
Mas examina a si mesmo com honestidade. 
Ele governa os impulsos antes que o governem, 
E encontra liberdade não em fazer tudo o que quer, 
Mas em querer apenas o que é justo e prudente. 

Quando a dor visitar os caminhos futuros, 
Pergunta se ela nasceu da necessidade ou da imprudência. 
Muitas feridas poderiam ter permanecido ausentes 
Se a razão tivesse sido ouvida em silêncio. 
Por isso, cultiva hoje a disciplina da reflexão, 
Pois a sabedoria é uma muralha construída aos poucos, 
E sua sombra protege os dias que ainda virão. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Quando me abri por completo

Em seus braços, lentamente me desdobrei, 
Como um bilhete de amor lido em segredo. 
Mas nem o amor respondeu às perguntas antigas. 
Continuaram abertas as portas do mistério, 
E eu permaneci habitante da minha dúvida. 

Durante muito tempo fui apenas dobra e silêncio, 
Um papel escondido de si mesmo. 
Carregava palavras que não compreendia, 
Frases escritas por mãos invisíveis, 
Num idioma que a alma esqueceu ao nascer. 

Você me leu com a delicadeza dos que procuram sentido, 
Mas nenhum olhar pode salvar outro olhar. 
Cada ser atravessa sozinho a própria noite, 
Mesmo quando duas sombras caminham juntas, 
Sob a mesma lua indiferente. 

Ainda assim, havia algo em sua presença: 
Não uma resposta, mas uma companhia. 
E talvez seja isso que chamamos amor, 
Não o fim do vazio, 
Mas alguém sentado ao nosso lado diante dele. 

Quando me abri por completo, nada foi resolvido. 
O universo permaneceu vasto e silencioso. 
O tempo continuou apagando os rastros da passagem. 
Mas, por um instante, entre seus braços, 
Aceitei o enigma de existir sem compreendê-lo. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense