Como vento que arromba portas em casas adormecidas,
Sem pedir licença, sem medir consequências,
Feito chama que se acende no escuro do acaso,
E já não sabe mais como voltar a ser silêncio.
Sei que em teus ouvidos ele soa antigo, repetido,
Uma canção que o tempo já gastou em outras histórias,
Um verso que talvez já não te cause vertigem,
Como se amar fosse apenas um eco distante,
Uma lembrança cansada de ter sido sentida.
Mas em mim ele nasce com a força do inédito,
Como se o mundo começasse agora, em teus olhos,
Como se cada gesto teu reinventasse o sentido,
E eu fosse aprendiz de um idioma esquecido,
Tentando dizer amor pela primeira vez.
Perdoa a pressa do meu sentir desmedido,
Essa urgência que não conhece prudência,
Esse tropeço da alma que corre antes de pensar,
Como quem encontra abrigo em meio à tempestade,
E teme que o abrigo desapareça ao hesitar.
Se esse amor te pesa, eu o guardo em silêncio,
Faço dele segredo, sombra, quase inexistência,
Mas se em ti restar um sopro dessa velha canção,
Mesmo fraco, mesmo indeciso, quase esquecido,
Talvez descubras que o eterno também chega de repente.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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