quinta-feira, 2 de julho de 2026

Antes do teu olhar

Antes do teu olhar, meus pés eram perguntas, 
Pisavam a poeira de caminhos sem resposta. 
Cada horizonte prometia um sentido, 
Mas a distância apenas mudava de nome, 
E eu continuava estrangeiro de mim mesmo. 
 
Andei por cidades que ignoravam meu silêncio, 
Onde os rostos passavam como estações. 
Descobri que o vazio também possui voz 
E que a solidão, quando amadurece, 
Ensina o homem a conversar com a própria sombra. 
 
Então teus olhos cruzaram os meus 
Como quem interrompe o destino por um instante. 
Não ofereceram certezas nem promessas, 
Apenas a possibilidade de existir 
Sem fugir daquilo que eu realmente era. 
 
Percebi que os passos não buscavam um lugar, 
Mas alguém que lhes desse significado. 
O caminho nunca esteve sob meus pés; 
Nascia, invisível, a cada escolha, 
Enquanto o tempo escrevia sua silenciosa sentença. 
 
Hoje sei que toda estrada permanece incompleta. 
Nem o amor dissolve o mistério da existência, 
Mas torna mais humana a travessia. 
Se antes eu caminhava para vencer a distância, 
Agora caminho para compreender o infinito. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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