Em que o pensamento será tratado como heresia.
Não haverá fogueiras,
Apenas risos.
E rir será a forma mais eficiente
De silenciar.
Os idiotas não tomarão o poder,
O poder os reconhecerá.
Eles falarão em nome do povo
Sem jamais tê-lo escutado,
E chamarão de clareza
Aquilo que é apenas vazio.
A verdade não será negada,
Apenas dissolvida.
Será fragmentada em versões confortáveis,
Até que ninguém mais se lembre
De como era inteira.
Haverá sacerdotes da opinião,
Vendendo certezas como indulgências.
Quem duvidar será acusado de soberba,
Quem pensar será acusado de traição,
Quem silenciar será cúmplice.
O idiota não destruirá os livros;
Ele os tornará inúteis.
Dirá que são longos demais,
Complexos demais,
Desnecessários demais
Para um mundo que desaprendeu a esperar.
E quando tudo for imediato,
O espírito se tornará raso.
A profundidade será vista como ameaça,
A lentidão como defeito,
E a contemplação como fraqueza.
Os últimos lúcidos caminharão como estrangeiros
Em sua própria língua.
Falarão palavras que ninguém mais escuta,
Pensarão ideias que não encontram abrigo.
Não haverá queda súbita.
A ruína virá em tom de normalidade.
Será chamada de progresso,
De adaptação,
De nova era.
Por fim,
Quando o mundo estiver cheio de vozes
E vazio de sentido,
Alguém perguntará, tarde demais,
Onde foi que o pensamento morreu.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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