sexta-feira, 3 de julho de 2026

O homem deserto

 Carrego no peito uma canção ferida, 
Feita dos nomes que nunca pronunciei, 
Das mãos que imaginei na minha vida 
E dos caminhos onde nunca cheguei. 
Aprendi com a dor sua filosofia: 
Quem sofre em silêncio conhece o vazio, 
E transforma a própria ausência em companhia. 
 
Eu caminho entre sombras e lembranças, 
Como quem perdeu algo antes de possuir, 
Alimentando no peito antigas esperanças 
Que o tempo ensinou lentamente a ruir. 
Há uma verdade cruel na existência: 
O sofrimento molda minha consciência 
E faz da solidão meu modo de sentir. 
 
À noite escuto meus sonhos quebrados 
Cantando baixinho dentro do coração, 
Como pássaros cansados e abandonados 
Que esqueceram o caminho da estação. 
E sigo vivendo, embora incompleto, 
Pois descobri que até o homem deserto 
Faz da própria dor uma religião. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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