A ascensão dos idiotas
Não é um acidente da história,
É um sintoma.
Toda época cria seus deuses
À imagem de suas carências.
O idiota não é o que ignora,
Mas o que se recusa a saber.
Ele transforma a dúvida em ameaça
E a complexidade em ofensa.
Pensar, para ele,
É um desvio moral.
A inteligência exige tempo,
Silêncio
E a coragem de não pertencer.
A estupidez, ao contrário,
Oferece abrigo imediato.
Um de nós contra eles,
Uma resposta simples,
Um culpado portátil.
Quando a razão perde o prestígio,
O ressentimento assume o trono.
Não governa para construir,
Mas para justificar ruínas.
A multidão não segue o idiota
Porque ele é líder,
Mas porque ele dispensa esforço.
Ele promete alívio
Num mundo que exige pensamento.
A tragédia não está na voz alta do idiota,
Mas na desistência do sábio.
Quando o pensamento abdica,
O ruído vira lei.
Pode ser que o colapso não seja civilizatório,
Mas interior.
Um mundo onde cada um
Renuncia à tarefa de compreender
E chama isso de liberdade.
Sendo assim,
A estupidez não triunfa por força,
Mas por abandono.
Porque pensar,
Em tempos de facilidades,
Tornou-se um ato de resistência.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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